O Bailado Divino

No evangelho escrito pelo apóstolo João, intrigam-me e apaixonam-me aqueles capítulos centrais e dramáticos que culminam com a prisão de Jesus. O evangelista teceu a narrativa de tal forma que, do capítulo 12 até ao capítulo 17, notamos uma intensidade crescente e uma tensão cada vez mais densa nos discursos de Jesus e nas reações dos discípulos. Talvez João não tenha tido consciência de que estava a redigir uma obra de arte literária, mas o facto é que o crescendo desta narrativa captura o meu coração e faz-me suster a respiração! Hoje detenho-me, em particular, no capítulo 14 e tento mergulhar nos mistérios ali insinuados por Jesus.

Aproxima-se a hora da sua morte e Jesus explica aos discípulos o que está prestes a acontecer. Mas as coisas de que fala são misteriosas, como se lhes falasse por enigmas.

“Na casa do meu Pai há muitos lugares e eu vou preparar lugar para vocês. Depois venho buscar-vos para que estejam onde eu estou.”

Falar sobre a essência de Deus é uma aventura metafísica e é certo que nenhum de nós está perfeitamente habilitado para tal. Os próprios autores bíblicos não arriscam demasiado no que respeita a definir Deus ou a listar os seus atributos e características. Afinal, eles também eram homens e mulheres que estavam a tatear uma realidade que se desdobra muito para além da compreensão humana. Temos vislumbres desta realidade e estamos autorizados a descrevê-la da melhor forma que conseguimos, mas, não raras vezes, faltam-nos as palavras e sobra-nos o assombro!… Talvez tenha sido por isso que, na terceira epístola de João (trata-se, provavelmente, do mesmo artista literário que já referimos), nos surge esta curta e singela definição: Deus é amor.

A este propósito, C. S. Lewis alerta-nos para a seguinte evidência: a declaração cristã Deus é amor só pode ter sentido real se Deus contiver, pelo menos, duas Pessoas. Porque o amor é algo que uma pessoa nutre em relação a outra pessoa e não tem existência concreta fora da dimensão relacional. Assim, continua C. S. Lewis, o que os cristãos pretendem dizer com a declaração Deus é amor é que “a atividade viva e dinâmica do amor tem acontecido em Deus desde sempre e que essa atividade é também a força criadora de tudo quanto existe”. Vislumbramos portanto um Deus cuja essência é o amor. E nas linhas dos evangelhos percebemos o alto calibre e beleza desse amor manifesto na relação de intimidade entre o Pai e o Filho e tão bem expresso naquela voz que se faz ouvir nas margens do rio Jordão: “este é o meu filho amado em quem tenho profundo prazer”.

“Quem me vê a mim, vê o Pai. Eu sou o caminho para o Pai. Acreditem que eu estou no Pai e que o Pai está em mim.”

Certo é que, naquele momento, os discípulos pouco ou nada conseguiriam absorver do real significado deste magnífico jogo de palavras. Era-lhes fácil entender e aceitar o Messias como um enviado divino. Afinal, tinha sido essa a expectativa dos judeus ao longo de séculos. Mas ainda lhes estava vedado o entendimento para que pudessem compreender que o Messias era, na verdade, o próprio Deus. Essa compreensão requeria uma absoluta transformação da cosmovisão dos discípulos. Estando enraizados num monoteísmo rígido que incluía uma extrema aversão a qualquer representação de Deus, era agora necessário virar do avesso os seus pressupostos mais profundos para que pudessem reconhecer, enfim, a verdadeira identidade do Mestre Nazareno. É por isso que, mais adiante, Jesus lhes diz que ainda teria muita coisa para lhes explicar, mas eles não poderiam suportar tais explicações naquele momento. Faltava-lhes conhecer um outro agente de transformação, uma outra manifestação do amor divino, uma outra Pessoa que os iria guiar em toda a verdade.

“Eu vou, mas não vos deixarei desamparados. Vou enviar-vos o Espírito da Verdade que habitará convosco e estará em vós.”

É desta forma que o capítulo 14 do Evangelho de João nos apresenta aquela estranha conversa entre Jesus e os discípulos, uma conversa em que, de forma vívida mas ainda muito misteriosa, Jesus fala da unidade entre o Pai, o Filho e o Espírito. Para dar algum sentido a esta ideia de que Deus, por ser essencialmente amor, é uma unidade perfeita de três pessoas, os chamados Pais da Igreja avançaram com a ideia da trindade.

Em termos mais precisos e sistemáticos, a trindade expressa a doutrina de que existe um só Deus em três pessoas divinas e consubstanciais: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Estas três pessoas são distintas, mas são uma mesma essência. Mas é através da poesia – e não tanto através da teologia sistemática – que melhor podemos esboçar a trindade.

Um dos conceitos que os Pais da Igreja utilizaram para expressar a trindade é o conceito de perichoresis, termo grego de complexa tradução: peri significa à volta ou em torno de, chorein significa conter, avançar ou dar espaço a. Ao utilizarem este termo, aqueles primeiros teólogos pretenderam criar uma imagem dinâmica do tipo de interpenetração e coabitação das três pessoas da trindade. Talvez essa imagem seja melhor compreendida se recorrermos a alguns teólogos que, mais recentemente, recuperaram este conceito para os nossos dias. Voltemos, então, ao C. S. Lewis que nos diz que, no Cristianismo, “Deus não é algo estático – nem é apenas uma pessoa – mas é uma atividade dinâmica e pulsante, viva, quase uma espécie de drama teatral. Quase, se isto não me fizer parecer demasiado irreverente, uma espécie de dança…”

Não, caro C. S. Lewis! Isso não é irreverência. Isso é, aos ouvidos do meu coração, poesia da mais bela! Perichoresis: a magnífica dança da trindade! E o Timothy Keller ajuda-nos a dar mais cor a esta imagem: “Cada uma das pessoas divinas centra-se nas outras. Nenhuma exige que as outras girem em torno de si. Cada uma delas voluntariamente circunda as outras duas derramando nelas amor, deleite e adoração. Cada pessoa da Trindade ama, adora, submete-se e regozija-se nas outras. Isso cria uma dança dinâmica e pulsante de alegria e amor.”

Será que conseguimos ler, em João 14, laivos da mesma poesia que o Tim Keller nos oferece? Laivos de perichoresis? Será que o evangelista, com ou sem intenção, acaba por pintar um quadro do bailado divino? Creio que sim e creio até que este quadro tem ainda pinceladas mais surpreendentes, nuances mais inverosímeis…

“Na casa do meu Pai há muitos lugares e eu vou preparar lugar para vocês. Depois venho buscar-vos para que estejam onde eu estou. Vou enviar-vos o Espírito da Verdade que habitará convosco e estará em vós. E então saberão que eu estou no Pai e vocês em mim e eu em vocês. Aqueles que me amam, guardam aquilo que eu digo, e o meu Pai os amará. ”

No século IV d. C., Atanásio de Alexandria teceu uma afirmação que soa escandalosa aos ouvidos protestantes: “Deus tornou-se homem, para que os homens se possam tornar deuses”. Sim, é uma afirmação que faz ativar os alarmes contra-heresia com que vêm equipados todos os bons protestantes. Por outro lado, também é, num certo sentido, uma afirmação profundamente bíblica se entendida à luz daquilo que nos é dito por meio da segunda epístola de Pedro: “Deus, pelo seu poder, concedeu-nos tudo o que é necessário para vivermos em santidade, ao dar-nos a conhecer aquele que nos chamou pela sua glória e poder. Foi assim que ele nos concedeu os grandes e preciosos dons que havia prometido, a fim de que tomem parte na natureza divina e fujam dos maus desejos da corrupção que existe no mundo.”

Este tomar parte na natureza divina… será que não é também o que está alinhavado em João 14? Será que a descida de Jesus ao sepulcro e a sua ressurreição foi a forma – misteriosa, pois claro – como Ele nos preparou lugar no Pai?

Creio que sim. E creio que podemos entender as aparições de Jesus ressurreto e, sobretudo, o Pentecostes, relatado no segundo capítulo do livro dos Atos dos Apóstolos, como evidências de que Jesus nos veio buscar – a todos quantos o amam – para estarmos n’Ele e Ele em nós. E como Ele está no Pai, nós também estamos no Pai – que é grande o suficiente para que N’Ele todos caibam, todos tenham lugar. E no Pentecostes é derramado o Espírito Santo, o Espírito da Verdade, que agora habita connosco. E, portanto, os que amam Jesus – que, nas suas próprias palavras, equivale a viver de acordo com o que Ele diz – habitam com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo. Isto significa que não nos é oculto o bailado divino, nem é suposto que sejamos como meros espectadores desse bailado. Pelo contrário, é como se as páginas da Bíblia, e João 14 em particular, nos lançassem o convite mais estranho e, ainda assim, mais apelativo: o convite para tomarmos parte na natureza divina ou, dito de outra forma, participarmos na perichoresis.

Tudo isto é demasiado místico e, por isso, a minha mente tão formatada por padrões de exagerada racionalidade é lenta a ceder a estas ideias. Mas, em contrapartida, tudo isto é demasiado belo e o meu coração não pode resistir a tamanha beleza.

Ainda há comunidades religiosas ditas cristãs que, de uma forma mais velada ou mais explícita, condenam e proíbem que os homens dancem, quando, afinal, dançar é tudo quanto os homens precisam!

Dançam as galáxias no universo, os astros no firmamento, os peixes, os cetáceos e os grandes mamíferos nos oceanos. Dança o vento, as árvores e os arbustos em infindáveis florestas, dança a areia em redemoinhos nos desertos. Dançam as palavras e as metáforas neste texto e a poesia nas relações humanas. Dançam o Pai, o Filho e o Espírito Santo em pura alegria e radioso amor e dessa dança chegam-nos vislumbres e pinceladas nas páginas das histórias bíblicas e nas páginas do drama humano, bem como o eco, o sussurro, a… cadência de um eterno e divinal convite.

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