‘Somos-todos-sócrates’*

by davidraimundo

Sobre o caso Sócrates, só sei que nada sei. É difícil discernir a verdade no meio da informação e contra-informação com a qual somos bombardeados. O que desejo é que ele seja condenado se for culpado e que seja ilibado se for inocente. Que os jornalistas tenham a sensatez de acompanhar o processo com sobriedade e rigor, abandonando o folclore. Que os juízes tenham a coragem de não ceder a pressões. Que os advogados façam o seu trabalho sem recurso a subterfúgios, com zelo pela justiça e pela verdade. Que os portugueses façam uso desta situação para uma reflexão sobre a sociedade que estamos a construir e o quanto ela se afasta de uma sociedade justa e transparente.

Em suma: desejo a utopia.

As atitudes de jornalistas, juízes, advogados e políticos escapam por completo ao meu controle ou influência. Não posso, não podemos, interferir no processo para o tornar mais transparente e sóbrio. Não tenho, não temos, esse poder.

Assim, deste caso sobra apenas a reflexão pessoal. Parece haver uma total ausência de cultura e de consciência de serviço na classe política portuguesa (e não só). Serviço é um termo belo, crístico, mas também ele corrompido. O ideal democrático aproxima a sociedade da Justiça: a governação é feita como acto de serviço ao povo. Mas o ideal democrático está corrompido e essa corrupção origina uma sociedade de injustiça: a governação passa a servir interesses alheios ao povo.

Mas lembremos que somos todos Sócrates. Ou seja, a corrupção não está confinada ao mundo da alta política. Está disseminada pela nossa sociedade, pelas nossas comunidades, pelos nossos corações. Há em mim a mesma tendência para a corrupção, para o atalho, para o umbigo.

Por outro lado, estou no caminho de Cristo. E, no caminho de Cristo vivo esta ambiguidade de fazer aquilo que não quero e querer ser quem ainda não sou. Os tentáculos da corrupção, do velho homem em mim, ainda tentam amarrar-me. Mas há também o Espírito a trabalhar em mim, a reabilitar-me, a restaurar-me. Esta consciência dá-me força para expressar um desejo que, por mais distante que seja, é menos utópico que os anteriores: que haja em mim o mesmo sentimento que havia em Cristo. É aqui que me traz o caso Sócrates: ao hino que Paulo regista na carta aos filipenses.

“Portanto, se algum encorajamento, alguma consolação de amor, alguma comunhão do Espírito, alguns entranhados afectos e sentimentos de compaixão resultam da nossa união com Cristo, então peço-vos que me dêem a grande satisfação de viverem em harmonia. Estejam unidos pelo mesmo amor numa só alma e nos mesmos sentimentos. Não façam nada por ambição pessoal nem por orgulho, mas com humildade, considerem os outros superiores a vós próprios. Que ninguém procure apenas o seu interesse, mas também o dos outros. Tenham os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus: 

Ele, que por natureza era Deus, não quis agarrar-se a esse direito de ser igual a Deus. Pelo contrário, privou-se do que era seu e tomou a condição de escravo, tornando-se igual aos homens. E, vivendo como home, humilhou-se a si mesmo, obedecendo até à morte, e morte na cruz.”

Filipenses 2:1-8
Tradução BPT

Eu não posso mudar o mundo. Também não posso transformar-me a mim mesmo. Mas posso a cada dia abandonar-me mais neste caminho que é o caminho de Cristo, um caminho profundamente contra-cultural, contra-intuitivo, contra a minha tendência para a corrupção. É o movimento descendente como lhe chamou Henri Nouwen.

“A base da nossa vida cristã é a experiência da aceitação ilimitada e irrestritiva de nós mesmos como filhos bem-amados, uma aceitação tão plena, tão total e tão abrangente, que nos liberta da necessidade compulsiva de sermos vistos, apreciados e admirados, e nos liberta para Cristo, que nos conduz pelo caminho do serviço.

Esta experiência da aceitação de Deus liberta-nos do nosso eu carente, criando assim, um novo espaço onde podemos prestar uma atenção desinteressada aos outros.

Só uma vida de contínua comunhão íntima com Deus pode revelar-nos a nossa verdadeira identidade; só uma vida assim pode libertar-nos para agirmos segundo a verdade, e não segundo a nossa necessidade de coisas espectaculares.”

O Esvaziamento de Cristo, Henri Nouwen

Sim, eu sou Sócrates.
Eu também sou Nouwen.
O Sócrates que há em mim quer alimentar o seu ego até chegar ao topo do mundo.
O Nouwen que há em mim sabe que o caminho se faz a descer.

 

*Tomo emprestado para título deste texto uma expressão genial do Joel Oliveira. Assim se prova que um portuense também é capaz de produzir boas coisas!…

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