Evolução, Morte e Vida

É passado o tempo em que eu pensava que para defender a fé cristã tinha de ser um acérrimo opositor do evolucionismo. Lia livros que explicavam como a teoria da evolução se tinha imiscuído nos meios académicos como uma divagação ateísta travestida de ciência. Aceitava a falsa ideia de que o evolucionismo se impunha como uma forma de afrontar a cosmovisão cristã da nossa sociedade ocidental.

Creio que nunca cavei trincheiras em torno do criacionismo em 6 dias literais nem da hipótese da terra jovem. Estava já recetivo a uma interpretação mais flexível do livro do Génesis, segundo a qual cada dia da criação poderia significar 1.000 anos ou 1 milhão de anos, por exemplo. Mas cavei trincheiras em torno da não-evolução, recusando-me a considerar a hipótese de que a macroevolução pudesse ter desempenhado um papel no processo da criação.

Hoje percebo que a minha abordagem se baseava em diversos equívocos:

  • Pressupostos muito rudimentares e equivocadamente rigídos sobre a natureza e o comportamento da Bíblia;
  • Uma atitude demasiado crédula em relação aos livros que lia e à acusação que os autores faziam de que os cientistas evolucionistas deturpavam propositadamente os seus dados, experiências e estudos;
  • A aceitação pouco reflectida da premissa de que o criacionismo se esvai automaticamente com o evolucionismo.

Não foi da noite para o dia que a minha perspetiva mudou. Foi um processo lento, sendo difícil dizer quais as razões e os motores dessa mudança. Terá passado certamente por uma nova compreensão acerca da natureza da Bíblia, compreensão ainda em permanente construção. (E se calhar fez diferença também o álbum dos Gungor que lançaram o magnífico A Creation Liturgy, mostrando que se pode acreditar na evolução e ser um poeta da criação.)

Não pretendo agora fazer a defesa do evolucionismo, voltando a cavar trincheiras desagradáveis e infrutíferas. Mas defendo o seguinte: que parece ser um mito a incompatibilidade entre o evolucionismo e o cristianismo.

Acredito que toda a verdade – venha ela da Bíblia, da ciência ou da nossa vida diária – é verdade de Deus. Se A nos parece verdade mas, ao mesmo tempo, parece colocar em causa a fé cristã, não é bom reagir em auto-defesa dizendo que A tem de ser forçosamente falso. É melhor investigar: será que A é mesmo verdade? E será que a veracidade de A coloca mesmo mesmo em causa a fé cristã? Isto chama-se honestidade intelectual. E mesmo que o processo desague na assustadora conclusão de que, por um lado, A é mesmo verdade e, por outro lado, é mesmo incompatível com o cristianismo, será que não podemos aprender a conviver com a aparente contradição? Será que não é também essa capacidade de conviver com o paradoxo que merece o nome de ? (E tantos paradoxos que o cristianismo tem!)

(Importa também lembrar a nós mesmos que as conclusões lógicas produzidas pela nossa mente são falíveis – porque é falível a nossa mente – pelo que aquilo nos parece contradição talvez na realidade não o seja.)

Assim, tenho hoje uma predisposição para crer na ciência, na biologia, na astrofísica, nas pistas e conclusões fascinantes que nós meros homens vamos obtendo sobre a forma como funciona este universo misterioso, magnífico, assombroso. E mesmo que seja feita uma quantidade enjoativa de má ciência (basta atentar aos estudos patetas que nos entram pelo facebook diariamente sobre encher chouriços) será que não devemos dar crédito às teorias científicas quando elas reunem o consenso geral das mentes científicas mais brilhantes?

Portanto, tenho hoje, como disse, uma predisposição para crer na ciência. Aceito a possibilidade de que o evolucionismo seja, atualmente, a melhor explicação para a origem das espécies. Simultaneamente, não deixo de acreditar que, qualquer que tenha sido o processo que nos trouxe aqui, foi supervisionado pelo Deus Criador. Talvez tenha sido ao longo de milhões e milhões de translações que Ele moldou este mundo e fez evoluir a vida que nele prolifera, desde os mais pequenos microorganismos, até aos extintos dinossauros. Tudo isto Ele foi pintando lentamente na tela misteriosa que é a Terra: esta possibilidade de uma criavolução poética não belisca a minha fé cristã.

Se por um lado muitos cristãos evangélicos continuam entrincheirados a travar a velha batalha que me parece há muito perdida, por outro lado é cada vez maior o número de cristãos que têm chegado a esta conclusão: a evolução não belisca necessariamente a fé cristã. Se toda a verdade vem de Deus, a verdade produzida pela ciência não é menos verdade do que a verdade produzida pela teologia. Claro que o mundo não se torna subitamente cor-de-rosa para quem aqui chega. Surgem novos desafios: até que ponto é que o evolucionismo abala as doutrinas cristãs?

Reparem que traço uma distinção intencional entre abalar doutrinas cristãs e abalar a fé cristã: em última análise, a fé do cristão não é baseada ou dirigida para a doutrina, mas para a pessoa de Jesus Cristo. Mesmo que uma doutrina morra – ao longo da História da igreja já muitas doutrinas, filhas do seu tempo, nasceram, cresceram, envelheceram e morreram com justiça – Cristo permanece vivo.

Ora um dos assuntos mais controversos quando se trata de conciliar evolucionismo e teologia cristã diz respeito à origem e à natureza da morte. Os cristãos, sobretudo das tradições protestantes, habituaram-se a sistematizar o Evangelho em pontos ou etapas: Criação; Queda; Jesus; Juízo Final. Nesta sistematização, a morte é teologicamente encarada como um resultado direto da Queda do homem (aquele história milenar que se pode ler no Génesis sobre Adão, Eva e o fruto proibido). Diz a teologia criacionista que a Criação era inicialmente perfeita, convivendo em total harmonia. A morte estava ausente do mundo. Depois Adão e Eva pecaram e trouxeram condenação para eles próprios e também para a natureza: animais e plantas passaram a destruir-se uns aos outros e a harmonia transformou-se num violento caos.

Porém, no evolucionismo a morte é tida como um aspeto essencial do mecanismo de evolução das espécies e, obviamente, a morte teria de estar presente no mundo desde o início do processo. Assim, o evolucionismo coloca em causa a sistematização do Evangelho, obrigando-nos a revê-la. (Devo confessar que considero pertinente a revisão desta sistematização independentemente de aceitarmos ou não o evolucionismo. Os 4 Pontos podem ser uma ferramenta introdutória enquanto modelo explicativo do Evangelho, mas são também de utilidade muito limitada e muito simplistas.)

O problema da morte é bicudo para os cristãos evolucionistas! Eis algumas das ideias sugeridas para o resolver (cada uma delas traz consigo fragilidades e dificuldades extra que opto por não abordar aqui):

  1. A morte física está presente na criação desde o início e para todas as criaturas, não sendo consequência do pecado. A morte resultante da Queda é apenas a morte espiritual.
  2. A morte física está presente na criação desde o início e para todas as criaturas que foram evoluindo até surgirem hominídeos e, mais tarde, homo sapiens. Algures no processo Deus decide fazer um pacto com um casal de humanos nos quais coloca a sua imagem e semelhança. E é para estes seres humanos e os seus descendentes que a morte (física e espiritual) se constitui como um resultado da Queda.
  3. A morte sempre esteve presente na criação para todas as criaturas e a Queda relatada no Génesis não é mais do que uma explicação simbólica daquilo que a humanidade (como um todo) e cada homem (individualmente) obtém pela má utilização do seu livre-arbítrio.
  4. Outros?

Em relação a este imbróglio teológico não tomo para já qualquer posição. Pretendo apenas partir daqui para dizer que deste género de ideias já vi resultarem perspetivas sobre a morte que me incomodam, num incómodo que talvez seja mais filosófico e existencial do que teológico.

Há uns tempos li um texto em que o autor, cristão evolucionista, fazia uma espécie de elogio da morte (não me lembro do autor). Para advogar a sua ideia de que a morte está presente na criação desde o início e tentar compatibilizar essa ideia com a bondade da criação, ele apresentava a morte como algo positivo. Como se fosse um processo de reciclagem desejável. Ou como uma forma de libertação da alma na linha do pensamento platónico. (É certo que o apóstolo Paulo por vezes parece incorrer numa espécie de platonismo, mas creio que é mais intenção dele opor-se a essa corrente do que advogá-la. Algo que fica claro, aliás, na afirmação de que Cristo ressuscitou em corpo!)

Eu não consigo conceber a ideia de que a morte é positiva. No íntimo da minha alma existencialista abomino a morte. Todas as formas de morte. Mesmo sendo eu, por vezes, um veículo dessa mesma morte quando me trato mal a mim mesmo, ao outro ou ao planeta.

Detesto a deterioração que se instala no meu corpo, nos meus ossos, nas minhas entranhas. É a vida que desejo e que anseio. Torrente de vida fresca e abundante, plena e esfuziante. Eterna dança de júbilo e amor!

Não quero morrer,
quero viver mais,
quero viver sempre
e abraçar o mundo
e abraçar todos!

A minha alma recusa uma cosmovisão em que a morte seja alfa ou ómega.
Para a minha alma, que clama por eternidade, a morte é o grande inimigo.

Convivo então com esta ambiguidade. Com os dados de que disponho tenho de afirmar que é altamente provável que o evolucionismo seja ciência da boa e verdadeira. De alguma forma, isso significa que a morte está cá há mais tempo do que nós, cristãos, pensávamos. Quanto às ramificações teológicas, podem ser profundas e dar algumas dores de cabeça, mas temos uma vida inteira para as explorar e tentar apaziguar a mente quanto às contradições que vão surgindo.

Mas é na alma que as ramificações deste assunto mais magoam. Ora aquilo que de absoluto prevalece no meio destas considerações – e que me traz oxigénio à alma – é que Jesus – aquele em quem assenta a minha fé – venceu a morte!

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