Um Deus com quem se pode lutar?

by davidraimundo

Conheço um homem chamado Jacó que de vez em quando me conta um episódio inacreditável. Diz que lutou com Deus e venceu! Contado nestes termos parece que o Jacó é meio lunático. Parece que há-de ser um gajo cujo cérebro está meio pifado. Mas é mesmo assim que ele conta a história! Ora eu, por muito respeito que lhe tenha por ser uma pessoa já de idade e aparentar alguma sabedoria, também reajo com incredulidade…

Os deuses que me vão sendo apresentados, quer seja pessoalmente, quer seja por ouvir falar deles, são deuses demasiado cheios de si para permitirem que alguém trave uma luta com eles. E é completamente inimaginável que algum deles se deixasse vencer caso essa luta chegasse a acontecer. Todos os deuses que conheci são deuses que subjugam ainda antes de podermos levantar a voz ou a mão contra eles. São deuses que escravizam e espezinham sem misericórdia. São deuses cruéis. Dialogar com os homens comuns seria, para qualquer desses deuses, um inaceitável sinal de fraqueza. Não admira que com tantos deuses destes o ateísmo seja crescente. Mais vale negar-lhes a presunção de divindade do que dar-lhes o prazer supremo de serem entronizados por aqueles a quem torturam.

O Jacó fala de um Deus muito diferente. Ele conta que numa ocasião, estando só a atravessar a noite da vida, cheio de dúvidas e cheio de medos, Deus veio ao seu encontro e travaram um combate intenso. Trocaram argumentos, lutaram até à exaustão e o Jacó diz que a luta deixou marcas profundas ao ponto de ter passado a coxear. Quando, por fim, Deus desistiu de lutar, já nascia o sol para Jacó…

Eu não acredito nesta história. Até porque Jacó significa ‘enganador’ e este tipo já me contou acerca de outras ocasiões em que as suas atitudes fizeram jus ao nome. Até o facto de agora coxear pode ser apenas teatro. Porém, em sua defesa, ele diz que depois da luta Deus o abençoou e deu-lhe um nome novo. Diz que ele é, agora, uma pessoa nova e diferente, já não deseja enganar ninguém. Mas tudo isto me parece demasiado bizarro.

Um Deus com quem se pode lutar? Confesso que, no âmago do meu ser, eu queria que sim! Que houvesse tal Deus: um a quem pudesse colocar todas as questões existencialistas que me inundam a alma. Um que aceitasse ser confrontado com todos os porquês e todos os ses. Um que aceitasse entrar nesta luta sem me destruir, sem me aniquilar de imediato. Um que no fim da luta até me abençoasse! Caraças, como seria porreiro conhecer tal Deus, se ele existisse! Teria de ser um Deus muito próximo, muito humano. Teria de ser um Deus vulnerável. Na verdade, quando comparado com todos os deuses que me vão sendo apresentados, este teria de ser uma espécie de anti-deus: a antítese de todos esses deuses. Mas a lógica e a experiência diz-me que o Jacó está enganado: não há nenhum Deus assim, pois não?
(História do Jacó: Génesis 32:23-33)

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