Alegoria da Compaixão*

by davidraimundo

*alegoria que não é assim tão alegórica.

Na Terra era a desgraça total: uma humanidade fratricida, fragmentada, desolada. O império do caos e da morte. O Homem a afogar-se a si mesmo no oceano da auto-destruição.

No Céu era a preocupação: aqueles que o habitavam olhavam consternados para a Terra sem saber o que fazer para travar o fim da humanidade. É verdade que já há muitos milénios tentavam pôr um travão nessa bola de neve: imprimiam cartazes com slogans sonantes, alugavam aqueles aviões que passam nas praias com publicidade, pagavam outdoors nas auto-estradas e nas entradas das principais cidades para espicaçar os homens com a necessidade de fazer marcha-atrás. Mas os homens, surdos e cegos, não captavam o pleno sentido dessas mensagens.

Então os que habitavam o Céu reuniram-se para debater a situação da Terra e concluíram que só havia uma coisa a fazer: algum deles teria de ir até à Terra para dar a conhecer aos homens a distância que existe entre quem os homens são e quem os homens poderiam ser. Os habitantes do Céu perceberam que os homens jamais conseguiriam entender as múltiplas mensagens que lhes tinham sido enviadas. Era necessária uma medida mais radical: a mensagem tinha de encarnar e comunicar com os homens em palavras e gestos que fizessem parte dos seus dicionários.

Naquela reunião marcaram presença todos os habitantes importantes do Céu, as essências de tudo quanto é bom, digno e nobre. Falo daquelas gentes por quem o nosso Espírito anela, a Força, Sabedoria, a Reconciliação, a Justiça, a Esperança, o Poder, a Alegria, a Misericórdia…

A Força ofereceu-se: eu vou e uso a minha persuasão para forçar os homens a mudar de caminho. Mas o Amor opôs-se: querida Força, por muito amar a humanidade ofereci-lhe o Livre-Arbítrio e não posso revogar essa oferta.

A Beleza também foi voluntária: eu vou e uso o meu esplendor para deslumbrar os homens e conduzi-los a um novo caminho. Mas a Sabedoria lembrou: querida Beleza, não há garantia de que os homens se arrependam por teu intermédio, repara que eles já desprezam o tanto de belo que a Terra e os Astros exibem…

Então foi a Justiça a oferecer-se: eu vou e uso as minhas palavras penetrantes para apurar nas consciências humanas a realidade do juízo e talvez pelo medo os homens cheguem ao arrependimento. Mas a Misericórdia opôs-se: lembra-te, querida Justiça, que nós desejamos que os homens nos ouçam e nos sigam por sincera devoção e convicção e não por medo; desejamos que os homens nos amem, e o verdadeiro amor não tem medo, não é verdade, Amor?

O Amor confirmou que não tinha medo.

Houve um impasse na reunião. Alguns minutos de silêncio e reflexão.

Então ouviu-se uma voz determinada: eu vou.

Era a Compaixão quem falava. Desta vez ninguém se opôs: as gentes do Céu perceberam de forma unanime que a Compaixão, frágil e simples na sua aparência, seria a melhor forma de confrontar as consciências dos homens.

Então a Compaixão veio à Terra, fez-se o Natal. Os anjos anunciaram a sua chegada e aqueles que há tanto tempo ansiavam pela intervenção do Céu alegraram-se com ela.

A Compaixão andou entre nós, ouvimos a sua voz e vimos o seu rosto. Vimo-la tocar e transformar as impurezas dos homens, as lepras físicas e espirituais, as cegueiras e as paralisias que impediam os homens de caminharem no caminho certo. Vimo-la rogar aos homens que escolhessem outro caminho. Vimo-la chorar pela humanidade.

Os homens, confrontados pela forma de agir da Compaixão, não souberam lidar com ela. Não deixaram que ela tornasse os seus corações mais macios. Não abdicaram do seu orgulho e da presunção de auto-suficiência. Quiseram aniquilar a Compaixão para que as palavras e os gestos dela não mais ameaçassem o caminho que escolheram.

A Compaixão foi executada sem misericórdia. Vimo-la sangrar pela humanidade. Vimo-la morrer pela humanidade. Assistimos à tortura e ao assassinato mais vil da nossa história sem vislumbrarmos na Compaixão qualquer centelha de Força: a sua aparente fragilidade estava ali totalmente exposta em forma de cruz. Sem vislumbrarmos nela qualquer centelha de Beleza: nenhuma beleza víamos nela, para que a desejássemos. Sem vislumbrarmos nela qualquer centelha de Justiça: naquele monte prestava-se tributo à injustiça mais perversa de que os homens são capazes. Sem vislumbrarmos nela qualquer centelha de Esperança: o que vemos é o homicídio da solução que o Céu providenciou para a humanidade. Sem vislumbrarmos nela qualquer centelha de Sabedoria: encarnar apenas para se deixar matar pelas mãos dos homens, que loucura é esta?!

Mas quão ingénua e limitada é a nossa lógica! Não percebemos que naquele dia fatídico a Compaixão não estava só. Ainda que nós não fossemos capazes de as ver, também lá estavam a Força, a Beleza, a Sabedoria, a Justiça, a Reconciliação e a Esperança. Elas que nunca abandonaram a Compaixão, antes a acompanharam secretamente durante todo o seu percurso terreno. Elas que, na verdade, formam com a Compaixão uma unidade perfeita e, por isso, também foram cravadas pelos espinhos e trespassadas pelos pregos.

Ao terceiro dia ela, essa unidade perfeita de todas as essências do que é bom, digno e nobre, ressuscitou e saiu do sepulcro no qual os homens a tinham selado e recebeu um novo nome: Graça. E não tenhamos dúvidas de que, apesar de todas as nossas considerações anteriores, a Graça é forte, é bela, é sábia, é justa, é reconciliadora e traz esperança abundante. No maior paradoxo da História – a morte e ressurreição da encarnação da unidade perfeita de todas as essências do que é bom, digno e nobre – há redenção para a humanidade.

A voz da Graça sopra agora nas praças, nas ruas, nas cidades e nos campos, e todos a podem ouvir. A Graça está connosco e o refrão da canção que ela nos canta “eis que faço novas todas as coisas” é o travão que impede a derrocada da humanidade, é o alívio de todos os cansados e oprimidos, é a salvação de que eu preciso para não me afogar no oceano da auto-destruição, é o caminho onde palmilho a distância entre quem eu sou e quem eu posso ser.

Estamos outra vez na época do ano em que se festeja o natal. E todas as canções de natal que escutamos e que cantarolamos são ecos da canção mais profunda e mais bela que a Graça nos canta. Que nesta quadra possamos escutar e cantarolar também essa outra canção. Assim o natal será para nós Natal – a Graça connosco, Deus connosco.

“Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, E chamá-lo-ão pelo nome de EMANUEL, Que traduzido é: Deus connosco.”  Mateus 1:23

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