Os vossos velhos terão sonhos

by davidraimundo

Quando o sonho apareceu por aquelas paragens, surgido não sabemos bem de onde, o gaiato, ainda muito novo, decidiu imediatamente adotá-lo. A família acolheu a ideia com agrado: era ainda um sonho disforme, inofensivo e gracioso, bom para o desenvolvimento infantil do petiz. Na adolescência o sonho ganhou forma e, não raras vezes, encontrávamos o rapaz a cuidar dele: lembro-me de o ver a brincar com o sonho, a rebolar no chão com ele, a tratá-lo, embelezá-lo e a alimentá-lo. Aquele jovem tinha um sonho tão catita e imponente que até o levava a participar nos concursos regionais. Uma vez chegou mesmo a ganhar o 1º Prémio na 5ª edição do Salão Anual de Sonhos.

E o sonho era livre, corria solto e ágil. Cavalgando o sonho, a imaginação do rapaz galopava por expectativas incontroláveis. Lembro-me das emoções que o sonho do rapaz despertava em mim. Era um sonho belo e até um pouco contagioso! Talvez a inocência e a alegria do rapaz, ao empunhar o seu sonho como se se tratasse da arma mais poderosa de todas, me fizesse recordar os sonhos que outrora eu próprio chegara a colecionar…

O que é certo é que naqueles anos o sonho era o companheiro e o melhor amigo do rapaz. Eu conhecia bem aquela família, muitas vezes frequentava a casa deles e via como o sonho constituía o alento e a bússola daquele rapaz. Numa ocasião tive de lá pernoitar, por conta de uma tempestade de neve e gelo que se abateu sobre a região e me impediu de regressar a casa depois de os visitar. Nessa ocasião reparei que o rapaz e o sonho nunca se largavam um ao outro e, mesmo de noite, o sonho ficava ali, aos pés da cama, raramente adormecendo. Suspeito que de manhã, quando os primeiros raios dourados irrompiam pelo quarto, estando o rapaz apenas meio desperto, já o sonho se aninhava junto dele. Provavelmente as primeiras sensações matinais que o rapaz captava eram os sons, os cheiros e os sabores que aquele sonho provocava.

Mas o rapaz cresceu. Cresceu e foi percebendo que à medida que crescia entrava num novo mundo, numa nova realidade social e cultural na qual o seu sonho fazia levantar sobrolhos. Aos poucos, o sonho deixava de ser bem visto. Dele esperava-se menos sonho e mais realismo, que é como quem diz: menos esperança e mais conformismo. Sentia-se censurado mesmo quando não lhe dirigiam palavras. Indagava com os seus botões se deveria dar crédito a essa censura… E, ao longo desse processo, o seu amor pelo sonho esmoreceu.

As palavras de repreensão chegaram mesmo e cada vez com mais frequência: “O sonho não pode andar por aí à solta a acompanhar-te para todo o lado” diziam-lhe. “O melhor que tens a fazer quando vens trabalhar é deixar o sonho em casa”. A memória não me ajuda a ter certeza, mas penso que também eu lhe terei dirigido reparos deste género por considerar que o rapaz tinha de se centrar naquilo que era realmente importante.

A pressão externa tornou-se mais frequente, mais densa. Criou-se também uma pressão interna, uma voz dentro dele a dizer-lhe para abandonar o sonho. E o rapaz cedeu à pressão. Deu crédito às vozes que queriam abafar o sonho. Pensou: “de facto, nesta sociedade não é bom para mim deixar o sonho à solta e fazer-me acompanhar dele 24 horas por dia, mas posso continuar a cuidar dele em part-time”.

Então, construiu um compartimento para o sonho e arranjou uma trela para o prender lá dentro. Decidiu que manteria o sonho ali preso durante o dia, mas no regresso do trabalho poderia passar tempo com ele como fizera até então.

Mas este não era um sonho qualquer. Tratado durante tantos anos como o fiel companheiro, apaparicado e acarinhado continuamente, não aceitaria agora descer à condição de sonho a part-time. Latia dias a fio, triste por se ver preso e longe do seu dono. Como era intenso aquele latir! Eu sei-o bem: tinha-me mudado para aquele bairro e ouvia-o diariamente. Era um bairro muito agradável onde eu esperava gozar a minha reforma dedicando-me tranquilamente a escrever umas historietas parvas que alinhavara durante décadas e que gostaria de ver publicadas. Mas durante aqueles dias nada consegui escrever e muito lamentei a minha decisão de mudar para lá. O constante lamento do sonho do outro fazia doer o meu coração!

Às vezes o sonho resistia e esperneava até se soltar. Tinha muita força! Depois andava por ali completamente desvairado a aterrorizar todos os vizinhos. Quando o rapaz chegava, o sonho era bem capaz de o morder, de o ferir por fora e de o consumir por dentro. A cada dia que passava o sonho revelava-se como um bicho absolutamente indomável. Só que, ao mesmo tempo, definhava gradualmente, extinguia-se a olhos vistos.

Finalmente o rapaz, cansado de viagens ao pronto-socorro e já cheio de cicatrizes, e também triste por ver definhar o sonho, tomou a decisão de o mandar abater. “É preferível viver sem sonho” dizia ele “para garantir a minha tranquilidade do que, tendo o sonho, ser completamente corroído por ele”.

Quando numa conversa de café a vizinha da frente me deu a conhecer a decisão do rapaz, eu fiquei muito chocado. Arrependi-me dos reparos que lhe tinha feito. Fiquei cheio de remorsos… Tendo bem viva na memória a lembrança de quão belo era o sonho daquele rapaz – tão belo que até ganhava prémios – fui tomado por um impulso irrefletido e irresistível. Corri para casa dele, tremendo de ansiedade por não saber se chegaria a tempo de impedir o desastre. Cheguei no último segundo! A equipa do posto municipal de abate de sonhos já se preparava para lhe aplicar um sedativo antes de o transportarem para abate. Eu, sem pensar duas vezes, ofereci-me para adotar o sonho.

Não sei bem o que raio é que no meu espírito motivou esta oferta. Eu sinto-me velho e embrutecido e interrogações sem fim percorrem a minha mente: é-me lícito ser dono deste sonho? Poderei eu dar-lhe forma e voltará ele a galopar livre e solto? Terei eu ainda tempo e energia para embarcar nele rumo a aventuras inefáveis? Poderá ainda brotar esperança neste coração que se habituou a abrigar só desencanto?

A mente segue armadilhada por toda esta panóplia de perguntas. Mas o que é certo é que dou por mim constantemente a acarinhar o sonho com uma secreta expectativa de o ver reabilitado nas minhas mãos.

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