Microcosmos

by davidraimundo

 

O Júlio chegava ao bar e já lá estavam os companheiros habituais a ocupar os bancos dispostos em fila paralela ao balcão. Cada um deles com a respetiva caneca 3/4 ainda meio cheia. Abancava no único lugar vago, cumprimentava a trupe e juntava-se à amena cavaqueira sobre tudo e sobre coisa nenhuma. “O que vais querer hoje?” perguntava-lhe o barman só em jeito de quem confirma o que já sabe. “Quero o do costume!”.

Assim, noite após noite, o barman servia-lhe o do costume. E ali ficava ele mergulhado naquela cavaqueira cujo único interesse residia no facto de não ter interesse nenhum e cujo único fruto era a inconsciente ocupação do tempo.

Assim viveu o Júlio durante muitos anos. Assim passou as noites durante séculos. Foi uma eternidade cuja génese se perdeu no entulho da memória e cujos efeitos se metastizaram na mente e no corpo. Um niilismo que tudo corrói, uma panaceia que tudo adormece. Uma vida a consumir o do costume e o de sempre.

Às tantas o barman deixou de confirmar a preferência do Júlio e, sem consulta prévia, atestava-lhe a caneca 3/4 com o do costume mal a sua silhueta se fazia ver no alpendre do Microcosmos. O barman já não apontava para a lista de bebidas afixada na parede. Se o Júlio se satisfazia com o do costume, era isso que lhe iria servir. Afinal, o que interessa ao barman é sobretudo fidelizar os clientes e, se for com pouco esforço, melhor ainda!

Ora um dia, por qualquer razão corriqueira que não interessa ao caso, o barman fez saber que não poderia comparecer no serviço. A informação provocou algum alvoroço na gerência: era necessário recrutar um substituto para garantir que a clientela não se dispersava pelos bares concorrentes nem sequer numa única noite. Colocaram-se anúncios: “o Microcosmos precisa de barman experiente para esta noite”.

Pessoas da terra e pessoas fora da terra responderam ao anúncio. Deu nas vistas um candidato em particular: um homem de tez muito morena, pele queimada pelo sol, cicatrizes profundas resultantes certamente de algum grande mal que outrora lhe sobreveio. Não era, decerto, daquelas paragens. Não era um homem bonito e, na verdade, nada havia nele para que nele se reparasse, não fosse o facto de ser estrangeiro. Correu a informação não confirmada de que seria proveniente de alguma terra do médio oriente. Disse de si mesmo que era hábil, capaz de servir no bar e conhecedor de cocktails e bebidas nunca antes dadas a provar naquelas paragens capazes de saciar sedes para além da sede física. A forma como apresentou o seu currículo foi convincente e o homem foi contratado. (Apesar de quase deitar tudo a perder quando quis fazer crer que uma vez numas bodas de casamento tinha transformado água vulgar no melhor dos vinhos…)

Quando o Júlio entrou no Microcosmos naquela noite, o barman não lhe serviu o do costume nem o de sempre porque não conhecia as preferências de cada cliente. Via-se obrigado a perguntar a cada um: “o que vais tomar hoje?”. Quando chegou a sua vez, o Júlio respondeu: “É o do costume, em caneca ¾, se faz o favor!” E o barman, gentilmente, “Pá, desculpa amigo, eu não sei qual é o teu do costume. Tens de me ajudar sendo mais específico!”

Só nesse momento o Júlio reparou que o barman era novo ali e quis ajudá-lo. Mas verificou então que não se conseguia lembrar de qual era a bebida que todos os dias consumia no Microcosmos. A mesmice tem perigosos efeitos secundários e naquele momento o Júlio, consternado, tomou pela primeira vez consciência deles. “Não me lembro, #!”&=!$. Como é que é possível?!” As mãos lançadas à cabeça e uma perturbação crescente.

Durante alguns segundos o barman observou-o, de semblante analítico, olhar prescrutador. Depois declarou de forma decidida “Creio que passaste já demasiados anos a beber o do costume. Trago comigo a bebida ideal para ti.” Dito isto, baixou-se para retirar uma garrafa empoeirada de um caixote guardado na sombra atrás do balcão.

“O que é isso?” indagou o Júlio. “Prova apenas. Confia em mim! O primeiro travo pode ser amargo por nunca o teres provado, mas depois isto vai saber-te muito melhor que o de sempre!” Disse o barman com um certo tom de autoridade.

O Júlio hesitou. Não era dado ao inusitado. Não era dado à mudança. Mas sentia a garganta seca e tinha, definitivamente, de beber alguma coisa.

O barman serviu a bebida num copo pequeno: “Para primeira vez basta uma porção pequena!” O Júlio provou sem se pronunciar. Começou a travar conversa com os companheiros do costume e o barman deixou-o entregue a esse convívio e a saborear a bebida pouco a pouco.

À medida que se falava de tudo e de nada, o Júlio dava conta de que aquelas conversas tão batidas não lhe caiam bem naquela noite. Alheou-se da conversa e, bebendo um gole de vez em quando, começou a olhar à sua volta e a reparar em coisas que nunca tinha reparado no Microcosmos. Nas pessoas e no seu ar cansado. Nos motivos artísticos que decoravam o bar com ar de quem já há muito clamava por restauração. Na música de fundo um pouco pesada, repleta de guitarras e baixos com distorção máxima. Finalmente, a sua atenção posou sobre o barman que continuava numa azáfama a servir bebidas.

Estranha noite aquela em que pela primeira vez se sentia presente naquele bar frequentado durante anos e anos. Sentia que naquela noite, na presença daquele barman desconhecido e por culpa da bebida que ele lhe deu a provar, algo se tinha desencadeado e estava realmente a ver o Microcosmos como nunca antes tinha visto. Essa visão trazia, de facto, um travo amargo, mas estranhamente bom. Trazia-lhe um vislumbre de uma lucidez que nunca tinha experimentado até aí.

“Então?” perguntou-lhe o barman ao passar por ele. “Que tal a minha bebida?”

Em vez de responder, o Júlio deu por si a perguntar de chofre “Quem és tu? Tens de me dizer quem és tu!”. Calou-se e corou imediatamente por dar conta de que colocara a questão de forma indelicada. Nem sequer percebia de onde é que ela tinha saído. Parecia que uma parte de si, algures num âmago do ser que ele até então desconhecia, sentia a urgência da resposta.

O barman não se atrapalhou mas a resposta foi enigmática. Reagiu como se estivesse à espera daquela interpelação e disse apenas “eu sou o barman”. E continuou a preparar cocktails e a distribuir bebidas.

O Júlio emudeceu. Estava cada vez mais atordoado e cada vez a sentir-se mais presente. Teve a clara percepção de que na afirmação “eu sou o barman” se escondia uma verdade profunda. O Microcosmos pareceu-lhe de repente todo um quadro surrealista, um caleidoscópio de figuras e sons difusos, a girar em torno daquele barman que constituía ali a única realidade concreta. A única verdade concreta.

A noite já ia alta quando o pessoal começou gradualmente a despedir-se. Cada um dirigindo-se à sua casa como sempre.

O Júlio deixou-se ficar. O barman limpava as bancadas, arrumava louças, organizava as garrafas, assobiando baixinho uma melodia engraçada. Quando a coisa estava composta, reparou finalmente no Júlio que o olhava fixamente e que tinha diante dele o copo vazio depois de sorver as últimas partículas da bebida. “Então, gostaste?”

“Esta é a bebida mais estranha que já provei. Gostava muito de continuar a beber dela, mas amanhã estará de volta o outro barman e duvido que ele a saiba preparar. Vendes-me mais disto? Quanto tenho de pagar?”

“Ouve, tenho todo o prazer em oferecer-te esta minha especialidade. De graça. Tens aqui uma garrafa por estrear. Bebe só uma porção de vez em quando. É suficiente!” O barman estendeu-lhe uma garrafa empoeirada semelhante àquela que ele tinha visto sair de um caixote escondido atrás do balcão.

Júlio pegou na garrafa e um rótulo curioso chamou-lhe a atenção. Em destaque estava uma palavra formada por 9 caracteres gregos. Em baixo lia-se ‘Metanoia: bebida para uma transformação da consciência’.

O barman já se tinha dirigido para a porta. “Vamos?” A mão dele erguida, pronta a desligar as luzes, esperava apenas que o Júlio se encaminhasse também para a saída. Obediente, apertando com força a garrafa contra o peito, o Júlio saiu para a rua e o barman logo atrás dele. A escuridão de uma noite sem lua dominava o bairro. Mas nunca antes o Júlio tinha visto tanta luz.

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