Pontos e contos de um cristão pós-moderno

Month: Setembro, 2017

Igreja com Raízes

O livro, da autoria de Paul Sparks, Tim Soerens e Dwight J. Friesen, foi-me sugerido com muita veemência por um bom amigo e intitula-se The New Parish – how neighborhood churches are transforming mission, discipleship and community. A tradução à letra para a língua de Camões seria algo como A Nova Paróquia – como as igrejas de bairro estão a transformar a missão, o discipulado e a comunidade.

O propósito dos autores é o de testemunhar, contextualizar e advogar uma tendência que, acreditam, tem alastrado recentemente nos países ocidentais: o enraizamento (ou talvez se pudesse dizer o reenraizamentouish!) das igrejas locais nos respetivos bairros, vilas e cidades. De acordo com a experiência dos próprios autores, trata-se de uma mudança de paradigma das ‘igrejas de consumo para as paróquias’, das ‘conversas abstratas para uma real partilha da vida’, dos ‘projetos para a transformação dos bairros’.

“Paróquia?” – interrogam-se os leitores evangélicos portugueses – “esse não é um termo em desuso que remete para a excessiva hierarquização da Igreja Católica e para um tempo em que Estado e Igreja se confundiam e a paróquia era uma unidade administrativa sinónimo de freguesia?” Aparentemente esta questão passou pela mente dos autores, uma vez que uma das secções do primeiro capítulo é dedicada, precisamente, a explicar porque é que a palavra ‘paróquia’ ressurgiu e o que é que há de novo no uso desta palavra:

Quando nós três falamos acerca daquilo que parece estar a acontecer na ‘nova paróquia’, é importante fazer a distinção com o antigo, ou prévio, conceito de paróquia. Propor que tem emergido uma nova compreensão sobre a paróquia não implica descartar tudo aquilo que era bom relativamente à anterior compreensão, mas antes vê-la como a raiz da qual podem brotar novas aprendizagens e novo crescimento. (…)

Se por um lado a antiga palavra paróquia carrega importantes memórias de amor, lar e bondade ao longo da sua história, ela também remete para várias formas de manipulação instituída através de hierarquias centralizadas, estruturas patriarcais e outras formas de abuso. (…)

Contrastamos a nova paróquia com as antigas concepções que a igreja trouxe desde a Cristandade, vindas de uma era em que a igreja institucional praticamente ditava a configuração da comunidade. A igreja que emerge na paróquia hoje em dia é diferente de muitas maneiras. A primeira diferença é que o bairro – na sua diversidade – tem uma voz que contribui para a configuração da igreja. Existe uma consciência crescente de que o Espírito trabalha através dos relacionamentos da comunidade local para nos ensinar como é que o amor e a fidelidade se expressam naquele contexto particular.

Com isto, convencemo-nos do uso benigno da expressão ‘nova paróquia’ e adotamo-lo também neste texto sem mais crítica.

Também no primeiro capítulo, faz-se um breve diagnóstico da sociedade atual identificando ‘as duas forças mais fragmentadoras dos nossos dias: a primeira pode ser chamada de mito do indivíduo e a segunda consiste em viver acima do lugar’.

Viver acima do lugar… detemo-nos neste ponto porque nos parece um dos pontos mais pertinentes como retrato de uma sociedade em que o ritmo do quotidiano se tornou esmagador e as relações estabelecidas entre o indivíduo e o local que habita e entre o indivíduo e os outros habitantes são etéreas e voláteis. Levamos vidas demasiado fragmentadas no espaço, faltando-nos capacidade para ser e exercer uma presença permanente num lugar específico:

Viver acima do lugar designa a tendência para desenvolver estruturas que mantêm as relações de causa-efeito à distância no espaço e no tempo ao ponto de não as experimentarmos em primeiro mão. Por exemplo, provavelmente já passaste pela situação de comprar produtos alimentares sem ter a mínima ideia acerca da origem dos alimentos e de quem esteve envolvido no processo de produção e distribuição. Viver acima do lugar descreve o processo em que este tipo de separação acontece com tanta frequência que nos tornamos desorientados em relação à realidade.

Merece ainda destaque um terceiro tema e excerto do primeiro capítulo em que é esboçada a teologia que dá fundamento ao paradigma da nova paróquia enquanto resposta da igreja ao diagnóstico previamente feito. Esta teologia resulta de se levar plenamente a sério a crença de que Deus se fez homem. O mistério da encarnação, demasiadas vezes em segundo plano nas nossas teologias sistemáticas, é, na verdade, o facto que dá corpo a toda a boa teologia e que modela a práxis cristã:

Se a natureza de Deus como Trindade modela a tua vocação relacional, então a encarnação de Deus demonstra a tua vocação missional para viver num tempo e num lugar concretos. Quando Deus escolheu entrar no mundo, não o fez de uma forma etérea e genérica mas numa família particular, numa vila particular e num país particular com práticas sócio-religiosas específicas. Tal como Cristo “se tornou carne e sangue, e veio viver na vizinhança” (João 1:14 A Mensagem), também as pessoas que formam a igreja local na paróquia são chamadas a constituir uma expressão tangível do amor de Deus na realidade da vida quotidiana.

Que bela imagem! Ficam, ainda, por explorar todas as ricas implicações e ramificações desta comparação. De facto, a obra não se estende nesta vertente teológica, mas, no fim do livro, são recomendados diversos recursos e desconfiamos que, por meio deles, pode o leitor interessado aprofundar o lado teológico.

Enquanto no primeiro capítulo se faz um diagnóstico mais social, no segundo capítulo, com o subtítulo Como a igreja perdeu o seu lugar o diagnóstico é mais eclesial. Percorrendo a história do cristianismo, os autores fazem o sumário dos diferentes tipos de relação entre a igreja e o lugar, identificando 4 principais modelos:

  • A igreja em (‘the church in’) caracterizada por comunidades de seguidores de Jesus que dão testemunho local do reino de Deus, como as igrejas do Novo Testamento – igreja em Jerusalém, igreja em Corinto, igreja em Éfeso, etc.
  • A igreja de (‘the church of’) caracterizada pela adoção do cristianismo como religião oficial de um estado ou região, começando pela Igreja de Roma e disseminando-se durante a Cristandade – a Igreja de Constantinopla, a Igreja Ortodoxa da Etiópia – e mesmo depois da Reforma Protestante – a Igreja Luterana da Alemanha e a Igreja Anglicana da Inglaterra.
  • A igreja para (‘the church for’) caracterizada pela expansão missionária, numa fusão entre evangelismo e colonialismo empreendida pelas potências de cada época; as organizações missionárias encarregaram-se assim de levar a igreja para a Ásia, para a África e para a América Latina.
  • A igreja com (‘the church with’) caracterizada pelo surgimento de uma grande diversidade de ministérios eclesiásticos e para-eclesiásticos com grupos-alvo específico, por exemplo quanto à faixa etária, etnia, ocupação ou preferências pessoais.

Os autores registam os aspetos mais benignos e os mais nefastos destes 4 modelos e sugerem um outro modelo para o exercício de uma presença fiel na nova paróquia. Aqui a tradução das preposições torna-se mais ardilosa, mas arriscamos:

  • A igreja dentro – integrada, enraizada – em e com (‘the church within & in-with’) caracterizada por comunidades plenamente enraizadas no seu local enquanto colaboram nesse local com outros.

A explicação dos autores:

(…) este movimento de novas paróquias procura praticar estas duas preposições em e com. Elas unem o em da igreja do primeiro século e o com da igreja missional de forma a firmar a igreja num lugar concreto. Este enraizamento convida-nos a buscar o florescimento de todos – não apenas de pessoas como nós, e não apenas das pessoas de quem gostamos, mas de todos os vizinhos.

Os capítulos 3, 4 e 5 procuram apresentar uma explicação mais sistematizada acerca da essência da nova paróquia. Não se trata aqui de providenciar uma receita ou uma técnica para alcançar o sucesso da igreja na era atual. Aliás, no capítulo 3 os autores apressam-se a denunciar os perigos da técnica enquanto conjunto de métodos padronizados e uniformizados que muitas igrejas empregam para alcançar os fins desejados, sem atentar a cada contexto particular:

Quando os métodos tomam a dianteira, tornamo-nos distraídos em relação àquilo que o Espírito está fazer no e através do lugar particular. (…) Lentamente eles acabam por te desconectar dos próprios meios que o Espírito usa para comunicar. A técnica é a superstição da era moderna.

Tendo em conta o propósito dos autores, poderiam também eles, até de forma inadvertida, cair na armadilha de apresentar a visão deles como se de uma estratégia infalível se tratasse. De que forma conseguem não cair nessa armadilha? Cremos que, nestes capítulos centrais, aqui ou ali os autores correm esse risco, mas conseguem evitar a armadilha por meio de dois elementos que pautam o texto: em primeiro lugar, a utilização de histórias reais para dar cor às ideias dos autores e que demonstra, também, que não nos escrevem como quem descobriu a pólvora, mas como quem nos quer abrir os olhos para uma realidade que já está a ganhar forma à nossa volta e à volta deles; em segundo lugar, a apresentação das ideias de forma esquemática, muitas vezes com recurso a classificações simplistas mas úteis, e a inclusão de pontos para reflexão e discussão (incluindo perguntas de autoavaliação) mostram que a intenção dos autores passa mais por suscitar interrogações, provocando os pressupostos e as definições do leitor, do que dar respostas fechadas e definitivas.

O capítulo 4, com subtítulo Como a adoração para além do ajuntamento reconfigura a igreja, e o capítulo 5, Encontrar a igreja em todas as circunstâncias da vida, têm, de facto, bastante de provocativo. Deixamos os autores falar por nós:

A visão da igreja como um culto no qual se participa aos Domingos de manhã é muito comum no mundo ocidental. (…) Não há nada de errado em participar num evento deste género, mas há algo de errado em pensar que isto é o que significa ser a igreja. (…) No cerne do que significa ser igreja está a adoração a Deus. Uma compreensão ortodoxa passa por entender a adoração como algo que tem relação com todos os aspetos da vida. As Escrituras descrevem a adoração como “[entregar] a vida quotidiana – dormir, comer, trabalhar, passear – a Deus como se fosse uma oferta” (Romanos 12:1 A Mensagem). A vida de adoração é mais do que aquilo que fazemos em conjunto nos nossos encontros dominicais; ela engloba a plenitude das nossas vidas em comunidade. O culto dominical é como que um ensaio, uma preparação, para o tipo de pessoas que desejamos ser em conjunto enquanto exercemos a fé na paróquia ao longo de toda a semana. A igreja local aprende a depender do movimento do Espírito em todas as situações como uma forma de estar fielmente presente nos relacionamentos particulares do seu contexto. Uma vida holística de adoração consiste numa postura diária de presença fiel. No centro da prática da igreja deve estar o exercício de uma presença fiel na paróquia. (…)

Enquanto a maior parte dos líderes de ministério esperam que os membros deem 10% às suas igrejas, acabam por receber uma média de apenas 2%. Do mesmo modo, eles desejam tipicamente que os membros contribuam com 10% do seu tempo para os trabalhos da igreja, mas provavelmente o tempo real anda também perto de 2%. E quando se trata de contribuir para a igreja com os seus próprios dons, forças e paixões – bom, são apenas consideradas umas poucas competências “ministeriais” (cantar, pregar e ensinar são as mais populares). Mas se a igreja está na e é para a paróquia, tudo se altera. Mesmo que nem todos possam centrar as suas vocações na paróquia, eis apenas alguns exemplos de como esta alteração pode fazer diferença:
– Tudo aquilo que fazemos, tudo aquilo que damos, tudo aquilo que compramos, todas as coisas nas quais investimos o nosso tempo – tudo pode contribuir para a missão da igreja e para o florescer da paróquia.
– Todos os dons, paixões e habilidades que contribuem para a reconciliação e renovação da paróquia são de grande valor. Aliás, só o estar lá pode ser um dom.
– Começar um pequeno negócio ou encontrar uma forma de exercer a vocação na paróquia contribui, geralmente, para todos os aspetos da vida comum na paróquia – relacionamentos, ambiente, vida cívica, economia, educação – ao mesmo tempo.
– Talvez o melhor de tudo seja que, por estarmos próximos, é mais fácil colaborar nestas coisas de formas que resultam num todo que é muito maior do que a soma das partes.

Enquanto os primeiros dois capítulos procuram dar resposta ao porquê – por que precisamos da nova paróquia? – e os três capítulos que se seguem procuram dar resposta ao o quê – o que é a nova paróquia? – os quatro capítulos finais procuram dar resposta ao como – como concretizar a nova paróquia? Os quatro títulos resumem a proposta dos autores: estar presente (presencing); criar raízes (rooting); colaborar (linking); liderar (leading).

No capítulo 6, o repto para estar presente é acompanhado de duas propostas que poderão parecer menos ortodoxas, mas que, concordando com os autores, consideramos não apenas válidas mas até mesmo imprescindíveis. A primeira proposta é a do experimentalismo enquanto caminho para a missão da igreja nesta era:

A tarefa da liderança é primeiramente a de juntar as pessoas para que possam ouvir-se mutuamente, discernir e experimentar. Se alguma vez houve um tempo em que podemos chegar a uma expressão da igreja fresca e contextualizada por meio da experiência, é este o tempo. Não apenas por estarmos a viver numa era adaptativa mas também porque as experiências de presença fiel e comunitária são a melhor forma de aprendermos verdadeiramente como ser igreja na vida quotidiana. Não chegamos lá apenas através da reflexão. Temos de dar passos de fé cuidadosos mas também corajosos para conseguirmos discernir qual o caminho para a frente.

Experimentar. Com ousadia, imaginação e de forma coletiva. Colocar a teoria à prova. Ensaiar respostas concretas e práticas, mesmo que inusitadas e mesmo que nos obriguem a sair das nossas zonas de conforto. Sim, parece-nos que este experimentalismo, regado com muita oração, em comunidade e contextualizado à realidade concreta da paróquia, será benigno e frutífero. A segunda proposta é a de ouvir a narrativa do local acreditando que Deus já está a trabalhar nesse local de muitas e variadas formas, não só por meio da igreja, mas também através de pessoas e grupos de diferentes credos, organizações seculares, empresas que operam em vários sectores, etc.

Escutar o nosso local por meio da narrativa do reino de Deus desperta-nos para aquilo que o Espírito já está a fazer nesse local e para aquilo a que se assemelham as boas novas no local em que habitamos. Não existe um programa ou uma técnica para aplicar. Em vez disso, trata-se de adotar uma postura de audição intencional e profunda e de abertura para a realidade dos lugares que habitamos. (…) Escutar requer a consciência de que, se por um lado, o nosso envolvimento tem significado, por outro lado nós não somos a resposta. Escutar é talvez a maior demonstração de que uma pessoa não se concebe a si mesma como Deus e de que ela honra os outros como sendo dignos de ser ouvidos.

Quão contra-cultural é esta proposta? Numa sociedade em que todos gritam, a igreja escuta. Numa sociedade cheia de ruído, paramos para discernir com a ajuda do Espírito Santo que parte do ruído é que já é, na realidade, a melodia da Missio Dei. Uma melodia que soa nas nossas ruas muito antes de nós lá chegarmos…

Para dar fruto é necessário ter raízes, certo? É por isso que o desafio que nos lança o capítulo 7, e que, a bem-dizer, percorre toda a obra, é o desafio do enraizamento. Talvez este tenha sido o capítulo que mais impacto nos causou, o apogeu da obra aquando da nossa leitura. Torna-se difícil selecionar um excerto que represente todo o capítulo, mas eis um resumo (formado a partir dos títulos das subsecções mas na esperança de que tenha, ainda assim, algum sumo): o enraizamento começa como prática pessoal, alterando de forma intencional o modo como nos relacionamos com o lugar onde vivemos, incluindo práticas e rotinas diárias que nos ajudem a escutar melhor esse lugar; ganhar raízes passará, também, pela vivência comunitária da fé no lugar onde se vive, partilhando o quotidiano com outros membros da mesma igreja; quanto aos cristãos de outras denominações e confissões que habitam na mesma paróquia, o desafio é o mesmo – criar raízes também com eles; os autores vão ainda mais longe sugerindo que este processo de enraizamento requer também um espírito de escuta, colaboração e comunidade que se estende às pessoas de outras tradições e fés, pois, em qualquer contexto, a colaboração é melhor do que a competição; finalmente, sugere-se que o desafio de criar raízes diz também respeito ao meio ambiente e às construções físicas, cooperando para que a terra, os animais, os recursos e os edifícios sejam cuidados de forma sustentável.

Se começamos a praticar uma presença fiel numa determinada área geográfica, então, em certo sentido, esta igreja diversa e com várias camadas já lá existe. Só é necessário que as pessoas sejam apresentadas umas às outras. Será que isto é ingénuo e simplista? Nós pensávamos que sim até que começámos a visitar bairros. E então nós três esbarrámos em grupos de cristãos que se juntam em torno de esperanças comuns em bairros e vizinhanças onde quer a gente vá. Esta visão é possível. E, para além disso, os riscos valem a pena. Queremos mesmo que tudo continue como tem estado? Como o nosso amigo Brandon Rhodes ironiza: “o corpo de Cristo tornou-se tão desmembrado que não tem sequer uma perna para se segurar de pé”. Isto tem de mudar. A paróquia pode tornar-se o terreno literal que nos ajuda a ganhar forma, pernas e braços. Coloquemos de lado as nossas grandes visões de mudar a vizinhança, e em vez disso concentremos as nossas atenções em escutar os lugares que habitamos. Que os nossos pés passem a conhecer e a amar as nossas ruas.

Os dois últimos capítulos, oitavo e nono, talvez tenham sido aqueles que menos impacto tiveram nesta primeira leitura, possivelmente por estarmos ainda a desbravar o primeiro mato nesta senda do enraizamento. Não obstante, são pertinentes as propostas oferecidas nestes capítulos e desconfiamos que a iremos recorrer a elas mais tarde. No capítulo 8 sublinha-se a importância de estabelecer parcerias e laços entre diferentes paróquias como forma de combater aquilo que os autores designam de cegueira espacial e que se traduz em indivíduos ou comunidades que só conseguem ver as suas próprias realidades, sem reconhecer a existência de outras realidades e possibilidades, ou que, em sentido contrário, só conseguem perceber as realidades alheias, sem discernir a sua própria realidade. Por fim, no capítulo 9, somos alertados para a forma acrítica e abstrata como a nossa cultura define liderança. Numa sociedade como a nossa, é perigoso associar o exercício da liderança à mera capacidade de influenciar, motivar ou inspirar os outros, defendem os autores. Propõem, em alternativa, uma definição que não seja desprovida de valores:

Definimos liderança como a capacidade para mobilizar vontade de reconciliação e renovação por meio de ação coletiva, ao mesmo tempo que se presta contínua atenção à narrativa de Deus, à fidelidade do grupo para com o respetivo lugar e à transformação do próprio líder.

Termina, assim, o nosso périplo pelo livro. Como deixamos bem patente ao longo do presente texto, trata-se de uma obra importante, provocativa, que merece a nossa melhor apreciação. Há, entretanto, uma realidade que devemos reconhecer: muitos cristãos já praticam esta presença fiel sem qualquer enquadramento teórico prévio, sem que seja uma resposta a um repto das lideranças e, até, sem esforço aparente. Muitos irmãos e muitas irmãs que se sentam nos bancos das nossas igrejas domingo após domingo, e que muitas vezes nem assumem nenhum papel de relevância nessas reuniões dominicais, são verdadeiros embaixadores do Reino na comunidade, cooperando com os seus vizinhos para tornar as nossas ruas e bairros mais belos e harmoniosos. Por outro lado, também devemos reconhecer que esta prática da presença fiel nas nossas paróquias não tem sido o principal foco missional das nossas comunidades eclesiásticas. E se alguns de entre nós, abençoados por um espírito mais prático, não carecemos de enquadramento teórico para acertar o compasso da nossa praxis, outros há que carecem desse enquadramento e reflexão. Para muitos de nós, de espírito mais teórico e mente pouco sossegada, é necessário que as ideias se alinhem e que as sinapses se multipliquem para sermos empurrados para a prática. Para este grupo, o livro sob análise constitui uma excelente ferramenta. No nosso caso, ajudou-nos a verbalizar, confirmar e reforçar muitas ideias que por aqui já cirandavam e que, mais alinhadas, providenciam o tal enquadramento para a missão e vocação da igreja no século XXI, que, acreditamos, é também a missão e vocação à qual somos particularmente chamados.

Como já referimos, ao recorrerem a histórias reais para ilustrar a nova paróquia, a proposta dos autores consiste menos numa nova receita ou técnica para o sucesso da igreja. O livro assemelha-se mais a uma tela na qual vai sendo pincelada uma imagem daquilo que pode ser a Igreja com Raízes nos nossos dias. Essa imagem é bela e pungente, capaz de nos capturar o coração e alargar a imaginação! Para fechar este texto – esta apologia – partilhamos uma citação de Jon Tyson usada também pelos autores e que transmite de forma muito viva essa imagem:

Como é que a Igreja se pareceria se decidíssemos comprar casas nas mesmas ruas e subdivisões, nos mesmos prédios e quarteirões, nos mesmos subúrbios e secções? Como é que o nosso amor se pareceria se fosse demonstrado dúzias de vezes por semana através de pequenas mas profundas situações: refeições preparadas, orações feitas, cânticos entoados, Escrituras estudadas, jogos partilhados, festas realizadas, lágrimas derramadas, reconciliação praticada, recursos doados? E se parássemos de participar em grupos comunitários e nos tornássemos grupos de comunidades? E se as nossas casas deixassem de ser os lugares onde nos escondemos dos mundo e passassem a ser paraísos aos quais o mundo recorre para encontrar cura?

 

 

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Provas da Ressurreição de Cristo

Amigos, permitam-me repassar mais uma vez a Mensagem que nos tem sido comunicada: o Cristo morreu pelos nossos pecados, exatamente como dizem as Escrituras; foi sepultado e se levantou da morte no terceiro dia – mais uma vez, exatamente como dizem as Escrituras. Apareceu vivo a Pedro, depois aos seus seguidores mais próximos e, mais tarde, a mais de quinhentos seguidores ao mesmo tempo. Depois ele passou um tempo com Tiago e com o restante dos que chamou para falar em seu nome, e, ainda, apareceu vivo a Paulo, tal como o próprio deixou registado nas suas cartas. Paulo foi aquele que passou anos a perseguir a igreja de Deus, mas a ele foi concedida a graça bondosa de ver Cristo.

Depois disto, Cristo apareceu a homens e mulheres, de todas as idades, etnias e nações, ao longo dos séculos. Apareceu-lhes em muitos contextos, falando-lhes em muitas línguas e de muitas maneiras. Muitos deles estão por aí e podem confirmar o que eu digo (ainda que outros já tenham morrido).

Ora, finalmente, Cristo apareceu-me também a mim. Muitas vezes só o reconheci em retrospetiva, por causa da miopia e da surdez severas de que padeço. Mas hoje sei que era ele. Era ele que me falava através da gargalhada desprendida e leve do professor australiano que gentilmente nos encorajou quando, recém-chegados a Díli, enfrentávamos, pasmos e abalados, as grandes diferenças culturais. Apareceu-me, também, no sorriso desconcertante do Sr. M. quando ele contava histórias de intenso sofrimento e tortura causada pelos soldados indonésios. Vislumbrei-o na tristeza do A., um rapaz indonésio proveniente de Timor ocidental que, em Díli, com um semblante perdido, nos contava sobre a mãe gravemente doente em Kupang…

Estes são apenas três exemplos de encontros com Cristo que tenho, hoje, bem presentes e vívidos no coração e que constituem provas da sua ressurreição. De facto, amigos, Cristo está vivo e encontramo-lo nas nossas cidades, nas nossas ruas. Aparece-nos de diversas formas e em diversos rostos. Creio que nos aparece, sobretudo, nas “feridas abertas do nosso mundo” como sugere Tomás Halik na sua belíssima obra O Meu Deus É Um Deus Ferido, na qual procura traduzir e ampliar a experiência do apóstolo Tomé que, tocando nas feridas de Cristo, o reconhece, enfim, ressurreto.

Haja, pois, colírio suficiente para vermos Cristo no nosso próximo. Talvez esta seja a mais definitiva de todas as apologéticas.