Fé cristã na era da desconstrução

É quase crónica esta necessidade de desconstruir com que a pós-modernidade me infetou. A minha cosmovisão desenhada a partir de frias muralhas de betão intransponível foi abalada pelo terramoto da constante insatisfação, pela tempestade da perene desconfiança em relação a qualquer sistemática que queira explicar o tudo e o todo através de fórmulas que são, invariavelmente, demasiado simplistas.

O pensamento da nossa era provocou brechas nas muralhas. Hoje é vê-las ruir sem clemência. Com elas caem por terra todos os edifícios anteriormente construídos, todos os edifícios que pareciam antes tão sólidos e definitivos. Hoje nada é válido, nada é definitivo, nada é absoluto.

Chego a sentir-me condenado ao vazio por esta espécie de Lei pós-moderna: nesta era nada se cria, nada se transforma, tudo se perde. A desconstrução pós-moderna é um dos poderosos motores da vigente falta de sentido da sociedade global. E se me acusarem de alimentar também esse motor, eu assumo de imediato o veredicto: sim, eu sou culpado.

Mas apresento, no entanto, a minha defesa: há uma certa inevitabilidade no fenómeno de desconstrução. Há até uma certa lógica nesta tendência de matar todas as lógicas. A complexidade da realidade em que vivemos justifica as reservas em aceitar teorias, dogmas, explicações absolutas. Somos bombardeados de todos os lados com informação e contra-informação, propaganda e manipulação, factos e boatos sem distinção. E a minha capacidade de discernimento não é suficiente para conseguir produzir absolutos a partir deste caos global.

Surge então uma pergunta inquietante: como posso viver a fé cristã na era da desconstrução? É que não me parece que a fé cristã se coadune com a permanente desconstrução. Tem de haver um ponto de inflexão. Não se pode chamar ‘caminhada de fé’ se tudo quanto há é o cepticismo.

Diante deste dilema muitos filhos da pós-modernidade têm abandonado a fé. Talvez muitos ainda acreditem em ‘algo’, talvez muitos ainda se digam cristãos, mas a vivência da fé deixou de ser um elemento definidor das suas identidades. Estes são aqueles que chegam ao deserto e ali permanecem. O conflito entre a realidade complexa e difusa e os sistemas demasiado rígidos para interpretar essa realidade podem, de facto, conduzir ao esfriar da fé, ao ponto de esta se tornar irrelevante ou nula, sobrando apenas o cepticismo.

Outra via, ainda adoptada por muitos cristãos, passa por responder à desconstrução pós-moderna através da reafirmação dos antigos sistemas. Estes são aqueles que, por medo ou por não sentirem na pele a inevitabilidade da desconstrução, nunca chegam a ir ao deserto. Mas será que esta via não corresponde, em certa medida, à tentativa de conter vinho novo em odres velhos? Será que a pós-modernidade não nos dá uma boa oportunidade de fabricar novos odres para substituir os antigos? Os odres antigos tiveram, certamente, a sua utilidade no passado. Foi com eles nas mãos que muitos tiveram oportunidade de provar o bom vinho. Mas este vinho – o Evangelho – assume novos sabores para cada geração, para cada era, para cada cultura. Poderão os odres velhos ainda contê-lo? Não se dará o caso de perdermos a essência – o vinho – quando valorizamos excessivamente os odres?

Creio que estas duas vias têm sido as mais frequentadas pelos nossos contemporâneos, mas creio também que há ainda uma terceira via. Para muitos de nós, o deserto e o vazio são um ponto de passagem inevitável. Não adianta esconder a cabeça na areia. Não adianta resistir. É ali que nos conduz a desconstrução como se de uma força irresistível se tratasse. Mas o deserto não é necessariamente o destino final. A caminhada de fé não tem de morrer ali. A desconstrução não tem de ser o absoluto e o eterno.

É bom lembrar que segundo a narrativa bíblica e segundo os antigos profetas, Deus tem um jeito especial para lidar com gente que atravessa desertos. Os profetas colocam poesia promissora na boca de Deus: Plantarei no deserto o cedro, a acácia, e a murta, e a oliveira; porei no ermo juntamente a faia, o pinheiro e o álamo. O deserto é infértil segundo a minha perspetiva humana, mas, dando crédito aos profetas, talvez seja exatamente no deserto que Deus me quer por um momento…

De facto, nesta terceira via, menos explorada mas fascinante, muitos de nós vamos descobrindo que há caminho para lá do deserto. Vamos descobrindo que em cada deserto sedento, Deus continua a plantar, a seu tempo, jardins, bosques e pomares. Vamos descobrindo uma missão que nos cabe a nós: cuidar dos jardins para neles colhermos as flores singelas e os frutos frescos que o mundo anseia provar.

Talvez daqui a umas décadas os nossos filhos venham a dizer que os jardins se transformaram em silvas, terrenos baldios que para nada servem. Talvez venham a concluir que os jardins por nós construídos também não eram a solução definitiva, também não eram odres que se mantenham sempre novos. Mas, por enquanto, deixemos que estes jardins sejam plantados, que floresçam e frutifiquem. Oremos para que, a despeito do relativismo que impera nesta era, surjam mais jardins onde o Absoluto se venha a revelar a nós e aos nossos contemporâneos.

Até porque foi também num jardim junto a um túmulo vazio que, de modo surpreendente e definitivo, o Absoluto se revelou à confusa Maria Madalena na alvorada do primeiro dia da semana.