Pontos e contos de um cristão pós-moderno

Month: Setembro, 2015

Os vossos velhos terão sonhos

Quando o sonho apareceu por aquelas paragens, surgido não sabemos bem de onde, o gaiato, ainda muito novo, decidiu imediatamente adotá-lo. A família acolheu a ideia com agrado: era ainda um sonho disforme, inofensivo e gracioso, bom para o desenvolvimento infantil do petiz. Na adolescência o sonho ganhou forma e, não raras vezes, encontrávamos o rapaz a cuidar dele: lembro-me de o ver a brincar com o sonho, a rebolar no chão com ele, a tratá-lo, embelezá-lo e a alimentá-lo. Aquele jovem tinha um sonho tão catita e imponente que até o levava a participar nos concursos regionais. Uma vez chegou mesmo a ganhar o 1º Prémio na 5ª edição do Salão Anual de Sonhos.

E o sonho era livre, corria solto e ágil. Cavalgando o sonho, a imaginação do rapaz galopava por expectativas incontroláveis. Lembro-me das emoções que o sonho do rapaz despertava em mim. Era um sonho belo e até um pouco contagioso! Talvez a inocência e a alegria do rapaz, ao empunhar o seu sonho como se se tratasse da arma mais poderosa de todas, me fizesse recordar os sonhos que outrora eu próprio chegara a colecionar…

O que é certo é que naqueles anos o sonho era o companheiro e o melhor amigo do rapaz. Eu conhecia bem aquela família, muitas vezes frequentava a casa deles e via como o sonho constituía o alento e a bússola daquele rapaz. Numa ocasião tive de lá pernoitar, por conta de uma tempestade de neve e gelo que se abateu sobre a região e me impediu de regressar a casa depois de os visitar. Nessa ocasião reparei que o rapaz e o sonho nunca se largavam um ao outro e, mesmo de noite, o sonho ficava ali, aos pés da cama, raramente adormecendo. Suspeito que de manhã, quando os primeiros raios dourados irrompiam pelo quarto, estando o rapaz apenas meio desperto, já o sonho se aninhava junto dele. Provavelmente as primeiras sensações matinais que o rapaz captava eram os sons, os cheiros e os sabores que aquele sonho provocava.

Mas o rapaz cresceu. Cresceu e foi percebendo que à medida que crescia entrava num novo mundo, numa nova realidade social e cultural na qual o seu sonho fazia levantar sobrolhos. Aos poucos, o sonho deixava de ser bem visto. Dele esperava-se menos sonho e mais realismo, que é como quem diz: menos esperança e mais conformismo. Sentia-se censurado mesmo quando não lhe dirigiam palavras. Indagava com os seus botões se deveria dar crédito a essa censura… E, ao longo desse processo, o seu amor pelo sonho esmoreceu.

As palavras de repreensão chegaram mesmo e cada vez com mais frequência: “O sonho não pode andar por aí à solta a acompanhar-te para todo o lado” diziam-lhe. “O melhor que tens a fazer quando vens trabalhar é deixar o sonho em casa”. A memória não me ajuda a ter certeza, mas penso que também eu lhe terei dirigido reparos deste género por considerar que o rapaz tinha de se centrar naquilo que era realmente importante.

A pressão externa tornou-se mais frequente, mais densa. Criou-se também uma pressão interna, uma voz dentro dele a dizer-lhe para abandonar o sonho. E o rapaz cedeu à pressão. Deu crédito às vozes que queriam abafar o sonho. Pensou: “de facto, nesta sociedade não é bom para mim deixar o sonho à solta e fazer-me acompanhar dele 24 horas por dia, mas posso continuar a cuidar dele em part-time”.

Então, construiu um compartimento para o sonho e arranjou uma trela para o prender lá dentro. Decidiu que manteria o sonho ali preso durante o dia, mas no regresso do trabalho poderia passar tempo com ele como fizera até então.

Mas este não era um sonho qualquer. Tratado durante tantos anos como o fiel companheiro, apaparicado e acarinhado continuamente, não aceitaria agora descer à condição de sonho a part-time. Latia dias a fio, triste por se ver preso e longe do seu dono. Como era intenso aquele latir! Eu sei-o bem: tinha-me mudado para aquele bairro e ouvia-o diariamente. Era um bairro muito agradável onde eu esperava gozar a minha reforma dedicando-me tranquilamente a escrever umas historietas parvas que alinhavara durante décadas e que gostaria de ver publicadas. Mas durante aqueles dias nada consegui escrever e muito lamentei a minha decisão de mudar para lá. O constante lamento do sonho do outro fazia doer o meu coração!

Às vezes o sonho resistia e esperneava até se soltar. Tinha muita força! Depois andava por ali completamente desvairado a aterrorizar todos os vizinhos. Quando o rapaz chegava, o sonho era bem capaz de o morder, de o ferir por fora e de o consumir por dentro. A cada dia que passava o sonho revelava-se como um bicho absolutamente indomável. Só que, ao mesmo tempo, definhava gradualmente, extinguia-se a olhos vistos.

Finalmente o rapaz, cansado de viagens ao pronto-socorro e já cheio de cicatrizes, e também triste por ver definhar o sonho, tomou a decisão de o mandar abater. “É preferível viver sem sonho” dizia ele “para garantir a minha tranquilidade do que, tendo o sonho, ser completamente corroído por ele”.

Quando numa conversa de café a vizinha da frente me deu a conhecer a decisão do rapaz, eu fiquei muito chocado. Arrependi-me dos reparos que lhe tinha feito. Fiquei cheio de remorsos… Tendo bem viva na memória a lembrança de quão belo era o sonho daquele rapaz – tão belo que até ganhava prémios – fui tomado por um impulso irrefletido e irresistível. Corri para casa dele, tremendo de ansiedade por não saber se chegaria a tempo de impedir o desastre. Cheguei no último segundo! A equipa do posto municipal de abate de sonhos já se preparava para lhe aplicar um sedativo antes de o transportarem para abate. Eu, sem pensar duas vezes, ofereci-me para adotar o sonho.

Não sei bem o que raio é que no meu espírito motivou esta oferta. Eu sinto-me velho e embrutecido e interrogações sem fim percorrem a minha mente: é-me lícito ser dono deste sonho? Poderei eu dar-lhe forma e voltará ele a galopar livre e solto? Terei eu ainda tempo e energia para embarcar nele rumo a aventuras inefáveis? Poderá ainda brotar esperança neste coração que se habituou a abrigar só desencanto?

A mente segue armadilhada por toda esta panóplia de perguntas. Mas o que é certo é que dou por mim constantemente a acarinhar o sonho com uma secreta expectativa de o ver reabilitado nas minhas mãos.

Um Deus com quem se pode lutar?

Conheço um homem chamado Jacó que de vez em quando me conta um episódio inacreditável. Diz que lutou com Deus e venceu! Contado nestes termos parece que o Jacó é meio lunático. Parece que há-de ser um gajo cujo cérebro está meio pifado. Mas é mesmo assim que ele conta a história! Ora eu, por muito respeito que lhe tenha por ser uma pessoa já de idade e aparentar alguma sabedoria, também reajo com incredulidade…

Os deuses que me vão sendo apresentados, quer seja pessoalmente, quer seja por ouvir falar deles, são deuses demasiado cheios de si para permitirem que alguém trave uma luta com eles. E é completamente inimaginável que algum deles se deixasse vencer caso essa luta chegasse a acontecer. Todos os deuses que conheci são deuses que subjugam ainda antes de podermos levantar a voz ou a mão contra eles. São deuses que escravizam e espezinham sem misericórdia. São deuses cruéis. Dialogar com os homens comuns seria, para qualquer desses deuses, um inaceitável sinal de fraqueza. Não admira que com tantos deuses destes o ateísmo seja crescente. Mais vale negar-lhes a presunção de divindade do que dar-lhes o prazer supremo de serem entronizados por aqueles a quem torturam.

O Jacó fala de um Deus muito diferente. Ele conta que numa ocasião, estando só a atravessar a noite da vida, cheio de dúvidas e cheio de medos, Deus veio ao seu encontro e travaram um combate intenso. Trocaram argumentos, lutaram até à exaustão e o Jacó diz que a luta deixou marcas profundas ao ponto de ter passado a coxear. Quando, por fim, Deus desistiu de lutar, já nascia o sol para Jacó…

Eu não acredito nesta história. Até porque Jacó significa ‘enganador’ e este tipo já me contou acerca de outras ocasiões em que as suas atitudes fizeram jus ao nome. Até o facto de agora coxear pode ser apenas teatro. Porém, em sua defesa, ele diz que depois da luta Deus o abençoou e deu-lhe um nome novo. Diz que ele é, agora, uma pessoa nova e diferente, já não deseja enganar ninguém. Mas tudo isto me parece demasiado bizarro.

Um Deus com quem se pode lutar? Confesso que, no âmago do meu ser, eu queria que sim! Que houvesse tal Deus: um a quem pudesse colocar todas as questões existencialistas que me inundam a alma. Um que aceitasse ser confrontado com todos os porquês e todos os ses. Um que aceitasse entrar nesta luta sem me destruir, sem me aniquilar de imediato. Um que no fim da luta até me abençoasse! Caraças, como seria porreiro conhecer tal Deus, se ele existisse! Teria de ser um Deus muito próximo, muito humano. Teria de ser um Deus vulnerável. Na verdade, quando comparado com todos os deuses que me vão sendo apresentados, este teria de ser uma espécie de anti-deus: a antítese de todos esses deuses. Mas a lógica e a experiência diz-me que o Jacó está enganado: não há nenhum Deus assim, pois não?
(História do Jacó: Génesis 32:23-33)

Vida

Que seja achada carne em mim, quando voltares.
Que seja achada carne em mim, não só pedra.

Que seja achado sopro em mim, quando vieres.
Que seja achado sopro em mim, não só ossos.

Que seja achado o outro em mim, quando chegares.
Que seja achado o outro em mim, não só ego.

A tabuada estrambólica de Deus

A matemática do sermão do monte, das parábolas e do próprio percurso de Jesus não está de todo afinada com o pragmatismo a que obrigam a economia global e o darwinismo social. Num mundo de competição à escala global parece inconcebível dar a outra face, impossível amar os inimigos, parvoíce ajuntar tesouros no céu, loucura não nos preocuparmos com o que iremos comer ou vestir, ilógico aceitar ser o último para ser o primeiro…

Tem piada tentarmos imaginar Jesus a apresentar o seu modelo económico numa reunião do Eurogrupo ou do FMI. É certo que seria de imediato tido como um lírico ou lunático e as suas palavras seriam desprezadas. A complexa máquina financeira dos nossos dias não se compadece com um caminho que valoriza mais corações ricos do que saldos bancários compridos. (Tenho cá para mim que esta máquina é o monstro do nosso século: o monstro que criámos, cheios de ilusão, mas que passou a dominar o criador sugando tudo quanto pode. O homem é, hoje, escravo do monstro…)

Também eu hesito ao ouvir a mensagem do mestre nazareno. Também eu estou possuído pelo espírito de competição feroz, aquele que o Donald Miller tão bem descreve no seu livro Searching For God Knows What – diz ele que é como se o mundo fosse um bote salva-vidas em que todos estão com medo de ser lançados borda fora, pelo que todos vivemos obcecados em mostrar que merecemos o lugar e que o outro é mais dispensável.

Também eu tenho a retina ferida pelo pragmatismo gélido. Ele está enraizado no globo ocular e é-me extremamente difícil ver as verdadeiras matizes do mundo e do outro. Talvez fosse este o problema dos cristãos de Laodiceia (Apocalipse 3:14-22) e, por isso, tenham sido exortados a comprar remédio para os olhos de modo a poderem ver a realidade como ela é. Também eu preciso desse remédio.

Encontro-o em Jesus. De Jesus não herdamos apenas palavras. Dele bebemos as palavras, mas também (quem nele deposita a fé e a esperança) aprendemos e somos profundamente transformados pelo facto de ele ter sido a encarnação das suas próprias palavras. Parece-me que esta compreensão é absolutamente central para a fé cristã: Jesus e a sua mensagem são um. Os Evangelhos contam-nos que tudo quanto pregou ele demonstrou. Deu vida às suas palavras até às últimas consequências. Deu vida à sua mensagem até ao ponto de morrer em sintonia com essa mesma mensagem.

Assim, Jesus mostrou-nos o caminho, o tal caminho a que o Henri Nouwen chama o ‘caminho descendente’ de Cristo. E Jesus convida-nos para palmilhar esse caminho prometendo que é o caminho mais excelente.

A Europa depara-se com uma situação de crise humanitária. A situação é extremamente complexa e delicada e não pretendo sugerir que há soluções fáceis. Mas o que é certo é que urge dar resposta às multidões de refugiados que procuram segurança e uma nova vida no velho continente. Urge criar políticas para que estas pessoas sejam recebidas nos nossos países e condições para que neles vejam resgatada a sua dignididade humana.

O pragmatismo do ego conduz-nos a uma matemática demasiado redutora: diz-nos que não podemos aceitar que os nossos filhos tenham menos para que o outro – ainda por cima, estrangeiro, estranho, desconhecido – tenha mais. Mas a estrambólica tabuada de Deus diz-nos que podemos. É que, no fundo, a doutrina cristã afirma precisamente que Deus aceitou que o seu Filho tivesse menos. Aceitou que o seu Filho fosse desprezado e abandonado pelos homens, alguém para o qual se evita olhar, tratado sem nenhuma consideração. Aceitou tudo isto para que o outro (que, por acaso, sou eu e tu) tenha mais. Talvez possamos imitar Deus e fazer uso da sua tabuada que fica bem vísivel no princípio basilar do cristianismo: o corpo de Jesus, mutilado, torturado e desfigurado, foi partido por nós. Como memorial perene desse acontecimento central da história, partimos o pão nas nossas comunidades, nas nossas reuniões, cultos ou missas. Comungamos. Compartilhamos. E neste pão, que é partido e repartido por nós, temos mais.

Repartimos e temos mais vida.
Repartimos e temos mais humanidade.
Repartimos e enriquecemos.

E saímos das nossas reuniões dominicais para continuar a aplicar o mesmo princípio semanalmente: partimos o pão e damo-lo diariamente ao outro. O pão, a roupa, o tempo, o ouvido, o abraço… O Rui Vieira foi o primeiro de quem ouvi que alimentar o faminto, vestir o nú, cuidar dos necessitados, doar tempo ou dinheiro, é também tomar a ceia (expressão tão querida para os evangélicos). Concordo tanto!…  E Também nestas coisas funciona a tabuada de Deus.

Doamos e temos mais vida.
Doamos e temos mais humanidade.
Doamos e enriquecemos.

Na Europa reina hoje uma cosmovisão carregada de ironia. Ela orgulha-se dos seus valores humanistas e da vanguarda na luta pelos Direitos Humanos, mas rejeita a matriz judaico-cristã de onde brotaram esses valores (a relação direta entre a mensagem cristã e a moderna noção de direitos humanos parece-me uma tese muito defensável). Mas talvez o continente dos cristãos não praticantes e dos cristãos feitos ateus possa agora inscrever na história, neste momento de crise, um bonito capítulo. Um capítulo à imagem e semelhança de Cristo.

Assim oro. E que a Igreja esteja na linha da frente a demonstrar como se faz a tabuada! Não a do ratinho, mas a outra, aquela estrambólica que Deus usa.

“Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver. 

Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? Ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? Ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? 

E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes. 

Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes. 

Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? 

Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim. E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna”

Mateus 25:34-46