Pontos e contos de um cristão pós-moderno

Os vossos velhos terão sonhos

Quando o sonho apareceu por aquelas paragens, surgido não sabemos bem de onde, o gaiato, ainda muito novo, decidiu imediatamente adotá-lo. A família acolheu a ideia com agrado: era ainda um sonho disforme, inofensivo e gracioso, bom para o desenvolvimento infantil do petiz. Na adolescência o sonho ganhou forma e, não raras vezes, encontrávamos o rapaz a cuidar dele: lembro-me de o ver a brincar com o sonho, a rebolar no chão com ele, a tratá-lo, embelezá-lo e a alimentá-lo. Aquele jovem tinha um sonho tão catita e imponente que até o levava a participar nos concursos regionais. Uma vez chegou mesmo a ganhar o 1º Prémio na 5ª edição do Salão Anual de Sonhos.

E o sonho era livre, corria solto e ágil. Cavalgando o sonho, a imaginação do rapaz galopava por expectativas incontroláveis. Lembro-me das emoções que o sonho do rapaz despertava em mim. Era um sonho belo e até um pouco contagioso! Talvez a inocência e a alegria do rapaz, ao empunhar o seu sonho como se se tratasse da arma mais poderosa de todas, me fizesse recordar os sonhos que outrora eu próprio chegara a colecionar…

O que é certo é que naqueles anos o sonho era o companheiro e o melhor amigo do rapaz. Eu conhecia bem aquela família, muitas vezes frequentava a casa deles e via como o sonho constituía o alento e a bússola daquele rapaz. Numa ocasião tive de lá pernoitar, por conta de uma tempestade de neve e gelo que se abateu sobre a região e me impediu de regressar a casa depois de os visitar. Nessa ocasião reparei que o rapaz e o sonho nunca se largavam um ao outro e, mesmo de noite, o sonho ficava ali, aos pés da cama, raramente adormecendo. Suspeito que de manhã, quando os primeiros raios dourados irrompiam pelo quarto, estando o rapaz apenas meio desperto, já o sonho se aninhava junto dele. Provavelmente as primeiras sensações matinais que o rapaz captava eram os sons, os cheiros e os sabores que aquele sonho provocava.

Mas o rapaz cresceu. Cresceu e foi percebendo que à medida que crescia entrava num novo mundo, numa nova realidade social e cultural na qual o seu sonho fazia levantar sobrolhos. Aos poucos, o sonho deixava de ser bem visto. Dele esperava-se menos sonho e mais realismo, que é como quem diz: menos esperança e mais conformismo. Sentia-se censurado mesmo quando não lhe dirigiam palavras. Indagava com os seus botões se deveria dar crédito a essa censura… E, ao longo desse processo, o seu amor pelo sonho esmoreceu.

As palavras de repreensão chegaram mesmo e cada vez com mais frequência: “O sonho não pode andar por aí à solta a acompanhar-te para todo o lado” diziam-lhe. “O melhor que tens a fazer quando vens trabalhar é deixar o sonho em casa”. A memória não me ajuda a ter certeza, mas penso que também eu lhe terei dirigido reparos deste género por considerar que o rapaz tinha de se centrar naquilo que era realmente importante.

A pressão externa tornou-se mais frequente, mais densa. Criou-se também uma pressão interna, uma voz dentro dele a dizer-lhe para abandonar o sonho. E o rapaz cedeu à pressão. Deu crédito às vozes que queriam abafar o sonho. Pensou: “de facto, nesta sociedade não é bom para mim deixar o sonho à solta e fazer-me acompanhar dele 24 horas por dia, mas posso continuar a cuidar dele em part-time”.

Então, construiu um compartimento para o sonho e arranjou uma trela para o prender lá dentro. Decidiu que manteria o sonho ali preso durante o dia, mas no regresso do trabalho poderia passar tempo com ele como fizera até então.

Mas este não era um sonho qualquer. Tratado durante tantos anos como o fiel companheiro, apaparicado e acarinhado continuamente, não aceitaria agora descer à condição de sonho a part-time. Latia dias a fio, triste por se ver preso e longe do seu dono. Como era intenso aquele latir! Eu sei-o bem: tinha-me mudado para aquele bairro e ouvia-o diariamente. Era um bairro muito agradável onde eu esperava gozar a minha reforma dedicando-me tranquilamente a escrever umas historietas parvas que alinhavara durante décadas e que gostaria de ver publicadas. Mas durante aqueles dias nada consegui escrever e muito lamentei a minha decisão de mudar para lá. O constante lamento do sonho do outro fazia doer o meu coração!

Às vezes o sonho resistia e esperneava até se soltar. Tinha muita força! Depois andava por ali completamente desvairado a aterrorizar todos os vizinhos. Quando o rapaz chegava, o sonho era bem capaz de o morder, de o ferir por fora e de o consumir por dentro. A cada dia que passava o sonho revelava-se como um bicho absolutamente indomável. Só que, ao mesmo tempo, definhava gradualmente, extinguia-se a olhos vistos.

Finalmente o rapaz, cansado de viagens ao pronto-socorro e já cheio de cicatrizes, e também triste por ver definhar o sonho, tomou a decisão de o mandar abater. “É preferível viver sem sonho” dizia ele “para garantir a minha tranquilidade do que, tendo o sonho, ser completamente corroído por ele”.

Quando numa conversa de café a vizinha da frente me deu a conhecer a decisão do rapaz, eu fiquei muito chocado. Arrependi-me dos reparos que lhe tinha feito. Fiquei cheio de remorsos… Tendo bem viva na memória a lembrança de quão belo era o sonho daquele rapaz – tão belo que até ganhava prémios – fui tomado por um impulso irrefletido e irresistível. Corri para casa dele, tremendo de ansiedade por não saber se chegaria a tempo de impedir o desastre. Cheguei no último segundo! A equipa do posto municipal de abate de sonhos já se preparava para lhe aplicar um sedativo antes de o transportarem para abate. Eu, sem pensar duas vezes, ofereci-me para adotar o sonho.

Não sei bem o que raio é que no meu espírito motivou esta oferta. Eu sinto-me velho e embrutecido e interrogações sem fim percorrem a minha mente: é-me lícito ser dono deste sonho? Poderei eu dar-lhe forma e voltará ele a galopar livre e solto? Terei eu ainda tempo e energia para embarcar nele rumo a aventuras inefáveis? Poderá ainda brotar esperança neste coração que se habituou a abrigar só desencanto?

A mente segue armadilhada por toda esta panóplia de perguntas. Mas o que é certo é que dou por mim constantemente a acarinhar o sonho com uma secreta expectativa de o ver reabilitado nas minhas mãos.

Um Deus com quem se pode lutar?

Conheço um homem chamado Jacó que de vez em quando me conta um episódio inacreditável. Diz que lutou com Deus e venceu! Contado nestes termos parece que o Jacó é meio lunático. Parece que há-de ser um gajo cujo cérebro está meio pifado. Mas é mesmo assim que ele conta a história! Ora eu, por muito respeito que lhe tenha por ser uma pessoa já de idade e aparentar alguma sabedoria, também reajo com incredulidade…

Os deuses que me vão sendo apresentados, quer seja pessoalmente, quer seja por ouvir falar deles, são deuses demasiado cheios de si para permitirem que alguém trave uma luta com eles. E é completamente inimaginável que algum deles se deixasse vencer caso essa luta chegasse a acontecer. Todos os deuses que conheci são deuses que subjugam ainda antes de podermos levantar a voz ou a mão contra eles. São deuses que escravizam e espezinham sem misericórdia. São deuses cruéis. Dialogar com os homens comuns seria, para qualquer desses deuses, um inaceitável sinal de fraqueza. Não admira que com tantos deuses destes o ateísmo seja crescente. Mais vale negar-lhes a presunção de divindade do que dar-lhes o prazer supremo de serem entronizados por aqueles a quem torturam.

O Jacó fala de um Deus muito diferente. Ele conta que numa ocasião, estando só a atravessar a noite da vida, cheio de dúvidas e cheio de medos, Deus veio ao seu encontro e travaram um combate intenso. Trocaram argumentos, lutaram até à exaustão e o Jacó diz que a luta deixou marcas profundas ao ponto de ter passado a coxear. Quando, por fim, Deus desistiu de lutar, já nascia o sol para Jacó…

Eu não acredito nesta história. Até porque Jacó significa ‘enganador’ e este tipo já me contou acerca de outras ocasiões em que as suas atitudes fizeram jus ao nome. Até o facto de agora coxear pode ser apenas teatro. Porém, em sua defesa, ele diz que depois da luta Deus o abençoou e deu-lhe um nome novo. Diz que ele é, agora, uma pessoa nova e diferente, já não deseja enganar ninguém. Mas tudo isto me parece demasiado bizarro.

Um Deus com quem se pode lutar? Confesso que, no âmago do meu ser, eu queria que sim! Que houvesse tal Deus: um a quem pudesse colocar todas as questões existencialistas que me inundam a alma. Um que aceitasse ser confrontado com todos os porquês e todos os ses. Um que aceitasse entrar nesta luta sem me destruir, sem me aniquilar de imediato. Um que no fim da luta até me abençoasse! Caraças, como seria porreiro conhecer tal Deus, se ele existisse! Teria de ser um Deus muito próximo, muito humano. Teria de ser um Deus vulnerável. Na verdade, quando comparado com todos os deuses que me vão sendo apresentados, este teria de ser uma espécie de anti-deus: a antítese de todos esses deuses. Mas a lógica e a experiência diz-me que o Jacó está enganado: não há nenhum Deus assim, pois não?
(História do Jacó: Génesis 32:23-33)

Vida

Que seja achada carne em mim, quando voltares.
Que seja achada carne em mim, não só pedra.

Que seja achado sopro em mim, quando vieres.
Que seja achado sopro em mim, não só ossos.

Que seja achado o outro em mim, quando chegares.
Que seja achado o outro em mim, não só ego.

A tabuada estrambólica de Deus

A matemática do sermão do monte, das parábolas e do próprio percurso de Jesus não está de todo afinada com o pragmatismo a que obrigam a economia global e o darwinismo social. Num mundo de competição à escala global parece inconcebível dar a outra face, impossível amar os inimigos, parvoíce ajuntar tesouros no céu, loucura não nos preocuparmos com o que iremos comer ou vestir, ilógico aceitar ser o último para ser o primeiro…

Tem piada tentarmos imaginar Jesus a apresentar o seu modelo económico numa reunião do Eurogrupo ou do FMI. É certo que seria de imediato tido como um lírico ou lunático e as suas palavras seriam desprezadas. A complexa máquina financeira dos nossos dias não se compadece com um caminho que valoriza mais corações ricos do que saldos bancários compridos. (Tenho cá para mim que esta máquina é o monstro do nosso século: o monstro que criámos, cheios de ilusão, mas que passou a dominar o criador sugando tudo quanto pode. O homem é, hoje, escravo do monstro…)

Também eu hesito ao ouvir a mensagem do mestre nazareno. Também eu estou possuído pelo espírito de competição feroz, aquele que o Donald Miller tão bem descreve no seu livro Searching For God Knows What – diz ele que é como se o mundo fosse um bote salva-vidas em que todos estão com medo de ser lançados borda fora, pelo que todos vivemos obcecados em mostrar que merecemos o lugar e que o outro é mais dispensável.

Também eu tenho a retina ferida pelo pragmatismo gélido. Ele está enraizado no globo ocular e é-me extremamente difícil ver as verdadeiras matizes do mundo e do outro. Talvez fosse este o problema dos cristãos de Laodiceia (Apocalipse 3:14-22) e, por isso, tenham sido exortados a comprar remédio para os olhos de modo a poderem ver a realidade como ela é. Também eu preciso desse remédio.

Encontro-o em Jesus. De Jesus não herdamos apenas palavras. Dele bebemos as palavras, mas também (quem nele deposita a fé e a esperança) aprendemos e somos profundamente transformados pelo facto de ele ter sido a encarnação das suas próprias palavras. Parece-me que esta compreensão é absolutamente central para a fé cristã: Jesus e a sua mensagem são um. Os Evangelhos contam-nos que tudo quanto pregou ele demonstrou. Deu vida às suas palavras até às últimas consequências. Deu vida à sua mensagem até ao ponto de morrer em sintonia com essa mesma mensagem.

Assim, Jesus mostrou-nos o caminho, o tal caminho a que o Henri Nouwen chama o ‘caminho descendente’ de Cristo. E Jesus convida-nos para palmilhar esse caminho prometendo que é o caminho mais excelente.

A Europa depara-se com uma situação de crise humanitária. A situação é extremamente complexa e delicada e não pretendo sugerir que há soluções fáceis. Mas o que é certo é que urge dar resposta às multidões de refugiados que procuram segurança e uma nova vida no velho continente. Urge criar políticas para que estas pessoas sejam recebidas nos nossos países e condições para que neles vejam resgatada a sua dignididade humana.

O pragmatismo do ego conduz-nos a uma matemática demasiado redutora: diz-nos que não podemos aceitar que os nossos filhos tenham menos para que o outro – ainda por cima, estrangeiro, estranho, desconhecido – tenha mais. Mas a estrambólica tabuada de Deus diz-nos que podemos. É que, no fundo, a doutrina cristã afirma precisamente que Deus aceitou que o seu Filho tivesse menos. Aceitou que o seu Filho fosse desprezado e abandonado pelos homens, alguém para o qual se evita olhar, tratado sem nenhuma consideração. Aceitou tudo isto para que o outro (que, por acaso, sou eu e tu) tenha mais. Talvez possamos imitar Deus e fazer uso da sua tabuada que fica bem vísivel no princípio basilar do cristianismo: o corpo de Jesus, mutilado, torturado e desfigurado, foi partido por nós. Como memorial perene desse acontecimento central da história, partimos o pão nas nossas comunidades, nas nossas reuniões, cultos ou missas. Comungamos. Compartilhamos. E neste pão, que é partido e repartido por nós, temos mais.

Repartimos e temos mais vida.
Repartimos e temos mais humanidade.
Repartimos e enriquecemos.

E saímos das nossas reuniões dominicais para continuar a aplicar o mesmo princípio semanalmente: partimos o pão e damo-lo diariamente ao outro. O pão, a roupa, o tempo, o ouvido, o abraço… O Rui Vieira foi o primeiro de quem ouvi que alimentar o faminto, vestir o nú, cuidar dos necessitados, doar tempo ou dinheiro, é também tomar a ceia (expressão tão querida para os evangélicos). Concordo tanto!…  E Também nestas coisas funciona a tabuada de Deus.

Doamos e temos mais vida.
Doamos e temos mais humanidade.
Doamos e enriquecemos.

Na Europa reina hoje uma cosmovisão carregada de ironia. Ela orgulha-se dos seus valores humanistas e da vanguarda na luta pelos Direitos Humanos, mas rejeita a matriz judaico-cristã de onde brotaram esses valores (a relação direta entre a mensagem cristã e a moderna noção de direitos humanos parece-me uma tese muito defensável). Mas talvez o continente dos cristãos não praticantes e dos cristãos feitos ateus possa agora inscrever na história, neste momento de crise, um bonito capítulo. Um capítulo à imagem e semelhança de Cristo.

Assim oro. E que a Igreja esteja na linha da frente a demonstrar como se faz a tabuada! Não a do ratinho, mas a outra, aquela estrambólica que Deus usa.

“Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver. 

Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? Ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? Ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? 

E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes. 

Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes. 

Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? 

Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim. E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna”

Mateus 25:34-46

When the world goes global, the church goes local

Vamos! Às nossas cidades, aos nossos bairros e ruas. Sejamos missionários nas nossas próprias comunidades. Nos cafés e bares, nos polidesportivos e conservatórios, nas escolas, nas padarias, nos pequenos e grandes comércios, nos parques infantis e nos mercados tradicionais, nos transportes públicos e nos consultórios médicos.

Esta é a vocação da Igreja. Sempre foi. Agudiza-se agora a urgência de que a Igreja seja Igreja, num século em que as sociedades se tornaram demasiado globais e fragmentadas, exarcebando tudo quanto é virtual e étereo. Agudiza-se agora a urgência de que a Igreja seja uma presença local efetiva, autêntica e palpável.

Que a Igreja promova nas nossas cidades as redes de proximidade capazes de garantir que os anónimos, os sós e os perdidos são acolhidos. Que a Igreja seja nas nossas cidades o abraço autêntico e abnegado ao homem que, embrenhado neste aparato de tecnologia, de ritmo e de ruído, talvez nunca antes se tenha sentido tão profundamente só.

Vamos de joelhos dobrados e coração aberto! Servir, doar, amar a cidade.

Casamento: uma viagem transcultural

Um dos sábios que conheço diz que o casamento é uma experiência transcultural. A vida a dois é uma viagem constante entre continentes diferentes, ou, se quisermos usar uma imagem que remete para o isolamento ao qual tantas vezes, de forma defensiva, nos auto-sujeitamos, é a tentativa de criar pontes, rotas, pontos de contacto entre dois ilhéus isolados.

Sim, a transculturalidade presente no casamento é evidente: não existem almas gémeas. Um dos propósitos do casamento é que ao longo dos anos consigamos revelar o âmago do nosso ser, os tesouros e os fantasmas que guardamos no nosso íntimo e dos quais nem temos, à partida, plena consciência. É certo que esses tesouros e fantasmas – essa bagagem que trazemos e que é única – só Deus conhece na sua totalidade. Só Ele saberá contar e dissecar as expectativas, ansiedades, medos, sonhos e frustrações que carregamos. Mesmo assim, creio que o casamento é por excelência o espaço em que, na nossa fragilidade humana, nos expomos à pessoa amada revelando tanto quanto possível toda essa bagagem.

Esta é uma viagem magnífica que, como todas as viagens magníficas, tem obstáculos. É mais difícil do que subir ao topo do Ramelau! Porque numa sociedade que tanto valoriza a aparência e que tantas máscaras vende, revelar a nossa verdadeira identidade torna-se árduo e contra-intuitivo. A vulnerabilidade não é vista como um valor positivo. Contudo, uma experiência transcultural só o é se a pessoa se sujeitar à vulnerabilidade, ao desconhecido, ao diferente, não olhando apenas para o seu umbigo e não analisando a nova cultura apenas através das lentes embaciadas da sua própria herança cultural. Da mesma forma, o casamento só o é se a pessoa aceitar tornar-se vulnerável diante do outro.

Por envolver tal dose de vulnerabilidade, o motor fundamental desta viagem é a graça! No casamento, revelamo-nos ao outro mais profundamente na medida em que somos mais graciosos e mais aceitadores da graça que o outro nos oferece. Esta aceitação tem um efeito muito benigno: molda a nossa identidade, expurga da nossa identidade pedacinhos da tal bagagem que carregamos. É libertador! Como diz outra sábia que conheço (epah, tenho a honra de conhecer muitos sábios!), o verdadeiro amor é aquele que liberta. É aquele tipo de amor que faz o outro desabrochar!

É este tipo de amor, este amor gracioso e perdoador que tenho recebido e tenho procurado oferecer à minha amada. À medida que vamos escrevendo a nossa história a dois, vou percebendo que o sábio tem razão: sim, o casamento é uma viagem transcultural e é, de todas as viagens que fiz ou que venha a fazer, a aventura mais maravilhosa e extraordinária da minha vida!

Como e porque leio a Bíblia

Ao longo de séculos são incontáveis os homens e as mulheres de diferentes épocas e culturas que têm recorrido aos textos bíblicos em busca de sabedoria ancestral, à procura de respostas para as grandes questões existenciais e à procura de Deus. Para muitos a Bíblia é sagrada. Mas são também muitos aqueles que rejeitam a Bíblia por não encontrar nela validade ou por lhes parecer que ela nada lhes tem a comunicar pois fala apenas de outra era e somente para essa era. Há também quem rejeite a Bíblia por causa de princípios difíceis de encaixar e relatos desconcertantes que ela nos traz. Este tipo de rejeição é bem ilustrada pela célebre frase de Saramago: “a Bíblia é um manual de maus costumes”. Terá Saramago razão? Será a Bíblia um livro repleto de histórias infelizes, práticas bárbaras e ações mandatadas por uma divindade vil e incompreensível?

Quer afirmações como a de Saramago, quer o facto de se tratar de um livro querido para tanta gente, são fatores que podem conduzir-me a uma apropriação da pergunta: o que é a Bíblia? O que é afinal este livro que tanto impacto tem naquilo a que chamamos civilização ocidental de matriz judaico-cristã? Como se deve ler este livro? Qual a hermenêutica a empregar?

Não creio que estas perguntas tenham uma única resposta certa ou fácil e também não sei se consigo dar uma resposta imparcial porque, afinal, sendo cristão a Bíblia assume para mim um papel de extrema importância. Mais do que fornecer respostas, este texto é uma tentativa de fazer uma viagem não exaustiva pela Bíblia alinhavando uma explicação da relevância e da validade que ela tem para a minha fé.

Começo por lembrar que a Bíblia é, em primeiro lugar, uma coleção de livros. Livros diversos, com objetivos e estilos distintos, escritos em diferentes momentos e contextos da história. Não podemos abordar a Bíblia em primeira instância como um livro uno. Antes de ser um livro, a Bíblia são livros. Antes de ser uma história, a Bíblia é um conjunto de muitas histórias que se cruzam, entrelaçam, sobrepõem…

Começa por ser a história de um homem, Adão, e de uma mulher, Eva. E logo nesta primeira história cabe bem a pergunta: terei eu algo que ver com este Adão e esta Eva? Serei eu Adão? Serei eu Eva? Afinal, Adão terá a sua raiz etimológica em pó da terra – essência da qual Deus, com o seu sopro, forma o homem; matéria que aponta para a condição efémera e frágil que nos é comum – e Eva significa vivente – termo mais generalizável não seria possível. Assim talvez esta primeira cena do drama bíblico seja, mais do que a história de um casal em particular, a história de uma humanidade inteira. E, portanto, também a minha história.

Depois de alguns capítulos que nos conduzem do poema das origens (criação) às narrativas com que os hebreus responderam às grandes questões como “o que está errado com o mundo?”, “porquê tanta morte?”, “porquê tanta destruição?”, porquê tanta confusão?” (cf. por exemplo a construção da chamada torre de Babel em Génesis 11), depois destes capítulos, dizia eu, há uma mudança de registo: a narrativa foca-se agora numa pessoa, Abraão (a partir do capítulo 12), e, mais tarde, nos seus descendentes. É um homem, uma família, de quem nasce um povo e uma nação. E aqui as histórias podem não me parecer tão próximas, pois o povo hebreu é peculiar. Tem costumes com que não me identifico e leis próprias, algumas delas bizarras e aparentemente crueis. Tenho presente, ainda assim, a seguinte ressalva: é possível que, no contexto daquele tempo e das práticas dos povos vizinhos, as leis e os costumes judaicos fossem progressistas em muitos aspetos.

O fundamento do povo hebreu é a fé monoteísta no Deus dos patriarcas, Abraão, Isaque e Jacó, e dos líderes Moisés e Josué. É esta fé que lhes confere identidade e os distingue dos restantes povos. No entanto, a adoração a outros deuses e ídolos é recorrente (ver, por exemplo, Êxodo 32 ou II Reis 17). Encontra-se aí um dos grandes temas da Bíblia: a idolatria que há-de marcar a história do povo hebreu e que os profetas hão-de condenar de forma muito veemente. Ora a idolatria, entendida num sentido lato – ídolo é tudo aquilo que ocupa o centro da minha vida de forma indevida – é ainda uma tendência contra a qual tenho de lutar. Pelo que este tema bíblico tem relevância e as exortações dos profetas servem-me também de exortação.

Ainda assim, estranho muitos dos relatos vetotestamentários. São-me distantes e desconfortáveis. Quer as personagens, tão distantes do nosso sofisticado (!) século XXI – povos nómadas que vivem da pecuária, escravos oprimidos no Egipto, um povo sem-terra que deambula pelo deserto, reis, guerreiros, camponeses e pastores, funcionários do clero, prostitutas, falsos profetas, criminosos, gigantes, etc. – quer o retrato de Deus que os autores ali pintam…

No Antigo Testamento encontramos muitos traços de um Deus terrível e temível ao qual é atribuída a liderança de uma campanha de limpeza étnica e que institui práticas como sinal de pertença que aos meus olhos são bizarras (a circuncisão, cf. Génesis 17; ver Êxodo 4:24-26), bem como um sistema de sacrifícios de animais para expiação de pecados (ver livro de Levítico). A propósito do Antigo Testamento e da dificuldade que ele pode suscitar há três aspetos que quero sublinhar:

1) O enquadramento global das histórias bíblicas do A. T. pode fazer com que elas me pareçam distantes, mas na trama, no pormenor, na psicologia das personagens, nos seus dilemas e hesitações, encontro elementos que me são próximos. A família disfuncional de Isaque e Rebeca (Génesis 24-27) não lembra famílias que conhecemos? Será que a timidez – ou cobardia – de Saul (I Samuel 10:22) e a luxúria de Davi (II Samuel 11) são sentimentos totalmente ausentes do meu coração? Será que não me é familiar a incapacidade reconhecida pelo profeta Isaías para falar com pureza (Isaías 6:5) ou a obstinência e até petulância do profeta Jonas? Ou seja, quando a minha leitura for cuidadosa e refletida, talvez chegue a concluir que as histórias bíblicas do povo hebreu/judaico são histórias da humanidade. São património da nossa civilização não apenas do ponto de vista histórico, mas também do ponto de vista existencialista. Fazer uso deste património, respeitá-lo e valorizá-lo, significará, pois, mergulhar nestas histórias antigas, travar conhecimento com as personagens e encontrar-me a mim próprio nos seus trajetos e dilemas.

2) O Antigo Testamento tem diversos géneros literários. Para além das leis e da narração em jeito de crónica ou de biografia, encontramos no A. T., por exemplo, provérbios de sabedoria universal. Numa era em que o apelo ao empreendedorismo surge como uma espécie de mantra político, convém relembrar que esse apelo já se encontra presente na Bíblia, de uma forma que me parece bem mais saudável e holística do que esse mantra contemporâneo. O provérbio “Vai ter com a formiga, ó preguiçoso, considera os seus caminhos e sê sábio” (Provérbios 6:6) é complementado pelo outro lado da moeda: o autor do Eclesiastes lembra que trabalhar para colecionar riquezas é mera vaidade.

No A.T. encontro também belíssimos cânticos de adoração e de devoção:

“Como o cervo anela as águas assim a minha alma tem sede de ti, ó Deus!
A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo!…” (Salmo 42:1-2)

O poeta expressa a sua busca pelo Deus que é transcendente, mas também é pessoal. Identifico-me! Também eu anseio por este encontro com um infinito que toca o finito, com o “totalmente outro” que se dá a conhecer. E creio até que esta ansiedade é comum a toda a humanidade, ainda que a tentemos abafar ou ignorar.

O A. T. tem também textos nos quais me posso deleitar em momentos específicos da minha caminhada. Lembro-me, por exemplo, de uma ocasião em que a leitura do Salmo 126 foi para mim um bálsamo de esperança:“Aquele que leva a preciosa semente, andando e chorando, voltará, sem dúvida, com alegria, trazendo consigo os seus molhos.”

3) Em relação ao retrato que os autores vetotestamentários pintam de Deus, diria que esse é um retrato envolvo em nevoeiro, em sombras (Hebreus 10:1). É impreciso e incompleto. É como se os povos do A. T. vivessem numa espécie de período das trevas. Ainda assim, rasgos de luz vão irrompendo aqui e ali. Pelas bocas dos profetas chegam expressões de um Deus amoroso que “não se esquece dos seus filhos”. Um Deus que grava nas palmas das mãos os nomes desses filhos (cf. Isaías 49:15-16) e que afirma um plano de paz e de esperança para eles (cf. Jeremias 29:11). Um Deus que quer a justiça a correr como um rio (Amós 5:24) e que é exaltado por cuidar dos desfavorecidos e desprotegidos (cf. Salmo 146). Também no que respeita às personagens surgem episódios e relatos luminosos. Não há só homens de coração de pedra (Ezequiel 36:26), mas também homens com coração de carne. Há redenção no livro de Job, há graça singela na bonita história de Abigail (I Samuel 25) e graça escandalosa na louca história do profeta Oseias. Há arrependimento profundo na oração crua e dolorosa de Davi (Salmo 51). Há prenúncios de justiça social e de valorização da vida humana na Lei Mosaica (cf. Levítico 25). Há uns tempos propus a mim próprio o desafio de ler o A. T. procurando nele sinais da Graça Divina, pois acredito que o critério através do qual Deus se relaciona com a humanidade é e sempre foi a Graça. Desde então comecei a detectar no A.T. episódios, personagens e aspetos que são deliciosos. Estes são alguns exemplos, muitos outros podem certamente ser apresentados.

O A.T. é-me muito distante e essa distância justifica, creio eu, as reticências com que o abordo, nomeadamente no que respeita à literalidade dos textos e ao quadro que de Deus ali é pintado. Mas os três pontos acima sublinhados (e outros que porventura ficam por sublinhar) tornam o A.T. muito valioso para mim. Por isso, leio-o.

Os rasgos de luz que encontramos no Antigo Testamento apontam para a possibilidade de uma outra realidade que, diria, é desvendada por completo no Novo Testamento. Aí a luz brilha de forma intensa, não só nas entrelinhas num sentido figurativo, mas na própria narrativa! Há luz na multidão de anjos que anunciam o nascimento (cf. Lucas 2:8-14) e há luz nas estrelas que os magos seguem (cf. Mateus 2:1-12).

Nas nossas bíblias comuns os evangelistas sucedem aos chamados profetas menores. Se lessemos a Bíblia não sabendo de antemão que existe uma descontinuidade entre o livro de Malaquias e o livro de Mateus, detetaríamos ainda assim essa descontinuidade. Os evangelistas deixam de estar ocupados a escrever acerca de um povo e para um povo. Passam a escrever sobre uma pessoa singular e para todos os povos. É certo que cada evangelista tem em mente um público-alvo, mas parece-me que o objeto central da sua escrita – a pessoa – é tão universal que a escrita alcança muito para lá do público-alvo. Cada evangelho é como um holofote de potência máxima a lançar luz sobre o passado e sobre o futuro. A luz sobre o passado inclui o Antigo Testamento pois, acreditando nas palavras dos evangelistas, agora vemos com outra nitidez a história dos judeus, as profecias, os símbolos que já apontavam para Jesus (tipificações como a arca de Genésis 6-10) e o plano redentor do seu Deus. Cada um dos holofotes aponta para um ângulo diferente, uma perspetiva particular que decorre do propósito do autor e dos aspetos do ministério de Jesus que ele pretende realçar. Assim, os evangelhos entrelaçam-se para nos apresentar Jesus e nele, em Jesus, concretiza-se a profecia de Isaías: “o povo que caminhava nas trevas viu uma grande luz; habitavam numa terra de sombras e uma luz brilhou para eles” (cf. Isaías 9:1-2).

Jesus é esta luz. Esta é uma resposta possível à pergunta central que se vai adensando na narrativa e na trama dos evangelhos: quem é Jesus? Quem é o mestre da Galileia que ensina com tanta autoridade, usando parábolas incisivas e métodos inusitados? Quem é este homem cativante de quem me falam Mateus, Marcos, Lucas e João?

A identidade de Jesus é um assunto que, em retrospectiva, atravessa a Bíblia toda. Num sentido quiçá limitado, creio que podemos afirmar que o propósito da Bíblia enquanto livro uno é a revelação dessa identidade. Por um lado cada livro bíblico tem o seu contexto e objetivo. Por outro lado, se a Bíblia para além de uma coleção de livros é também um livro, ou seja, se a Bíblia tem também um carácter uno, esse carácter é-lhe conferido pela revelação da identidade de Jesus. É a identidade de Jesus que une e harmoniza os diversos livros da Bíblia. Daí eu concluir sem reservas que os autores bíblicos contaram com uma inspiração especial – divina – pois todos escreveram, de forma velada ou direta, simbólica ou narrativa, acerca dele!

Os evangelhos revelam um Deus que é para todos: para os judeus – vim para os que eram meus (cf. João 1:11); para os gentios – quebrando constrangimentos sociais profundamente enraizados como no episódio da mulher samaritana (João 4) ou do centurião romano (Mateus 8:5-13); para cegos e coxos físicos ou espirituais, para os proscritos e pecadores, para as crianças (cf. Mateus 19:14).

É também interessante notar que os princípios éticos que Jesus proclama no sermão do monte (Mateus 5-7) e que ilustra com a sua vida penetraram de tal forma na sociedade (primeiro na comunidade de judeus palestinenses que se convertem a Cristo, depois por todos os territórios do império e do mundo) que até podemos assumir que esses princípios estão na génese da compreensão moderna dos direitos humanos. Hoje, sem nos apercebermos, vivemos numa sociedade que incorporou muitos destes princípios no seu sistema de valores, ainda que não conheça aquele que os proclamou. A Bíblia é socialmente e culturalmente relevante.

Os evangelistas registam depois a morte dramática de Jesus e a sua surpreendente ressurreição. Da sua ressurreição muitos duvidam. Mesmo na teologia cristã encontramos correntes que relativizam esse acontecimento adaptando e modernizando as antigas doutrinas gnósticas: Jesus morreu no corpo e ressuscitou apenas no Espírito? Estas questões já eram alvo de discussão no tempo apostólico. Relativamente a este assunto, levo muito a sério as palavras de Paulo aos Romanos (cap. 15): se Cristo não ressuscitou [em corpo] então a minha fé não tem qualquer sentido.

Neste sentido, os Atos dos Apóstolos e as Cartas do Novo Testamento têm também uma função apologética. Neles percebo que os discípulos não tiveram dúvidas em afirmar ressurreição e a divindade de Jesus e tenho contacto com elementos teológicos que fortalecem a minha fé no Cristo Vivo. A crença na divindade de Cristo é uma viragem surpreendente tendo em conta o monoteísmo estrito dos judeus. De repente, passam a considerar que o Deus dos patriarcas, de Moisés e dos profetas se fez carne. Acreditam nesta paradoxal maravilha: Deus revelou-se plenamente através de Jesus Cristo (cf. explica João no prólogo do seu evangelho, texto que considero fundamental na minha compreensão teológica e como alicerce da minha cosmovisão). Esta viragem não implica uma mudança para uma fé politeísta. Pelo contrário: ela irá originar a crença no Deus trino. A trindade é um mistério e eu estou em crer que, se bem entendida (coisa difícil), a trindade é uma expressão inequívoca do monoteísmo mais belo e verdadeiro.

Assim nasce e brota o movimento que viria a ser conhecido como cristianismo. No livro dos Atos, Lucas conta-nos como os pioneiros desse movimento, seguindo instruções do mestre e após terem recebido o Espírito Santo (cf. Atos 2), percorrem províncias e países para contar a história de Cristo, a Boa Nova da sua vinda e da sua ressurreição. Também as cartas nos contam como a vinda de Jesus e a sua mensagem provocaram uma profunda revolução nas vidas daqueles discípulos. A teologia, a liturgia, os hábitos e as prioridades daqueles judeus convertidos (e dos gentios que se lhe foram juntando) ficaram de pernas para o ar. Leio Atos e leio as Cartas porque desejo que essa mesma revolução aconteça diariamente na minha vida!

Gradualmente estes judeus discípulos de Jesus foram percebendo que Jesus é para todos. As cartas paulinas atestam bem essa percepção, essa nova cosmovisão marcada por uma teologia inclusiva e uma mensagem universal:

“Cristo é de facto a nossa paz. De dois povos separados fez um só povo. Com o sacrifício da sua vida ele destruiu o muro que os separava e os tornava inimigos um do outro. Aboliu a lei judaica com os seus regulamentos e decretos para, a partir de judeus e não-judeus, formar uma humanidade nova, em união com ele, fazendo a paz, a fim de os reconciliar com Deus, num só corpo por meio da sua cruz, destruindo por ela o ódio que os dividia.” (Efésios 2:14-26)

Compreende-se até que a exclusividade da relação de Israel com Deus lida no Antigo Testamento é apenas aparente, pois, segundo os apóstolos, o relacionamento privilegiado que Deus estabelecera com Israel sempre teve em vista a bênção de todas as nações (de acordo até com o próprio A.T. cf. Génesis 12:3 ou Isaías 60:3). Lemos até a possibilidade de que Deus não tenha deixado de se manifestar às outras culturas e povos (cf. Romanos 1). A este respeito, é surpreendente o discurso de Paulo no aerópago de Atenas ao afirmar que o Deus que os gregos apelidavam de ‘O Deus Desconhecido’ era o mesmo que ele anunciava (cf. Atos 17:23) e, mais ainda, ao utilizar filosofia e poesia grega para fazer teologia cristã (cf. Atos 17:28). Com estes exemplos, Paulo ensina-nos a procurar Deus na cultura secular. Ensina-nos que Deus não está confinado a um templo, a um livro ou a um sistema religioso. Ele atua através de todos e em todos (Efésios 4:6).

O retrato de Deus feito no Novo Testamento é diferente. O quadro que os autores do Novo Testamento pintam conta já com a luz que decorre do ensino e do Ministério de Jesus Cristo. De facto, talvez possamos colocar as coisas noutros termos: talvez seja o próprio Jesus que pinta – com a sua vida e a sua mensagem – todas as pinceladas decisivas do quadro apresentado no N. T. Esta perspetiva parece-me estar em harmonia com o tal prólogo do Evangelho de João:

“A Palavra fez-se homem
e veio habitar no meio de nós,
e nós contemplámos a sua glória,
como glória do Filho único do Pai,
cheio de graça e de verdade.
(…)
Nunca ninguém viu Deus. Só o Deus único, que está no seio do Pai, o deu a conhecer.” (João 1:14 e 18)

A teologia enquanto exercício humano será sempre incompleta. Não creio que o vocabulário humano possa fazer jus à verbalização do divino. Ainda assim, diria que a teologia ganha contornos mais precisos, ganha rosto, ganha base, com a encarnação de Cristo. É ele que ilumina o retrato que fazemos de Deus porque ele é Deus. Neste sentido, arrisco dizer que a teologia neotestamentária é mais iluminada e mais precisa, do que a sua antecessora.

Se no A. T. a graça aparece como pontos de luz nas trevas, no N. T., pelo contrário, são escancaradas as portas da graça. Ela desagua de forma incontida na vida de homens e mulheres que se cruzam com Jesus, quer seja fisicamente durante o seu ministério terreno, quer seja mais tarde em Antioquia, Roma, Corinto, Éfeso, etc. como resultado da pregação dos apóstolos. A graça brilha com todo o esplendor na escrita dos autores bíblicos. Canta-se então a vitória de Cristo como sendo, pelo menos potencialmente, a vitória de todos, uma vitória que abarca toda a realidade existente:

“Porque Deus achou por bem
estar totalmente presente no seu Filho,
e também, por meio dele, reconciliar consigo
mesmo tudo o que existe na Terra e no Céu,
estabelecendo a paz pelo seu sangue
derramado na cruz.” (Colossenses 1:19-20)

Leio as Cartas também porque desejo que a teologia de Paulo, Pedro, João, Judas e Tiago – a forma como escrevem sobre a profundidade e universalidade da obra de Cristo, os preceitos práticos que transmitem à igreja – molde a minha cosmovisão, defina a minha identidade, afine a música do meu coração e o rumo da minha vida.

Porfim, temos o livro do Apocalipse com uma escrita que lembra mais o livro vetotestamentário de Daniel do que o restante do Novo Testamento. Sucedem-se anjos, cavaleiros, dragões e bestas com muitas cabeças (ver por exemplo Apocalipse 13:1). É todo um cenário que deixa o leitor estarrecido e perplexo. A interpretação deste livro tem desafiado os cristãos desde o início da história.

Acredita-se que João terá escrito o livro quando estava exilado na ilha de Patmos, já em idade avançada (Apocalipse 1:9). Os cristãos eram perseguidos e martirizados pelo Império Romano. Os seus antigos companheiros de missão (Pedro, Tiago, André e o próprio Paulo) teriam sido já executados pelas mãos romanas que também executaram o seu Mestre. Neste contexto, o Apocalipse parece ser escrito, em primeira instância, para consolar e animar os cristãos comunicando-lhes uma mensagem de esperança: este império opressor que hoje prevalece será derrotado e o reino que Jesus veio inaugurar abrangerá, um dia, toda a realidade existente. Ainda que nos persigam e que nos matem, ainda que o império pareça invencível e imortal, a verdadeira sentença está dada: Roma – aqui chamada de Grande Babilónia – cairá por terra (cf. Apocalipse 18:2).

Parece ser esta a exortação nas entrelinhas da revelação que João recebe: animem-se, vós, fieis, e permaneçam firmes nas convicções da boa nova que receberam. O reinado de César terá fim. Por isso, mantenham puras as vossas vidas, limpas as vossas vestes (Apocalipse 3:18) e não participem nas orgias imperiais (Apocalipse 18:4).

Na pluralidade de sentidos que os textos bíblicos podem assumir, o Apocalipse é particularmente fértil em possíveis interpretações alternativas ou complementares. Mas, pelo menos no sentido acima proposto, podemos detetar o carácter intemporal do livro: todas as épocas têm os seus impérios opressores, desumanizantes e malignos; o Apocalipse lembra-nos que todos esses impérios caem por terra. É portanto um livro que me faz a pergunta: preferirei eu integrar as fileiras imperiais da Babilónia moderna, abdicando da minha identidade e integridade, ou dedicarei a minha vida ao movimento de resistência que sabota o império com manobras de graça e de justiça mesmo que seja necessário pagar um preço elevado?

______________________
______________________

O propósito deste texto é comunicar como e porque leio a Bíblia e creio que, através desta pequena viagem do Génesis ao Apocalipse, as respostas foram alinhavadas. Leio a Bíblia porque ela é valiosa e relevante na minha caminhada. Isto abrange o Antigo Testamento e o Novo Testamento. A Bíblia alimenta a minha fé e, por outro lado, a maturação da fé alimenta a minha leitura bíblica, formando-se assim um ciclo que enriquece a minha vida, o meu percurso e a minha forma de ver Deus, o mundo e os outros. Leio a Bíblia com liberdade, criatividade e interrogações e sinto que é o próprio texto que me autoriza a abordá-lo dessa forma. Tento lê-la com honestidade intelectual. Tento lê-la numa atitude de submissão ao Espírito Santo. E, sobretudo, tento lê-la para através dela conhecer aquele de quem ela fala, aquele para quem ela aponta, o Cristo Vivo. Vivo não só porque a Bíblia o afirma, mas porque ele transcende as linhas e as entrelinhas das histórias bíblicas para se tornar co-autor das minha própria história.

Graça

A Graça!
Bendita Graça que me alimenta e sustenta!
Maravilhosa Graça que me move e comove!

Ar que respiramos.
Éter em que existimos e nos movemos.
Canção que sem escutar ouvimos.
Voz que vem no som das ondas que não é a voz do mar!
Medicina universal que a alquimia não encontrou mas que Deus demonstrou.
Bálsamo para os corações dos homens e das mulheres.
Essência irredutível do Deus trino que não pode ser reduzida a fórmula ou a doutrina.

Falam os teólogos de graça comum e de graça específica. Ora, toda a Graça é comum no sentido em que ela compreende toda a realidade que há. Adaptando a frase de Paulo no Areópago, nela nos movemos, vivemos e existimos. Por outro lado, erram os teólogos pois nenhuma Graça é comum: toda ela transcende, toda ela é inalcançável, toda ela é impossível de suster, limitar, compreender. Na Graça nada há de banal.

Há tempos um site de uma conhecida editora protestante apelava assim ao seu público-alvo: “Ama a doutrina da Graça?” Na entrelinha deixam a ideia: se a resposta é positiva, então este site é para si. Mas o que é isto de amar a doutrina da Graça?

Será a Graça uma mera ideia, um conceito? Ou será uma realidade transcendente que não é passível de ser cognitivamente compreendida, mas apenas experimentada?

Não invoquemos a graça em vão. Não a reduzamos a ideias ou doutrinas. Se necessário for, não entoemos os hinos que dela cantam e rasguemos os textos que dela escrevem. Não prestemos atenção a blogues como este que a analisam e muito menos a teologias que a dissecam.

Antes a vivamos! Dela bebamos, dela comamos, dela nos alimentemos nós, humanos sedentos e tantas vezes raquíticos! Que a Graça de Deus inunde as nossas entranhas, as nossas consciências, as nossas casas, as nossas empresas, as nossas escolas, os nossos bairros, as nossas igrejas, as nossas cidades, os nossos mundos!

Graça a rodos, para todos!

 

Deixados Para Trás

Também eu fui vítima da saga Deixados Para Trás (Left Behind). Nunca li os livros, mas creio que vi dois dos filmes dessa saga inqualificável. É que os filmes são maus por disseminarem teologia altamente duvidosa e também porque ao nível cinematográfico são deprimentes. (A pontuação no IMDB mostra bem a consideração que o público em geral tem pelos filmes.)

Esta saga baseia-se na doutrina do arrebatamento e, para quem não souber do que estou a falar, aqui fica uma tentativa de explicação: extrapolando algumas passagens bíblicas, algumas correntes cristãs desenvolveram a crença de que Jesus Cristo virá num ápice arrebatar a Igreja – a comunidade universal daqueles que são salvos pela fé em Jesus Cristo. Crê-se que este acontecimento será assombroso, apocalíptico no sentido mais negro da palavra: o arrebatamento significa que os salvos desaparecem da Terra num ápice, os seus corpos são transformados e eles estarão no céu, na presença de Deus. O arrebatamento será terrível: imagine-se uma mãe a amamentar o bebé e de repente o bebé desaparece; imagine-se um avião pilotado por um salvo que de repente fica sem piloto; um comboio que é dirigido por um maquinista salvo e que de repente fica entregue a ninguém… Será o caos! Acidentes, colisões, aviões despenhados, famílias desesperadas. Os que não são salvos, serão deixados para trás, abandonados à sua sorte num mundo caótico, do qual a Igreja e o Espírito Santo já se retiraram e a presença de Deus já não se manifesta. É isto o arrebatamento!

Note-se que a crença no regresso de Jesus Cristo (a segunda vinda de Cristo) é praticamente transversal a todos os cristãos, mas a forma que esse regresso assume é objeto de diferentes perspetivas teológicas. A doutrina do arrebatamento é uma das perspetivas mais bizarras que eu conheço (até porque os crentes nesta doutrina acreditam, na prática, numa segunda vinda e também numa terceira vinda de Cristo). Também é bizarro que seja extremamente popular em alguns meios evangélicos (provavelmente havendo aqui alguma relação com os elementos platónicos que o cristianismo incorporou).

Podia entrar aqui na questão da análise dos textos bíblicos que são usados para justificar a crença no arrebatamento (sendo que, na verdade, toda a crença assenta numa interpretação particular de um único versículo), mas não é esse o propósito deste texto.

O propósito deste texto é contestar essa ideia de que Deus deixa pessoas para trás. Deixar para trás é um atributo humano. Sou eu que deixo pessoas para trás. Sou eu que não espero pelo outro, que não caminho com o outro, que não me dou ao outro. Consigo identificar momentos da minha vida em que aquilo que fiz é, de facto, bem sintetizado por essa expressão: deixei para trás. Guardo em mim a tristeza e o remorso porque nesses momentos não fui aquilo que gostava de ser: não me comportei à imagem e semelhança do Meu mestre. Não levei a carga do outro. Não tive a paciência, a determinação e, sobretudo, o amor para acompanhar o meu próximo, para abrandar o meu ritmo e caminhar com aqueles que vão mais devagar. Não amparei o desamparado. Sim, na minha vida já deixei pessoas para trás. É isto que eu faço. É esta a minha velha natureza que Deus está a regenerar.

É isto que nós, homens, fazemos: deixamos para trás. Mas em Deus encontramos outra natureza: o Deus que a Bíblia nos dá a conhecer é um Deus que se dirige à humanidade com a sua mensagem de redenção e de esperança; e quando a humanidade não ouve, Deus não a deixa para trás. Pelo contrário, ele faz-se humanidade, faz-se um de nós, para que o pudéssemos conhecer, perceber, ter uma imagem nítida do seu carácter. Ele é o Deus que se diz Bom Pastor, que guia pacientemente as suas ovelhas e que sai em busca daquelas que se perdem. Ele é o Pai Amoroso que todos os dias anseia o regresso do Filho que, esse sim, o deixou para trás.

É este o Deus revelado em Jesus Cristo: vem ao nosso encontro, interpela-nos, caminha connosco, ampara-nos, é paciente quando tropeçamos e, se necessário, até nos carrega ao colo… deixar para trás? Não. Não reconheço em Jesus Cristo esse deus que deixa pessoas para trás. Esse é um deus em quem é projetado aquilo que nós homens fazemos. É um deus feito à nossa imagem e semelhança.

O Deus revelado em Jesus Cristo é toda uma outra cena!

Fazer justiça com as próprias mãos

“The earth and the sky and the sea are all holding their breath
Wars and abuses have nature growing with death
We say we’re just trying to stay alive
It looks so much more like a way to die
And this too shall be made right”
(Derek Webb)

Os lápis dos cartoonistas traçam piadas de gosto duvidoso. Em resposta, radicais da intolerância matam. Estão cegados por uma mentalidade demasiado estreita, que prevê apenas espaço para a existência do seu igual, não do seu semelhante. Em letras mais pequenas, lemos massacres e sequestros no Norte de África. Lemos que a Indonésia pede clemência para a sua cidadã condenada à pena de morte na Arábia Saudita, mas, ao mesmo tempo, rejeita o pedido de clemência para os cidadãos estrangeiros condenados à morte dentro das suas fronteiras. Lemos o atentado suicída de uma menina-bomba de 10 anos. Lemos a liberdade a ser cem vezes chicoteada na Arábia Saudita. Lemos a morte lenta de crianças cujo único brinquedo é o barro com que fabricam tijolos no Afeganistão. Lemos meninas a desfilar em Gaza com a kalashnikov a tiracolo. Abrimos o portátil, percorremos as páginas do jornal, carregamos no botão da caixa mágica e o que encontramos é um mundo de gente que, enquanto julga estar a fazer justiça com as próprias mãos, está, na verdade, a perpetuar a injustiça, a crueldade, o fratricídio.

Na narrativa biblíca os genes fratricidas da humanidade estão presentes desde as nossas origens: Abel e Caim. Mais do que discutir a literalidade da história, importa perceber a literalidade da verdade que se esconde por trás da história: nós matamos o nosso irmão. Esta é a especialidade do homem alienado do Criador: matar o próximo. Se não for com armas, é com políticas e artifícios económicos e é com palavras e atitudes. Diz-nos a ONU que 1600 milhões de pessoas ainda vivem abaixo do limiar da pobreza. Diz-nos o Público que em 2016 mais de metade da riqueza mundial estará na posse de 1% da população. Esta desigualdade gritante também é fratricidade: não mata num instante, mas provoca uma sangria lenta e fatal.

Viver em Timor-Leste aguça este perspetiva amarga, este desencanto profundo: a pobreza e os desafios ainda são gigantescos e a sensação de impotência tende a invadir-nos. O país está certamente muito mais desenvolvido do que quando se deu a independência. Mas ainda há tanto por fazer! Dá vontade de ter poder e força para mudar tudo. Dá vontade de ter a omnipotência para transformar esta sociedade num ápice.

Não tenho essa omnipotência (e, na verdade, ainda bem!). Ainda para mais, eu não acredito no progresso. Não é esse o meu Deus. Não acredito que a humanidade seja capaz de se elevar a si própria a uma nova condição. Não acredito que a humanidade seja capaz de se re-criar.

Não é de admirar que quando me esqueço daquilo em que acredito – tendo só presente aquilo em que não acredito – tenha vontade de deixar a raiva e a amargura tomar conta de mim. Há momentos em que só vejo a fealdade do mundo e quero esbofeteá-lo. Quero endireitar as coisas pela força. (Um amigo diz que, se não fosse cristão, talvez fosse um terrorista de extrema esquerda. Às vezes sinto o mesmo.) Há momentos em que só vejo a fealdade do mundo a raiva dá-me vontade de chorar. Recordo Neemias a chorar quando soube da destruição de Jerusalém. A forma como a realidade aguda penetra e dói no coração… Há momentos em que me sinto um bocadinho Neemias.

Mas depois, tal como Neemias, forço-me a lembrar daquilo em que acredito. Acredito em Jesus Cristo. Confio nele. Tenho em Cristo a minha esperança, o meu exemplo, o meu caminho. É nele que a humanidade fratricida encontra cura. É nele que, segundo as palavras magníficas do apóstolo Paulo, todas as coisas são reconciliadas:

All the broken and dislocated pieces of the universe—people and things, animals and atoms—get properly fixed and fit together in vibrant harmonies, all because of his death, his blood that poured down from the cross.   (Colossenses 1 – The Message)

Por causa de Jesus Cristo, eu quero justiça no mundo! Não a justiça humana falível, permeável, repleta de equívocos e de injustiças. Mas uma justiça à medida de Cristo, uma justiça que honre o caráter ímpar do mestre nazareno. Desta justiça tenho fome e tenho sede. Desta justiça quero ter mais fome e mais sede.

Entretanto há que recordar um tema recorrente deste blogue: eu também faço parte do problema. Eu também faço parte da humanidade fratricida. Lembro-me de ouvir o pastor João Martins a explicar esta bem-aventurança – bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão fartos – dizendo que ela consiste, em primeiro lugar, numa fome e sede de justiça para a nossa própria vida. Assim, bem-aventurado é o homem que, reconhecendo a sua condição de injusto e injustificado, deseja ardentemente uma justiça que o habite mas que não venha de si próprio. Este é o homem que reconhece que a auto-suficiência é uma impossibilidade: só a obra de redenção e de justificação por intermédio de Alguém maior pode saciar tal fome e tal sede. (Creio que o livro Justiça Generosa, de Tim Keller, aborda a relação entre a ação da justiça de Deus ao nível individual e a justiça enquanto conceito social que se estende a toda a humanidade. Ainda não o li, mas suspeito que valha o esforço.)

Assim, vivendo no caminho que é Cristo, vou sendo re-criado pela ação da sua justiça em mim. De facto, não é a humanidade que se regenera a si mesma. É Cristo que cria uma nova humanidade. E esta nova humanidade é chamada a apresentar ao mundo uma noção de justiça mais profunda, mais bela, mais divina*. Esta justiça de Deus pode ser entendida à luz do conceito hebraico de shalom: o shalom acontece quando aquilo que é bom, certo, verdadeiro e íntegro invade a realidade, permeia os relacionamentos humanos, traz paz e abundância para todos. Já não é aquele conceito simplista e primitivo de uma justiça retributiva. Aquilo que encontramos na cruz de Cristo é uma justiça paradoxal que paga o mal com o bem. E ainda que esta justiça pareça frágil, ela vence.

Podemos assim dizer que o caminho de Cristo é para os teimosos, para aqueles que, tendo conhecido a justiça nas suas próprias vidas, recusam-se a aceitar o mundo como ele está, para aqueles que querem dar a vida pela proclamação e demonstração da justiça restaurativa de Deus, para aqueles que querem fazer todos os esforços para viver aqui e agora uma maior densidade do shalom. Como disse, não sou crente no progresso. Também não sou crente no progresso como escatologia cristã (até gostava de ser, mas a realidade não me permite). Dentro desta perspetiva, os feitos daqueles que caminham com Cristo são ínfimos. Como dizia a Madre Teresa de Calcutá: não podemos fazer grandes coisas, apenas podemos fazer pequenas coisas com grande amor. É neste sentido que o cristão é chamado a fazer justiça com as próprias mãos, ganhando agora esta expressão um sentido completamente diferente do habitual. Para fazer justiça com as próprias mãos: visitamos as viúvas e os presos, cuidamos dos órfãos, amamos o próximo, amparamos os coxos, ouvimos os que não são ouvidos, doamos, entregamo-nos, servimos, à imagem e semelhança do Mestre. E em todas as áreas em que intervimos procuramos a subversão das injustiças sistémicas inculcadas nas estruturas humanas. Procuramos a transformação do mal em bem e a submissão de todas as coisas ao shalom, confiando que um dia ele será uma realidade plena quando Jesus reinar enfim.

Ouçamos o repto dos profetas contemporâneos, os artistas, os Derek Webb da nossa era. Ouçamos também o repto dos profetas antigos, os Amós, que já há muitos séculos atrás anunciavam o sonho de Deus para o mundo: Let justice roll down like waters and righteousness like an ever-flowing stream! Que as nossas vidas sejam respostas palpáveis a estes reptos. Que assim seja!

 

*Entre os cristãos evangélicos é comum ouvir-se a frase: Deus é amor, mas Ele é também justiça. Esta frase é dita em tom de aviso. Soa mais ou menos assim: vê lá o que fazes porque Deus ama-te, mas ele também é justo e quer que andes na linha. A frase arrisca-se a um equívoco porque coloca a justiça de Deus em oposição ao amor de Deus. Esta reformulação parece-me muito mais consistente: Deus é amor e, porque Deus é amor, Ele é também justiça. A justiça divina não é um peso para contrabalançar o seu amor. Não é retributiva, no sentido de responder à guerra com guerra e à morte com morte. A justiça divina responde à morte, com vida. Responde ao mal, com o bem. É isso que encontramos na cruz do Calvário: uma justiça ao serviço do amor que tem por finalidade a redenção de todas as coisas. O autor da carta aos hebreus diz que o Senhor corrige aquele a quem ama e castiga aquele que recebe por filho. O castigo de Deus é um castigo restaurativo, com um propósito maior em vista. A repreensão e as palavras duras dirigidas por Jesus aos fariseus e doutores da Lei têm esse propósito. Para corações duros, o amor fala em palavras duras. E, finalmente, mesmo que a nossa interpretação bíblica nos leve a acreditar nalgum tipo de castigo pós-morte – o inferno – parece-me muito mais consistente entender essa possibilidade como uma consequência natural da alienação total de Deus do que como uma punição para satisfazer a ira de Deus.