O salmista Davi e o Sermão do Monte

by davidraimundo

O salmo 139 é belíssimo na sua poesia, nos seus crescendos, na forma pujante como a oração de Davi nos desarma e nos confronta com a realidade de que Deus tudo sabe, tudo conhece a nosso respeito. O seu olhar atravessa-nos, derruba as muralhas que construímos nos nossos corações na tentativa de ocultar coisas que não queremos trazer à luz. Esquecemo-nos que para Deus a escuridão é como a luz, mas o salmista lembra-nos essa realidade. Não há nada que consigamos ocultar de Deus. Nada escapa ao escrutínio e ao conhecimento daquele que tudo vê e tudo sabe. Ainda ninguém sabia da nossa existência e já ele nos conhecia intimamente, mesmo os nossos ossos e os nossos órgãos ainda não estando plenamente formados.

Trata-se de uma poesia que nos conduz a um entendimento da realidade como ela é: Deus não está ausente, Deus está aqui, está em todo o lado, e o seu conhecimento alcança todos os lugares recônditos do mundo, todos os lugares recônditos das nossas almas. É um poema que pode criar em nós segurança ou desconforto, dependendo da forma como nos relacionamos com Deus: um pai amoroso que sabe tudo a respeito do filho dá segurança, mas a imagem de um juíz severo que sabe todas as coisas a nosso respeito provoca desconforto e tensão.

Esta é a parte inicial do Salmo, na qual encontramos o seu tema principal, o grosso do seu contéudo. Mas o salmo 139 tem uma espécie de parte B, uma estrofe final que me faz engasgar quando leio o salmo do princípio ao fim. De repente, sem que haja uma ligação clara com o que tinha cantado até aí, Davi muda de tom e a sua voz parece tornar-se mais agressiva:

Ó Deus, tira a vida aos que fazem o mal, afasta de mim os assassinos.
Eles falam maldosamente contra ti;
Os teus inimigos dizem mal de ti.
Ó Senhor, como eu odeio aqueles que te odeiam!
Como eu desprezo os que se voltam contra ti!
Odeio-os com toda a minha alma!
Considero-os meus inimigos!

Salmo 139:19-22

Porquê o engasgo? Porque os sentimentos que Davi expressa nestas linhas não fazem lembrar Jesus. A atitude de Davi é contrária à atitude de Jesus. O que é a mesma coisa do que dizer que a atitude de Davi é contrária à atitude de Deus. Olhemos para Jesus, escutemos mais uma vez o sermão do monte, ouçamo-lo a interceder na cruz por aqueles que o estavam a assassinar, tomemos como absolutas as suas palavras e as suas atitudes radicais:

Ouviram o que foi dito: Amarás o teu próximo e desprezarás o teu inimigo. Mas eu digo-vos: Tenham amor aos vossos inimigos e peçam a Deus por aqueles que vos perseguem. É deste modo que se tornarão filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz brilhar o Sol tanto sobre os bons como sobre os maus, e faz cair a chuva tanto para os justos como para os injustos.

Mateus 5:43-45

Digo a todos os que me estão a ouvir: amem os vossos inimigos e façam bem a quem vos odeia. Abençoem quem vos amaldiçoa e orem por aqueles que vos tratam mal.

Lucas 6:27-28

Chegaram ao lugar chamado Caveira e ali o pregaram numa cruz, bem como aos dois criminosos: um à sua direita e o outro à sua esquerda. Jesus porém dizia: “Pai, perdoa-lhes, que não sabem o que fazem!”

Lucas 23:33-34

Agora imaginemos o salmista: tendo acabado de escrever o salmo 139, pousa a esferográfica, apanha o casaco que descansava pousado numa cadeira, e sai de casa para relaxar um pouco ao ar livre. Caminha tranquilamente, sem pressa, mãos nos bolsos, um ar descontraído em ligeiro assobio, como que a compor a melodia para o salmo. Ao longe avista uma multidão, uma massa de gente que caminha decidida na direção da montanha. Curioso, o salmista dirige-se também para lá. Acaba por dar por si no meio de uma audiência, que, atenta, escuta o sermão de um homem. É a audiência do sermão do monte. O que sente Davi ao ouvir aquela mensagem, ao ouvir aquele homem que falava de amar e de perdoar com tanta autoridade e graça? Talvez sinta necessidade de reescrever o salmo. Talvez perceba que aqueles versos não eram consistentes com o Deus encarnado em Jesus Cristo. Podemos aumentar ainda mais a intensidade deste exercício de imaginação: imaginemos o salmista presente na multidão que testemunha a crucificação. Imaginemo-lo a escutar a intercessão de Jesus em favor dos seus assassinos. Talvez Davi perceba agora que o seu zelo, ainda que bem intencionado, tinha sido mal gerido, mal direcionado. Talvez entenda que as inclinações do seu coração não eram puras, nem sequer nos momentos de inspiração em que compunha hinos dos mais profundos e significativos que a humanidade conheceu. Imagino-o a dirigir-se àquele Mestre e, constrangido, a clamar usando os versos que compôs noutra ocasião: “cria em mim, ó Deus, um coração puro…” (Salmo 51:12)

E nós, hoje, o que fazemos com aqueles versículos desconfortáveis do Salmo 139? Qual o significado e as implicações deles? Em que medida é que estes versículos podem ser considerados palavra de Deus? Em que medida é que estes versículos transmitem uma verdade absoluta?

Creio que estes versículos não estão presentes na Bíblia para nos transmitirem diretamente uma verdade acerca de Deus, mas sim uma verdade acerca de nós próprios. O sentimento de Davi é o sentimento que se apodera dos nossos corações quando desejamos que aqueles que consideramos nossos inimigos sejam castigados. É a sede de vingança, reflexo do ciclo infernal que mantém vivas as contendas dos homens: responder ao mal com o mal. Davi somos nós. Neste sentido, estes versículos não são palavras diretas de Deus, estes versículos são palavras nossas, sentimentos nossos. (Penso, portanto, que até podemos afirmar que a Bíblia é a palavra de Deus, mas o sentido dessa expressão, ‘palavra de Deus’, talvez seja mais subtil e delicado do que pensamos.) Através deles identificamo-nos com Davi. É bom que eles estejam registados na Bíblia e é bom o engasgo que eles provocam: no fundo, é o mesmo engasgo que sentimos quando olhamos para o espelho e ele mostra a nossa sujidade.

Hoje podemos fazer algo que Davi não podia fazer: podemos continuar a folhear a Bíblia, percorrer as suas páginas até chegarmos aos evangelhos. Neles encontramos Jesus Cristo e ele ensina-nos outra maneira de lidar com os nossos inimigos, outra maneira de gerir as nossas emoções, firmando-as em convicções perfeitas e absolutas. Ele ensina-nos o caminho divino! Davi não conheceu Jesus. A revelação de Deus na qual Davi baseava a sua fé assentava na Lei de Moisés que, conforme explica o autor da carta aos Hebreus, era uma sombra de quem Deus é realmente. Nós temos a vantagem e a responsabilidade de já conhecermos Jesus e de podermos, assim, caminhar com Deus com mais conhecimento, com os nossos passos mais firmes na Verdade que Jesus revela.

Davi termina o seu salmo com um pedido sincero a Deus:

“Examina-me, ó Deus, e conhece o meu coração;
põe-me à prova e conhece os meus pensamentos.
Vê se eu sigo pelo caminho do mal e guia-me pelo caminho eterno.”

Salmo 139:23-24

Ah se Davi pudesse ouvir a mensagem do Mestre no mais magnífico sermão de que há registo! Se ele pudesse compreender que Deus sempre quis que os homens se relacionassem em graça e em amor! Se ele pudesse entender, naquele tempo e naquela cultura, que o perdão é a essência de Deus e a vingança é a essência dos homens alienados de Deus… Davi teria percebido a contradição interna do seu salmo. Teria percebido que a sua genuína disponibilidade para ser examinado por Deus iria colocar em xeque a manifestação de ódio que a antecedia. Teria percebido que o acto mais magnífico da sua vida não foi a pedra que acertou em cheio na cabeça do gigante, mas aquela ocasião em que, sendo ele fugitivo e líder de um bando de marginais, poupou a vida do rei Saul que o perseguia para o matar. Talvez Davi não tivesse condições para perceber isso, naquele tempo, naquela cultura, naquele contexto…

Mas nós hoje temos.

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