Pontos e contos de um cristão pós-moderno

Categoria: Uncategorized

Realidades Paralelas Há Muitas

Li recentemente ‘O Triunfo dos Porcos’, genial e incisiva alegoria de George Orwell sobre o processo que levou à ascensão de Estaline ao poder e ao seu terrível regime. Na obra, a Rússia Soviética é representada por uma propriedade agrícola na qual os animais são explorados e maltratados pelo homem – o proprietário. Gradualmente, a utopia revolucionária cresce na consciência dos animais até que se dá a revolta destes e a expulsão do proprietário. Os animais procuram depois formas de autogoverno e dão o poder aos porcos – supostamente mais instruídos e preparados. De entre estes, e por meio de intrigas e conspirações, ganha destaque Napoleão: um porco que se deixa corromper pelo poder. Abreviando a história, Napoleão vai exercendo uma opressão cada vez maior sobre os animais da quinta, mas constrói uma realidade paralela, mentindo, deturpando os factos e inventando absurdas teorias da conspiração para garantir que continua a ter lealdade dos animais. Finalmente, acaba por se tornar tão ou mais facínora do que o proprietário inicial da quinta.

Como o próprio Orwell afirma, o conto não é apenas uma sátira à revolução russa mas a todo o género de revolução “violenta e conspirativa, conduzida por pessoas inconscientemente sedentas de poder”. Nas palavras do autor, “a moral da história pretendia ser a de que as revoluções só conduzem a melhorias significativas quando as massas estão alerta e sabem como expulsar os líderes assim que estes cumprem a sua missão”.

A sucessão de acontecimentos em torno do Sporting Clube de Portugal e do seu Presidente ao longo das últimas semanas traz-nos, portanto, uma nova ilustração da alegoria de George Orwell. Impressiona a capacidade que Bruno de Carvalho tem tido de criar uma realidade paralela e impressiona ainda mais a cegueira das massas que nele continuam a crer.

Tendo em conta a história recente do Sporting, aceito que muitos adeptos tenham acolhido o discurso disruptivo e a postura inicial de Bruno de Carvalho como a receita adequada para se verem livres dos anteriores proprietários que não demonstravam amor pelo clube nem respeito pelos adeptos. Contudo, é muito difícil de compreender como é que tantos adeptos continuaram a dizer amém ao líder quando, de forma cada vez mais descarada, este passou a desrespeitar os adeptos e o clube, fazendo-se confundir a ele próprio com a instituição a que preside e minando o futuro desta instituição de forma calamitosa. A reação destes adeptos reproduz um outro elemento brilhante do conto orwelliano: os discursos de Napoleão eram sempre aclamados pelos sonoros balidos de um coro de ovelhas acríticas.

Suponho que haja, neste fenómeno coletivo, uma cegueira que funciona como autodefesa da psique humana contra a dissonância cognitiva: é duro ver o rotundo falhanço daquele em quem antes depositámos tanta fé e, por não termos de lidar com essa dureza, preferimos não ver. Quando investimos totalmente a nossa esperança numa figura que ganha contornos messiânicos, e quando baixamos a guarda e deixamos de estar alerta para a realidade paralela que essa figura procura criar, torna-se muito difícil encontrar o distanciamento que é necessário para vermos a realidade como ela é e abandonarmos a fé nesse messias.

Esta fuga massiva à dissonância cognitiva foi também um dos fatores que contribuiu para que diversos totalitarismos tenham assolado o século XX. Agora, quando julgávamos que os totalitarismos eram tendências do passado, eis que eles ameaçam regressar em força, cavalgando a era das fake news e do incontrolável esgoto das redes sociais. Até o ‘politicamente correto’, que quer inundar o espaço público atual, resulta de uma ideologia totalitária baseada num estilo de policiamento da linguagem que é profundamente orwelliano, pois pretende criar uma realidade paralela. (A realidade descreve-se e interpreta-se por meio do uso das palavras; mas que realidade podemos nós descrever e interpretar se as palavras que nos serviriam são agora banidas do espaço público?)

Como diria Orwell: importa que as massas estejam alerta. E como diria Jesus: sejam simples como as pombas, mas prudentes como as serpentes.

As massas insistem na cegueira, mas, há, ainda assim, a responsabilidade individual de cada um de nós: nada nos obriga a seguir as massas; a multidão não nos deve servir de refúgio, nem tão pouco nos serve de atenuante. A História já nos avisou que as massas são traiçoeiras. Como escreveu Kierkegaard: a multidão é falsidade (“the crowd is untruth”).

Ora, por fim, devemos aceitar que a mesma análise crítica se aplique a tudo o que diz respeito à religião. De facto, o ambiente religioso é também muito propício ao surgimento de ‘realidades paralelas’ e o evangelicalismo não lhes está imune. Veja-se, por exemplo, a fama que conseguem granjear personalidades como Ken Ham (nos EUA) e Adauto Lourenço (no Brasil e também por cá) apenas porque dizem defender cientificamente o suposto ‘criacionismo bíblico’. Ou, noutro exemplo, veja-se a adesão que ciclicamente se regista em torno de profecias sobre isto ou sobre aquilo. Não será que estes são exemplos que ilustram a crendice acrítica a que somos susceptíveis? E ainda que, dentro do meio evangélico, estes sejam exemplos extremos, não se dará o caso de existirem outros mais generalizados – e também mais difíceis de identificar e, por isso, mais perniciosos?

O alerta de Orwell e a presente sequência de acontecimentos no Sporting servem-me de mote para pensar na forma como vivo a minha vida. A pergunta vem, naturalmente, à minha mente: será que também tenho alguma grande dose de cegueira na minha vida? Será que também há situações em que dou o meu amém porque os meus ouvidos seletivos só captam aquilo que a minha mente quer ouvir para evitar dissonâncias cognitivas? Quais são os meus Estalines e Brunos de Carvalho? Ainda estou à procura das respostas, mas creio que é importante mantermos sempre presente o eco destas perguntas pois elas podem reduzir a susceptibilidade de darmos o triunfo aos porcos.

Posto isto, o leitor não cristão pode perguntar  se o cristianismo não é ele próprio uma realidade paralela. Reconheço nessa pergunta uma grande dose de pertinência. O objetivo deste texto não passa por lhe dar resposta, mas esboço, ainda assim, um enquadramento para que se procure essa resposta. O cristianismo assenta na vida, morte e ressurreição de Jesus. Se ele efetivamente viveu entre nós, morreu e ressuscitou conforme narra o Novo Testamento, então o cristianismo não pode ser acusado de não ser real. Por esse motivo, os cristãos procuraram desde o início demonstrar que a fé na ressurreição de Jesus era sustentada por evidências físicas e testemunhos na primeira pessoa. Como dizia o apóstolo Paulo, se Cristo não ressuscitou então a nossa fé é vã. Mas, se ele ressuscitou, então o cristianismo assenta num acontecimento tão inverosímil que só pode ser entendido como a mais nítida revelação da realidade nua e crua. Acredito que, de certa forma, foi esta a missão de Jesus: revelar-nos a realidade como ela é! O objetivo de Jesus não passou por estabelecer uma realidade paralela, mas sim abrir-nos os olhos para a beleza e as lacunas da condição humana e mostrar-nos como as tratar.

Em suma, a fé cristã pode e deve ser abordada sob este prisma crítico que procura a verdade por meio da destrinça entre a realidade objetiva e as realidades paralelas. Neste sentido, a morte e a ressurreição de Jesus merecem análise cuidada. Para um tratamento detalhado, crítico e académico deste assunto, sugere-se a leitura de qualquer obra de N. T. Wright sobre Jesus. Mas o trabalho de N. T. Wright, ou de qualquer outro autor nesta matéria, não reduz o assunto a um teorema matemático. Qualquer autor – seja ele cristão ou ateu – pode apenas dar argumentos não exaustivos para defender a respetiva tese e a aceitação dessa tese envolverá sempre um certo grau de fé. De facto, não há cristianismo sem fé. Mas atrevemo-nos a dizer: também não há vida sem fé! A fé não é um atributo exclusivo de indivíduos fracos e religiosos, é sim inerente à vida de todos os homens. Todos temos de acreditar em coisas que não vemos e que não são matematicamente demonstráveis.

Assim, este texto não deve ser tomado como um manifesto contra a fé. Mas convém que a fé seja sempre crítica, com capacidade de se avaliar a si mesma. Uma fé que pensa e que, se necessário for, se descontrói e dá lugar a outra. Uma fé que não se confunde com fezadas ou com as crendices cegas das massas e que resiste às teorias da conspiração mesmo quando estas poderiam jogar a seu favor. Uma fé responsável. É esse o repto.

Anúncios

Por uma cosmovisão evangélica não dualista

“Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos.” (Atos 17:28)

O ‘Deus Desconhecido’, aquele que Paulo anunciou no areópago perante uma audiência composta por atenienses supersticiosos, é um Deus que opera fora da lógica dualista e maniqueísta para a qual muito tendemos. É um Deus que coloca em causa todas as superstições e todas as conceções demasiado superficiais daquilo que reputamos de religioso ou sagrado.

De facto, ao concordar com os poetas e filósofos gregos, afirmando que é neste Deus outrora desconhecido que nós vivemos, nos movemos e existimos, Paulo abdica da velha cosmovisão que opõe as coisas de Deus às “coisas do mundo”. Esta era uma cosmovisão construída a partir do confronto entre o mundo espiritual – aquele que nos parece superior, mais elevado, mais santo – e o mundo terreno – feito de coisas mundanas, banais e temporais. Isto não quer dizer que passamos a encarar todas as coisas sob um prisma de neutralidade como se o bem e o mal não existissem e não divergissem na sua essência. O que isto significa é que, agora, é precisamente no contexto das coisas terrenas e no meio da realidade dita mundana que podemos procurar o sublime, o sagrado.

O Deus anunciado por Paulo traz-nos a perfeita interseção da realidade espiritual com a realidade terrena – duas realidades irremediavelmente unidas por intermédio de Jesus Cristo. Assim, podemos afirmar que o propósito deste Deus é que todas as coisas terrenas sejam consagradas a Ele e que consigamos perceber, apreender e exaltar o valor espiritual de cada uma das muitas coisas que compõem as nossas vidas. Por isso, deixa de fazer sentido falar em coisas de Deus e “coisas do mundo”: o Deus de Paulo será Senhor de tudo, porque dele e por ele,e para ele são todas as coisas (como escreve o próprio Paulo em Romanos 11:36). Também me socorro aqui, uma vez mais, da frase lapidar de Ed René Kivitz: Deus não é o oposto das coisas, mas sim o pleno sentido de todas elas.

Tendo isto em mente, importa tratar alguns dualismos que persistem teimosamente na linguagem e, parece-me, na própria cosmovisão evangélica. Tratam-se de dualismos perigosos porque, cristalizados de forma acrítica nas nossas comunidades religiosas, impedem-nos de reconhecer que Deus excede todas as fronteiras da nossa religiosidade. Podem até tornar-se causas de atrito na práxis cristã. São como uma miopia que nos impede de entender a vida cristã de uma forma menos fragmentada e mais consonante com o Deus de quem são todas as coisas.

A casa do Senhor

“O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens.” (Atos 17:24)

Na linguagem evangélica, o espaço físico – edifício ou salão – onde os crentes se reúnem é muitas vezes designado de ‘casa do Senhor’. Esta designação, ainda que seja aparentemente inócua e muitas vezes usada sem prejuízo visível, não está em conformidade com a revelação neotestamentária.

É verdade que na lógica do Antigo Testamento – e também na lógica dos gregos – o templo era local de suma importância, pois acreditava-se que Deus – ou os deuses – habitava ali. O templo detinha uma certa exclusividade no que respeitava à presença e à glória de Deus. Mas agora sabemos que Deus não habita em templos feitos por mãos de homens. O rompimento do véu do templo, rasgado de alto a baixo aquando da crucificação de Cristo, ilustra a grandiosidade e a generosidade de um Deus que não pode ser contido no interior de templos, nem aprisionado dentro de sistemas teológicos ou rituais litúrgicos. A ‘casa do Senhor’ não é o lugar onde uma congregação local se reúne, mas os corações, os lares e as comunidades que lhe abrem a porta para que ele ali habite  – e, em última instância, a casa do Senhor é o céu e a terra.

Assim, o local das reuniões religiosas não detém direitos de exclusividade no que respeita à presença de Deus. O encontro com Deus surge, potencialmente, em qualquer lugar. Neste sentido, o espaço de encontro dominical deve ser encarado não tanto como um espaço privilegiado para o encontro com Deus, mas sobretudo como um espaço onde vamos aprender a reencontrar Deus em todos os espaços. O tempo dominical é, por excelência, a oportunidade para nos encorajarmos uns aos outros no propósito de encontrar Deus na vida quotidiana, fora do local de reunião, nas outras casas em que ele habita ou quer habitar, nos outros templos mundanos onde ele deseja tornar palpável a sua presença, pois ele não está longe de cada um de nós (cf. Atos 17:27).

O servo do Senhor

“Nem tampouco é servido por mãos de homens, como que necessitando de alguma coisa; pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas.” (Atos 17:25)

Ouvi recentemente um estudante universitário evangélico a exprimir o seu dilema pessoal nestas palavras: “Não sei se hei de continuar a estudar nesta área [do design] ou se hei de ir para o instituto bíblico porque o que quero é servir o Senhor!” Este desabafo, sincero e bem-intencionado, ilustra em si mesmo um dualismo muito pernicioso: se levado à letra, significa que servir o Senhor faz-se somente por meio daquilo que tem relação direta com a esfera eclesiástica ou religiosa. Ora, se assim é, quem é que estamos a servir quando assumimos carreiras ou vocações ditas seculares? Não pode um designer servir o Senhor?

De acordo com Paulo, o Senhor não é servido por mãos de homens: não há nada de que Deus tenha falta e não há necessidades divinas que possamos suprir. Tal como em relação ao templo, também aqui é feita a desconstrução da antiga cosmovisão dualista. Nos tempos do Antigo Testamento, o serviço ao Senhor centrava-se no templo e a figura do sacerdote adquiria uma importância primordial pois ele era, em certo sentido, o responsável por trazer à terra um bocadinho da esfera celestial. Era dessa forma que o sacerdote servia o povo e o Senhor.

O Novo Testamento traz consigo uma nova compreensão do sacerdócio: cada crente é um sacerdote pois a união das esferas celestial e terrena pode agora consumar-se no coração de cada crente; para além disso, cada crente é, também, um agente promotor da união dessas esferas em todas as coisas que compõem a sua vida pessoal e a vida da comunidade em que está inserido. O sacerdócio universal de todos os crentes – e o potencial revolucionário que lhe é inerente – está bem escarrapachado no Novo Testamento. Contudo, ao longo de demasiados séculos, esta nova compreensão foi esmagada pelo peso das instituições eclesiásticas interessadas em manter e em exercer um poder religioso interessado em subjugar os fiéis. Ainda que a Reforma Protestante tenha reavivado esta doutrina, e sejamos hoje especialistas em teorizar acerca dela, não somos céleres a praticá-la. Persiste, assim, a cosmovisão dualista que faz com que sejamos lestos a aceitar que o pastor, o missionário e o evangelista são servos do Senhor, mas lentos a afirmar o mesmo em relação ao operário fabril, ao advogado ou ao empresário.

Neste ponto, talvez seja necessária a reflexão sobre uma questão prévia e basilar: o que significa, afinal, servir o Senhor? Se Deus não é servido por mãos de homens, em que é que se traduz o serviço a Deus à luz do Novo Testamento? Diria que o Novo Testamento nos ensina que servir a Deus é servir o próximo. Essa parece ser, aliás, a sugestão radical de Jesus ao afirmar que o servimos quando alimentamos ou vestimos o necessitado, quando acolhemos o estrangeiro, quando cuidamos do doente e quando visitamos o preso (cf. Mateus 25:24-46).

Servir o Senhor será, portanto, servir e cuidar do próximo. Neste sentido, as nossas congregações eclesiásticas continuam a carecer de pastores e de professores, de conselheiros e de educadores, crentes com vocação para servir os irmãos em funções aparentemente mais religiosas. Mas as nossas congregações são também compostas por gente com todo o género de vocações seculares; vocações que, colocadas ao serviço do próximo e ao serviço da sociedade, são também elas sinónimo de serviço ao Senhor. Estas vocações – dos profissionais de saúde, dos professores seculares, dos técnicos administrativos, dos marceneiros, empreendedores ou designers – não são menos santas ou menos necessárias. São, também elas, sagradas. Se o cristão não está a servir o Senhor no exercício da sua profissão, então quem é que ele está a servir? Já assim cantava o Bob Dylan: teremos sempre de servir alguém e é melhor que seja o Senhor…

O dia do Senhor 

Afastamo-nos, entretanto, do conteúdo do discurso de Paulo no areópago, mas, por ele iluminados, continuamos a dissecar os dualismos presentes na cosmovisão evangélica. Perguntamo-nos agora: será que, à semelhança daquilo que acontecia no Antigo Testamento, ainda faz sentido considerar que existe um dia da semana que é, por inerência, e em contraste com os restantes, o dia do Senhor?

No contexto do judaísmo, o sábado era o dia santo, separado para descanso e dedicação ao Senhor. Os 10 Mandamentos, fundamentais como alicerces da cosmovisão do povo judaico, incluem o preceito de guardar o sábado. Mas Jesus, durante o seu ministério terreno, desconstrói o entendimento distorcido que os seus contemporâneos – com particular destaque para os fariseus – tinham a respeito do sábado. Eles viviam o sábado de modo legalista, usando-o como forma de afirmar superioridade em relação aos demais e como forma de exibir méritos próprios. Neste quadro, Jesus vem afirmar-se como Senhor do próprio sábado, explicando que “o sábado foi estabelecido por causa do homem e não o homem por causa do sábado” (Marcos 2:27-28). Assim, a observância do sábado teria como propósito o bem-estar do homem e não serviria nem para aplacar a ira de um Deus que nos quer sossegados um dia por semana, nem para ganhar pontos num qualquer ranking de santidade por ele estabelecido.

Hoje vivemos numa era de absurdo frenesim. No meio do ritmo louco e insustentável que imprimimos nas nossas vidas e nas nossas sociedades, o valor do sábado – o seu propósito original – não deve ser menosprezado. Carecemos de aprender a gerir os ritmos, as prioridades, a própria vida. Carecemos de tempos e espaços que, pela ausência dos estímulos associados a todos os trabalhos em que nos metemos, nos façam um bocadinho mais saudáveis e nos ajudem a respirar melhor. E, se queremos aprender a encontrar Deus no nosso quotidiano, precisamos de momentos de verdadeiro descanso, de coração quieto e mente sossegada.

Sim, valorizemos o conceito do sábado como remédio para doenças várias dos nossos dias. Mas, ao mesmo tempo, devemos perguntar-nos: fará sentido tratar o sábado – ou o domingo que o substitui na tradição cristã – como o dia do Senhor em detrimento dos restantes dias? Se há um dia da semana que é pertença do Senhor, a quem pertencem os outros seis dias? Se há um dia que na nossa prática religiosa assume maior importância e santidade, não corremos o sério risco de menosprezar – e desaproveitar – o potencial dos outros dias?

Que os dias ou os tempos que separamos para descansar e para encontrar Deus de uma forma mais intencional sirvam para percebermos que todos os dias – todos os tempos – são do Senhor. Que o tempo dominical seja colírio para vermos que Deus é, na realidade, o Senhor dos sete dias da semana, o dono de todas as horas da vida. Que aceitemos a proposta fascinante que espreita nas entrelinhas do Novo Testamento: que cada hora da vida contém em si o potencial de ser tão sagrada e tão sublime quanto os momentos de descanso e liturgia do sábado ou do domingo.

A adoração ao Senhor 

No meio evangélico, é muito comum confundirmos adoração a Deus com aquilo que fazemos no encontro religioso dominical. Criamos, assim, mais um dualismo: o culto presta-se no local das nossas reuniões religiosas – na chamada ‘casa do Senhor’ – por meio das mais diversas liturgias. Estas, compostas por músicas, leituras, orações e pregação, podem apresentar maior ou menor grau de flexibilidade no movimento evangélico. Mas cremos que a análise que fazemos é válida quer para as congregações que apostam numa abordagem mais contemporânea quer para aquelas que mantêm uma liturgia pontuada por maior rigidez e austeridade: ao cultuarmos na ‘casa do Senhor’ consideramos que, assim, exercemos a nossa devoção, adorando-o e louvando-o com salmos e hinos.

O dualismo que daqui resulta pode não ser intencional. Mas se adorar o Senhor é aquilo que fazemos no domingo no local de culto, o que é que passamos a fazer assim que a reunião dominical termina e saímos pela porta desse local? Será que, por oposição à forma como concebemos o culto dominical, não temos cedido ao risco de destituirmos de valor espiritual a vida que vivemos fora do tempo e do espaço de culto? Será que não temos diminuído o significado de adoração, reduzindo-a àquilo que acontece no culto, e perdendo assim a riqueza resultante de uma vida vivida na sua totalidade como um ato de adoração?

Talvez precisemos de voltar a escutar – com ouvidos de ouvir – as palavras proferidas por Jesus no seu famoso encontro com a mulher samaritana: já chegou a hora em que não é nem no monte de Samaria, nem em Jerusalém, nem nos salões de culto evangélicos que adoramos o Pai; agora, aquele que adora o Pai fá-lo no Espírito e em verdade – são estes os adoradores que o Pai procura (ver João 4:19-24). Esta é a nova hora: por todos os lugares serem, potencialmente, ‘a casa de Deus’, então todos os locais são aprovados como locais de adoração.

Mas o que significa adorar no Espírito e em verdade? Dando continuidade à tentativa de desfragmentação da cosmovisão evangélica, afirmamos que é na vida quotidiana que a verdadeira adoração se exprime e talvez adorar no Espírito consista em exercer e promover amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, modéstia e autodomínio – exercer e promover os frutos do Espírito (cf. Gálatas 5:22).

Nas entrelinhas da nova realidade proposta por Jesus encontramos ecos da mensagem do profeta Amós. Este profeta viveu num período em que Israel era dominado pela corrupção praticada por gente que odiava aqueles que lutavam por justiça nos tribunais e detestava os que procuravam dizer a verdade (Amós 5:10). Neste contexto, era dura de ouvir a mensagem de Deus que chegava por meio do profeta:

«Odeio e desprezo as vossas festas. Não me agradam as vossas cerimónias litúrgicas. Ainda que me ofereçam animais em sacrifício ou me tragam outras ofertas, não as aceito. Nem sequer olho para os animais gordos dos vossos sacrifícios. Afastem de mim o barulho dos vossos cânticos; não posso ouvir a música das vossas harpas. Quero, sim, que a justiça corra como as águas, e aquilo que é reto, como um rio que nunca seca.» (Amós 5:21-24)

De que serve cultuar a Deus no ambiente religioso se as nossas vidas fora desse ambiente não refletirem o seu caráter? De que vale honrar o Senhor com os nossos lábios, mas ter o coração longe dele? Se a nossa vida quotidiana não for um ato de contínua adoração a Deus, de que vale cantar-lhe louvores ao domingo?

Chegados aqui, podem os leitores achar que, levando esta perspetiva ao extremo, o culto dominical perde toda a relevância. Convém então explicar que eu faço parte de uma comunidade evangélica com a qual partilho a caminhada de fé e com a qual procuro estar intencionalmente comprometido. No âmbito desta comunidade, temos espaço e horário para o culto dominical e este assume uma grande importância na nossa vivência comunitária. Temos também um pastor que, por vocação e chamada, assume um papel preponderante na orientação da comunidade e no aconselhamento daqueles que a compõem. Adicionalmente, posso dizer que, em múltiplos períodos da minha vida, tenho estado diretamente envolvido no louvor musical. Não posso, portanto, negar o valor do culto, do clero, da ‘casa’ e do domingo. Acredito no sentido e na benignidade destas coisas. Contudo, não acredito nos dualismos gerados em torno destas coisas e na cosmovisão fragmentada que daí resulta.

Assim, a adoração dominical faz sentido enquanto meio de reafirmação da nossa entrega a Deus e dos princípios fundamentais nos quais se alicerça a cosmovisão cristã – o amor, a graça e a extravagante misericórdia deste Deus. Através dos salmos lidos ou entoados – sejam eles mais ou menos modernos – podemos realinhar as nossas convicções e as nossas emoções com estes princípios fundamentais e preparar os nossos corações para mais uma semana de contínua adoração prática. Para além disso, a adoração dominical tem também uma inestimável componente comunitária: até a despeito de eventuais divergências existentes na congregação, o cântico em conjunto leva-nos a exercitar a união e a harmonia pela afirmação uníssona da fé que nos é comum e nos torna irmãos.

Posto isto, este texto não pretende retirar o valor ao culto, ao clero, à ‘casa’ e ao domingo. Mas pretende desconstruir os dualismos que tanto alimentamos quando consideramos que a fé cristã se deve centrar nestas coisas, por elas serem “as coisas do Senhor”. Porque do Senhor, meus amigos, do Senhor é a vida e tudo o que ela contém!

Igreja Universal do Reino de Quem?

Vejo a recente reportagem da TVI sobre o esquema ilegal de adoção de crianças estabelecido por líderes da IURD e utilizando um lar desta organização e não posso evitar pensamentos em catadupa.

Primeiro, ouço o testemunho de gente que esteve dentro da IURD e sou levado a recordar a minha própria infância numa igreja evangélica e a interrogar-me sobre quais os aspetos que resultavam mais de um espírito de seita do que do cristianismo puro e simples que hoje quero viver. Não deixo de sentir gratidão porque nunca a minha igreja de menino enveredou pelas práticas neopentecostais e nunca a escabrosa teologia da prosperidade encontrou espaço para penetrar ali a seu bel-prazer. Ainda assim, assusto-me ao detetar semelhanças entre a linguagem e o discurso de Lucas Paulo e a linguagem e o discurso que eu presenciei, ouvi e, em certa medida, também usei. O ambiente evangélico português, recluso, hermético e de reduzida dimensão, também favorecia então a adoção de posturas, comportamentos e até linguagem próprias. Também favorecia um certo nível de alienação. Não tenho dúvidas das boas motivações da maior parte das pessoas que promoviam esse ambiente, incluindo aquelas que ocupavam posições de liderança. Contudo, sabendo hoje que esse ambiente é desnecessário e até contraproducente a uma vivência saudável e plena da fé cristã, incomoda-me a interrogação: que cargas e equívocos transporto ainda hoje que sejam resultado desse ambiente hermético? Será que, sem eu o saber, a minha mente ainda carece de desintoxicação? Os meus olhos ainda requerem mais gotas de colírio?

Outro pensamento que me assalta a mente diz respeito ao falhanço rotundo das autoridades portuguesas com responsabilidade nos processos de adoção. Tudo indica que os processos referidos na reportagem tenham sido pautados por erros de juízo gravíssimos e recorrentes da Segurança Social e dos próprios tribunais. Isto mina a credibilidade das instâncias públicas e abala a nossa confiança nos mecanismos que aparentam proteger o cidadão comum. As mães e as famílias que ficaram sem as suas crianças somos eu e tu. De modo a que o Estado recupere alguma credibilidade, é fundamental que os responsáveis sejam apurados e chamados à justiça, dentro daquilo que os prazos de prescrição ainda tornarem viável. É fundamental que o próprio Estado não adote este silêncio.

Finalmente, o outro pensamento que se apodera de mim – este bem mais forte e incómodo do que os dois anteriores – diz respeito à própria IURD e ao destino da sua liderança. Cabe aqui um parêntesis para explicar que, na maior parte do tempo, eu sou praticamente um universalista funcional (nota: este ‘universalismo’ é jargão teológico que nada tem que ver com a IURD). A minha abordagem existencialista à possibilidade de que exista um inferno é muito bem resumida pelo que li uma vez ao Ed René Kivitz n’O Livro Mais Mal Humorado da Bíblia: “A minha indignação contra o mal sistémico que afeta todos os segmentos da sociedade multiplicando vítimas faz-me desejar a existência do inferno. A minha convicção de que esse mal habita também em mim, que faço o que não quero e sou incapaz de fazer o bem que desejo, faz-me considerar a possibilidade de um inferno vazio.”

Este caso configura, precisamente, um dos tais males sistémicos que me faz desejar a existência do inferno. É um daqueles casos que me faz compreender os salmos imprecatórios – aqueles em que o salmista faz uso de uma linguagem violenta para desejar uma sorte cruel a todos os seus inimigos, sem contemplação, sem misericórdia. Sinto-me até tentado a fazer destes salmos a minha oração. É que reparem no seguinte:

Até podemos concordar que a IURD é uma igreja, embora num sentido lato do termo grego original e não no sentido neotestamentário. Também podemos concluir que a IURD é universal ou que pelo menos tenta sê-lo, na medida em que está presente em mais de 180 países. Podemos ainda afirmar que a IURD é um reino: é, efetivamente, uma espécie de império religioso assente numa estrutura totalmente hierarquizada e capaz de gerar e movimentar milhões de crentes e milhões de dólares. Mas… de quem é este reino?

O novo testamento diz-nos que o Reino de Deus é justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Romanos 14:17). Justiça, paz e alegria: bênçãos que a ação dos líderes da IURD roubou às mães e famílias afetadas por este esquema. O que nos leva a concluir algo que já tinha sido patente em escândalos anteriores, mas que fica agora particularmente evidente: a IURD até pode ser um reino ou império (palavra que lhe assenta bem melhor) mas não é Deus que nela reina certamente. Porque mesmo que haja muita gente justa, sincera e enganada nas fileiras deste império (e estou certo de que esse é o caso), aquilo que vem à tona demonstra que a liderança da IURD, personificada pelo tal Edir Macedo, se assemelha muito mais a um qualquer diabo. Ora, caso o inferno exista mesmo, não será ele, primordialmente, o destino de todos os diabos que desde o Éden enganam, aprisionam e destroem a humanidade?

Igreja com Raízes

O livro, da autoria de Paul Sparks, Tim Soerens e Dwight J. Friesen, foi-me sugerido com muita veemência por um bom amigo e intitula-se The New Parish – how neighborhood churches are transforming mission, discipleship and community. A tradução à letra para a língua de Camões seria algo como A Nova Paróquia – como as igrejas de bairro estão a transformar a missão, o discipulado e a comunidade.

O propósito dos autores é o de testemunhar, contextualizar e advogar uma tendência que, acreditam, tem alastrado recentemente nos países ocidentais: o enraizamento (ou talvez se pudesse dizer o reenraizamentouish!) das igrejas locais nos respetivos bairros, vilas e cidades. De acordo com a experiência dos próprios autores, trata-se de uma mudança de paradigma das ‘igrejas de consumo para as paróquias’, das ‘conversas abstratas para uma real partilha da vida’, dos ‘projetos para a transformação dos bairros’.

“Paróquia?” – interrogam-se os leitores evangélicos portugueses – “esse não é um termo em desuso que remete para a excessiva hierarquização da Igreja Católica e para um tempo em que Estado e Igreja se confundiam e a paróquia era uma unidade administrativa sinónimo de freguesia?” Aparentemente esta questão passou pela mente dos autores, uma vez que uma das secções do primeiro capítulo é dedicada, precisamente, a explicar porque é que a palavra ‘paróquia’ ressurgiu e o que é que há de novo no uso desta palavra:

Quando nós três falamos acerca daquilo que parece estar a acontecer na ‘nova paróquia’, é importante fazer a distinção com o antigo, ou prévio, conceito de paróquia. Propor que tem emergido uma nova compreensão sobre a paróquia não implica descartar tudo aquilo que era bom relativamente à anterior compreensão, mas antes vê-la como a raiz da qual podem brotar novas aprendizagens e novo crescimento. (…)

Se por um lado a antiga palavra paróquia carrega importantes memórias de amor, lar e bondade ao longo da sua história, ela também remete para várias formas de manipulação instituída através de hierarquias centralizadas, estruturas patriarcais e outras formas de abuso. (…)

Contrastamos a nova paróquia com as antigas concepções que a igreja trouxe desde a Cristandade, vindas de uma era em que a igreja institucional praticamente ditava a configuração da comunidade. A igreja que emerge na paróquia hoje em dia é diferente de muitas maneiras. A primeira diferença é que o bairro – na sua diversidade – tem uma voz que contribui para a configuração da igreja. Existe uma consciência crescente de que o Espírito trabalha através dos relacionamentos da comunidade local para nos ensinar como é que o amor e a fidelidade se expressam naquele contexto particular.

Com isto, convencemo-nos do uso benigno da expressão ‘nova paróquia’ e adotamo-lo também neste texto sem mais crítica.

Também no primeiro capítulo, faz-se um breve diagnóstico da sociedade atual identificando ‘as duas forças mais fragmentadoras dos nossos dias: a primeira pode ser chamada de mito do indivíduo e a segunda consiste em viver acima do lugar’.

Viver acima do lugar… detemo-nos neste ponto porque nos parece um dos pontos mais pertinentes como retrato de uma sociedade em que o ritmo do quotidiano se tornou esmagador e as relações estabelecidas entre o indivíduo e o local que habita e entre o indivíduo e os outros habitantes são etéreas e voláteis. Levamos vidas demasiado fragmentadas no espaço, faltando-nos capacidade para ser e exercer uma presença permanente num lugar específico:

Viver acima do lugar designa a tendência para desenvolver estruturas que mantêm as relações de causa-efeito à distância no espaço e no tempo ao ponto de não as experimentarmos em primeiro mão. Por exemplo, provavelmente já passaste pela situação de comprar produtos alimentares sem ter a mínima ideia acerca da origem dos alimentos e de quem esteve envolvido no processo de produção e distribuição. Viver acima do lugar descreve o processo em que este tipo de separação acontece com tanta frequência que nos tornamos desorientados em relação à realidade.

Merece ainda destaque um terceiro tema e excerto do primeiro capítulo em que é esboçada a teologia que dá fundamento ao paradigma da nova paróquia enquanto resposta da igreja ao diagnóstico previamente feito. Esta teologia resulta de se levar plenamente a sério a crença de que Deus se fez homem. O mistério da encarnação, demasiadas vezes em segundo plano nas nossas teologias sistemáticas, é, na verdade, o facto que dá corpo a toda a boa teologia e que modela a práxis cristã:

Se a natureza de Deus como Trindade modela a tua vocação relacional, então a encarnação de Deus demonstra a tua vocação missional para viver num tempo e num lugar concretos. Quando Deus escolheu entrar no mundo, não o fez de uma forma etérea e genérica mas numa família particular, numa vila particular e num país particular com práticas sócio-religiosas específicas. Tal como Cristo “se tornou carne e sangue, e veio viver na vizinhança” (João 1:14 A Mensagem), também as pessoas que formam a igreja local na paróquia são chamadas a constituir uma expressão tangível do amor de Deus na realidade da vida quotidiana.

Que bela imagem! Ficam, ainda, por explorar todas as ricas implicações e ramificações desta comparação. De facto, a obra não se estende nesta vertente teológica, mas, no fim do livro, são recomendados diversos recursos e desconfiamos que, por meio deles, pode o leitor interessado aprofundar o lado teológico.

Enquanto no primeiro capítulo se faz um diagnóstico mais social, no segundo capítulo, com o subtítulo Como a igreja perdeu o seu lugar o diagnóstico é mais eclesial. Percorrendo a história do cristianismo, os autores fazem o sumário dos diferentes tipos de relação entre a igreja e o lugar, identificando 4 principais modelos:

  • A igreja em (‘the church in’) caracterizada por comunidades de seguidores de Jesus que dão testemunho local do reino de Deus, como as igrejas do Novo Testamento – igreja em Jerusalém, igreja em Corinto, igreja em Éfeso, etc.
  • A igreja de (‘the church of’) caracterizada pela adoção do cristianismo como religião oficial de um estado ou região, começando pela Igreja de Roma e disseminando-se durante a Cristandade – a Igreja de Constantinopla, a Igreja Ortodoxa da Etiópia – e mesmo depois da Reforma Protestante – a Igreja Luterana da Alemanha e a Igreja Anglicana da Inglaterra.
  • A igreja para (‘the church for’) caracterizada pela expansão missionária, numa fusão entre evangelismo e colonialismo empreendida pelas potências de cada época; as organizações missionárias encarregaram-se assim de levar a igreja para a Ásia, para a África e para a América Latina.
  • A igreja com (‘the church with’) caracterizada pelo surgimento de uma grande diversidade de ministérios eclesiásticos e para-eclesiásticos com grupos-alvo específico, por exemplo quanto à faixa etária, etnia, ocupação ou preferências pessoais.

Os autores registam os aspetos mais benignos e os mais nefastos destes 4 modelos e sugerem um outro modelo para o exercício de uma presença fiel na nova paróquia. Aqui a tradução das preposições torna-se mais ardilosa, mas arriscamos:

  • A igreja dentro – integrada, enraizada – em e com (‘the church within & in-with’) caracterizada por comunidades plenamente enraizadas no seu local enquanto colaboram nesse local com outros.

A explicação dos autores:

(…) este movimento de novas paróquias procura praticar estas duas preposições em e com. Elas unem o em da igreja do primeiro século e o com da igreja missional de forma a firmar a igreja num lugar concreto. Este enraizamento convida-nos a buscar o florescimento de todos – não apenas de pessoas como nós, e não apenas das pessoas de quem gostamos, mas de todos os vizinhos.

Os capítulos 3, 4 e 5 procuram apresentar uma explicação mais sistematizada acerca da essência da nova paróquia. Não se trata aqui de providenciar uma receita ou uma técnica para alcançar o sucesso da igreja na era atual. Aliás, no capítulo 3 os autores apressam-se a denunciar os perigos da técnica enquanto conjunto de métodos padronizados e uniformizados que muitas igrejas empregam para alcançar os fins desejados, sem atentar a cada contexto particular:

Quando os métodos tomam a dianteira, tornamo-nos distraídos em relação àquilo que o Espírito está fazer no e através do lugar particular. (…) Lentamente eles acabam por te desconectar dos próprios meios que o Espírito usa para comunicar. A técnica é a superstição da era moderna.

Tendo em conta o propósito dos autores, poderiam também eles, até de forma inadvertida, cair na armadilha de apresentar a visão deles como se de uma estratégia infalível se tratasse. De que forma conseguem não cair nessa armadilha? Cremos que, nestes capítulos centrais, aqui ou ali os autores correm esse risco, mas conseguem evitar a armadilha por meio de dois elementos que pautam o texto: em primeiro lugar, a utilização de histórias reais para dar cor às ideias dos autores e que demonstra, também, que não nos escrevem como quem descobriu a pólvora, mas como quem nos quer abrir os olhos para uma realidade que já está a ganhar forma à nossa volta e à volta deles; em segundo lugar, a apresentação das ideias de forma esquemática, muitas vezes com recurso a classificações simplistas mas úteis, e a inclusão de pontos para reflexão e discussão (incluindo perguntas de autoavaliação) mostram que a intenção dos autores passa mais por suscitar interrogações, provocando os pressupostos e as definições do leitor, do que dar respostas fechadas e definitivas.

O capítulo 4, com subtítulo Como a adoração para além do ajuntamento reconfigura a igreja, e o capítulo 5, Encontrar a igreja em todas as circunstâncias da vida, têm, de facto, bastante de provocativo. Deixamos os autores falar por nós:

A visão da igreja como um culto no qual se participa aos Domingos de manhã é muito comum no mundo ocidental. (…) Não há nada de errado em participar num evento deste género, mas há algo de errado em pensar que isto é o que significa ser a igreja. (…) No cerne do que significa ser igreja está a adoração a Deus. Uma compreensão ortodoxa passa por entender a adoração como algo que tem relação com todos os aspetos da vida. As Escrituras descrevem a adoração como “[entregar] a vida quotidiana – dormir, comer, trabalhar, passear – a Deus como se fosse uma oferta” (Romanos 12:1 A Mensagem). A vida de adoração é mais do que aquilo que fazemos em conjunto nos nossos encontros dominicais; ela engloba a plenitude das nossas vidas em comunidade. O culto dominical é como que um ensaio, uma preparação, para o tipo de pessoas que desejamos ser em conjunto enquanto exercemos a fé na paróquia ao longo de toda a semana. A igreja local aprende a depender do movimento do Espírito em todas as situações como uma forma de estar fielmente presente nos relacionamentos particulares do seu contexto. Uma vida holística de adoração consiste numa postura diária de presença fiel. No centro da prática da igreja deve estar o exercício de uma presença fiel na paróquia. (…)

Enquanto a maior parte dos líderes de ministério esperam que os membros deem 10% às suas igrejas, acabam por receber uma média de apenas 2%. Do mesmo modo, eles desejam tipicamente que os membros contribuam com 10% do seu tempo para os trabalhos da igreja, mas provavelmente o tempo real anda também perto de 2%. E quando se trata de contribuir para a igreja com os seus próprios dons, forças e paixões – bom, são apenas consideradas umas poucas competências “ministeriais” (cantar, pregar e ensinar são as mais populares). Mas se a igreja está na e é para a paróquia, tudo se altera. Mesmo que nem todos possam centrar as suas vocações na paróquia, eis apenas alguns exemplos de como esta alteração pode fazer diferença:
– Tudo aquilo que fazemos, tudo aquilo que damos, tudo aquilo que compramos, todas as coisas nas quais investimos o nosso tempo – tudo pode contribuir para a missão da igreja e para o florescer da paróquia.
– Todos os dons, paixões e habilidades que contribuem para a reconciliação e renovação da paróquia são de grande valor. Aliás, só o estar lá pode ser um dom.
– Começar um pequeno negócio ou encontrar uma forma de exercer a vocação na paróquia contribui, geralmente, para todos os aspetos da vida comum na paróquia – relacionamentos, ambiente, vida cívica, economia, educação – ao mesmo tempo.
– Talvez o melhor de tudo seja que, por estarmos próximos, é mais fácil colaborar nestas coisas de formas que resultam num todo que é muito maior do que a soma das partes.

Enquanto os primeiros dois capítulos procuram dar resposta ao porquê – por que precisamos da nova paróquia? – e os três capítulos que se seguem procuram dar resposta ao o quê – o que é a nova paróquia? – os quatro capítulos finais procuram dar resposta ao como – como concretizar a nova paróquia? Os quatro títulos resumem a proposta dos autores: estar presente (presencing); criar raízes (rooting); colaborar (linking); liderar (leading).

No capítulo 6, o repto para estar presente é acompanhado de duas propostas que poderão parecer menos ortodoxas, mas que, concordando com os autores, consideramos não apenas válidas mas até mesmo imprescindíveis. A primeira proposta é a do experimentalismo enquanto caminho para a missão da igreja nesta era:

A tarefa da liderança é primeiramente a de juntar as pessoas para que possam ouvir-se mutuamente, discernir e experimentar. Se alguma vez houve um tempo em que podemos chegar a uma expressão da igreja fresca e contextualizada por meio da experiência, é este o tempo. Não apenas por estarmos a viver numa era adaptativa mas também porque as experiências de presença fiel e comunitária são a melhor forma de aprendermos verdadeiramente como ser igreja na vida quotidiana. Não chegamos lá apenas através da reflexão. Temos de dar passos de fé cuidadosos mas também corajosos para conseguirmos discernir qual o caminho para a frente.

Experimentar. Com ousadia, imaginação e de forma coletiva. Colocar a teoria à prova. Ensaiar respostas concretas e práticas, mesmo que inusitadas e mesmo que nos obriguem a sair das nossas zonas de conforto. Sim, parece-nos que este experimentalismo, regado com muita oração, em comunidade e contextualizado à realidade concreta da paróquia, será benigno e frutífero. A segunda proposta é a de ouvir a narrativa do local acreditando que Deus já está a trabalhar nesse local de muitas e variadas formas, não só por meio da igreja, mas também através de pessoas e grupos de diferentes credos, organizações seculares, empresas que operam em vários sectores, etc.

Escutar o nosso local por meio da narrativa do reino de Deus desperta-nos para aquilo que o Espírito já está a fazer nesse local e para aquilo a que se assemelham as boas novas no local em que habitamos. Não existe um programa ou uma técnica para aplicar. Em vez disso, trata-se de adotar uma postura de audição intencional e profunda e de abertura para a realidade dos lugares que habitamos. (…) Escutar requer a consciência de que, se por um lado, o nosso envolvimento tem significado, por outro lado nós não somos a resposta. Escutar é talvez a maior demonstração de que uma pessoa não se concebe a si mesma como Deus e de que ela honra os outros como sendo dignos de ser ouvidos.

Quão contra-cultural é esta proposta? Numa sociedade em que todos gritam, a igreja escuta. Numa sociedade cheia de ruído, paramos para discernir com a ajuda do Espírito Santo que parte do ruído é que já é, na realidade, a melodia da Missio Dei. Uma melodia que soa nas nossas ruas muito antes de nós lá chegarmos…

Para dar fruto é necessário ter raízes, certo? É por isso que o desafio que nos lança o capítulo 7, e que, a bem-dizer, percorre toda a obra, é o desafio do enraizamento. Talvez este tenha sido o capítulo que mais impacto nos causou, o apogeu da obra aquando da nossa leitura. Torna-se difícil selecionar um excerto que represente todo o capítulo, mas eis um resumo (formado a partir dos títulos das subsecções mas na esperança de que tenha, ainda assim, algum sumo): o enraizamento começa como prática pessoal, alterando de forma intencional o modo como nos relacionamos com o lugar onde vivemos, incluindo práticas e rotinas diárias que nos ajudem a escutar melhor esse lugar; ganhar raízes passará, também, pela vivência comunitária da fé no lugar onde se vive, partilhando o quotidiano com outros membros da mesma igreja; quanto aos cristãos de outras denominações e confissões que habitam na mesma paróquia, o desafio é o mesmo – criar raízes também com eles; os autores vão ainda mais longe sugerindo que este processo de enraizamento requer também um espírito de escuta, colaboração e comunidade que se estende às pessoas de outras tradições e fés, pois, em qualquer contexto, a colaboração é melhor do que a competição; finalmente, sugere-se que o desafio de criar raízes diz também respeito ao meio ambiente e às construções físicas, cooperando para que a terra, os animais, os recursos e os edifícios sejam cuidados de forma sustentável.

Se começamos a praticar uma presença fiel numa determinada área geográfica, então, em certo sentido, esta igreja diversa e com várias camadas já lá existe. Só é necessário que as pessoas sejam apresentadas umas às outras. Será que isto é ingénuo e simplista? Nós pensávamos que sim até que começámos a visitar bairros. E então nós três esbarrámos em grupos de cristãos que se juntam em torno de esperanças comuns em bairros e vizinhanças onde quer a gente vá. Esta visão é possível. E, para além disso, os riscos valem a pena. Queremos mesmo que tudo continue como tem estado? Como o nosso amigo Brandon Rhodes ironiza: “o corpo de Cristo tornou-se tão desmembrado que não tem sequer uma perna para se segurar de pé”. Isto tem de mudar. A paróquia pode tornar-se o terreno literal que nos ajuda a ganhar forma, pernas e braços. Coloquemos de lado as nossas grandes visões de mudar a vizinhança, e em vez disso concentremos as nossas atenções em escutar os lugares que habitamos. Que os nossos pés passem a conhecer e a amar as nossas ruas.

Os dois últimos capítulos, oitavo e nono, talvez tenham sido aqueles que menos impacto tiveram nesta primeira leitura, possivelmente por estarmos ainda a desbravar o primeiro mato nesta senda do enraizamento. Não obstante, são pertinentes as propostas oferecidas nestes capítulos e desconfiamos que a iremos recorrer a elas mais tarde. No capítulo 8 sublinha-se a importância de estabelecer parcerias e laços entre diferentes paróquias como forma de combater aquilo que os autores designam de cegueira espacial e que se traduz em indivíduos ou comunidades que só conseguem ver as suas próprias realidades, sem reconhecer a existência de outras realidades e possibilidades, ou que, em sentido contrário, só conseguem perceber as realidades alheias, sem discernir a sua própria realidade. Por fim, no capítulo 9, somos alertados para a forma acrítica e abstrata como a nossa cultura define liderança. Numa sociedade como a nossa, é perigoso associar o exercício da liderança à mera capacidade de influenciar, motivar ou inspirar os outros, defendem os autores. Propõem, em alternativa, uma definição que não seja desprovida de valores:

Definimos liderança como a capacidade para mobilizar vontade de reconciliação e renovação por meio de ação coletiva, ao mesmo tempo que se presta contínua atenção à narrativa de Deus, à fidelidade do grupo para com o respetivo lugar e à transformação do próprio líder.

Termina, assim, o nosso périplo pelo livro. Como deixamos bem patente ao longo do presente texto, trata-se de uma obra importante, provocativa, que merece a nossa melhor apreciação. Há, entretanto, uma realidade que devemos reconhecer: muitos cristãos já praticam esta presença fiel sem qualquer enquadramento teórico prévio, sem que seja uma resposta a um repto das lideranças e, até, sem esforço aparente. Muitos irmãos e muitas irmãs que se sentam nos bancos das nossas igrejas domingo após domingo, e que muitas vezes nem assumem nenhum papel de relevância nessas reuniões dominicais, são verdadeiros embaixadores do Reino na comunidade, cooperando com os seus vizinhos para tornar as nossas ruas e bairros mais belos e harmoniosos. Por outro lado, também devemos reconhecer que esta prática da presença fiel nas nossas paróquias não tem sido o principal foco missional das nossas comunidades eclesiásticas. E se alguns de entre nós, abençoados por um espírito mais prático, não carecemos de enquadramento teórico para acertar o compasso da nossa praxis, outros há que carecem desse enquadramento e reflexão. Para muitos de nós, de espírito mais teórico e mente pouco sossegada, é necessário que as ideias se alinhem e que as sinapses se multipliquem para sermos empurrados para a prática. Para este grupo, o livro sob análise constitui uma excelente ferramenta. No nosso caso, ajudou-nos a verbalizar, confirmar e reforçar muitas ideias que por aqui já cirandavam e que, mais alinhadas, providenciam o tal enquadramento para a missão e vocação da igreja no século XXI, que, acreditamos, é também a missão e vocação à qual somos particularmente chamados.

Como já referimos, ao recorrerem a histórias reais para ilustrar a nova paróquia, a proposta dos autores consiste menos numa nova receita ou técnica para o sucesso da igreja. O livro assemelha-se mais a uma tela na qual vai sendo pincelada uma imagem daquilo que pode ser a Igreja com Raízes nos nossos dias. Essa imagem é bela e pungente, capaz de nos capturar o coração e alargar a imaginação! Para fechar este texto – esta apologia – partilhamos uma citação de Jon Tyson usada também pelos autores e que transmite de forma muito viva essa imagem:

Como é que a Igreja se pareceria se decidíssemos comprar casas nas mesmas ruas e subdivisões, nos mesmos prédios e quarteirões, nos mesmos subúrbios e secções? Como é que o nosso amor se pareceria se fosse demonstrado dúzias de vezes por semana através de pequenas mas profundas situações: refeições preparadas, orações feitas, cânticos entoados, Escrituras estudadas, jogos partilhados, festas realizadas, lágrimas derramadas, reconciliação praticada, recursos doados? E se parássemos de participar em grupos comunitários e nos tornássemos grupos de comunidades? E se as nossas casas deixassem de ser os lugares onde nos escondemos dos mundo e passassem a ser paraísos aos quais o mundo recorre para encontrar cura?

 

 

Provas da Ressurreição de Cristo

Amigos, permitam-me repassar mais uma vez a Mensagem que nos tem sido comunicada: o Cristo morreu pelos nossos pecados, exatamente como dizem as Escrituras; foi sepultado e se levantou da morte no terceiro dia – mais uma vez, exatamente como dizem as Escrituras. Apareceu vivo a Pedro, depois aos seus seguidores mais próximos e, mais tarde, a mais de quinhentos seguidores ao mesmo tempo. Depois ele passou um tempo com Tiago e com o restante dos que chamou para falar em seu nome, e, ainda, apareceu vivo a Paulo, tal como o próprio deixou registado nas suas cartas. Paulo foi aquele que passou anos a perseguir a igreja de Deus, mas a ele foi concedida a graça bondosa de ver Cristo.

Depois disto, Cristo apareceu a homens e mulheres, de todas as idades, etnias e nações, ao longo dos séculos. Apareceu-lhes em muitos contextos, falando-lhes em muitas línguas e de muitas maneiras. Muitos deles estão por aí e podem confirmar o que eu digo (ainda que outros já tenham morrido).

Ora, finalmente, Cristo apareceu-me também a mim. Muitas vezes só o reconheci em retrospetiva, por causa da miopia e da surdez severas de que padeço. Mas hoje sei que era ele. Era ele que me falava através da gargalhada desprendida e leve do professor australiano que gentilmente nos encorajou quando, recém-chegados a Díli, enfrentávamos, pasmos e abalados, as grandes diferenças culturais. Apareceu-me, também, no sorriso desconcertante do Sr. M. quando ele contava histórias de intenso sofrimento e tortura causada pelos soldados indonésios. Vislumbrei-o na tristeza do A., um rapaz indonésio proveniente de Timor ocidental que, em Díli, com um semblante perdido, nos contava sobre a mãe gravemente doente em Kupang…

Estes são apenas três exemplos de encontros com Cristo que tenho, hoje, bem presentes e vívidos no coração e que constituem provas da sua ressurreição. De facto, amigos, Cristo está vivo e encontramo-lo nas nossas cidades, nas nossas ruas. Aparece-nos de diversas formas e em diversos rostos. Creio que nos aparece, sobretudo, nas “feridas abertas do nosso mundo” como sugere Tomás Halik na sua belíssima obra O Meu Deus É Um Deus Ferido, na qual procura traduzir e ampliar a experiência do apóstolo Tomé que, tocando nas feridas de Cristo, o reconhece, enfim, ressurreto.

Haja, pois, colírio suficiente para vermos Cristo no nosso próximo. Talvez esta seja a mais definitiva de todas as apologéticas.

O Bailado Divino

No evangelho escrito pelo apóstolo João, intrigam-me e apaixonam-me aqueles capítulos centrais e dramáticos que culminam com a prisão de Jesus. O evangelista teceu a narrativa de tal forma que, do capítulo 12 até ao capítulo 17, notamos uma intensidade crescente e uma tensão cada vez mais densa nos discursos de Jesus e nas reações dos discípulos. Talvez João não tenha tido consciência de que estava a redigir uma obra de arte literária, mas o facto é que o crescendo desta narrativa captura o meu coração e faz-me suster a respiração! Hoje detenho-me, em particular, no capítulo 14 e tento mergulhar nos mistérios ali insinuados por Jesus.

Aproxima-se a hora da sua morte e Jesus explica aos discípulos o que está prestes a acontecer. Mas as coisas de que fala são misteriosas, como se lhes falasse por enigmas.

“Na casa do meu Pai há muitos lugares e eu vou preparar lugar para vocês. Depois venho buscar-vos para que estejam onde eu estou.”

Falar sobre a essência de Deus é uma aventura metafísica e é certo que nenhum de nós está perfeitamente habilitado para tal. Os próprios autores bíblicos não arriscam demasiado no que respeita a definir Deus ou a listar os seus atributos e características. Afinal, eles também eram homens e mulheres que estavam a tatear uma realidade que se desdobra muito para além da compreensão humana. Temos vislumbres desta realidade e estamos autorizados a descrevê-la da melhor forma que conseguimos, mas, não raras vezes, faltam-nos as palavras e sobra-nos o assombro!… Talvez tenha sido por isso que, na terceira epístola de João (trata-se, provavelmente, do mesmo artista literário que já referimos), nos surge esta curta e singela definição: Deus é amor.

A este propósito, C. S. Lewis alerta-nos para a seguinte evidência: a declaração cristã Deus é amor só pode ter sentido real se Deus contiver, pelo menos, duas Pessoas. Porque o amor é algo que uma pessoa nutre em relação a outra pessoa e não tem existência concreta fora da dimensão relacional. Assim, continua C. S. Lewis, o que os cristãos pretendem dizer com a declaração Deus é amor é que “a atividade viva e dinâmica do amor tem acontecido em Deus desde sempre e que essa atividade é também a força criadora de tudo quanto existe”. Vislumbramos portanto um Deus cuja essência é o amor. E nas linhas dos evangelhos percebemos o alto calibre e beleza desse amor manifesto na relação de intimidade entre o Pai e o Filho e tão bem expresso naquela voz que se faz ouvir nas margens do rio Jordão: “este é o meu filho amado em quem tenho profundo prazer”.

“Quem me vê a mim, vê o Pai. Eu sou o caminho para o Pai. Acreditem que eu estou no Pai e que o Pai está em mim.”

Certo é que, naquele momento, os discípulos pouco ou nada conseguiriam absorver do real significado deste magnífico jogo de palavras. Era-lhes fácil entender e aceitar o Messias como um enviado divino. Afinal, tinha sido essa a expectativa dos judeus ao longo de séculos. Mas ainda lhes estava vedado o entendimento para que pudessem compreender que o Messias era, na verdade, o próprio Deus. Essa compreensão requeria uma absoluta transformação da cosmovisão dos discípulos. Estando enraizados num monoteísmo rígido que incluía uma extrema aversão a qualquer representação de Deus, era agora necessário virar do avesso os seus pressupostos mais profundos para que pudessem reconhecer, enfim, a verdadeira identidade do Mestre Nazareno. É por isso que, mais adiante, Jesus lhes diz que ainda teria muita coisa para lhes explicar, mas eles não poderiam suportar tais explicações naquele momento. Faltava-lhes conhecer um outro agente de transformação, uma outra manifestação do amor divino, uma outra Pessoa que os iria guiar em toda a verdade.

“Eu vou, mas não vos deixarei desamparados. Vou enviar-vos o Espírito da Verdade que habitará convosco e estará em vós.”

É desta forma que o capítulo 14 do Evangelho de João nos apresenta aquela estranha conversa entre Jesus e os discípulos, uma conversa em que, de forma vívida mas ainda muito misteriosa, Jesus fala da unidade entre o Pai, o Filho e o Espírito. Para dar algum sentido a esta ideia de que Deus, por ser essencialmente amor, é uma unidade perfeita de três pessoas, os chamados Pais da Igreja avançaram com a ideia da trindade.

Em termos mais precisos e sistemáticos, a trindade expressa a doutrina de que existe um só Deus em três pessoas divinas e consubstanciais: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Estas três pessoas são distintas, mas são uma mesma essência. Mas é através da poesia – e não tanto através da teologia sistemática – que melhor podemos esboçar a trindade.

Um dos conceitos que os Pais da Igreja utilizaram para expressar a trindade é o conceito de perichoresis, termo grego de complexa tradução: peri significa à volta ou em torno de, chorein significa conter, avançar ou dar espaço a. Ao utilizarem este termo, aqueles primeiros teólogos pretenderam criar uma imagem dinâmica do tipo de interpenetração e coabitação das três pessoas da trindade. Talvez essa imagem seja melhor compreendida se recorrermos a alguns teólogos que, mais recentemente, recuperaram este conceito para os nossos dias. Voltemos, então, ao C. S. Lewis que nos diz que, no Cristianismo, “Deus não é algo estático – nem é apenas uma pessoa – mas é uma atividade dinâmica e pulsante, viva, quase uma espécie de drama teatral. Quase, se isto não me fizer parecer demasiado irreverente, uma espécie de dança…”

Não, caro C. S. Lewis! Isso não é irreverência. Isso é, aos ouvidos do meu coração, poesia da mais bela! Perichoresis: a magnífica dança da trindade! E o Timothy Keller ajuda-nos a dar mais cor a esta imagem: “Cada uma das pessoas divinas centra-se nas outras. Nenhuma exige que as outras girem em torno de si. Cada uma delas voluntariamente circunda as outras duas derramando nelas amor, deleite e adoração. Cada pessoa da Trindade ama, adora, submete-se e regozija-se nas outras. Isso cria uma dança dinâmica e pulsante de alegria e amor.”

Será que conseguimos ler, em João 14, laivos da mesma poesia que o Tim Keller nos oferece? Laivos de perichoresis? Será que o evangelista, com ou sem intenção, acaba por pintar um quadro do bailado divino? Creio que sim e creio até que este quadro tem ainda pinceladas mais surpreendentes, nuances mais inverosímeis…

“Na casa do meu Pai há muitos lugares e eu vou preparar lugar para vocês. Depois venho buscar-vos para que estejam onde eu estou. Vou enviar-vos o Espírito da Verdade que habitará convosco e estará em vós. E então saberão que eu estou no Pai e vocês em mim e eu em vocês. Aqueles que me amam, guardam aquilo que eu digo, e o meu Pai os amará. ”

No século IV d. C., Atanásio de Alexandria teceu uma afirmação que soa escandalosa aos ouvidos protestantes: “Deus tornou-se homem, para que os homens se possam tornar deuses”. Sim, é uma afirmação que faz ativar os alarmes contra-heresia com que vêm equipados todos os bons protestantes. Por outro lado, também é, num certo sentido, uma afirmação profundamente bíblica se entendida à luz daquilo que nos é dito por meio da segunda epístola de Pedro: “Deus, pelo seu poder, concedeu-nos tudo o que é necessário para vivermos em santidade, ao dar-nos a conhecer aquele que nos chamou pela sua glória e poder. Foi assim que ele nos concedeu os grandes e preciosos dons que havia prometido, a fim de que tomem parte na natureza divina e fujam dos maus desejos da corrupção que existe no mundo.”

Este tomar parte na natureza divina… será que não é também o que está alinhavado em João 14? Será que a descida de Jesus ao sepulcro e a sua ressurreição foi a forma – misteriosa, pois claro – como Ele nos preparou lugar no Pai?

Creio que sim. E creio que podemos entender as aparições de Jesus ressurreto e, sobretudo, o Pentecostes, relatado no segundo capítulo do livro dos Atos dos Apóstolos, como evidências de que Jesus nos veio buscar – a todos quantos o amam – para estarmos n’Ele e Ele em nós. E como Ele está no Pai, nós também estamos no Pai – que é grande o suficiente para que N’Ele todos caibam, todos tenham lugar. E no Pentecostes é derramado o Espírito Santo, o Espírito da Verdade, que agora habita connosco. E, portanto, os que amam Jesus – que, nas suas próprias palavras, equivale a viver de acordo com o que Ele diz – habitam com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo. Isto significa que não nos é oculto o bailado divino, nem é suposto que sejamos como meros espectadores desse bailado. Pelo contrário, é como se as páginas da Bíblia, e João 14 em particular, nos lançassem o convite mais estranho e, ainda assim, mais apelativo: o convite para tomarmos parte na natureza divina ou, dito de outra forma, participarmos na perichoresis.

Tudo isto é demasiado místico e, por isso, a minha mente tão formatada por padrões de exagerada racionalidade é lenta a ceder a estas ideias. Mas, em contrapartida, tudo isto é demasiado belo e o meu coração não pode resistir a tamanha beleza.

Ainda há comunidades religiosas ditas cristãs que, de uma forma mais velada ou mais explícita, condenam e proíbem que os homens dancem, quando, afinal, dançar é tudo quanto os homens precisam!

Dançam as galáxias no universo, os astros no firmamento, os peixes, os cetáceos e os grandes mamíferos nos oceanos. Dança o vento, as árvores e os arbustos em infindáveis florestas, dança a areia em redemoinhos nos desertos. Dançam as palavras e as metáforas neste texto e a poesia nas relações humanas. Dançam o Pai, o Filho e o Espírito Santo em pura alegria e radioso amor e dessa dança chegam-nos vislumbres e pinceladas nas páginas das histórias bíblicas e nas páginas do drama humano, bem como o eco, o sussurro, a… cadência de um eterno e divinal convite.

Sobre a fé e o amor na política

Escrevia Assunção Cristas, num artigo publicado no Público em novembro passado, que “ao radicalismo dos populismos [devemos] responder com o radicalismo do amor”. Foi imediatamente criticada por políticos e comentadores da política por considerarem, de forma praticamente unânime, que Assunção Cristas utilizou tom e expressões mais adequados para uma homília religiosa do que para uma coluna de comentário político. Mesmo comentadores cuja opinião estimo e valorizo, como o católico Pedro Mexia, foram veementes nas críticas à líder do CDS-PP, remetendo até o assunto para a esfera temática da separação entre o Estado e a Igreja.

Este episódio correspondeu, portanto, a uma estranha manifestação de um equívoco a que as sociedades europeias se prestam cada vez mais: a falsa ideia de que, por termos um Estado laico, os cidadãos devem colocar de lado a fé quando lidam com assuntos públicos. Como se a fé fosse uma traquitana com um interruptor on-off para ligar e desligar de acordo com o assunto em mãos…

Entendamo-nos: a laicidade dos Estados representa um grande avanço das sociedades ocidentais, sociedades que se querem plurais e verdadeiramente democráticas. Na prática, a laicidade significa que o Estado não pode impor, veicular ou promover uma religião particular, antes trata todas as confissões religiosas com o mesmo tipo de crivo e com o mesmo grau de cooperação. Significa, também, que nenhuma confissão religiosa tem ascendente sobre os órgãos de governação; pelo contrário, as confissões religiosas submetem-se ao Estado em todas as matérias legais, gozando, no demais, de liberdade para praticar a fé e para se pronunciar a respeito dos assuntos públicos.

De facto, e ao contrário da tese que vai ganhando força hoje em dia, a laicidade dos Estados não significa que as confissões religiosas e os indivíduos religiosos tenham de ser remetidos ao silêncio quando se trata de construir a polis. Até porque essa tese assenta numa grande falácia: a ideia de que é possível ser-se neutral em matéria de fé. Ora, na realidade, não existe neutralidade, pois não há nenhum ser humano que viva desprovido de fé.

O ateu e o agnóstico, assim como o religioso, acreditam num determinado conjunto de premissas que definem a respetiva cosmovisão e sustentam as suas perspetivas sobre os assuntos públicos. Podemos até dizer que essas premissas constituem, de forma consciente ou não, as bases de fé do indivíduo, quer sejam ditadas por um livro sagrado, por uma experiência religiosa particular, por uma ideologia político-partidária ou por uma filosofia secular. Neste sentido, não existem seres humanos ‘arreligiosos’ e não podemos aceitar que se proponha essa suposta ‘arreligiosidade’ como o estado default do ser humano.

Procuremos ilustrar este ponto trazendo à baila um assunto que está na ordem do dia: o cristão que se opõe à legalização da eutanásia é tão susceptível de basear a sua posição em argumentos profundamente embebidos de fé quanto o ateu que advoga a eutanásia. Porque se a fé cristã favorece uma determinada visão da sacralidade da vida humana, também a posição do ateu é influenciada por aquilo que ele crê relativamente à vida humana.

Portanto, o debate público não pode ser um debate no qual se calam as fés pois tal debate é uma impossibilidade prática. O debate público tem de procurar consensos de forma participativa, dando voz a todos os indivíduos e grupos, independentemente da respetiva fé.

Promover a falácia de que é possível ser-se neutral em matéria de fé parece-me, na verdade, uma tentativa de monopolizar a arena pública, excluindo ou calando vozes que, sustentadas numa determinada fé religiosa, sejam dissonantes do status quo. A vitória desta falácia não significará, portanto, um Estado mais laico – por mais paradoxal que isto possa parecer aos crentes na neutralidade, a vitória desta falácia representará a vitória de um fundamentalismo tão nefasto quanto os fundamentalismos do passado que o verdadeiro laicismo quis combater.

Ora esta falácia tem peregrinado na consciência europeia desde há bastante tempo e parece agora ganhar uma força excessiva e perigosa, cavalgando esta nova era em que voltam a assomar os fantasmas totalitários de eras passadas.

A coberto da luta contra o radicalismo islâmico, e enquanto são tomadas medidas para forçar a integração das comunidades muçulmanas nas cidades europeias, ganha força um discurso que não é apenas laico: é, não raras vezes, antirreligioso.

Na semana passada foi notícia a aprovação de um novo pacote de medidas relativas à imigração por parte do Governo da Áustria. Diz o Expresso que no documento aprovado pelos ministros austríacos se encontra a seguinte afirmação: “aqueles que não estão preparados para aceitar os valores do Iluminismo terão de abandonar o nosso país e a nossa sociedade”.

Eu não estava cá para ver, mas tenho a percepção de que o Iluminismo, nascido no seio da filosofia francesa, teve sempre o seu quê de fundamentalista. Ainda assim, foi responsável por muito do progresso científico, e também político e social. Ainda hoje colhemos, no Ocidente, bons frutos da revolução utópica da ‘liberdade, fraternidade e igualdade’, mesmo que alguns dos frutos tenham amargado com o tempo…

Mas aceito eu os valores do Iluminismo atual? E o que é, hoje, o Iluminismo? É uma Europa que não dá liberdade à mulher para usar burkini numa praia francesa? É uma Europa em que a extrema direita vai ganhando adeptos com um discurso de fricção e conflito social? É uma Europa feita de desigualdades económicas gritantes?

Não se dará o caso de que este ‘Iluminismo’, referido levianamente pelos ministros austríacos, seja hoje não mais do que a tal ideologia que pretende criar um espaço público inacessível à fé religiosa?

Talvez eu esteja a ler no documento austríaco muito mais do que ele pretende significar, mas foi com alguma estupefação que me deparei com aquela frase. Fiquei a matutar se teria ou não de fazer as malas caso tivesse sido o Governo do meu país a empurrar os não iluministas para a porta de saída… (Bom, como até me encontro fora do meu país, poupava essa dor de cabeça.)

Posto isto, e voltando à Assunção Cristas, devo dizer, de passagem, que não sou eleitor do CDS-PP e que Assunção Cristas não me convence enquanto líder de um partido que terá de mudar muito aos meus olhos para se descolar do terrível legado deixado por Paulo Portas.

Mas o repto de Assunção Cristas e as reações que se seguiram fizeram-me questionar desde quando é que passou a ser pecado misturar amor e política. Porque é que a linguagem da política há de ser, apenas, o economiquês? Não haverá espaço para o transcendente quando construímos a coisa pública? Não terá cabimento hoje, numa era em que tendemos para os extremismos, a figura de Martin Luther King Jr. como valioso modelo e referência no universo político?

“Mas, embora tenha ficado inicialmente decepcionado ao ser classificado como extremista, continuando a pensar sobre o assunto, gradualmente extraí certa dose de satisfação do rótulo. Não era Jesus um extremista do amor: “Ame seus inimigos, abençoe aqueles que te amaldiçoam, faça o bem àqueles que te odeiam e reze por aqueles que desprezivelmente te usam e te atormentam”? Não era Amos um extremista da justiça: “Deixem a justiça fluir como as águas e a probidade como um rio que nunca pára”? Não era Paulo um extremista do evangelho cristão: “Carrego no meu corpo as marcas do Senhor Jesus”? Não era Martinho Lutero um extremista: “Aqui estou; não tenho alternativa, então que Deus me ajude”? E John Bunyan: “Ficarei na prisão até o fim dos meus dias, até que faça da minha consciência um matadouro”? E Abraham Lincoln: “Esse país não pode sobreviver metade escravo e metade livre”? E Thomas Jefferson: “Temos essas verdades como auto-evidentes, de que todos os homens nascem iguais…”? Assim, a questão não é se seremos extremistas, mas que tipo de extremistas seremos. Seremos extremistas do ódio ou do amor? Seremos extremistas da preservação da injustiça ou da extensão da justiça?”

Carta da Prisão de Birmingham, 16 de Abril de 1963

Padecemos de uma profunda falta de imaginação coletiva quando não somos capazes de nos reinventar e elevar acima do pragmatismo vigente que, de forma doentia, coloca números e estatísticas à frente das pessoas, e acima da realpolitik feita de muito show-off, muitos interesses obscuros e pouca fraternidade.

 

O dia em que descobri o que queria ser quando fosse grande

Estávamos naquele bar mesmo junto à faculdade, tantas vezes visitado para uma bica rápida e tantas outras vezes frequentado para um jogo de cartas não tão rápido. Naquele dia não era nem a bica, nem o jogo, que marcavam o compasso da minha passagem pelo bar. Era a conversa com um bom amigo. Às tantas, confessei:

– Sabes, o que percebo é que o GBU nos desafia a viver a fé com prioridades, ritmos e uma integralidade que acaba por contrastar muito com aquilo que alguns de nós aprendemos nas igrejas onde crescemos. Ainda por cima, essa vivência da fé, no GBU, concretiza-se de uma forma comunitária e torna-se muito marcante. Por isso, não sei como ficarei quando terminar a universidade e for tempo de deixar o GBU. Receio que venha a sentir um grande vazio…

O meu amigo, depois de me dar todo o tempo necessário para que eu expressasse o meu receio e a minha frustração, pegou numa caneta e num guardanapo de papel, desenhou uma circunferência, e apontou para o centro:

– Aqui é onde se situam muitas igrejas: no centro do círculo, protegidas do ‘mundo’, mas pouco dialogantes com a sociedade – disse-me de forma concisa.

Em seguida, a ponta da caneta percorreu novamente a circunferência e ele acrescentou:

– Aqui, na fronteira, é onde o GBU procura colocar-se de forma intencional, porque acreditamos que é necessário promover o diálogo com as áreas de estudo secular e, também, com a sociedade no seu todo para que a fé dos estudantes universitários floresça e se consolide.

O meu amigo continuou a aplicar aquela ilustração, falando da dificuldade que alguns graduados do GBU sentem quando terminam os estudos e são pressionados (mais que não seja pelo ambiente religioso de que fazem parte) à trajetória de ‘regresso’ até ao centro da circunferência. O preço dessa trajetória pode ser a diluição de todas as aprendizagens no caldo da antiga vivência religiosa, marcada por outras prioridades, por outros ritmos e por uma perspetiva fragmentada pela má compreensão do binómio profano/sagrado.

Aquele guardanapo de papel vem muitas vezes ao meu pensamento, ao ponto de arriscar dizer, em retrospetiva, que foi nesse dia que descobri o que queria ser quando fosse grande: queria, nada mais nada menos, do que ser um fronteiriço. Afinal, tinha sido ali, junto à fronteira, que eu havia encontrado um tesouro de imenso valor. Portanto, aplicando a chamada parábola do tesouro escondido, só me restava uma hipótese: abrir mão de tudo o resto e fixar-me onde estava o tesouro. Nada de trajetórias de regresso ao centro, nada de diluições, nada de comprometer a fé bela e plena de significado que me tinha sido dada a conhecer junto à fronteira.

Ora, para uma pessoa que cresceu muito longe das fronteiras, havia e há muito caminho a desbravar. Continuam a ser necessárias doses elevadas de desconstrução e desformatação porque muitos elementos da minha cosmovisão ainda são determinados por pontos de vista enviesados e incompletos, próprios de quem vê a realidade, difusa e distante, a partir do centro da circunferência. Como este processo de desconstrução – esta aventura fronteiriça – não pode ser solitário, procuro rodear-me de amigos que sejam mais experientes nesta coisa de desbravar caminho rumo à fronteira, amigos que conhecem melhor os mapas que lá nos levam. Ao mesmo tempo, desejo que me seja também concedida a graça de conseguir falar para dentro: convidar à aventura aqueles que ainda se movem em territórios demasiado interiores. Estou convicto de que o desafio de lançar fora o medo, abrir mão da segurança e do conforto e ser um cristão fronteiriço, em diálogo permanente com o mundo, é O Grande Desafio extensivo a todos os cristãos. Porque, como já dizia aquele a quem seguimos, “ninguém, depois de acender uma candeia, a cobre com um vaso ou a põe debaixo duma cama; pelo contrário, coloca-a sobre um velador, a fim de que os que entram, vejam a luz”.

Laodiceia

Leio a carta que escreveste para mim e confesso:
É de Laodiceia que eu parto,
Mas não quero ficar aqui.
Este ponto de partida não é o meu destino.
Caminharei.

Confesso a minha cegueira quase crónica,
Mas quero passar a ver.
Vendes-me desse remédio?
Porque eu quero ver para lá das estatísticas,
Para além de números mortos,
De informações ocas e preconceitos apressados,
De factos vazios e emoções descontroladas.
Quero o tal colírio eficaz que me mostra a realidade como ela é.
A cirurgia ocular que me dá a conhecer quem tu és e quem sou eu.

Confesso que não sou frio nem quente,
Mas quero provar da verdade que queima por dentro,
A verdade ontológica,
Servida em pão e vinho,
Servida em corpo e sangue,
Servida em mistério cruciforme.
A verdade que sabe a fogo que não se apaga,
Que tudo refina,
E que desfaz o louco que há em mim.

Confesso que é de Laodiceia que eu parto,
Mas, tenha eu ouvidos para ouvir,
Tenha eu coragem para me mover,
Caminharei.
Pois não quero ficar aqui.

Reflexões sobre a epistemologia do divino

Creio no valor da teologia enquanto exercício de reconhecimento da revelação divina na experiência humana. Desenvolvo o pensamento teológico como um caminho que busca a aproximação à verdade construída a partir do chão da vida, tecida a partir da vivência quotidiana e do drama humano. Corroboro a afirmação do Ed René Kivitz quando ele diz que Deus não é oposto das coisas, mas sim o pleno sentido de todas elas. Assim, a teologia também não há de ser independente das coisas, antes há de ser a incessante procura de encontrar Deus nas coisas.

É precisamente desses encontros com Deus nas coisas que escrevem os autores bíblicos. Um Deus que se revela das formas mais surpreendentes e inusitadas do lado de cá da realidade palpável: uma sarça ardente, uma voz calma num lugar ermo, um bebé numa manjedoura…

Creio que é esta abordagem existencialista que a Bíblia me convida a fazer porque é esta também a abordagem daqueles que escreveram os livros que a compõem. Uma revelação que é progressiva e que é sempre feita do lado de dentro da cultura e cosmovisão dos personagens bíblicos. Do lado de dentro da trama. Do lado de dentro do drama humano. Uma revelação que ganha rosto e corpo quando Jesus Cristo anda entre nós. Por Ele e por causa dele ficamos perplexos, surpresos, desconcertados e somos levados a reconstruir a forma como explicamos o mundo…

As nossas histórias podem não integrar o canône bíblico, mas são também histórias da Grande História. Histórias de homens e mulheres que vão ouvindo rumores sobre a Verdade, vão tendo encontros com a Verdade, vão caminhando lado a lado com a Verdade e por vezes, como no caminho de Emaús, nem sequer a reconhecem. Sim, nós hoje também somos pescadores da Galileia, soldados romanos e cobradores de impostos. E, tal como eles, vamos interpretando a realidade – as coisas – em resposta à Verdade que vamos descobrindo.

Ora, esta mesma abordagem existencialista leva-me a rejeitar a teologia construída a partir de premissas metafísicas desligadas da realidade e dissonantes da experiência. Faço a teologia de baixo para cima e não de cima para baixo. Faço a teologia não esvaziando o mistério que ela permanentemente nos traz e que resulta de apenas vermos em parte, e não em todo. Vemos um reflexo de Deus, um enigma fascinante, que o torna muito mais uma pergunta a abraçar do que uma resposta pronta. Rejeito, portanto, a teologia enquanto exercício de sistematização absoluta e exaustiva da verdade sobre Deus e rejeito ainda mais as tentativas de forçar sistematizações puramente metafísicas para dentro da realidade.

Neste sentido, rejeito, em particular, a sistemática de Calvino e dos seus discípulos. Rejeito-a por uma série de boas razões (porque, por exemplo, a dupla predestinação é uma ideia horrível) mas não me interessa esmiuçar aqui todas elas. Há por aí livros e blogues que o fazem muito melhor do que eu. No contexto do que já escrevi acima, abordo apenas uma dessas razões: rejeito o calvinismo pois este é construído a partir de premissas altamente dissonantes com a minha experiência.

Rejeito a doutrina da depravação total porque ela é contrária à experiência de encontrar Deus no meu próximo. Creio firmemente que toda a beleza e toda a bondade vêm de Deus, pelo que um homem que ama não pode estar totalmente depravado.

Rejeito o monergismo – a doutrina de que o homem não tem qualquer participação na sua salvação – por ser também contrária à experiência: no meu dia-a-dia eu escolho e eu sou responsável pelas minhas escolhas. É isso que eu faço. É essa a realidade que me é dada a conhecer na minha experiência. No palco da vida, eu tomo decisões, faço escolhas – grandes e pequenas – e sou responsável por elas. Quando o calvinismo nega esta realidade está a sobrepor-lhe uma doutrina fictícia e desconectada das coisas. O calvinismo eleva a soberania de Deus a um absolutismo tal que, ironicamente, na sistemática calvinista, Deus fica refém da sua própria soberania. O calvinismo aprisiona Deus. Neste aspeto, parece-me que Calvino caiu na armadilha de ser mais papista do que o Papa.

Arrisco até alinhar com Kierkegaard na sua ode à decisão enquanto faculdade que aproxima o homem do divino:

Uma decisão junta-nos ao que é eterno. Traz o eterno para dentro do tempo. Uma decisão eleva-nos com um choque do sono da monotonia. Uma decisão rompe o feitiço mágico do hábito. Uma decisão rompe a longa sucessão de pensamentos cansados. Uma decisão pronuncia a sua benção até mesmo sobre o mais fraco dos recomeços, desde que seja um recomeço real. Uma decisão é o despertar para o que é eterno.

Rejeito pois o calvinismo e muitas outras doutrinas que não sejam produzidas a partir do chão da vida. E, da mesma forma que acredito que conhecemos a Verdade no chão da vida, acredito que a fé também se expressa no chão da vida, em profunda conexão com a realidade como ela é, em profunda conexão com as coisas. Quero com isto dizer que, ao encontrarmos Deus na experiência, também é na experiência que esboçamos a nossa resposta a Deus. A fé não se concretiza, pois, na afirmação de proposições absolutas mas no acolhimento da Verdade, a um nível relacional muito mais profundo do que o meramente intelectual, e na ação que responde a essa Verdade. Conhecemos Deus dentro da realidade e é dentro da realidade que lhe damos resposta. A essa resposta chamamos fé e essa resposta está intimamente relacionada com aquilo que fazemos. Como diz o Andrew Fellows, todos temos dois sistemas de crenças: aquilo em que dizemos acreditar e aquilo que fazemos; mas o nosso verdadeiro sistema de crenças é o segundo.

Assim, nesta perspetiva existencialista, a epistemologia, a fé e a praxis andam de mãos dadas no chão da vida.