Fazer justiça com as próprias mãos

by davidraimundo

“The earth and the sky and the sea are all holding their breath
Wars and abuses have nature growing with death
We say we’re just trying to stay alive
It looks so much more like a way to die
And this too shall be made right”
(Derek Webb)

Os lápis dos cartoonistas traçam piadas de gosto duvidoso. Em resposta, radicais da intolerância matam. Estão cegados por uma mentalidade demasiado estreita, que prevê apenas espaço para a existência do seu igual, não do seu semelhante. Em letras mais pequenas, lemos massacres e sequestros no Norte de África. Lemos que a Indonésia pede clemência para a sua cidadã condenada à pena de morte na Arábia Saudita, mas, ao mesmo tempo, rejeita o pedido de clemência para os cidadãos estrangeiros condenados à morte dentro das suas fronteiras. Lemos o atentado suicída de uma menina-bomba de 10 anos. Lemos a liberdade a ser cem vezes chicoteada na Arábia Saudita. Lemos a morte lenta de crianças cujo único brinquedo é o barro com que fabricam tijolos no Afeganistão. Lemos meninas a desfilar em Gaza com a kalashnikov a tiracolo. Abrimos o portátil, percorremos as páginas do jornal, carregamos no botão da caixa mágica e o que encontramos é um mundo de gente que, enquanto julga estar a fazer justiça com as próprias mãos, está, na verdade, a perpetuar a injustiça, a crueldade, o fratricídio.

Na narrativa biblíca os genes fratricidas da humanidade estão presentes desde as nossas origens: Abel e Caim. Mais do que discutir a literalidade da história, importa perceber a literalidade da verdade que se esconde por trás da história: nós matamos o nosso irmão. Esta é a especialidade do homem alienado do Criador: matar o próximo. Se não for com armas, é com políticas e artifícios económicos e é com palavras e atitudes. Diz-nos a ONU que 1600 milhões de pessoas ainda vivem abaixo do limiar da pobreza. Diz-nos o Público que em 2016 mais de metade da riqueza mundial estará na posse de 1% da população. Esta desigualdade gritante também é fratricidade: não mata num instante, mas provoca uma sangria lenta e fatal.

Viver em Timor-Leste aguça este perspetiva amarga, este desencanto profundo: a pobreza e os desafios ainda são gigantescos e a sensação de impotência tende a invadir-nos. O país está certamente muito mais desenvolvido do que quando se deu a independência. Mas ainda há tanto por fazer! Dá vontade de ter poder e força para mudar tudo. Dá vontade de ter a omnipotência para transformar esta sociedade num ápice.

Não tenho essa omnipotência (e, na verdade, ainda bem!). Ainda para mais, eu não acredito no progresso. Não é esse o meu Deus. Não acredito que a humanidade seja capaz de se elevar a si própria a uma nova condição. Não acredito que a humanidade seja capaz de se re-criar.

Não é de admirar que quando me esqueço daquilo em que acredito – tendo só presente aquilo em que não acredito – tenha vontade de deixar a raiva e a amargura tomar conta de mim. Há momentos em que só vejo a fealdade do mundo e quero esbofeteá-lo. Quero endireitar as coisas pela força. (Um amigo diz que, se não fosse cristão, talvez fosse um terrorista de extrema esquerda. Às vezes sinto o mesmo.) Há momentos em que só vejo a fealdade do mundo a raiva dá-me vontade de chorar. Recordo Neemias a chorar quando soube da destruição de Jerusalém. A forma como a realidade aguda penetra e dói no coração… Há momentos em que me sinto um bocadinho Neemias.

Mas depois, tal como Neemias, forço-me a lembrar daquilo em que acredito. Acredito em Jesus Cristo. Confio nele. Tenho em Cristo a minha esperança, o meu exemplo, o meu caminho. É nele que a humanidade fratricida encontra cura. É nele que, segundo as palavras magníficas do apóstolo Paulo, todas as coisas são reconciliadas:

All the broken and dislocated pieces of the universe—people and things, animals and atoms—get properly fixed and fit together in vibrant harmonies, all because of his death, his blood that poured down from the cross.   (Colossenses 1 – The Message)

Por causa de Jesus Cristo, eu quero justiça no mundo! Não a justiça humana falível, permeável, repleta de equívocos e de injustiças. Mas uma justiça à medida de Cristo, uma justiça que honre o caráter ímpar do mestre nazareno. Desta justiça tenho fome e tenho sede. Desta justiça quero ter mais fome e mais sede.

Entretanto há que recordar um tema recorrente deste blogue: eu também faço parte do problema. Eu também faço parte da humanidade fratricida. Lembro-me de ouvir o pastor João Martins a explicar esta bem-aventurança – bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão fartos – dizendo que ela consiste, em primeiro lugar, numa fome e sede de justiça para a nossa própria vida. Assim, bem-aventurado é o homem que, reconhecendo a sua condição de injusto e injustificado, deseja ardentemente uma justiça que o habite mas que não venha de si próprio. Este é o homem que reconhece que a auto-suficiência é uma impossibilidade: só a obra de redenção e de justificação por intermédio de Alguém maior pode saciar tal fome e tal sede. (Creio que o livro Justiça Generosa, de Tim Keller, aborda a relação entre a ação da justiça de Deus ao nível individual e a justiça enquanto conceito social que se estende a toda a humanidade. Ainda não o li, mas suspeito que valha o esforço.)

Assim, vivendo no caminho que é Cristo, vou sendo re-criado pela ação da sua justiça em mim. De facto, não é a humanidade que se regenera a si mesma. É Cristo que cria uma nova humanidade. E esta nova humanidade é chamada a apresentar ao mundo uma noção de justiça mais profunda, mais bela, mais divina*. Esta justiça de Deus pode ser entendida à luz do conceito hebraico de shalom: o shalom acontece quando aquilo que é bom, certo, verdadeiro e íntegro invade a realidade, permeia os relacionamentos humanos, traz paz e abundância para todos. Já não é aquele conceito simplista e primitivo de uma justiça retributiva. Aquilo que encontramos na cruz de Cristo é uma justiça paradoxal que paga o mal com o bem. E ainda que esta justiça pareça frágil, ela vence.

Podemos assim dizer que o caminho de Cristo é para os teimosos, para aqueles que, tendo conhecido a justiça nas suas próprias vidas, recusam-se a aceitar o mundo como ele está, para aqueles que querem dar a vida pela proclamação e demonstração da justiça restaurativa de Deus, para aqueles que querem fazer todos os esforços para viver aqui e agora uma maior densidade do shalom. Como disse, não sou crente no progresso. Também não sou crente no progresso como escatologia cristã (até gostava de ser, mas a realidade não me permite). Dentro desta perspetiva, os feitos daqueles que caminham com Cristo são ínfimos. Como dizia a Madre Teresa de Calcutá: não podemos fazer grandes coisas, apenas podemos fazer pequenas coisas com grande amor. É neste sentido que o cristão é chamado a fazer justiça com as próprias mãos, ganhando agora esta expressão um sentido completamente diferente do habitual. Para fazer justiça com as próprias mãos: visitamos as viúvas e os presos, cuidamos dos órfãos, amamos o próximo, amparamos os coxos, ouvimos os que não são ouvidos, doamos, entregamo-nos, servimos, à imagem e semelhança do Mestre. E em todas as áreas em que intervimos procuramos a subversão das injustiças sistémicas inculcadas nas estruturas humanas. Procuramos a transformação do mal em bem e a submissão de todas as coisas ao shalom, confiando que um dia ele será uma realidade plena quando Jesus reinar enfim.

Ouçamos o repto dos profetas contemporâneos, os artistas, os Derek Webb da nossa era. Ouçamos também o repto dos profetas antigos, os Amós, que já há muitos séculos atrás anunciavam o sonho de Deus para o mundo: Let justice roll down like waters and righteousness like an ever-flowing stream! Que as nossas vidas sejam respostas palpáveis a estes reptos. Que assim seja!

 

*Entre os cristãos evangélicos é comum ouvir-se a frase: Deus é amor, mas Ele é também justiça. Esta frase é dita em tom de aviso. Soa mais ou menos assim: vê lá o que fazes porque Deus ama-te, mas ele também é justo e quer que andes na linha. A frase arrisca-se a um equívoco porque coloca a justiça de Deus em oposição ao amor de Deus. Esta reformulação parece-me muito mais consistente: Deus é amor e, porque Deus é amor, Ele é também justiça. A justiça divina não é um peso para contrabalançar o seu amor. Não é retributiva, no sentido de responder à guerra com guerra e à morte com morte. A justiça divina responde à morte, com vida. Responde ao mal, com o bem. É isso que encontramos na cruz do Calvário: uma justiça ao serviço do amor que tem por finalidade a redenção de todas as coisas. O autor da carta aos hebreus diz que o Senhor corrige aquele a quem ama e castiga aquele que recebe por filho. O castigo de Deus é um castigo restaurativo, com um propósito maior em vista. A repreensão e as palavras duras dirigidas por Jesus aos fariseus e doutores da Lei têm esse propósito. Para corações duros, o amor fala em palavras duras. E, finalmente, mesmo que a nossa interpretação bíblica nos leve a acreditar nalgum tipo de castigo pós-morte – o inferno – parece-me muito mais consistente entender essa possibilidade como uma consequência natural da alienação total de Deus do que como uma punição para satisfazer a ira de Deus.

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