Pontos e contos de um cristão pós-moderno

Fé cristã na era da desconstrução

É quase crónica esta necessidade de desconstruir com que a pós-modernidade me infetou. A minha cosmovisão desenhada a partir de frias muralhas de betão intransponível foi abalada pelo terramoto da constante insatisfação, pela tempestade da perene desconfiança em relação a qualquer sistemática que queira explicar o tudo e o todo através de fórmulas que são, invariavelmente, demasiado simplistas.

O pensamento da nossa era provocou brechas nas muralhas. Hoje é vê-las ruir sem clemência. Com elas caem por terra todos os edifícios anteriormente construídos, todos os edifícios que pareciam antes tão sólidos e definitivos. Hoje nada é válido, nada é definitivo, nada é absoluto.

Chego a sentir-me condenado ao vazio por esta espécie de Lei pós-moderna: nesta era nada se cria, nada se transforma, tudo se perde. A desconstrução pós-moderna é um dos poderosos motores da vigente falta de sentido da sociedade global. E se me acusarem de alimentar também esse motor, eu assumo de imediato o veredicto: sim, eu sou culpado.

Mas apresento, no entanto, a minha defesa: há uma certa inevitabilidade no fenómeno de desconstrução. Há até uma certa lógica nesta tendência de matar todas as lógicas. A complexidade da realidade em que vivemos justifica as reservas em aceitar teorias, dogmas, explicações absolutas. Somos bombardeados de todos os lados com informação e contra-informação, propaganda e manipulação, factos e boatos sem distinção. E a minha capacidade de discernimento não é suficiente para conseguir produzir absolutos a partir deste caos global.

Surge então uma pergunta inquietante: como posso viver a fé cristã na era da desconstrução? É que não me parece que a fé cristã se coadune com a permanente desconstrução. Tem de haver um ponto de inflexão. Não se pode chamar ‘caminhada de fé’ se tudo quanto há é o cepticismo.

Diante deste dilema muitos filhos da pós-modernidade têm abandonado a fé. Talvez muitos ainda acreditem em ‘algo’, talvez muitos ainda se digam cristãos, mas a vivência da fé deixou de ser um elemento definidor das suas identidades. Estes são aqueles que chegam ao deserto e ali permanecem. O conflito entre a realidade complexa e difusa e os sistemas demasiado rígidos para interpretar essa realidade podem, de facto, conduzir ao esfriar da fé, ao ponto de esta se tornar irrelevante ou nula, sobrando apenas o cepticismo.

Outra via, ainda adoptada por muitos cristãos, passa por responder à desconstrução pós-moderna através da reafirmação dos antigos sistemas. Estes são aqueles que, por medo ou por não sentirem na pele a inevitabilidade da desconstrução, nunca chegam a ir ao deserto. Mas será que esta via não corresponde, em certa medida, à tentativa de conter vinho novo em odres velhos? Será que a pós-modernidade não nos dá uma boa oportunidade de fabricar novos odres para substituir os antigos? Os odres antigos tiveram, certamente, a sua utilidade no passado. Foi com eles nas mãos que muitos tiveram oportunidade de provar o bom vinho. Mas este vinho – o Evangelho – assume novos sabores para cada geração, para cada era, para cada cultura. Poderão os odres velhos ainda contê-lo? Não se dará o caso de perdermos a essência – o vinho – quando valorizamos excessivamente os odres?

Creio que estas duas vias têm sido as mais frequentadas pelos nossos contemporâneos, mas creio também que há ainda uma terceira via. Para muitos de nós, o deserto e o vazio são um ponto de passagem inevitável. Não adianta esconder a cabeça na areia. Não adianta resistir. É ali que nos conduz a desconstrução como se de uma força irresistível se tratasse. Mas o deserto não é necessariamente o destino final. A caminhada de fé não tem de morrer ali. A desconstrução não tem de ser o absoluto e o eterno.

É bom lembrar que segundo a narrativa bíblica e segundo os antigos profetas, Deus tem um jeito especial para lidar com gente que atravessa desertos. Os profetas colocam poesia promissora na boca de Deus: Plantarei no deserto o cedro, a acácia, e a murta, e a oliveira; porei no ermo juntamente a faia, o pinheiro e o álamo. O deserto é infértil segundo a minha perspetiva humana, mas, dando crédito aos profetas, talvez seja exatamente no deserto que Deus me quer por um momento…

De facto, nesta terceira via, menos explorada mas fascinante, muitos de nós vamos descobrindo que há caminho para lá do deserto. Vamos descobrindo que em cada deserto sedento, Deus continua a plantar, a seu tempo, jardins, bosques e pomares. Vamos descobrindo uma missão que nos cabe a nós: cuidar dos jardins para neles colhermos as flores singelas e os frutos frescos que o mundo anseia provar.

Talvez daqui a umas décadas os nossos filhos venham a dizer que os jardins se transformaram em silvas, terrenos baldios que para nada servem. Talvez venham a concluir que os jardins por nós construídos também não eram a solução definitiva, também não eram odres que se mantenham sempre novos. Mas, por enquanto, deixemos que estes jardins sejam plantados, que floresçam e frutifiquem. Oremos para que, a despeito do relativismo que impera nesta era, surjam mais jardins onde o Absoluto se venha a revelar a nós e aos nossos contemporâneos.

Até porque foi também num jardim junto a um túmulo vazio que, de modo surpreendente e definitivo, o Absoluto se revelou à confusa Maria Madalena na alvorada do primeiro dia da semana.

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Um infeliz Natal para o Zaratustra que há em ti

O Meu Deus é um Deus Ferido, de Tomas Halik, é uma obra que merece ser lida, pensada e digerida. Convida-nos a uma fé madura que se distancia igualmente do cristianismo escapista – o mundo é um lugar horrível e quero é sair daqui depressa – e do cristianismo triunfalista – pela fé posso resolver todos os problemas e transformar a vida num mar de rosas. Uma fé que encara a realidade de forma frontal: o sofrimento é parte inerente da realidade e somos convidados a vê-lo, aceitá-lo (não como uma inevitabilidade fatalista, mas como realidade que é), encaixá-lo… e, depois, somos convidados a desenvolver a resiliência necessária – a esperança teimosa e perene – para lidarmos com ele e, com todas as dificuldades e limitações inerentes, transformarmos o sofrimento em vida:

“Cada um deve vigiar como Maria, deve “pôr estas dores no seu seio”, cada um deve impedir que elas caiam no esquecimento, há de “conservá-las no seu coração”, mesmo se não as entender – cada um, no seu seio e no coração, deve fazê-las passar das sombras do Monte Calvário para a alvorada da manhã da Páscoa.”

A obra de Halik esboça o único caminho que me parece viável para a construção (ou intuição) de uma teodiceia cristã: nas feridas de Cristo encontramos Deus compadecido com as feridas do mundo; nas feridas de Cristo encontramos Deus a sofrer as feridas do mundo. A resposta de Deus ao problema do mal não é metafísica, mas sim corpórea. É visível no corpo desfigurado do Cristo crucificado e nas cicatrizes ainda bem vincadas no corpo glorificado do Cristo ressurreto.

Halik toma como ponto de partida o desafio de Jesus a Tomé “Olhai as minhas mãos e os meus pés e vede que sou eu mesmo” (Lucas 24:39). A confissão posterior de Tomé – Meu Senhor e Meu Deus – é surpreendente, pois é ele o primeiro homem a afirmar a divindade de Jesus. As feridas de Cristo revelam a Tomé a completa identidade do seu mestre.

A principal tese – se assim lhe podemos chamar – de Tomas Halik é que Cristo continua hoje a revelar-se nas feridas do mundo e dos homens:

“Talvez Jesus, ao reacender a fé de Tomé pelo toque nas chagas, tenha querido que ele dissesse justamente o que para mim, como que atingido por um raio, se tornou claro no orfanato de Madrasta: Onde tu tocares no sofrimento humano – e talvez só aí! – ficas a saber que eu estou vivo, que “Eu sou”. Encontras-me por toda a parte onde os homens sofrem. Não fujas de mim em nenhum destes encontros. Não tenhas medo! Não sejas incrédulo, mas crê!”

Ao longo da obra, Tomas Halik cita Friedich Nietzsche amiúde e confessa que alimenta uma grande admiração por ele. Chega quase a pintá-lo como um reformador da Igreja: por força da sua negação de Deus, crua e violenta, Nietzsche é o antagonista feroz da fé cristã que, simultaneamente, obriga a teologia a repensar-se e, quiçá, a reformar-se (pelo menos quando não reage defensivamente cavando trincheiras).

A filosofia de Nietzsche procura abalar os alicerces da cosmovisão cristã e, de facto, suponho que não foram poucos os crentes em quem a filosofia de Nietzsche provocou um terramoto avassalador. Halik recorre à Odisseia de Ulisses para explicar o efeito da filosofia de Nietzsche: é para muitos o canto terrível e sedutor das sereias que, quando escutado, atrai, muda o rumo e conduz ao naufrágio; Ulisses, no entanto, não abdica de escutar o canto das sereias, decidindo amarrar-se ao mastro do barco para que não lhe seja possível aceder ao convite delas. Halik explica que lê Nietzsche amarrado ao mastro, amarrado a Cristo. Tem assim o sangue frio necessário para afirmar que “ele não seria Nietzsche se, mesmo onde se engana, não dissesse, ao mesmo tempo, algo de profundo”.

Instigado por Halik, eu também quis ler mais de Nietzsche para além dos excertos de algumas obras suas que analisámos brevemente nas aulas de Cosmovisão Cristã e Cultura Contemporânea. Por isso tenho estado a ler a obra Assim Falava Zaratustra. Os discursos e pensamentos do Zaratustra podem ser, para o cristão, extremamente irritantes e exasperantes. Por outro lado há que dizer que é uma obra de inegável valor estético: Nietzsche não é só um filósofo, é também um poeta, um trovador do nada

Nele encontro uma crítica da religião que propositadamente ultrapassa todas as fronteiras da blasfémia. É provocante, acutilante, não pede licença para entrar no compartimento dos nossos dogmas e crenças e tentar estilhaçar tudo o que ali encontra. É o ateu que quer levar o ateísmo até às últimas consequências. O materialista que quer levar o materialismo até à sua condição de rei e senhor. Mas creio compreender Thomas Halik quando afirma que há sempre algo de profundo nos dizeres de Nietzsche.

Vejamos um discurso do seu Zaratustra:

“Da mesma maneira projetei eu também a minha ilusão mais para além da vida dos homens à semelhança de todos os crentes em além-mundos. Além dos homens, realmente?

Ai, meus irmãos! Este deus que eu criei, era obra humana e humano delírio, como todos os deuses. Era homem, tão somente um fragmento de homem e de mim. Esse fantasma saía das minhas próprias cinzas e da minha própria chama, e nunca veio realmente do outro mundo.

Que sucedeu, meus irmãos? Eu, que sofria, dominei-me; levei a minha própria cinza para a montanha; inventei para mim uma chama mais clara. E vede! O fantasma ausentou-se! Agora que estou curado, seria para mim um sofrimento e um tormento crer em semelhantes fantasmas. Assim falo eu aos que creem em além-mundos.

Sofrimentos e incompetências; eis o que criou todos os além-mundos, e esse breve desvario da felicidade que só conhece quem mais sofre. A fadiga, que de um salto quer atingir o extremo, uma fadiga pobre e ignorante, que não quer ao menos um maior querer; foi ela que criou todos os deuses e todos os além-mundos.

Acreditai-me, meus irmãos! Foi o corpo que desesperou da terra: ouviu falar as entranhas do ser. Quis então que a sua cabeça transpassasse as últimas paredes, e não só a cabeça: até ele quis passar para o “outro mundo”. O “outro mundo”, porém, esse mundo desumanizado e inumano, que é um nada celeste, está oculto aos homens, e as entranhas do ser não falam ao homem, a não ser como homem.

(…)

O meu Eu ensinou-me um novo orgulho que eu ensino aos homens: não ocultar a cabeça nas nuvens celestes, mas levá-la descoberta; sustentar erguida uma cabeça terrestre que creia no sentido da terra.

Eu ensino aos homens uma nova vontade: querer o caminho que os homens têm seguido cegamente, e considerá-lo bom e fugir dele como os enfermos e os decrépitos. Enfermos e decrépitos foram os que menosprezaram o corpo e a terra, os que inventaram as coisas celestes e as gotas de sangue redentor; mas até esses doces e lúgubres venenos foram buscar no corpo e na terra!

Queriam fugir da sua miséria, e as estrelas estavam demasiado longe para eles. Então suspiraram: “Oh! Se houvessem caminhos celestes para alcançar outra vida e outra felicidade!” E inventaram os seus artifícios e as suas beberagens sangrentas. E julgaram-se arrebatados para longe do seu corpo e desta terra, os ingratos! A quem deviam, porém, o seu espasmo e o deleite do seu arroubamento? Ao seu corpo e a esta terra.”

(…)

Transparece neste excerto o desprezo profundo que Nietzsche nutre pela religião, pelos deuses e pelos além-mundos criados pelo homem. Em particular é patente e crua a crítica ao cristianismo enquanto metanarrativa que propõe a existência de um outro mundo, uma realidade celestial alternativa à terrestre à qual se acede por intermédio do sacríficio de Cristo. Uma realidade espiritual, inumana, não corpórea.

Zaratustra exalta o corpo e a terra e mais adiante há-de dizer que “tudo é corpo, e nada mais; a alma é apenas nome de qualquer coisa do corpo”. Incorre até em afirmações nada escrupulosas a respeito dos enfermos e decrépitos. (Alguns dizem que afirmações nietzschizianas deste género inspiraram a ideologia racial do nazismo alemão mas, numa primeira leitura, não estou certo de que seja correta uma interpretação demasiado à letra das mesmas. De qualquer forma essa é uma discussão histórica e filosófica para a qual não estou minimamente preparado). Talvez se torne muito difícil encontrar uma centelha de verdade neste discurso de Zaratustra.

Estando muito longe de ser especialista em Nietzsche e conhecendo pouco da sua obra, estou ciente de que corro o risco de analisar o Zaratustra de forma simplista e equivocada. Corro o risco de projetar nele as críticas que eu próprio faço à religião e, de forma infundada, aproveitar-me dele para verbalizar essas críticas. Mas viver é correr riscos, por isso arrisquemos: há algo que me parece pertinente e verdadeiro na crítica de Zaratustra aos além-mundos criados pela religião. Há algo que me parece levemente profético nas entrelinhas dos seus discursos agressivos e exasperantes. A crítica ao “outro mundo” desumanizado e inumano, a crítica aos caminhos celestes “para alcançar outra vida e outra felicidade”, a crítica de uma religião que se reduz a esperar que a morte chegue para aceder a uma outra felicidade, uma religião que desconsidera o “corpo” e a “terra” e que promove o desejo escapista, o arrebatamento para fora da realidade cá de baixo.

Ao contrário de Nietzsche, eu não acredito que tudo seja material e que a alma seja apenas nome de qualquer coisa do corpo. Aliás, eu nem sequer acredito que as coisas mais importantes sejam em si mesmo materiais. Acredito, no entanto, que só pode ser importante, belo e verdadeiro aquilo que é materializável.

O cristianismo não é uma religião para a alma. É antes uma religião para o homem e uma alma não é um homem. (Gosto da afirmação insistente do René Kivitz: “corpo sem alma é defunto, alma sem corpo é fantasma”). O evangelho de Cristo não é uma panaceia para elevar a nossa cabeça acima das nuvens terrestres enquanto lá em baixo o sofrimento se desenrola. Parafraseando o Rob Bell, diria que Jesus não veio para nos falar de uma realidade paralela, bela e maravilhosa à qual iremos aceder quando o pano aqui em baixo fechar; Jesus veio para nos mostrar esta realidade como ela é. Para abrir os nossos olhos com o colírio que brota da cruz e que nos permite ver quem nós somos, quem é o outro e quem Ele é, apontando, ao mesmo tempo, para a redenção completa dos elementos degradados desta realidade. Também Halik reforça este ponto ao afirmar de forma taxativa que “o Deus em que acreditamos não está por detrás da realidade, antes é a profundeza da realidade, o seu mistério, a realidade da realidade.”

Não teremos nós – crentes de tradição evangélica tantas vezes herdeiros de uma teologia com elementos dualistas perniciosos – demasiada tendência para colocar a esperança no “além-mundo” desprezando a terra e o corpo? Não construímos nós, através das nossas doutrinas, expectativas e cosmovisões, um cristianismo demasiado etéreo ao qual não é dada oportunidade de se materializar? Não deveremos também encaixar pelo menos parcialmente a crítica de Nietzsche?

Creio que sim. Creio que somos culpados de alimentar uma forma de viver a fé que só tem oportunidade de se concretizar na dimensão espiritual, entendida como oposta à dimensão material e não como complemento inerente a esta. Mas não terá Cristo vindo à terra precisamente para aniquilar o fosso entre o espiritual e o material? Mais uma vez, creio que sim. Por causa de Cristo podemos concluir que, se chamamos espiritual àquilo que diz respeito a Deus, então tudo é espiritual, porque ‘Nele vivemos e nos movemos e existimos’.

Estas questões podem parecer mera filosofia teórica, mas insisto em verbalizá-las e lançá-las ao vento, por estar convicto de que a nossa cosmovisão (e os elementos filosóficos que consciente ou inconscientemente lhe estão subjacentes) influencia profundamente a forma como vivemos. Aquilo que acreditamos acerca do corpo e da terra determina em grande medida o nosso compromisso com a realidade como ela é. Determina em grande medida a praxis que adotamos.

Por isso, arrisco dizer que, num certo sentido, o cristianismo é a religião da matéria. É a religião que precisa de corpo para se concretizar, para acontecer, para ser. Porque o amor só é amor se se materializar em abraço fraterno e mãos estendidas. A fé só é fé se se materializar em atos concretos. A esperança so o é se aquele que dela bebe agir como que guiado por ela.

Imbuído de espírito natalício, recordo ainda, e mais uma vez, que o cristianismo assenta na crença de que até Deus se “materializou” porque só assim poderia Ele revelar-se ao homem que é alma e corpo. Quase parece que Deus quis dar razão ao Zaratustra: as entranhas do ser não falam ao homem a não ser como homem.

A Palavra fez-se carne para a podermos ver e ouvir. Foi com essa finalidade que um menino nos nasceu. (Podíamos também explorar a metáfora usada por Paulo para explicar a Igreja: a Igreja há-de ser no mundo o lado visível e palpável do amor divino, o corpo.)

A encarnação é o grande mistério e paradoxo da história. O busílis da fé cristã. Por causa dela somos levados a valorizar o corpo e a terra não cedendo aos apelos das religiões (mesmo que se digam cristãs) que se desenrolam num plano puramente celestial desligado do chão da vida. A atitude de desprezo ou indiferença perante o mundo material é uma herança do dualismo platónico e não é compatível com uma cosmovisão assente no mistério da encarnação de Deus.

Em sentido inverso, é também a encarnação que derrota o Zaratustra que há em mim. Todas as tendências agnósticas ou ateístas calam diante do mistério da manjedoura. Juntamente com os magos, prostro-me junto ao berço de palha onde descansa a Palavra que criou todas as coisas e, ali, o apelo do ateísmo esfuma-se. Há uns tempos, numa entrevista ao Público, D. Manuel Clemente providenciou uma magnífica síntese da qual agora me aproprio:

“Não me convence nada do céu que eu não veja na terra. O que a palavra Deus poderia sugerir no abstracto é no concreto que a apanho. O verbo de Deus encarnado, para mim, é que é a religião.”

O brilhantismo louco de Nietzsche levou-o à rejeição total da religião e à elevação do próprio homem à condição de ser supremo. Mas ao ler o Zaratustra não posso deixar de pensar que ele está ainda assim mais próximo desta religião – o verbo de Deus encarnado – do que das religiões dos caminhos celestes que ele tanto critica.

Creio que a religião de que nos fala o Natal – o verbo de Deus encarnado – é a resposta cabal a todas as religiões e a todas as críticas religiosas. O Natal traz de volta à terra e ao corpo o Anti-Zaratustra que oculta a cabeça nas nuvens celestes sem dar crédito à realidade cá em baixo. O Natal é também a resposta para o Zaratustra que não se deixa convencer por nada do céu que não veja na terra: o verbo de Deus encarnou precisamente para ligar céu e terra ou, no dizer de Tomas Halik, para nos revelar as profundezas da realidade, a realidade da realidade.

Que seja, pois, verdadeiramente Natal para nós e morram os Zaratustras e os Anti-Zaratustras que nos habitam.

 

Microcosmos

 

O Júlio chegava ao bar e já lá estavam os companheiros habituais a ocupar os bancos dispostos em fila paralela ao balcão. Cada um deles com a respetiva caneca 3/4 ainda meio cheia. Abancava no único lugar vago, cumprimentava a trupe e juntava-se à amena cavaqueira sobre tudo e sobre coisa nenhuma. “O que vais querer hoje?” perguntava-lhe o barman só em jeito de quem confirma o que já sabe. “Quero o do costume!”.

Assim, noite após noite, o barman servia-lhe o do costume. E ali ficava ele mergulhado naquela cavaqueira cujo único interesse residia no facto de não ter interesse nenhum e cujo único fruto era a inconsciente ocupação do tempo.

Assim viveu o Júlio durante muitos anos. Assim passou as noites durante séculos. Foi uma eternidade cuja génese se perdeu no entulho da memória e cujos efeitos se metastizaram na mente e no corpo. Um niilismo que tudo corrói, uma panaceia que tudo adormece. Uma vida a consumir o do costume e o de sempre.

Às tantas o barman deixou de confirmar a preferência do Júlio e, sem consulta prévia, atestava-lhe a caneca 3/4 com o do costume mal a sua silhueta se fazia ver no alpendre do Microcosmos. O barman já não apontava para a lista de bebidas afixada na parede. Se o Júlio se satisfazia com o do costume, era isso que lhe iria servir. Afinal, o que interessa ao barman é sobretudo fidelizar os clientes e, se for com pouco esforço, melhor ainda!

Ora um dia, por qualquer razão corriqueira que não interessa ao caso, o barman fez saber que não poderia comparecer no serviço. A informação provocou algum alvoroço na gerência: era necessário recrutar um substituto para garantir que a clientela não se dispersava pelos bares concorrentes nem sequer numa única noite. Colocaram-se anúncios: “o Microcosmos precisa de barman experiente para esta noite”.

Pessoas da terra e pessoas fora da terra responderam ao anúncio. Deu nas vistas um candidato em particular: um homem de tez muito morena, pele queimada pelo sol, cicatrizes profundas resultantes certamente de algum grande mal que outrora lhe sobreveio. Não era, decerto, daquelas paragens. Não era um homem bonito e, na verdade, nada havia nele para que nele se reparasse, não fosse o facto de ser estrangeiro. Correu a informação não confirmada de que seria proveniente de alguma terra do médio oriente. Disse de si mesmo que era hábil, capaz de servir no bar e conhecedor de cocktails e bebidas nunca antes dadas a provar naquelas paragens capazes de saciar sedes para além da sede física. A forma como apresentou o seu currículo foi convincente e o homem foi contratado. (Apesar de quase deitar tudo a perder quando quis fazer crer que uma vez numas bodas de casamento tinha transformado água vulgar no melhor dos vinhos…)

Quando o Júlio entrou no Microcosmos naquela noite, o barman não lhe serviu o do costume nem o de sempre porque não conhecia as preferências de cada cliente. Via-se obrigado a perguntar a cada um: “o que vais tomar hoje?”. Quando chegou a sua vez, o Júlio respondeu: “É o do costume, em caneca ¾, se faz o favor!” E o barman, gentilmente, “Pá, desculpa amigo, eu não sei qual é o teu do costume. Tens de me ajudar sendo mais específico!”

Só nesse momento o Júlio reparou que o barman era novo ali e quis ajudá-lo. Mas verificou então que não se conseguia lembrar de qual era a bebida que todos os dias consumia no Microcosmos. A mesmice tem perigosos efeitos secundários e naquele momento o Júlio, consternado, tomou pela primeira vez consciência deles. “Não me lembro, #!”&=!$. Como é que é possível?!” As mãos lançadas à cabeça e uma perturbação crescente.

Durante alguns segundos o barman observou-o, de semblante analítico, olhar prescrutador. Depois declarou de forma decidida “Creio que passaste já demasiados anos a beber o do costume. Trago comigo a bebida ideal para ti.” Dito isto, baixou-se para retirar uma garrafa empoeirada de um caixote guardado na sombra atrás do balcão.

“O que é isso?” indagou o Júlio. “Prova apenas. Confia em mim! O primeiro travo pode ser amargo por nunca o teres provado, mas depois isto vai saber-te muito melhor que o de sempre!” Disse o barman com um certo tom de autoridade.

O Júlio hesitou. Não era dado ao inusitado. Não era dado à mudança. Mas sentia a garganta seca e tinha, definitivamente, de beber alguma coisa.

O barman serviu a bebida num copo pequeno: “Para primeira vez basta uma porção pequena!” O Júlio provou sem se pronunciar. Começou a travar conversa com os companheiros do costume e o barman deixou-o entregue a esse convívio e a saborear a bebida pouco a pouco.

À medida que se falava de tudo e de nada, o Júlio dava conta de que aquelas conversas tão batidas não lhe caiam bem naquela noite. Alheou-se da conversa e, bebendo um gole de vez em quando, começou a olhar à sua volta e a reparar em coisas que nunca tinha reparado no Microcosmos. Nas pessoas e no seu ar cansado. Nos motivos artísticos que decoravam o bar com ar de quem já há muito clamava por restauração. Na música de fundo um pouco pesada, repleta de guitarras e baixos com distorção máxima. Finalmente, a sua atenção posou sobre o barman que continuava numa azáfama a servir bebidas.

Estranha noite aquela em que pela primeira vez se sentia presente naquele bar frequentado durante anos e anos. Sentia que naquela noite, na presença daquele barman desconhecido e por culpa da bebida que ele lhe deu a provar, algo se tinha desencadeado e estava realmente a ver o Microcosmos como nunca antes tinha visto. Essa visão trazia, de facto, um travo amargo, mas estranhamente bom. Trazia-lhe um vislumbre de uma lucidez que nunca tinha experimentado até aí.

“Então?” perguntou-lhe o barman ao passar por ele. “Que tal a minha bebida?”

Em vez de responder, o Júlio deu por si a perguntar de chofre “Quem és tu? Tens de me dizer quem és tu!”. Calou-se e corou imediatamente por dar conta de que colocara a questão de forma indelicada. Nem sequer percebia de onde é que ela tinha saído. Parecia que uma parte de si, algures num âmago do ser que ele até então desconhecia, sentia a urgência da resposta.

O barman não se atrapalhou mas a resposta foi enigmática. Reagiu como se estivesse à espera daquela interpelação e disse apenas “eu sou o barman”. E continuou a preparar cocktails e a distribuir bebidas.

O Júlio emudeceu. Estava cada vez mais atordoado e cada vez a sentir-se mais presente. Teve a clara percepção de que na afirmação “eu sou o barman” se escondia uma verdade profunda. O Microcosmos pareceu-lhe de repente todo um quadro surrealista, um caleidoscópio de figuras e sons difusos, a girar em torno daquele barman que constituía ali a única realidade concreta. A única verdade concreta.

A noite já ia alta quando o pessoal começou gradualmente a despedir-se. Cada um dirigindo-se à sua casa como sempre.

O Júlio deixou-se ficar. O barman limpava as bancadas, arrumava louças, organizava as garrafas, assobiando baixinho uma melodia engraçada. Quando a coisa estava composta, reparou finalmente no Júlio que o olhava fixamente e que tinha diante dele o copo vazio depois de sorver as últimas partículas da bebida. “Então, gostaste?”

“Esta é a bebida mais estranha que já provei. Gostava muito de continuar a beber dela, mas amanhã estará de volta o outro barman e duvido que ele a saiba preparar. Vendes-me mais disto? Quanto tenho de pagar?”

“Ouve, tenho todo o prazer em oferecer-te esta minha especialidade. De graça. Tens aqui uma garrafa por estrear. Bebe só uma porção de vez em quando. É suficiente!” O barman estendeu-lhe uma garrafa empoeirada semelhante àquela que ele tinha visto sair de um caixote escondido atrás do balcão.

Júlio pegou na garrafa e um rótulo curioso chamou-lhe a atenção. Em destaque estava uma palavra formada por 9 caracteres gregos. Em baixo lia-se ‘Metanoia: bebida para uma transformação da consciência’.

O barman já se tinha dirigido para a porta. “Vamos?” A mão dele erguida, pronta a desligar as luzes, esperava apenas que o Júlio se encaminhasse também para a saída. Obediente, apertando com força a garrafa contra o peito, o Júlio saiu para a rua e o barman logo atrás dele. A escuridão de uma noite sem lua dominava o bairro. Mas nunca antes o Júlio tinha visto tanta luz.

Caiam lágrimas

Na Cidade Luz a noite fez-se negra. A morte e o terror irromperam de forma absurda, cruel e arbitrária. A perplexidade e a revolta apagam todas as luzes, calam todas as vozes, sufocam todas as lógicas de sentido e de esperança que buscamos na vida.

Sobram as lágrimas. Que caiam as lágrimas. Melhor lágrimas soltas do que palavras e atos de acusação equivocados e extemporâneos. Melhor lágrimas soltas do que revolta cega que não distingue vítimas de culpados.

Hoje renovou-se a manifestação cíclica de que a humanidade se mata a si mesma. A humanidade só o é se for una. Portanto, somos uma humanidade que não o é. A humanidade só será humanidade quando a  igualdade, a fraternidade e a liberdade se universalizarem e absolutizarem não nas constituições dos países ou nos pactos internacionais, mas nos corações de todos os homens e mulheres. A visão utópica que catalisou a revolução francesa traz sim indícios do que é ser humanidade, embora a concretização desse visão tenha sempre ficado aquém. Visão essa que hoje foi, mais uma vez, ferida e morta. Ferida e morta em salas de espetáculos, em esplanadas, ruas e avenidas da bela cidade. Ferida e morta porque parte da humanidade persiste na absolutização do ódio e porque parte da humanidade, em reação, persiste na absolutização da vingança, do olho por olho e dente por dente.

O que fazer? O que dizer? Como agir neste mundo onde o absurdo e até o diabólico parecem imperar?

As respostas esfumam-se sem chegar à tona. Não ultrapassam o nó que se forma na garganta, o aperto que dói no coração. Mas talvez seja melhor assim. Talvez seja melhor o silêncio. Que caiam apenas as lágrimas. Que delas se encha a noite negra, que delas se encham as nossas casas. Que caiam apenas as lágrimas. Que com elas se lave o sangue e as feridas das vítimas que são também nosso sangue e nossas feridas. Que caiam apenas lágrimas nesta noite escura em que percorremos com perplexidade a via dolorosa do luto, da ausência de respostas, da impotência.

Talvez venhamos a perceber que de uma outra Via Dolorosa já anteriormente percorrida resulta a única certeza que podemos ter: a certeza de que a vida é mais poderosa do que a morte; a certeza de que o amor, aparentemente fraco e impotente, vence o ódio; a certeza de que a humanidade verdadeira é possível pois o primeiro de entre os verdadeiros homens manifestou-se, enfim, na alvorada do terceiro dia.

Evolução, Morte e Vida

É passado o tempo em que eu pensava que para defender a fé cristã tinha de ser um acérrimo opositor do evolucionismo. Lia livros que explicavam como a teoria da evolução se tinha imiscuído nos meios académicos como uma divagação ateísta travestida de ciência. Aceitava a falsa ideia de que o evolucionismo se impunha como uma forma de afrontar a cosmovisão cristã da nossa sociedade ocidental.

Creio que nunca cavei trincheiras em torno do criacionismo em 6 dias literais nem da hipótese da terra jovem. Estava já recetivo a uma interpretação mais flexível do livro do Génesis, segundo a qual cada dia da criação poderia significar 1.000 anos ou 1 milhão de anos, por exemplo. Mas cavei trincheiras em torno da não-evolução, recusando-me a considerar a hipótese de que a macroevolução pudesse ter desempenhado um papel no processo da criação.

Hoje percebo que a minha abordagem se baseava em diversos equívocos:

  • Pressupostos muito rudimentares e equivocadamente rigídos sobre a natureza e o comportamento da Bíblia;
  • Uma atitude demasiado crédula em relação aos livros que lia e à acusação que os autores faziam de que os cientistas evolucionistas deturpavam propositadamente os seus dados, experiências e estudos;
  • A aceitação pouco reflectida da premissa de que o criacionismo se esvai automaticamente com o evolucionismo.

Não foi da noite para o dia que a minha perspetiva mudou. Foi um processo lento, sendo difícil dizer quais as razões e os motores dessa mudança. Terá passado certamente por uma nova compreensão acerca da natureza da Bíblia, compreensão ainda em permanente construção. (E se calhar fez diferença também o álbum dos Gungor que lançaram o magnífico A Creation Liturgy, mostrando que se pode acreditar na evolução e ser um poeta da criação.)

Não pretendo agora fazer a defesa do evolucionismo, voltando a cavar trincheiras desagradáveis e infrutíferas. Mas defendo o seguinte: que parece ser um mito a incompatibilidade entre o evolucionismo e o cristianismo.

Acredito que toda a verdade – venha ela da Bíblia, da ciência ou da nossa vida diária – é verdade de Deus. Se A nos parece verdade mas, ao mesmo tempo, parece colocar em causa a fé cristã, não é bom reagir em auto-defesa dizendo que A tem de ser forçosamente falso. É melhor investigar: será que A é mesmo verdade? E será que a veracidade de A coloca mesmo mesmo em causa a fé cristã? Isto chama-se honestidade intelectual. E mesmo que o processo desague na assustadora conclusão de que, por um lado, A é mesmo verdade e, por outro lado, é mesmo incompatível com o cristianismo, será que não podemos aprender a conviver com a aparente contradição? Será que não é também essa capacidade de conviver com o paradoxo que merece o nome de ? (E tantos paradoxos que o cristianismo tem!)

(Importa também lembrar a nós mesmos que as conclusões lógicas produzidas pela nossa mente são falíveis – porque é falível a nossa mente – pelo que aquilo nos parece contradição talvez na realidade não o seja.)

Assim, tenho hoje uma predisposição para crer na ciência, na biologia, na astrofísica, nas pistas e conclusões fascinantes que nós meros homens vamos obtendo sobre a forma como funciona este universo misterioso, magnífico, assombroso. E mesmo que seja feita uma quantidade enjoativa de má ciência (basta atentar aos estudos patetas que nos entram pelo facebook diariamente sobre encher chouriços) será que não devemos dar crédito às teorias científicas quando elas reunem o consenso geral das mentes científicas mais brilhantes?

Portanto, tenho hoje, como disse, uma predisposição para crer na ciência. Aceito a possibilidade de que o evolucionismo seja, atualmente, a melhor explicação para a origem das espécies. Simultaneamente, não deixo de acreditar que, qualquer que tenha sido o processo que nos trouxe aqui, foi supervisionado pelo Deus Criador. Talvez tenha sido ao longo de milhões e milhões de translações que Ele moldou este mundo e fez evoluir a vida que nele prolifera, desde os mais pequenos microorganismos, até aos extintos dinossauros. Tudo isto Ele foi pintando lentamente na tela misteriosa que é a Terra: esta possibilidade de uma criavolução poética não belisca a minha fé cristã.

Se por um lado muitos cristãos evangélicos continuam entrincheirados a travar a velha batalha que me parece há muito perdida, por outro lado é cada vez maior o número de cristãos que têm chegado a esta conclusão: a evolução não belisca necessariamente a fé cristã. Se toda a verdade vem de Deus, a verdade produzida pela ciência não é menos verdade do que a verdade produzida pela teologia. Claro que o mundo não se torna subitamente cor-de-rosa para quem aqui chega. Surgem novos desafios: até que ponto é que o evolucionismo abala as doutrinas cristãs?

Reparem que traço uma distinção intencional entre abalar doutrinas cristãs e abalar a fé cristã: em última análise, a fé do cristão não é baseada ou dirigida para a doutrina, mas para a pessoa de Jesus Cristo. Mesmo que uma doutrina morra – ao longo da História da igreja já muitas doutrinas, filhas do seu tempo, nasceram, cresceram, envelheceram e morreram com justiça – Cristo permanece vivo.

Ora um dos assuntos mais controversos quando se trata de conciliar evolucionismo e teologia cristã diz respeito à origem e à natureza da morte. Os cristãos, sobretudo das tradições protestantes, habituaram-se a sistematizar o Evangelho em pontos ou etapas: Criação; Queda; Jesus; Juízo Final. Nesta sistematização, a morte é teologicamente encarada como um resultado direto da Queda do homem (aquele história milenar que se pode ler no Génesis sobre Adão, Eva e o fruto proibido). Diz a teologia criacionista que a Criação era inicialmente perfeita, convivendo em total harmonia. A morte estava ausente do mundo. Depois Adão e Eva pecaram e trouxeram condenação para eles próprios e também para a natureza: animais e plantas passaram a destruir-se uns aos outros e a harmonia transformou-se num violento caos.

Porém, no evolucionismo a morte é tida como um aspeto essencial do mecanismo de evolução das espécies e, obviamente, a morte teria de estar presente no mundo desde o início do processo. Assim, o evolucionismo coloca em causa a sistematização do Evangelho, obrigando-nos a revê-la. (Devo confessar que considero pertinente a revisão desta sistematização independentemente de aceitarmos ou não o evolucionismo. Os 4 Pontos podem ser uma ferramenta introdutória enquanto modelo explicativo do Evangelho, mas são também de utilidade muito limitada e muito simplistas.)

O problema da morte é bicudo para os cristãos evolucionistas! Eis algumas das ideias sugeridas para o resolver (cada uma delas traz consigo fragilidades e dificuldades extra que opto por não abordar aqui):

  1. A morte física está presente na criação desde o início e para todas as criaturas, não sendo consequência do pecado. A morte resultante da Queda é apenas a morte espiritual.
  2. A morte física está presente na criação desde o início e para todas as criaturas que foram evoluindo até surgirem hominídeos e, mais tarde, homo sapiens. Algures no processo Deus decide fazer um pacto com um casal de humanos nos quais coloca a sua imagem e semelhança. E é para estes seres humanos e os seus descendentes que a morte (física e espiritual) se constitui como um resultado da Queda.
  3. A morte sempre esteve presente na criação para todas as criaturas e a Queda relatada no Génesis não é mais do que uma explicação simbólica daquilo que a humanidade (como um todo) e cada homem (individualmente) obtém pela má utilização do seu livre-arbítrio.
  4. Outros?

Em relação a este imbróglio teológico não tomo para já qualquer posição. Pretendo apenas partir daqui para dizer que deste género de ideias já vi resultarem perspetivas sobre a morte que me incomodam, num incómodo que talvez seja mais filosófico e existencial do que teológico.

Há uns tempos li um texto em que o autor, cristão evolucionista, fazia uma espécie de elogio da morte (não me lembro do autor). Para advogar a sua ideia de que a morte está presente na criação desde o início e tentar compatibilizar essa ideia com a bondade da criação, ele apresentava a morte como algo positivo. Como se fosse um processo de reciclagem desejável. Ou como uma forma de libertação da alma na linha do pensamento platónico. (É certo que o apóstolo Paulo por vezes parece incorrer numa espécie de platonismo, mas creio que é mais intenção dele opor-se a essa corrente do que advogá-la. Algo que fica claro, aliás, na afirmação de que Cristo ressuscitou em corpo!)

Eu não consigo conceber a ideia de que a morte é positiva. No íntimo da minha alma existencialista abomino a morte. Todas as formas de morte. Mesmo sendo eu, por vezes, um veículo dessa mesma morte quando me trato mal a mim mesmo, ao outro ou ao planeta.

Detesto a deterioração que se instala no meu corpo, nos meus ossos, nas minhas entranhas. É a vida que desejo e que anseio. Torrente de vida fresca e abundante, plena e esfuziante. Eterna dança de júbilo e amor!

Não quero morrer,
quero viver mais,
quero viver sempre
e abraçar o mundo
e abraçar todos!

A minha alma recusa uma cosmovisão em que a morte seja alfa ou ómega.
Para a minha alma, que clama por eternidade, a morte é o grande inimigo.

Convivo então com esta ambiguidade. Com os dados de que disponho tenho de afirmar que é altamente provável que o evolucionismo seja ciência da boa e verdadeira. De alguma forma, isso significa que a morte está cá há mais tempo do que nós, cristãos, pensávamos. Quanto às ramificações teológicas, podem ser profundas e dar algumas dores de cabeça, mas temos uma vida inteira para as explorar e tentar apaziguar a mente quanto às contradições que vão surgindo.

Mas é na alma que as ramificações deste assunto mais magoam. Ora aquilo que de absoluto prevalece no meio destas considerações – e que me traz oxigénio à alma – é que Jesus – aquele em quem assenta a minha fé – venceu a morte!

Os vossos velhos terão sonhos

Quando o sonho apareceu por aquelas paragens, surgido não sabemos bem de onde, o gaiato, ainda muito novo, decidiu imediatamente adotá-lo. A família acolheu a ideia com agrado: era ainda um sonho disforme, inofensivo e gracioso, bom para o desenvolvimento infantil do petiz. Na adolescência o sonho ganhou forma e, não raras vezes, encontrávamos o rapaz a cuidar dele: lembro-me de o ver a brincar com o sonho, a rebolar no chão com ele, a tratá-lo, embelezá-lo e a alimentá-lo. Aquele jovem tinha um sonho tão catita e imponente que até o levava a participar nos concursos regionais. Uma vez chegou mesmo a ganhar o 1º Prémio na 5ª edição do Salão Anual de Sonhos.

E o sonho era livre, corria solto e ágil. Cavalgando o sonho, a imaginação do rapaz galopava por expectativas incontroláveis. Lembro-me das emoções que o sonho do rapaz despertava em mim. Era um sonho belo e até um pouco contagioso! Talvez a inocência e a alegria do rapaz, ao empunhar o seu sonho como se se tratasse da arma mais poderosa de todas, me fizesse recordar os sonhos que outrora eu próprio chegara a colecionar…

O que é certo é que naqueles anos o sonho era o companheiro e o melhor amigo do rapaz. Eu conhecia bem aquela família, muitas vezes frequentava a casa deles e via como o sonho constituía o alento e a bússola daquele rapaz. Numa ocasião tive de lá pernoitar, por conta de uma tempestade de neve e gelo que se abateu sobre a região e me impediu de regressar a casa depois de os visitar. Nessa ocasião reparei que o rapaz e o sonho nunca se largavam um ao outro e, mesmo de noite, o sonho ficava ali, aos pés da cama, raramente adormecendo. Suspeito que de manhã, quando os primeiros raios dourados irrompiam pelo quarto, estando o rapaz apenas meio desperto, já o sonho se aninhava junto dele. Provavelmente as primeiras sensações matinais que o rapaz captava eram os sons, os cheiros e os sabores que aquele sonho provocava.

Mas o rapaz cresceu. Cresceu e foi percebendo que à medida que crescia entrava num novo mundo, numa nova realidade social e cultural na qual o seu sonho fazia levantar sobrolhos. Aos poucos, o sonho deixava de ser bem visto. Dele esperava-se menos sonho e mais realismo, que é como quem diz: menos esperança e mais conformismo. Sentia-se censurado mesmo quando não lhe dirigiam palavras. Indagava com os seus botões se deveria dar crédito a essa censura… E, ao longo desse processo, o seu amor pelo sonho esmoreceu.

As palavras de repreensão chegaram mesmo e cada vez com mais frequência: “O sonho não pode andar por aí à solta a acompanhar-te para todo o lado” diziam-lhe. “O melhor que tens a fazer quando vens trabalhar é deixar o sonho em casa”. A memória não me ajuda a ter certeza, mas penso que também eu lhe terei dirigido reparos deste género por considerar que o rapaz tinha de se centrar naquilo que era realmente importante.

A pressão externa tornou-se mais frequente, mais densa. Criou-se também uma pressão interna, uma voz dentro dele a dizer-lhe para abandonar o sonho. E o rapaz cedeu à pressão. Deu crédito às vozes que queriam abafar o sonho. Pensou: “de facto, nesta sociedade não é bom para mim deixar o sonho à solta e fazer-me acompanhar dele 24 horas por dia, mas posso continuar a cuidar dele em part-time”.

Então, construiu um compartimento para o sonho e arranjou uma trela para o prender lá dentro. Decidiu que manteria o sonho ali preso durante o dia, mas no regresso do trabalho poderia passar tempo com ele como fizera até então.

Mas este não era um sonho qualquer. Tratado durante tantos anos como o fiel companheiro, apaparicado e acarinhado continuamente, não aceitaria agora descer à condição de sonho a part-time. Latia dias a fio, triste por se ver preso e longe do seu dono. Como era intenso aquele latir! Eu sei-o bem: tinha-me mudado para aquele bairro e ouvia-o diariamente. Era um bairro muito agradável onde eu esperava gozar a minha reforma dedicando-me tranquilamente a escrever umas historietas parvas que alinhavara durante décadas e que gostaria de ver publicadas. Mas durante aqueles dias nada consegui escrever e muito lamentei a minha decisão de mudar para lá. O constante lamento do sonho do outro fazia doer o meu coração!

Às vezes o sonho resistia e esperneava até se soltar. Tinha muita força! Depois andava por ali completamente desvairado a aterrorizar todos os vizinhos. Quando o rapaz chegava, o sonho era bem capaz de o morder, de o ferir por fora e de o consumir por dentro. A cada dia que passava o sonho revelava-se como um bicho absolutamente indomável. Só que, ao mesmo tempo, definhava gradualmente, extinguia-se a olhos vistos.

Finalmente o rapaz, cansado de viagens ao pronto-socorro e já cheio de cicatrizes, e também triste por ver definhar o sonho, tomou a decisão de o mandar abater. “É preferível viver sem sonho” dizia ele “para garantir a minha tranquilidade do que, tendo o sonho, ser completamente corroído por ele”.

Quando numa conversa de café a vizinha da frente me deu a conhecer a decisão do rapaz, eu fiquei muito chocado. Arrependi-me dos reparos que lhe tinha feito. Fiquei cheio de remorsos… Tendo bem viva na memória a lembrança de quão belo era o sonho daquele rapaz – tão belo que até ganhava prémios – fui tomado por um impulso irrefletido e irresistível. Corri para casa dele, tremendo de ansiedade por não saber se chegaria a tempo de impedir o desastre. Cheguei no último segundo! A equipa do posto municipal de abate de sonhos já se preparava para lhe aplicar um sedativo antes de o transportarem para abate. Eu, sem pensar duas vezes, ofereci-me para adotar o sonho.

Não sei bem o que raio é que no meu espírito motivou esta oferta. Eu sinto-me velho e embrutecido e interrogações sem fim percorrem a minha mente: é-me lícito ser dono deste sonho? Poderei eu dar-lhe forma e voltará ele a galopar livre e solto? Terei eu ainda tempo e energia para embarcar nele rumo a aventuras inefáveis? Poderá ainda brotar esperança neste coração que se habituou a abrigar só desencanto?

A mente segue armadilhada por toda esta panóplia de perguntas. Mas o que é certo é que dou por mim constantemente a acarinhar o sonho com uma secreta expectativa de o ver reabilitado nas minhas mãos.

Um Deus com quem se pode lutar?

Conheço um homem chamado Jacó que de vez em quando me conta um episódio inacreditável. Diz que lutou com Deus e venceu! Contado nestes termos parece que o Jacó é meio lunático. Parece que há-de ser um gajo cujo cérebro está meio pifado. Mas é mesmo assim que ele conta a história! Ora eu, por muito respeito que lhe tenha por ser uma pessoa já de idade e aparentar alguma sabedoria, também reajo com incredulidade…

Os deuses que me vão sendo apresentados, quer seja pessoalmente, quer seja por ouvir falar deles, são deuses demasiado cheios de si para permitirem que alguém trave uma luta com eles. E é completamente inimaginável que algum deles se deixasse vencer caso essa luta chegasse a acontecer. Todos os deuses que conheci são deuses que subjugam ainda antes de podermos levantar a voz ou a mão contra eles. São deuses que escravizam e espezinham sem misericórdia. São deuses cruéis. Dialogar com os homens comuns seria, para qualquer desses deuses, um inaceitável sinal de fraqueza. Não admira que com tantos deuses destes o ateísmo seja crescente. Mais vale negar-lhes a presunção de divindade do que dar-lhes o prazer supremo de serem entronizados por aqueles a quem torturam.

O Jacó fala de um Deus muito diferente. Ele conta que numa ocasião, estando só a atravessar a noite da vida, cheio de dúvidas e cheio de medos, Deus veio ao seu encontro e travaram um combate intenso. Trocaram argumentos, lutaram até à exaustão e o Jacó diz que a luta deixou marcas profundas ao ponto de ter passado a coxear. Quando, por fim, Deus desistiu de lutar, já nascia o sol para Jacó…

Eu não acredito nesta história. Até porque Jacó significa ‘enganador’ e este tipo já me contou acerca de outras ocasiões em que as suas atitudes fizeram jus ao nome. Até o facto de agora coxear pode ser apenas teatro. Porém, em sua defesa, ele diz que depois da luta Deus o abençoou e deu-lhe um nome novo. Diz que ele é, agora, uma pessoa nova e diferente, já não deseja enganar ninguém. Mas tudo isto me parece demasiado bizarro.

Um Deus com quem se pode lutar? Confesso que, no âmago do meu ser, eu queria que sim! Que houvesse tal Deus: um a quem pudesse colocar todas as questões existencialistas que me inundam a alma. Um que aceitasse ser confrontado com todos os porquês e todos os ses. Um que aceitasse entrar nesta luta sem me destruir, sem me aniquilar de imediato. Um que no fim da luta até me abençoasse! Caraças, como seria porreiro conhecer tal Deus, se ele existisse! Teria de ser um Deus muito próximo, muito humano. Teria de ser um Deus vulnerável. Na verdade, quando comparado com todos os deuses que me vão sendo apresentados, este teria de ser uma espécie de anti-deus: a antítese de todos esses deuses. Mas a lógica e a experiência diz-me que o Jacó está enganado: não há nenhum Deus assim, pois não?
(História do Jacó: Génesis 32:23-33)

Vida

Que seja achada carne em mim, quando voltares.
Que seja achada carne em mim, não só pedra.

Que seja achado sopro em mim, quando vieres.
Que seja achado sopro em mim, não só ossos.

Que seja achado o outro em mim, quando chegares.
Que seja achado o outro em mim, não só ego.

A tabuada estrambólica de Deus

A matemática do sermão do monte, das parábolas e do próprio percurso de Jesus não está de todo afinada com o pragmatismo a que obrigam a economia global e o darwinismo social. Num mundo de competição à escala global parece inconcebível dar a outra face, impossível amar os inimigos, parvoíce ajuntar tesouros no céu, loucura não nos preocuparmos com o que iremos comer ou vestir, ilógico aceitar ser o último para ser o primeiro…

Tem piada tentarmos imaginar Jesus a apresentar o seu modelo económico numa reunião do Eurogrupo ou do FMI. É certo que seria de imediato tido como um lírico ou lunático e as suas palavras seriam desprezadas. A complexa máquina financeira dos nossos dias não se compadece com um caminho que valoriza mais corações ricos do que saldos bancários compridos. (Tenho cá para mim que esta máquina é o monstro do nosso século: o monstro que criámos, cheios de ilusão, mas que passou a dominar o criador sugando tudo quanto pode. O homem é, hoje, escravo do monstro…)

Também eu hesito ao ouvir a mensagem do mestre nazareno. Também eu estou possuído pelo espírito de competição feroz, aquele que o Donald Miller tão bem descreve no seu livro Searching For God Knows What – diz ele que é como se o mundo fosse um bote salva-vidas em que todos estão com medo de ser lançados borda fora, pelo que todos vivemos obcecados em mostrar que merecemos o lugar e que o outro é mais dispensável.

Também eu tenho a retina ferida pelo pragmatismo gélido. Ele está enraizado no globo ocular e é-me extremamente difícil ver as verdadeiras matizes do mundo e do outro. Talvez fosse este o problema dos cristãos de Laodiceia (Apocalipse 3:14-22) e, por isso, tenham sido exortados a comprar remédio para os olhos de modo a poderem ver a realidade como ela é. Também eu preciso desse remédio.

Encontro-o em Jesus. De Jesus não herdamos apenas palavras. Dele bebemos as palavras, mas também (quem nele deposita a fé e a esperança) aprendemos e somos profundamente transformados pelo facto de ele ter sido a encarnação das suas próprias palavras. Parece-me que esta compreensão é absolutamente central para a fé cristã: Jesus e a sua mensagem são um. Os Evangelhos contam-nos que tudo quanto pregou ele demonstrou. Deu vida às suas palavras até às últimas consequências. Deu vida à sua mensagem até ao ponto de morrer em sintonia com essa mesma mensagem.

Assim, Jesus mostrou-nos o caminho, o tal caminho a que o Henri Nouwen chama o ‘caminho descendente’ de Cristo. E Jesus convida-nos para palmilhar esse caminho prometendo que é o caminho mais excelente.

A Europa depara-se com uma situação de crise humanitária. A situação é extremamente complexa e delicada e não pretendo sugerir que há soluções fáceis. Mas o que é certo é que urge dar resposta às multidões de refugiados que procuram segurança e uma nova vida no velho continente. Urge criar políticas para que estas pessoas sejam recebidas nos nossos países e condições para que neles vejam resgatada a sua dignididade humana.

O pragmatismo do ego conduz-nos a uma matemática demasiado redutora: diz-nos que não podemos aceitar que os nossos filhos tenham menos para que o outro – ainda por cima, estrangeiro, estranho, desconhecido – tenha mais. Mas a estrambólica tabuada de Deus diz-nos que podemos. É que, no fundo, a doutrina cristã afirma precisamente que Deus aceitou que o seu Filho tivesse menos. Aceitou que o seu Filho fosse desprezado e abandonado pelos homens, alguém para o qual se evita olhar, tratado sem nenhuma consideração. Aceitou tudo isto para que o outro (que, por acaso, sou eu e tu) tenha mais. Talvez possamos imitar Deus e fazer uso da sua tabuada que fica bem vísivel no princípio basilar do cristianismo: o corpo de Jesus, mutilado, torturado e desfigurado, foi partido por nós. Como memorial perene desse acontecimento central da história, partimos o pão nas nossas comunidades, nas nossas reuniões, cultos ou missas. Comungamos. Compartilhamos. E neste pão, que é partido e repartido por nós, temos mais.

Repartimos e temos mais vida.
Repartimos e temos mais humanidade.
Repartimos e enriquecemos.

E saímos das nossas reuniões dominicais para continuar a aplicar o mesmo princípio semanalmente: partimos o pão e damo-lo diariamente ao outro. O pão, a roupa, o tempo, o ouvido, o abraço… O Rui Vieira foi o primeiro de quem ouvi que alimentar o faminto, vestir o nú, cuidar dos necessitados, doar tempo ou dinheiro, é também tomar a ceia (expressão tão querida para os evangélicos). Concordo tanto!…  E Também nestas coisas funciona a tabuada de Deus.

Doamos e temos mais vida.
Doamos e temos mais humanidade.
Doamos e enriquecemos.

Na Europa reina hoje uma cosmovisão carregada de ironia. Ela orgulha-se dos seus valores humanistas e da vanguarda na luta pelos Direitos Humanos, mas rejeita a matriz judaico-cristã de onde brotaram esses valores (a relação direta entre a mensagem cristã e a moderna noção de direitos humanos parece-me uma tese muito defensável). Mas talvez o continente dos cristãos não praticantes e dos cristãos feitos ateus possa agora inscrever na história, neste momento de crise, um bonito capítulo. Um capítulo à imagem e semelhança de Cristo.

Assim oro. E que a Igreja esteja na linha da frente a demonstrar como se faz a tabuada! Não a do ratinho, mas a outra, aquela estrambólica que Deus usa.

“Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver. 

Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? Ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? Ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? 

E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes. 

Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes. 

Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? 

Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim. E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna”

Mateus 25:34-46

When the world goes global, the church goes local

Vamos! Às nossas cidades, aos nossos bairros e ruas. Sejamos missionários nas nossas próprias comunidades. Nos cafés e bares, nos polidesportivos e conservatórios, nas escolas, nas padarias, nos pequenos e grandes comércios, nos parques infantis e nos mercados tradicionais, nos transportes públicos e nos consultórios médicos.

Esta é a vocação da Igreja. Sempre foi. Agudiza-se agora a urgência de que a Igreja seja Igreja, num século em que as sociedades se tornaram demasiado globais e fragmentadas, exarcebando tudo quanto é virtual e étereo. Agudiza-se agora a urgência de que a Igreja seja uma presença local efetiva, autêntica e palpável.

Que a Igreja promova nas nossas cidades as redes de proximidade capazes de garantir que os anónimos, os sós e os perdidos são acolhidos. Que a Igreja seja nas nossas cidades o abraço autêntico e abnegado ao homem que, embrenhado neste aparato de tecnologia, de ritmo e de ruído, talvez nunca antes se tenha sentido tão profundamente só.

Vamos de joelhos dobrados e coração aberto! Servir, doar, amar a cidade.