Como e porque leio a Bíblia

by davidraimundo

Ao longo de séculos são incontáveis os homens e as mulheres de diferentes épocas e culturas que têm recorrido aos textos bíblicos em busca de sabedoria ancestral, à procura de respostas para as grandes questões existenciais e à procura de Deus. Para muitos a Bíblia é sagrada. Mas são também muitos aqueles que rejeitam a Bíblia por não encontrar nela validade ou por lhes parecer que ela nada lhes tem a comunicar pois fala apenas de outra era e somente para essa era. Há também quem rejeite a Bíblia por causa de princípios difíceis de encaixar e relatos desconcertantes que ela nos traz. Este tipo de rejeição é bem ilustrada pela célebre frase de Saramago: “a Bíblia é um manual de maus costumes”. Terá Saramago razão? Será a Bíblia um livro repleto de histórias infelizes, práticas bárbaras e ações mandatadas por uma divindade vil e incompreensível?

Quer afirmações como a de Saramago, quer o facto de se tratar de um livro querido para tanta gente, são fatores que podem conduzir-me a uma apropriação da pergunta: o que é a Bíblia? O que é afinal este livro que tanto impacto tem naquilo a que chamamos civilização ocidental de matriz judaico-cristã? Como se deve ler este livro? Qual a hermenêutica a empregar?

Não creio que estas perguntas tenham uma única resposta certa ou fácil e também não sei se consigo dar uma resposta imparcial porque, afinal, sendo cristão a Bíblia assume para mim um papel de extrema importância. Mais do que fornecer respostas, este texto é uma tentativa de fazer uma viagem não exaustiva pela Bíblia alinhavando uma explicação da relevância e da validade que ela tem para a minha fé.

Começo por lembrar que a Bíblia é, em primeiro lugar, uma coleção de livros. Livros diversos, com objetivos e estilos distintos, escritos em diferentes momentos e contextos da história. Não podemos abordar a Bíblia em primeira instância como um livro uno. Antes de ser um livro, a Bíblia são livros. Antes de ser uma história, a Bíblia é um conjunto de muitas histórias que se cruzam, entrelaçam, sobrepõem…

Começa por ser a história de um homem, Adão, e de uma mulher, Eva. E logo nesta primeira história cabe bem a pergunta: terei eu algo que ver com este Adão e esta Eva? Serei eu Adão? Serei eu Eva? Afinal, Adão terá a sua raiz etimológica em pó da terra – essência da qual Deus, com o seu sopro, forma o homem; matéria que aponta para a condição efémera e frágil que nos é comum – e Eva significa vivente – termo mais generalizável não seria possível. Assim talvez esta primeira cena do drama bíblico seja, mais do que a história de um casal em particular, a história de uma humanidade inteira. E, portanto, também a minha história.

Depois de alguns capítulos que nos conduzem do poema das origens (criação) às narrativas com que os hebreus responderam às grandes questões como “o que está errado com o mundo?”, “porquê tanta morte?”, “porquê tanta destruição?”, porquê tanta confusão?” (cf. por exemplo a construção da chamada torre de Babel em Génesis 11), depois destes capítulos, dizia eu, há uma mudança de registo: a narrativa foca-se agora numa pessoa, Abraão (a partir do capítulo 12), e, mais tarde, nos seus descendentes. É um homem, uma família, de quem nasce um povo e uma nação. E aqui as histórias podem não me parecer tão próximas, pois o povo hebreu é peculiar. Tem costumes com que não me identifico e leis próprias, algumas delas bizarras e aparentemente crueis. Tenho presente, ainda assim, a seguinte ressalva: é possível que, no contexto daquele tempo e das práticas dos povos vizinhos, as leis e os costumes judaicos fossem progressistas em muitos aspetos.

O fundamento do povo hebreu é a fé monoteísta no Deus dos patriarcas, Abraão, Isaque e Jacó, e dos líderes Moisés e Josué. É esta fé que lhes confere identidade e os distingue dos restantes povos. No entanto, a adoração a outros deuses e ídolos é recorrente (ver, por exemplo, Êxodo 32 ou II Reis 17). Encontra-se aí um dos grandes temas da Bíblia: a idolatria que há-de marcar a história do povo hebreu e que os profetas hão-de condenar de forma muito veemente. Ora a idolatria, entendida num sentido lato – ídolo é tudo aquilo que ocupa o centro da minha vida de forma indevida – é ainda uma tendência contra a qual tenho de lutar. Pelo que este tema bíblico tem relevância e as exortações dos profetas servem-me também de exortação.

Ainda assim, estranho muitos dos relatos vetotestamentários. São-me distantes e desconfortáveis. Quer as personagens, tão distantes do nosso sofisticado (!) século XXI – povos nómadas que vivem da pecuária, escravos oprimidos no Egipto, um povo sem-terra que deambula pelo deserto, reis, guerreiros, camponeses e pastores, funcionários do clero, prostitutas, falsos profetas, criminosos, gigantes, etc. – quer o retrato de Deus que os autores ali pintam…

No Antigo Testamento encontramos muitos traços de um Deus terrível e temível ao qual é atribuída a liderança de uma campanha de limpeza étnica e que institui práticas como sinal de pertença que aos meus olhos são bizarras (a circuncisão, cf. Génesis 17; ver Êxodo 4:24-26), bem como um sistema de sacrifícios de animais para expiação de pecados (ver livro de Levítico). A propósito do Antigo Testamento e da dificuldade que ele pode suscitar há três aspetos que quero sublinhar:

1) O enquadramento global das histórias bíblicas do A. T. pode fazer com que elas me pareçam distantes, mas na trama, no pormenor, na psicologia das personagens, nos seus dilemas e hesitações, encontro elementos que me são próximos. A família disfuncional de Isaque e Rebeca (Génesis 24-27) não lembra famílias que conhecemos? Será que a timidez – ou cobardia – de Saul (I Samuel 10:22) e a luxúria de Davi (II Samuel 11) são sentimentos totalmente ausentes do meu coração? Será que não me é familiar a incapacidade reconhecida pelo profeta Isaías para falar com pureza (Isaías 6:5) ou a obstinência e até petulância do profeta Jonas? Ou seja, quando a minha leitura for cuidadosa e refletida, talvez chegue a concluir que as histórias bíblicas do povo hebreu/judaico são histórias da humanidade. São património da nossa civilização não apenas do ponto de vista histórico, mas também do ponto de vista existencialista. Fazer uso deste património, respeitá-lo e valorizá-lo, significará, pois, mergulhar nestas histórias antigas, travar conhecimento com as personagens e encontrar-me a mim próprio nos seus trajetos e dilemas.

2) O Antigo Testamento tem diversos géneros literários. Para além das leis e da narração em jeito de crónica ou de biografia, encontramos no A. T., por exemplo, provérbios de sabedoria universal. Numa era em que o apelo ao empreendedorismo surge como uma espécie de mantra político, convém relembrar que esse apelo já se encontra presente na Bíblia, de uma forma que me parece bem mais saudável e holística do que esse mantra contemporâneo. O provérbio “Vai ter com a formiga, ó preguiçoso, considera os seus caminhos e sê sábio” (Provérbios 6:6) é complementado pelo outro lado da moeda: o autor do Eclesiastes lembra que trabalhar para colecionar riquezas é mera vaidade.

No A.T. encontro também belíssimos cânticos de adoração e de devoção:

“Como o cervo anela as águas assim a minha alma tem sede de ti, ó Deus!
A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo!…” (Salmo 42:1-2)

O poeta expressa a sua busca pelo Deus que é transcendente, mas também é pessoal. Identifico-me! Também eu anseio por este encontro com um infinito que toca o finito, com o “totalmente outro” que se dá a conhecer. E creio até que esta ansiedade é comum a toda a humanidade, ainda que a tentemos abafar ou ignorar.

O A. T. tem também textos nos quais me posso deleitar em momentos específicos da minha caminhada. Lembro-me, por exemplo, de uma ocasião em que a leitura do Salmo 126 foi para mim um bálsamo de esperança:“Aquele que leva a preciosa semente, andando e chorando, voltará, sem dúvida, com alegria, trazendo consigo os seus molhos.”

3) Em relação ao retrato que os autores vetotestamentários pintam de Deus, diria que esse é um retrato envolvo em nevoeiro, em sombras (Hebreus 10:1). É impreciso e incompleto. É como se os povos do A. T. vivessem numa espécie de período das trevas. Ainda assim, rasgos de luz vão irrompendo aqui e ali. Pelas bocas dos profetas chegam expressões de um Deus amoroso que “não se esquece dos seus filhos”. Um Deus que grava nas palmas das mãos os nomes desses filhos (cf. Isaías 49:15-16) e que afirma um plano de paz e de esperança para eles (cf. Jeremias 29:11). Um Deus que quer a justiça a correr como um rio (Amós 5:24) e que é exaltado por cuidar dos desfavorecidos e desprotegidos (cf. Salmo 146). Também no que respeita às personagens surgem episódios e relatos luminosos. Não há só homens de coração de pedra (Ezequiel 36:26), mas também homens com coração de carne. Há redenção no livro de Job, há graça singela na bonita história de Abigail (I Samuel 25) e graça escandalosa na louca história do profeta Oseias. Há arrependimento profundo na oração crua e dolorosa de Davi (Salmo 51). Há prenúncios de justiça social e de valorização da vida humana na Lei Mosaica (cf. Levítico 25). Há uns tempos propus a mim próprio o desafio de ler o A. T. procurando nele sinais da Graça Divina, pois acredito que o critério através do qual Deus se relaciona com a humanidade é e sempre foi a Graça. Desde então comecei a detectar no A.T. episódios, personagens e aspetos que são deliciosos. Estes são alguns exemplos, muitos outros podem certamente ser apresentados.

O A.T. é-me muito distante e essa distância justifica, creio eu, as reticências com que o abordo, nomeadamente no que respeita à literalidade dos textos e ao quadro que de Deus ali é pintado. Mas os três pontos acima sublinhados (e outros que porventura ficam por sublinhar) tornam o A.T. muito valioso para mim. Por isso, leio-o.

Os rasgos de luz que encontramos no Antigo Testamento apontam para a possibilidade de uma outra realidade que, diria, é desvendada por completo no Novo Testamento. Aí a luz brilha de forma intensa, não só nas entrelinhas num sentido figurativo, mas na própria narrativa! Há luz na multidão de anjos que anunciam o nascimento (cf. Lucas 2:8-14) e há luz nas estrelas que os magos seguem (cf. Mateus 2:1-12).

Nas nossas bíblias comuns os evangelistas sucedem aos chamados profetas menores. Se lessemos a Bíblia não sabendo de antemão que existe uma descontinuidade entre o livro de Malaquias e o livro de Mateus, detetaríamos ainda assim essa descontinuidade. Os evangelistas deixam de estar ocupados a escrever acerca de um povo e para um povo. Passam a escrever sobre uma pessoa singular e para todos os povos. É certo que cada evangelista tem em mente um público-alvo, mas parece-me que o objeto central da sua escrita – a pessoa – é tão universal que a escrita alcança muito para lá do público-alvo. Cada evangelho é como um holofote de potência máxima a lançar luz sobre o passado e sobre o futuro. A luz sobre o passado inclui o Antigo Testamento pois, acreditando nas palavras dos evangelistas, agora vemos com outra nitidez a história dos judeus, as profecias, os símbolos que já apontavam para Jesus (tipificações como a arca de Genésis 6-10) e o plano redentor do seu Deus. Cada um dos holofotes aponta para um ângulo diferente, uma perspetiva particular que decorre do propósito do autor e dos aspetos do ministério de Jesus que ele pretende realçar. Assim, os evangelhos entrelaçam-se para nos apresentar Jesus e nele, em Jesus, concretiza-se a profecia de Isaías: “o povo que caminhava nas trevas viu uma grande luz; habitavam numa terra de sombras e uma luz brilhou para eles” (cf. Isaías 9:1-2).

Jesus é esta luz. Esta é uma resposta possível à pergunta central que se vai adensando na narrativa e na trama dos evangelhos: quem é Jesus? Quem é o mestre da Galileia que ensina com tanta autoridade, usando parábolas incisivas e métodos inusitados? Quem é este homem cativante de quem me falam Mateus, Marcos, Lucas e João?

A identidade de Jesus é um assunto que, em retrospectiva, atravessa a Bíblia toda. Num sentido quiçá limitado, creio que podemos afirmar que o propósito da Bíblia enquanto livro uno é a revelação dessa identidade. Por um lado cada livro bíblico tem o seu contexto e objetivo. Por outro lado, se a Bíblia para além de uma coleção de livros é também um livro, ou seja, se a Bíblia tem também um carácter uno, esse carácter é-lhe conferido pela revelação da identidade de Jesus. É a identidade de Jesus que une e harmoniza os diversos livros da Bíblia. Daí eu concluir sem reservas que os autores bíblicos contaram com uma inspiração especial – divina – pois todos escreveram, de forma velada ou direta, simbólica ou narrativa, acerca dele!

Os evangelhos revelam um Deus que é para todos: para os judeus – vim para os que eram meus (cf. João 1:11); para os gentios – quebrando constrangimentos sociais profundamente enraizados como no episódio da mulher samaritana (João 4) ou do centurião romano (Mateus 8:5-13); para cegos e coxos físicos ou espirituais, para os proscritos e pecadores, para as crianças (cf. Mateus 19:14).

É também interessante notar que os princípios éticos que Jesus proclama no sermão do monte (Mateus 5-7) e que ilustra com a sua vida penetraram de tal forma na sociedade (primeiro na comunidade de judeus palestinenses que se convertem a Cristo, depois por todos os territórios do império e do mundo) que até podemos assumir que esses princípios estão na génese da compreensão moderna dos direitos humanos. Hoje, sem nos apercebermos, vivemos numa sociedade que incorporou muitos destes princípios no seu sistema de valores, ainda que não conheça aquele que os proclamou. A Bíblia é socialmente e culturalmente relevante.

Os evangelistas registam depois a morte dramática de Jesus e a sua surpreendente ressurreição. Da sua ressurreição muitos duvidam. Mesmo na teologia cristã encontramos correntes que relativizam esse acontecimento adaptando e modernizando as antigas doutrinas gnósticas: Jesus morreu no corpo e ressuscitou apenas no Espírito? Estas questões já eram alvo de discussão no tempo apostólico. Relativamente a este assunto, levo muito a sério as palavras de Paulo aos Romanos (cap. 15): se Cristo não ressuscitou [em corpo] então a minha fé não tem qualquer sentido.

Neste sentido, os Atos dos Apóstolos e as Cartas do Novo Testamento têm também uma função apologética. Neles percebo que os discípulos não tiveram dúvidas em afirmar ressurreição e a divindade de Jesus e tenho contacto com elementos teológicos que fortalecem a minha fé no Cristo Vivo. A crença na divindade de Cristo é uma viragem surpreendente tendo em conta o monoteísmo estrito dos judeus. De repente, passam a considerar que o Deus dos patriarcas, de Moisés e dos profetas se fez carne. Acreditam nesta paradoxal maravilha: Deus revelou-se plenamente através de Jesus Cristo (cf. explica João no prólogo do seu evangelho, texto que considero fundamental na minha compreensão teológica e como alicerce da minha cosmovisão). Esta viragem não implica uma mudança para uma fé politeísta. Pelo contrário: ela irá originar a crença no Deus trino. A trindade é um mistério e eu estou em crer que, se bem entendida (coisa difícil), a trindade é uma expressão inequívoca do monoteísmo mais belo e verdadeiro.

Assim nasce e brota o movimento que viria a ser conhecido como cristianismo. No livro dos Atos, Lucas conta-nos como os pioneiros desse movimento, seguindo instruções do mestre e após terem recebido o Espírito Santo (cf. Atos 2), percorrem províncias e países para contar a história de Cristo, a Boa Nova da sua vinda e da sua ressurreição. Também as cartas nos contam como a vinda de Jesus e a sua mensagem provocaram uma profunda revolução nas vidas daqueles discípulos. A teologia, a liturgia, os hábitos e as prioridades daqueles judeus convertidos (e dos gentios que se lhe foram juntando) ficaram de pernas para o ar. Leio Atos e leio as Cartas porque desejo que essa mesma revolução aconteça diariamente na minha vida!

Gradualmente estes judeus discípulos de Jesus foram percebendo que Jesus é para todos. As cartas paulinas atestam bem essa percepção, essa nova cosmovisão marcada por uma teologia inclusiva e uma mensagem universal:

“Cristo é de facto a nossa paz. De dois povos separados fez um só povo. Com o sacrifício da sua vida ele destruiu o muro que os separava e os tornava inimigos um do outro. Aboliu a lei judaica com os seus regulamentos e decretos para, a partir de judeus e não-judeus, formar uma humanidade nova, em união com ele, fazendo a paz, a fim de os reconciliar com Deus, num só corpo por meio da sua cruz, destruindo por ela o ódio que os dividia.” (Efésios 2:14-26)

Compreende-se até que a exclusividade da relação de Israel com Deus lida no Antigo Testamento é apenas aparente, pois, segundo os apóstolos, o relacionamento privilegiado que Deus estabelecera com Israel sempre teve em vista a bênção de todas as nações (de acordo até com o próprio A.T. cf. Génesis 12:3 ou Isaías 60:3). Lemos até a possibilidade de que Deus não tenha deixado de se manifestar às outras culturas e povos (cf. Romanos 1). A este respeito, é surpreendente o discurso de Paulo no aerópago de Atenas ao afirmar que o Deus que os gregos apelidavam de ‘O Deus Desconhecido’ era o mesmo que ele anunciava (cf. Atos 17:23) e, mais ainda, ao utilizar filosofia e poesia grega para fazer teologia cristã (cf. Atos 17:28). Com estes exemplos, Paulo ensina-nos a procurar Deus na cultura secular. Ensina-nos que Deus não está confinado a um templo, a um livro ou a um sistema religioso. Ele atua através de todos e em todos (Efésios 4:6).

O retrato de Deus feito no Novo Testamento é diferente. O quadro que os autores do Novo Testamento pintam conta já com a luz que decorre do ensino e do Ministério de Jesus Cristo. De facto, talvez possamos colocar as coisas noutros termos: talvez seja o próprio Jesus que pinta – com a sua vida e a sua mensagem – todas as pinceladas decisivas do quadro apresentado no N. T. Esta perspetiva parece-me estar em harmonia com o tal prólogo do Evangelho de João:

“A Palavra fez-se homem
e veio habitar no meio de nós,
e nós contemplámos a sua glória,
como glória do Filho único do Pai,
cheio de graça e de verdade.
(…)
Nunca ninguém viu Deus. Só o Deus único, que está no seio do Pai, o deu a conhecer.” (João 1:14 e 18)

A teologia enquanto exercício humano será sempre incompleta. Não creio que o vocabulário humano possa fazer jus à verbalização do divino. Ainda assim, diria que a teologia ganha contornos mais precisos, ganha rosto, ganha base, com a encarnação de Cristo. É ele que ilumina o retrato que fazemos de Deus porque ele é Deus. Neste sentido, arrisco dizer que a teologia neotestamentária é mais iluminada e mais precisa, do que a sua antecessora.

Se no A. T. a graça aparece como pontos de luz nas trevas, no N. T., pelo contrário, são escancaradas as portas da graça. Ela desagua de forma incontida na vida de homens e mulheres que se cruzam com Jesus, quer seja fisicamente durante o seu ministério terreno, quer seja mais tarde em Antioquia, Roma, Corinto, Éfeso, etc. como resultado da pregação dos apóstolos. A graça brilha com todo o esplendor na escrita dos autores bíblicos. Canta-se então a vitória de Cristo como sendo, pelo menos potencialmente, a vitória de todos, uma vitória que abarca toda a realidade existente:

“Porque Deus achou por bem
estar totalmente presente no seu Filho,
e também, por meio dele, reconciliar consigo
mesmo tudo o que existe na Terra e no Céu,
estabelecendo a paz pelo seu sangue
derramado na cruz.” (Colossenses 1:19-20)

Leio as Cartas também porque desejo que a teologia de Paulo, Pedro, João, Judas e Tiago – a forma como escrevem sobre a profundidade e universalidade da obra de Cristo, os preceitos práticos que transmitem à igreja – molde a minha cosmovisão, defina a minha identidade, afine a música do meu coração e o rumo da minha vida.

Porfim, temos o livro do Apocalipse com uma escrita que lembra mais o livro vetotestamentário de Daniel do que o restante do Novo Testamento. Sucedem-se anjos, cavaleiros, dragões e bestas com muitas cabeças (ver por exemplo Apocalipse 13:1). É todo um cenário que deixa o leitor estarrecido e perplexo. A interpretação deste livro tem desafiado os cristãos desde o início da história.

Acredita-se que João terá escrito o livro quando estava exilado na ilha de Patmos, já em idade avançada (Apocalipse 1:9). Os cristãos eram perseguidos e martirizados pelo Império Romano. Os seus antigos companheiros de missão (Pedro, Tiago, André e o próprio Paulo) teriam sido já executados pelas mãos romanas que também executaram o seu Mestre. Neste contexto, o Apocalipse parece ser escrito, em primeira instância, para consolar e animar os cristãos comunicando-lhes uma mensagem de esperança: este império opressor que hoje prevalece será derrotado e o reino que Jesus veio inaugurar abrangerá, um dia, toda a realidade existente. Ainda que nos persigam e que nos matem, ainda que o império pareça invencível e imortal, a verdadeira sentença está dada: Roma – aqui chamada de Grande Babilónia – cairá por terra (cf. Apocalipse 18:2).

Parece ser esta a exortação nas entrelinhas da revelação que João recebe: animem-se, vós, fieis, e permaneçam firmes nas convicções da boa nova que receberam. O reinado de César terá fim. Por isso, mantenham puras as vossas vidas, limpas as vossas vestes (Apocalipse 3:18) e não participem nas orgias imperiais (Apocalipse 18:4).

Na pluralidade de sentidos que os textos bíblicos podem assumir, o Apocalipse é particularmente fértil em possíveis interpretações alternativas ou complementares. Mas, pelo menos no sentido acima proposto, podemos detetar o carácter intemporal do livro: todas as épocas têm os seus impérios opressores, desumanizantes e malignos; o Apocalipse lembra-nos que todos esses impérios caem por terra. É portanto um livro que me faz a pergunta: preferirei eu integrar as fileiras imperiais da Babilónia moderna, abdicando da minha identidade e integridade, ou dedicarei a minha vida ao movimento de resistência que sabota o império com manobras de graça e de justiça mesmo que seja necessário pagar um preço elevado?

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O propósito deste texto é comunicar como e porque leio a Bíblia e creio que, através desta pequena viagem do Génesis ao Apocalipse, as respostas foram alinhavadas. Leio a Bíblia porque ela é valiosa e relevante na minha caminhada. Isto abrange o Antigo Testamento e o Novo Testamento. A Bíblia alimenta a minha fé e, por outro lado, a maturação da fé alimenta a minha leitura bíblica, formando-se assim um ciclo que enriquece a minha vida, o meu percurso e a minha forma de ver Deus, o mundo e os outros. Leio a Bíblia com liberdade, criatividade e interrogações e sinto que é o próprio texto que me autoriza a abordá-lo dessa forma. Tento lê-la com honestidade intelectual. Tento lê-la numa atitude de submissão ao Espírito Santo. E, sobretudo, tento lê-la para através dela conhecer aquele de quem ela fala, aquele para quem ela aponta, o Cristo Vivo. Vivo não só porque a Bíblia o afirma, mas porque ele transcende as linhas e as entrelinhas das histórias bíblicas para se tornar co-autor das minha própria história.

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