Pontos e contos de um cristão pós-moderno

Month: Dezembro, 2015

Um infeliz Natal para o Zaratustra que há em ti

O Meu Deus é um Deus Ferido, de Tomas Halik, é uma obra que merece ser lida, pensada e digerida. Convida-nos a uma fé madura que se distancia igualmente do cristianismo escapista – o mundo é um lugar horrível e quero é sair daqui depressa – e do cristianismo triunfalista – pela fé posso resolver todos os problemas e transformar a vida num mar de rosas. Uma fé que encara a realidade de forma frontal: o sofrimento é parte inerente da realidade e somos convidados a vê-lo, aceitá-lo (não como uma inevitabilidade fatalista, mas como realidade que é), encaixá-lo… e, depois, somos convidados a desenvolver a resiliência necessária – a esperança teimosa e perene – para lidarmos com ele e, com todas as dificuldades e limitações inerentes, transformarmos o sofrimento em vida:

“Cada um deve vigiar como Maria, deve “pôr estas dores no seu seio”, cada um deve impedir que elas caiam no esquecimento, há de “conservá-las no seu coração”, mesmo se não as entender – cada um, no seu seio e no coração, deve fazê-las passar das sombras do Monte Calvário para a alvorada da manhã da Páscoa.”

A obra de Halik esboça o único caminho que me parece viável para a construção (ou intuição) de uma teodiceia cristã: nas feridas de Cristo encontramos Deus compadecido com as feridas do mundo; nas feridas de Cristo encontramos Deus a sofrer as feridas do mundo. A resposta de Deus ao problema do mal não é metafísica, mas sim corpórea. É visível no corpo desfigurado do Cristo crucificado e nas cicatrizes ainda bem vincadas no corpo glorificado do Cristo ressurreto.

Halik toma como ponto de partida o desafio de Jesus a Tomé “Olhai as minhas mãos e os meus pés e vede que sou eu mesmo” (Lucas 24:39). A confissão posterior de Tomé – Meu Senhor e Meu Deus – é surpreendente, pois é ele o primeiro homem a afirmar a divindade de Jesus. As feridas de Cristo revelam a Tomé a completa identidade do seu mestre.

A principal tese – se assim lhe podemos chamar – de Tomas Halik é que Cristo continua hoje a revelar-se nas feridas do mundo e dos homens:

“Talvez Jesus, ao reacender a fé de Tomé pelo toque nas chagas, tenha querido que ele dissesse justamente o que para mim, como que atingido por um raio, se tornou claro no orfanato de Madrasta: Onde tu tocares no sofrimento humano – e talvez só aí! – ficas a saber que eu estou vivo, que “Eu sou”. Encontras-me por toda a parte onde os homens sofrem. Não fujas de mim em nenhum destes encontros. Não tenhas medo! Não sejas incrédulo, mas crê!”

Ao longo da obra, Tomas Halik cita Friedich Nietzsche amiúde e confessa que alimenta uma grande admiração por ele. Chega quase a pintá-lo como um reformador da Igreja: por força da sua negação de Deus, crua e violenta, Nietzsche é o antagonista feroz da fé cristã que, simultaneamente, obriga a teologia a repensar-se e, quiçá, a reformar-se (pelo menos quando não reage defensivamente cavando trincheiras).

A filosofia de Nietzsche procura abalar os alicerces da cosmovisão cristã e, de facto, suponho que não foram poucos os crentes em quem a filosofia de Nietzsche provocou um terramoto avassalador. Halik recorre à Odisseia de Ulisses para explicar o efeito da filosofia de Nietzsche: é para muitos o canto terrível e sedutor das sereias que, quando escutado, atrai, muda o rumo e conduz ao naufrágio; Ulisses, no entanto, não abdica de escutar o canto das sereias, decidindo amarrar-se ao mastro do barco para que não lhe seja possível aceder ao convite delas. Halik explica que lê Nietzsche amarrado ao mastro, amarrado a Cristo. Tem assim o sangue frio necessário para afirmar que “ele não seria Nietzsche se, mesmo onde se engana, não dissesse, ao mesmo tempo, algo de profundo”.

Instigado por Halik, eu também quis ler mais de Nietzsche para além dos excertos de algumas obras suas que analisámos brevemente nas aulas de Cosmovisão Cristã e Cultura Contemporânea. Por isso tenho estado a ler a obra Assim Falava Zaratustra. Os discursos e pensamentos do Zaratustra podem ser, para o cristão, extremamente irritantes e exasperantes. Por outro lado há que dizer que é uma obra de inegável valor estético: Nietzsche não é só um filósofo, é também um poeta, um trovador do nada

Nele encontro uma crítica da religião que propositadamente ultrapassa todas as fronteiras da blasfémia. É provocante, acutilante, não pede licença para entrar no compartimento dos nossos dogmas e crenças e tentar estilhaçar tudo o que ali encontra. É o ateu que quer levar o ateísmo até às últimas consequências. O materialista que quer levar o materialismo até à sua condição de rei e senhor. Mas creio compreender Thomas Halik quando afirma que há sempre algo de profundo nos dizeres de Nietzsche.

Vejamos um discurso do seu Zaratustra:

“Da mesma maneira projetei eu também a minha ilusão mais para além da vida dos homens à semelhança de todos os crentes em além-mundos. Além dos homens, realmente?

Ai, meus irmãos! Este deus que eu criei, era obra humana e humano delírio, como todos os deuses. Era homem, tão somente um fragmento de homem e de mim. Esse fantasma saía das minhas próprias cinzas e da minha própria chama, e nunca veio realmente do outro mundo.

Que sucedeu, meus irmãos? Eu, que sofria, dominei-me; levei a minha própria cinza para a montanha; inventei para mim uma chama mais clara. E vede! O fantasma ausentou-se! Agora que estou curado, seria para mim um sofrimento e um tormento crer em semelhantes fantasmas. Assim falo eu aos que creem em além-mundos.

Sofrimentos e incompetências; eis o que criou todos os além-mundos, e esse breve desvario da felicidade que só conhece quem mais sofre. A fadiga, que de um salto quer atingir o extremo, uma fadiga pobre e ignorante, que não quer ao menos um maior querer; foi ela que criou todos os deuses e todos os além-mundos.

Acreditai-me, meus irmãos! Foi o corpo que desesperou da terra: ouviu falar as entranhas do ser. Quis então que a sua cabeça transpassasse as últimas paredes, e não só a cabeça: até ele quis passar para o “outro mundo”. O “outro mundo”, porém, esse mundo desumanizado e inumano, que é um nada celeste, está oculto aos homens, e as entranhas do ser não falam ao homem, a não ser como homem.

(…)

O meu Eu ensinou-me um novo orgulho que eu ensino aos homens: não ocultar a cabeça nas nuvens celestes, mas levá-la descoberta; sustentar erguida uma cabeça terrestre que creia no sentido da terra.

Eu ensino aos homens uma nova vontade: querer o caminho que os homens têm seguido cegamente, e considerá-lo bom e fugir dele como os enfermos e os decrépitos. Enfermos e decrépitos foram os que menosprezaram o corpo e a terra, os que inventaram as coisas celestes e as gotas de sangue redentor; mas até esses doces e lúgubres venenos foram buscar no corpo e na terra!

Queriam fugir da sua miséria, e as estrelas estavam demasiado longe para eles. Então suspiraram: “Oh! Se houvessem caminhos celestes para alcançar outra vida e outra felicidade!” E inventaram os seus artifícios e as suas beberagens sangrentas. E julgaram-se arrebatados para longe do seu corpo e desta terra, os ingratos! A quem deviam, porém, o seu espasmo e o deleite do seu arroubamento? Ao seu corpo e a esta terra.”

(…)

Transparece neste excerto o desprezo profundo que Nietzsche nutre pela religião, pelos deuses e pelos além-mundos criados pelo homem. Em particular é patente e crua a crítica ao cristianismo enquanto metanarrativa que propõe a existência de um outro mundo, uma realidade celestial alternativa à terrestre à qual se acede por intermédio do sacríficio de Cristo. Uma realidade espiritual, inumana, não corpórea.

Zaratustra exalta o corpo e a terra e mais adiante há-de dizer que “tudo é corpo, e nada mais; a alma é apenas nome de qualquer coisa do corpo”. Incorre até em afirmações nada escrupulosas a respeito dos enfermos e decrépitos. (Alguns dizem que afirmações nietzschizianas deste género inspiraram a ideologia racial do nazismo alemão mas, numa primeira leitura, não estou certo de que seja correta uma interpretação demasiado à letra das mesmas. De qualquer forma essa é uma discussão histórica e filosófica para a qual não estou minimamente preparado). Talvez se torne muito difícil encontrar uma centelha de verdade neste discurso de Zaratustra.

Estando muito longe de ser especialista em Nietzsche e conhecendo pouco da sua obra, estou ciente de que corro o risco de analisar o Zaratustra de forma simplista e equivocada. Corro o risco de projetar nele as críticas que eu próprio faço à religião e, de forma infundada, aproveitar-me dele para verbalizar essas críticas. Mas viver é correr riscos, por isso arrisquemos: há algo que me parece pertinente e verdadeiro na crítica de Zaratustra aos além-mundos criados pela religião. Há algo que me parece levemente profético nas entrelinhas dos seus discursos agressivos e exasperantes. A crítica ao “outro mundo” desumanizado e inumano, a crítica aos caminhos celestes “para alcançar outra vida e outra felicidade”, a crítica de uma religião que se reduz a esperar que a morte chegue para aceder a uma outra felicidade, uma religião que desconsidera o “corpo” e a “terra” e que promove o desejo escapista, o arrebatamento para fora da realidade cá de baixo.

Ao contrário de Nietzsche, eu não acredito que tudo seja material e que a alma seja apenas nome de qualquer coisa do corpo. Aliás, eu nem sequer acredito que as coisas mais importantes sejam em si mesmo materiais. Acredito, no entanto, que só pode ser importante, belo e verdadeiro aquilo que é materializável.

O cristianismo não é uma religião para a alma. É antes uma religião para o homem e uma alma não é um homem. (Gosto da afirmação insistente do René Kivitz: “corpo sem alma é defunto, alma sem corpo é fantasma”). O evangelho de Cristo não é uma panaceia para elevar a nossa cabeça acima das nuvens terrestres enquanto lá em baixo o sofrimento se desenrola. Parafraseando o Rob Bell, diria que Jesus não veio para nos falar de uma realidade paralela, bela e maravilhosa à qual iremos aceder quando o pano aqui em baixo fechar; Jesus veio para nos mostrar esta realidade como ela é. Para abrir os nossos olhos com o colírio que brota da cruz e que nos permite ver quem nós somos, quem é o outro e quem Ele é, apontando, ao mesmo tempo, para a redenção completa dos elementos degradados desta realidade. Também Halik reforça este ponto ao afirmar de forma taxativa que “o Deus em que acreditamos não está por detrás da realidade, antes é a profundeza da realidade, o seu mistério, a realidade da realidade.”

Não teremos nós – crentes de tradição evangélica tantas vezes herdeiros de uma teologia com elementos dualistas perniciosos – demasiada tendência para colocar a esperança no “além-mundo” desprezando a terra e o corpo? Não construímos nós, através das nossas doutrinas, expectativas e cosmovisões, um cristianismo demasiado etéreo ao qual não é dada oportunidade de se materializar? Não deveremos também encaixar pelo menos parcialmente a crítica de Nietzsche?

Creio que sim. Creio que somos culpados de alimentar uma forma de viver a fé que só tem oportunidade de se concretizar na dimensão espiritual, entendida como oposta à dimensão material e não como complemento inerente a esta. Mas não terá Cristo vindo à terra precisamente para aniquilar o fosso entre o espiritual e o material? Mais uma vez, creio que sim. Por causa de Cristo podemos concluir que, se chamamos espiritual àquilo que diz respeito a Deus, então tudo é espiritual, porque ‘Nele vivemos e nos movemos e existimos’.

Estas questões podem parecer mera filosofia teórica, mas insisto em verbalizá-las e lançá-las ao vento, por estar convicto de que a nossa cosmovisão (e os elementos filosóficos que consciente ou inconscientemente lhe estão subjacentes) influencia profundamente a forma como vivemos. Aquilo que acreditamos acerca do corpo e da terra determina em grande medida o nosso compromisso com a realidade como ela é. Determina em grande medida a praxis que adotamos.

Por isso, arrisco dizer que, num certo sentido, o cristianismo é a religião da matéria. É a religião que precisa de corpo para se concretizar, para acontecer, para ser. Porque o amor só é amor se se materializar em abraço fraterno e mãos estendidas. A fé só é fé se se materializar em atos concretos. A esperança so o é se aquele que dela bebe agir como que guiado por ela.

Imbuído de espírito natalício, recordo ainda, e mais uma vez, que o cristianismo assenta na crença de que até Deus se “materializou” porque só assim poderia Ele revelar-se ao homem que é alma e corpo. Quase parece que Deus quis dar razão ao Zaratustra: as entranhas do ser não falam ao homem a não ser como homem.

A Palavra fez-se carne para a podermos ver e ouvir. Foi com essa finalidade que um menino nos nasceu. (Podíamos também explorar a metáfora usada por Paulo para explicar a Igreja: a Igreja há-de ser no mundo o lado visível e palpável do amor divino, o corpo.)

A encarnação é o grande mistério e paradoxo da história. O busílis da fé cristã. Por causa dela somos levados a valorizar o corpo e a terra não cedendo aos apelos das religiões (mesmo que se digam cristãs) que se desenrolam num plano puramente celestial desligado do chão da vida. A atitude de desprezo ou indiferença perante o mundo material é uma herança do dualismo platónico e não é compatível com uma cosmovisão assente no mistério da encarnação de Deus.

Em sentido inverso, é também a encarnação que derrota o Zaratustra que há em mim. Todas as tendências agnósticas ou ateístas calam diante do mistério da manjedoura. Juntamente com os magos, prostro-me junto ao berço de palha onde descansa a Palavra que criou todas as coisas e, ali, o apelo do ateísmo esfuma-se. Há uns tempos, numa entrevista ao Público, D. Manuel Clemente providenciou uma magnífica síntese da qual agora me aproprio:

“Não me convence nada do céu que eu não veja na terra. O que a palavra Deus poderia sugerir no abstracto é no concreto que a apanho. O verbo de Deus encarnado, para mim, é que é a religião.”

O brilhantismo louco de Nietzsche levou-o à rejeição total da religião e à elevação do próprio homem à condição de ser supremo. Mas ao ler o Zaratustra não posso deixar de pensar que ele está ainda assim mais próximo desta religião – o verbo de Deus encarnado – do que das religiões dos caminhos celestes que ele tanto critica.

Creio que a religião de que nos fala o Natal – o verbo de Deus encarnado – é a resposta cabal a todas as religiões e a todas as críticas religiosas. O Natal traz de volta à terra e ao corpo o Anti-Zaratustra que oculta a cabeça nas nuvens celestes sem dar crédito à realidade cá em baixo. O Natal é também a resposta para o Zaratustra que não se deixa convencer por nada do céu que não veja na terra: o verbo de Deus encarnou precisamente para ligar céu e terra ou, no dizer de Tomas Halik, para nos revelar as profundezas da realidade, a realidade da realidade.

Que seja, pois, verdadeiramente Natal para nós e morram os Zaratustras e os Anti-Zaratustras que nos habitam.

 

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Microcosmos

 

O Júlio chegava ao bar e já lá estavam os companheiros habituais a ocupar os bancos dispostos em fila paralela ao balcão. Cada um deles com a respetiva caneca 3/4 ainda meio cheia. Abancava no único lugar vago, cumprimentava a trupe e juntava-se à amena cavaqueira sobre tudo e sobre coisa nenhuma. “O que vais querer hoje?” perguntava-lhe o barman só em jeito de quem confirma o que já sabe. “Quero o do costume!”.

Assim, noite após noite, o barman servia-lhe o do costume. E ali ficava ele mergulhado naquela cavaqueira cujo único interesse residia no facto de não ter interesse nenhum e cujo único fruto era a inconsciente ocupação do tempo.

Assim viveu o Júlio durante muitos anos. Assim passou as noites durante séculos. Foi uma eternidade cuja génese se perdeu no entulho da memória e cujos efeitos se metastizaram na mente e no corpo. Um niilismo que tudo corrói, uma panaceia que tudo adormece. Uma vida a consumir o do costume e o de sempre.

Às tantas o barman deixou de confirmar a preferência do Júlio e, sem consulta prévia, atestava-lhe a caneca 3/4 com o do costume mal a sua silhueta se fazia ver no alpendre do Microcosmos. O barman já não apontava para a lista de bebidas afixada na parede. Se o Júlio se satisfazia com o do costume, era isso que lhe iria servir. Afinal, o que interessa ao barman é sobretudo fidelizar os clientes e, se for com pouco esforço, melhor ainda!

Ora um dia, por qualquer razão corriqueira que não interessa ao caso, o barman fez saber que não poderia comparecer no serviço. A informação provocou algum alvoroço na gerência: era necessário recrutar um substituto para garantir que a clientela não se dispersava pelos bares concorrentes nem sequer numa única noite. Colocaram-se anúncios: “o Microcosmos precisa de barman experiente para esta noite”.

Pessoas da terra e pessoas fora da terra responderam ao anúncio. Deu nas vistas um candidato em particular: um homem de tez muito morena, pele queimada pelo sol, cicatrizes profundas resultantes certamente de algum grande mal que outrora lhe sobreveio. Não era, decerto, daquelas paragens. Não era um homem bonito e, na verdade, nada havia nele para que nele se reparasse, não fosse o facto de ser estrangeiro. Correu a informação não confirmada de que seria proveniente de alguma terra do médio oriente. Disse de si mesmo que era hábil, capaz de servir no bar e conhecedor de cocktails e bebidas nunca antes dadas a provar naquelas paragens capazes de saciar sedes para além da sede física. A forma como apresentou o seu currículo foi convincente e o homem foi contratado. (Apesar de quase deitar tudo a perder quando quis fazer crer que uma vez numas bodas de casamento tinha transformado água vulgar no melhor dos vinhos…)

Quando o Júlio entrou no Microcosmos naquela noite, o barman não lhe serviu o do costume nem o de sempre porque não conhecia as preferências de cada cliente. Via-se obrigado a perguntar a cada um: “o que vais tomar hoje?”. Quando chegou a sua vez, o Júlio respondeu: “É o do costume, em caneca ¾, se faz o favor!” E o barman, gentilmente, “Pá, desculpa amigo, eu não sei qual é o teu do costume. Tens de me ajudar sendo mais específico!”

Só nesse momento o Júlio reparou que o barman era novo ali e quis ajudá-lo. Mas verificou então que não se conseguia lembrar de qual era a bebida que todos os dias consumia no Microcosmos. A mesmice tem perigosos efeitos secundários e naquele momento o Júlio, consternado, tomou pela primeira vez consciência deles. “Não me lembro, #!”&=!$. Como é que é possível?!” As mãos lançadas à cabeça e uma perturbação crescente.

Durante alguns segundos o barman observou-o, de semblante analítico, olhar prescrutador. Depois declarou de forma decidida “Creio que passaste já demasiados anos a beber o do costume. Trago comigo a bebida ideal para ti.” Dito isto, baixou-se para retirar uma garrafa empoeirada de um caixote guardado na sombra atrás do balcão.

“O que é isso?” indagou o Júlio. “Prova apenas. Confia em mim! O primeiro travo pode ser amargo por nunca o teres provado, mas depois isto vai saber-te muito melhor que o de sempre!” Disse o barman com um certo tom de autoridade.

O Júlio hesitou. Não era dado ao inusitado. Não era dado à mudança. Mas sentia a garganta seca e tinha, definitivamente, de beber alguma coisa.

O barman serviu a bebida num copo pequeno: “Para primeira vez basta uma porção pequena!” O Júlio provou sem se pronunciar. Começou a travar conversa com os companheiros do costume e o barman deixou-o entregue a esse convívio e a saborear a bebida pouco a pouco.

À medida que se falava de tudo e de nada, o Júlio dava conta de que aquelas conversas tão batidas não lhe caiam bem naquela noite. Alheou-se da conversa e, bebendo um gole de vez em quando, começou a olhar à sua volta e a reparar em coisas que nunca tinha reparado no Microcosmos. Nas pessoas e no seu ar cansado. Nos motivos artísticos que decoravam o bar com ar de quem já há muito clamava por restauração. Na música de fundo um pouco pesada, repleta de guitarras e baixos com distorção máxima. Finalmente, a sua atenção posou sobre o barman que continuava numa azáfama a servir bebidas.

Estranha noite aquela em que pela primeira vez se sentia presente naquele bar frequentado durante anos e anos. Sentia que naquela noite, na presença daquele barman desconhecido e por culpa da bebida que ele lhe deu a provar, algo se tinha desencadeado e estava realmente a ver o Microcosmos como nunca antes tinha visto. Essa visão trazia, de facto, um travo amargo, mas estranhamente bom. Trazia-lhe um vislumbre de uma lucidez que nunca tinha experimentado até aí.

“Então?” perguntou-lhe o barman ao passar por ele. “Que tal a minha bebida?”

Em vez de responder, o Júlio deu por si a perguntar de chofre “Quem és tu? Tens de me dizer quem és tu!”. Calou-se e corou imediatamente por dar conta de que colocara a questão de forma indelicada. Nem sequer percebia de onde é que ela tinha saído. Parecia que uma parte de si, algures num âmago do ser que ele até então desconhecia, sentia a urgência da resposta.

O barman não se atrapalhou mas a resposta foi enigmática. Reagiu como se estivesse à espera daquela interpelação e disse apenas “eu sou o barman”. E continuou a preparar cocktails e a distribuir bebidas.

O Júlio emudeceu. Estava cada vez mais atordoado e cada vez a sentir-se mais presente. Teve a clara percepção de que na afirmação “eu sou o barman” se escondia uma verdade profunda. O Microcosmos pareceu-lhe de repente todo um quadro surrealista, um caleidoscópio de figuras e sons difusos, a girar em torno daquele barman que constituía ali a única realidade concreta. A única verdade concreta.

A noite já ia alta quando o pessoal começou gradualmente a despedir-se. Cada um dirigindo-se à sua casa como sempre.

O Júlio deixou-se ficar. O barman limpava as bancadas, arrumava louças, organizava as garrafas, assobiando baixinho uma melodia engraçada. Quando a coisa estava composta, reparou finalmente no Júlio que o olhava fixamente e que tinha diante dele o copo vazio depois de sorver as últimas partículas da bebida. “Então, gostaste?”

“Esta é a bebida mais estranha que já provei. Gostava muito de continuar a beber dela, mas amanhã estará de volta o outro barman e duvido que ele a saiba preparar. Vendes-me mais disto? Quanto tenho de pagar?”

“Ouve, tenho todo o prazer em oferecer-te esta minha especialidade. De graça. Tens aqui uma garrafa por estrear. Bebe só uma porção de vez em quando. É suficiente!” O barman estendeu-lhe uma garrafa empoeirada semelhante àquela que ele tinha visto sair de um caixote escondido atrás do balcão.

Júlio pegou na garrafa e um rótulo curioso chamou-lhe a atenção. Em destaque estava uma palavra formada por 9 caracteres gregos. Em baixo lia-se ‘Metanoia: bebida para uma transformação da consciência’.

O barman já se tinha dirigido para a porta. “Vamos?” A mão dele erguida, pronta a desligar as luzes, esperava apenas que o Júlio se encaminhasse também para a saída. Obediente, apertando com força a garrafa contra o peito, o Júlio saiu para a rua e o barman logo atrás dele. A escuridão de uma noite sem lua dominava o bairro. Mas nunca antes o Júlio tinha visto tanta luz.