Casamento: uma viagem transcultural

by davidraimundo

Um dos sábios que conheço diz que o casamento é uma experiência transcultural. A vida a dois é uma viagem constante entre continentes diferentes, ou, se quisermos usar uma imagem que remete para o isolamento ao qual tantas vezes, de forma defensiva, nos auto-sujeitamos, é a tentativa de criar pontes, rotas, pontos de contacto entre dois ilhéus isolados.

Sim, a transculturalidade presente no casamento é evidente: não existem almas gémeas. Um dos propósitos do casamento é que ao longo dos anos consigamos revelar o âmago do nosso ser, os tesouros e os fantasmas que guardamos no nosso íntimo e dos quais nem temos, à partida, plena consciência. É certo que esses tesouros e fantasmas – essa bagagem que trazemos e que é única – só Deus conhece na sua totalidade. Só Ele saberá contar e dissecar as expectativas, ansiedades, medos, sonhos e frustrações que carregamos. Mesmo assim, creio que o casamento é por excelência o espaço em que, na nossa fragilidade humana, nos expomos à pessoa amada revelando tanto quanto possível toda essa bagagem.

Esta é uma viagem magnífica que, como todas as viagens magníficas, tem obstáculos. É mais difícil do que subir ao topo do Ramelau! Porque numa sociedade que tanto valoriza a aparência e que tantas máscaras vende, revelar a nossa verdadeira identidade torna-se árduo e contra-intuitivo. A vulnerabilidade não é vista como um valor positivo. Contudo, uma experiência transcultural só o é se a pessoa se sujeitar à vulnerabilidade, ao desconhecido, ao diferente, não olhando apenas para o seu umbigo e não analisando a nova cultura apenas através das lentes embaciadas da sua própria herança cultural. Da mesma forma, o casamento só o é se a pessoa aceitar tornar-se vulnerável diante do outro.

Por envolver tal dose de vulnerabilidade, o motor fundamental desta viagem é a graça! No casamento, revelamo-nos ao outro mais profundamente na medida em que somos mais graciosos e mais aceitadores da graça que o outro nos oferece. Esta aceitação tem um efeito muito benigno: molda a nossa identidade, expurga da nossa identidade pedacinhos da tal bagagem que carregamos. É libertador! Como diz outra sábia que conheço (epah, tenho a honra de conhecer muitos sábios!), o verdadeiro amor é aquele que liberta. É aquele tipo de amor que faz o outro desabrochar!

É este tipo de amor, este amor gracioso e perdoador que tenho recebido e tenho procurado oferecer à minha amada. À medida que vamos escrevendo a nossa história a dois, vou percebendo que o sábio tem razão: sim, o casamento é uma viagem transcultural e é, de todas as viagens que fiz ou que venha a fazer, a aventura mais maravilhosa e extraordinária da minha vida!

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