Pontos e contos de um cristão pós-moderno

Month: Dezembro, 2014

Resposta

Ouço de novo o teu eco em mim:
a tua voz desconcertante,
bálsamo de inquietação,
ternura que sonda coração,
paradoxo penetrante.

Falas-me do imponderável mistério
e convidas-me à Grande Dança:
majestosa valsa da esperança,
orquestrada em refrigério.

Ouço de novo o teu eco sem fim:
a tua voz a convidar: vem a mim!
Vou. Confio sim.

Alegoria da Compaixão*

*alegoria que não é assim tão alegórica.

Na Terra era a desgraça total: uma humanidade fratricida, fragmentada, desolada. O império do caos e da morte. O Homem a afogar-se a si mesmo no oceano da auto-destruição.

No Céu era a preocupação: aqueles que o habitavam olhavam consternados para a Terra sem saber o que fazer para travar o fim da humanidade. É verdade que já há muitos milénios tentavam pôr um travão nessa bola de neve: imprimiam cartazes com slogans sonantes, alugavam aqueles aviões que passam nas praias com publicidade, pagavam outdoors nas auto-estradas e nas entradas das principais cidades para espicaçar os homens com a necessidade de fazer marcha-atrás. Mas os homens, surdos e cegos, não captavam o pleno sentido dessas mensagens.

Então os que habitavam o Céu reuniram-se para debater a situação da Terra e concluíram que só havia uma coisa a fazer: algum deles teria de ir até à Terra para dar a conhecer aos homens a distância que existe entre quem os homens são e quem os homens poderiam ser. Os habitantes do Céu perceberam que os homens jamais conseguiriam entender as múltiplas mensagens que lhes tinham sido enviadas. Era necessária uma medida mais radical: a mensagem tinha de encarnar e comunicar com os homens em palavras e gestos que fizessem parte dos seus dicionários.

Naquela reunião marcaram presença todos os habitantes importantes do Céu, as essências de tudo quanto é bom, digno e nobre. Falo daquelas gentes por quem o nosso Espírito anela, a Força, Sabedoria, a Reconciliação, a Justiça, a Esperança, o Poder, a Alegria, a Misericórdia…

A Força ofereceu-se: eu vou e uso a minha persuasão para forçar os homens a mudar de caminho. Mas o Amor opôs-se: querida Força, por muito amar a humanidade ofereci-lhe o Livre-Arbítrio e não posso revogar essa oferta.

A Beleza também foi voluntária: eu vou e uso o meu esplendor para deslumbrar os homens e conduzi-los a um novo caminho. Mas a Sabedoria lembrou: querida Beleza, não há garantia de que os homens se arrependam por teu intermédio, repara que eles já desprezam o tanto de belo que a Terra e os Astros exibem…

Então foi a Justiça a oferecer-se: eu vou e uso as minhas palavras penetrantes para apurar nas consciências humanas a realidade do juízo e talvez pelo medo os homens cheguem ao arrependimento. Mas a Misericórdia opôs-se: lembra-te, querida Justiça, que nós desejamos que os homens nos ouçam e nos sigam por sincera devoção e convicção e não por medo; desejamos que os homens nos amem, e o verdadeiro amor não tem medo, não é verdade, Amor?

O Amor confirmou que não tinha medo.

Houve um impasse na reunião. Alguns minutos de silêncio e reflexão.

Então ouviu-se uma voz determinada: eu vou.

Era a Compaixão quem falava. Desta vez ninguém se opôs: as gentes do Céu perceberam de forma unanime que a Compaixão, frágil e simples na sua aparência, seria a melhor forma de confrontar as consciências dos homens.

Então a Compaixão veio à Terra, fez-se o Natal. Os anjos anunciaram a sua chegada e aqueles que há tanto tempo ansiavam pela intervenção do Céu alegraram-se com ela.

A Compaixão andou entre nós, ouvimos a sua voz e vimos o seu rosto. Vimo-la tocar e transformar as impurezas dos homens, as lepras físicas e espirituais, as cegueiras e as paralisias que impediam os homens de caminharem no caminho certo. Vimo-la rogar aos homens que escolhessem outro caminho. Vimo-la chorar pela humanidade.

Os homens, confrontados pela forma de agir da Compaixão, não souberam lidar com ela. Não deixaram que ela tornasse os seus corações mais macios. Não abdicaram do seu orgulho e da presunção de auto-suficiência. Quiseram aniquilar a Compaixão para que as palavras e os gestos dela não mais ameaçassem o caminho que escolheram.

A Compaixão foi executada sem misericórdia. Vimo-la sangrar pela humanidade. Vimo-la morrer pela humanidade. Assistimos à tortura e ao assassinato mais vil da nossa história sem vislumbrarmos na Compaixão qualquer centelha de Força: a sua aparente fragilidade estava ali totalmente exposta em forma de cruz. Sem vislumbrarmos nela qualquer centelha de Beleza: nenhuma beleza víamos nela, para que a desejássemos. Sem vislumbrarmos nela qualquer centelha de Justiça: naquele monte prestava-se tributo à injustiça mais perversa de que os homens são capazes. Sem vislumbrarmos nela qualquer centelha de Esperança: o que vemos é o homicídio da solução que o Céu providenciou para a humanidade. Sem vislumbrarmos nela qualquer centelha de Sabedoria: encarnar apenas para se deixar matar pelas mãos dos homens, que loucura é esta?!

Mas quão ingénua e limitada é a nossa lógica! Não percebemos que naquele dia fatídico a Compaixão não estava só. Ainda que nós não fossemos capazes de as ver, também lá estavam a Força, a Beleza, a Sabedoria, a Justiça, a Reconciliação e a Esperança. Elas que nunca abandonaram a Compaixão, antes a acompanharam secretamente durante todo o seu percurso terreno. Elas que, na verdade, formam com a Compaixão uma unidade perfeita e, por isso, também foram cravadas pelos espinhos e trespassadas pelos pregos.

Ao terceiro dia ela, essa unidade perfeita de todas as essências do que é bom, digno e nobre, ressuscitou e saiu do sepulcro no qual os homens a tinham selado e recebeu um novo nome: Graça. E não tenhamos dúvidas de que, apesar de todas as nossas considerações anteriores, a Graça é forte, é bela, é sábia, é justa, é reconciliadora e traz esperança abundante. No maior paradoxo da História – a morte e ressurreição da encarnação da unidade perfeita de todas as essências do que é bom, digno e nobre – há redenção para a humanidade.

A voz da Graça sopra agora nas praças, nas ruas, nas cidades e nos campos, e todos a podem ouvir. A Graça está connosco e o refrão da canção que ela nos canta “eis que faço novas todas as coisas” é o travão que impede a derrocada da humanidade, é o alívio de todos os cansados e oprimidos, é a salvação de que eu preciso para não me afogar no oceano da auto-destruição, é o caminho onde palmilho a distância entre quem eu sou e quem eu posso ser.

Estamos outra vez na época do ano em que se festeja o natal. E todas as canções de natal que escutamos e que cantarolamos são ecos da canção mais profunda e mais bela que a Graça nos canta. Que nesta quadra possamos escutar e cantarolar também essa outra canção. Assim o natal será para nós Natal – a Graça connosco, Deus connosco.

“Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, E chamá-lo-ão pelo nome de EMANUEL, Que traduzido é: Deus connosco.”  Mateus 1:23

‘Somos-todos-sócrates’*

Sobre o caso Sócrates, só sei que nada sei. É difícil discernir a verdade no meio da informação e contra-informação com a qual somos bombardeados. O que desejo é que ele seja condenado se for culpado e que seja ilibado se for inocente. Que os jornalistas tenham a sensatez de acompanhar o processo com sobriedade e rigor, abandonando o folclore. Que os juízes tenham a coragem de não ceder a pressões. Que os advogados façam o seu trabalho sem recurso a subterfúgios, com zelo pela justiça e pela verdade. Que os portugueses façam uso desta situação para uma reflexão sobre a sociedade que estamos a construir e o quanto ela se afasta de uma sociedade justa e transparente.

Em suma: desejo a utopia.

As atitudes de jornalistas, juízes, advogados e políticos escapam por completo ao meu controle ou influência. Não posso, não podemos, interferir no processo para o tornar mais transparente e sóbrio. Não tenho, não temos, esse poder.

Assim, deste caso sobra apenas a reflexão pessoal. Parece haver uma total ausência de cultura e de consciência de serviço na classe política portuguesa (e não só). Serviço é um termo belo, crístico, mas também ele corrompido. O ideal democrático aproxima a sociedade da Justiça: a governação é feita como acto de serviço ao povo. Mas o ideal democrático está corrompido e essa corrupção origina uma sociedade de injustiça: a governação passa a servir interesses alheios ao povo.

Mas lembremos que somos todos Sócrates. Ou seja, a corrupção não está confinada ao mundo da alta política. Está disseminada pela nossa sociedade, pelas nossas comunidades, pelos nossos corações. Há em mim a mesma tendência para a corrupção, para o atalho, para o umbigo.

Por outro lado, estou no caminho de Cristo. E, no caminho de Cristo vivo esta ambiguidade de fazer aquilo que não quero e querer ser quem ainda não sou. Os tentáculos da corrupção, do velho homem em mim, ainda tentam amarrar-me. Mas há também o Espírito a trabalhar em mim, a reabilitar-me, a restaurar-me. Esta consciência dá-me força para expressar um desejo que, por mais distante que seja, é menos utópico que os anteriores: que haja em mim o mesmo sentimento que havia em Cristo. É aqui que me traz o caso Sócrates: ao hino que Paulo regista na carta aos filipenses.

“Portanto, se algum encorajamento, alguma consolação de amor, alguma comunhão do Espírito, alguns entranhados afectos e sentimentos de compaixão resultam da nossa união com Cristo, então peço-vos que me dêem a grande satisfação de viverem em harmonia. Estejam unidos pelo mesmo amor numa só alma e nos mesmos sentimentos. Não façam nada por ambição pessoal nem por orgulho, mas com humildade, considerem os outros superiores a vós próprios. Que ninguém procure apenas o seu interesse, mas também o dos outros. Tenham os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus: 

Ele, que por natureza era Deus, não quis agarrar-se a esse direito de ser igual a Deus. Pelo contrário, privou-se do que era seu e tomou a condição de escravo, tornando-se igual aos homens. E, vivendo como home, humilhou-se a si mesmo, obedecendo até à morte, e morte na cruz.”

Filipenses 2:1-8
Tradução BPT

Eu não posso mudar o mundo. Também não posso transformar-me a mim mesmo. Mas posso a cada dia abandonar-me mais neste caminho que é o caminho de Cristo, um caminho profundamente contra-cultural, contra-intuitivo, contra a minha tendência para a corrupção. É o movimento descendente como lhe chamou Henri Nouwen.

“A base da nossa vida cristã é a experiência da aceitação ilimitada e irrestritiva de nós mesmos como filhos bem-amados, uma aceitação tão plena, tão total e tão abrangente, que nos liberta da necessidade compulsiva de sermos vistos, apreciados e admirados, e nos liberta para Cristo, que nos conduz pelo caminho do serviço.

Esta experiência da aceitação de Deus liberta-nos do nosso eu carente, criando assim, um novo espaço onde podemos prestar uma atenção desinteressada aos outros.

Só uma vida de contínua comunhão íntima com Deus pode revelar-nos a nossa verdadeira identidade; só uma vida assim pode libertar-nos para agirmos segundo a verdade, e não segundo a nossa necessidade de coisas espectaculares.”

O Esvaziamento de Cristo, Henri Nouwen

Sim, eu sou Sócrates.
Eu também sou Nouwen.
O Sócrates que há em mim quer alimentar o seu ego até chegar ao topo do mundo.
O Nouwen que há em mim sabe que o caminho se faz a descer.

 

*Tomo emprestado para título deste texto uma expressão genial do Joel Oliveira. Assim se prova que um portuense também é capaz de produzir boas coisas!…

O salmista Davi e o Sermão do Monte

O salmo 139 é belíssimo na sua poesia, nos seus crescendos, na forma pujante como a oração de Davi nos desarma e nos confronta com a realidade de que Deus tudo sabe, tudo conhece a nosso respeito. O seu olhar atravessa-nos, derruba as muralhas que construímos nos nossos corações na tentativa de ocultar coisas que não queremos trazer à luz. Esquecemo-nos que para Deus a escuridão é como a luz, mas o salmista lembra-nos essa realidade. Não há nada que consigamos ocultar de Deus. Nada escapa ao escrutínio e ao conhecimento daquele que tudo vê e tudo sabe. Ainda ninguém sabia da nossa existência e já ele nos conhecia intimamente, mesmo os nossos ossos e os nossos órgãos ainda não estando plenamente formados.

Trata-se de uma poesia que nos conduz a um entendimento da realidade como ela é: Deus não está ausente, Deus está aqui, está em todo o lado, e o seu conhecimento alcança todos os lugares recônditos do mundo, todos os lugares recônditos das nossas almas. É um poema que pode criar em nós segurança ou desconforto, dependendo da forma como nos relacionamos com Deus: um pai amoroso que sabe tudo a respeito do filho dá segurança, mas a imagem de um juíz severo que sabe todas as coisas a nosso respeito provoca desconforto e tensão.

Esta é a parte inicial do Salmo, na qual encontramos o seu tema principal, o grosso do seu contéudo. Mas o salmo 139 tem uma espécie de parte B, uma estrofe final que me faz engasgar quando leio o salmo do princípio ao fim. De repente, sem que haja uma ligação clara com o que tinha cantado até aí, Davi muda de tom e a sua voz parece tornar-se mais agressiva:

Ó Deus, tira a vida aos que fazem o mal, afasta de mim os assassinos.
Eles falam maldosamente contra ti;
Os teus inimigos dizem mal de ti.
Ó Senhor, como eu odeio aqueles que te odeiam!
Como eu desprezo os que se voltam contra ti!
Odeio-os com toda a minha alma!
Considero-os meus inimigos!

Salmo 139:19-22

Porquê o engasgo? Porque os sentimentos que Davi expressa nestas linhas não fazem lembrar Jesus. A atitude de Davi é contrária à atitude de Jesus. O que é a mesma coisa do que dizer que a atitude de Davi é contrária à atitude de Deus. Olhemos para Jesus, escutemos mais uma vez o sermão do monte, ouçamo-lo a interceder na cruz por aqueles que o estavam a assassinar, tomemos como absolutas as suas palavras e as suas atitudes radicais:

Ouviram o que foi dito: Amarás o teu próximo e desprezarás o teu inimigo. Mas eu digo-vos: Tenham amor aos vossos inimigos e peçam a Deus por aqueles que vos perseguem. É deste modo que se tornarão filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz brilhar o Sol tanto sobre os bons como sobre os maus, e faz cair a chuva tanto para os justos como para os injustos.

Mateus 5:43-45

Digo a todos os que me estão a ouvir: amem os vossos inimigos e façam bem a quem vos odeia. Abençoem quem vos amaldiçoa e orem por aqueles que vos tratam mal.

Lucas 6:27-28

Chegaram ao lugar chamado Caveira e ali o pregaram numa cruz, bem como aos dois criminosos: um à sua direita e o outro à sua esquerda. Jesus porém dizia: “Pai, perdoa-lhes, que não sabem o que fazem!”

Lucas 23:33-34

Agora imaginemos o salmista: tendo acabado de escrever o salmo 139, pousa a esferográfica, apanha o casaco que descansava pousado numa cadeira, e sai de casa para relaxar um pouco ao ar livre. Caminha tranquilamente, sem pressa, mãos nos bolsos, um ar descontraído em ligeiro assobio, como que a compor a melodia para o salmo. Ao longe avista uma multidão, uma massa de gente que caminha decidida na direção da montanha. Curioso, o salmista dirige-se também para lá. Acaba por dar por si no meio de uma audiência, que, atenta, escuta o sermão de um homem. É a audiência do sermão do monte. O que sente Davi ao ouvir aquela mensagem, ao ouvir aquele homem que falava de amar e de perdoar com tanta autoridade e graça? Talvez sinta necessidade de reescrever o salmo. Talvez perceba que aqueles versos não eram consistentes com o Deus encarnado em Jesus Cristo. Podemos aumentar ainda mais a intensidade deste exercício de imaginação: imaginemos o salmista presente na multidão que testemunha a crucificação. Imaginemo-lo a escutar a intercessão de Jesus em favor dos seus assassinos. Talvez Davi perceba agora que o seu zelo, ainda que bem intencionado, tinha sido mal gerido, mal direcionado. Talvez entenda que as inclinações do seu coração não eram puras, nem sequer nos momentos de inspiração em que compunha hinos dos mais profundos e significativos que a humanidade conheceu. Imagino-o a dirigir-se àquele Mestre e, constrangido, a clamar usando os versos que compôs noutra ocasião: “cria em mim, ó Deus, um coração puro…” (Salmo 51:12)

E nós, hoje, o que fazemos com aqueles versículos desconfortáveis do Salmo 139? Qual o significado e as implicações deles? Em que medida é que estes versículos podem ser considerados palavra de Deus? Em que medida é que estes versículos transmitem uma verdade absoluta?

Creio que estes versículos não estão presentes na Bíblia para nos transmitirem diretamente uma verdade acerca de Deus, mas sim uma verdade acerca de nós próprios. O sentimento de Davi é o sentimento que se apodera dos nossos corações quando desejamos que aqueles que consideramos nossos inimigos sejam castigados. É a sede de vingança, reflexo do ciclo infernal que mantém vivas as contendas dos homens: responder ao mal com o mal. Davi somos nós. Neste sentido, estes versículos não são palavras diretas de Deus, estes versículos são palavras nossas, sentimentos nossos. (Penso, portanto, que até podemos afirmar que a Bíblia é a palavra de Deus, mas o sentido dessa expressão, ‘palavra de Deus’, talvez seja mais subtil e delicado do que pensamos.) Através deles identificamo-nos com Davi. É bom que eles estejam registados na Bíblia e é bom o engasgo que eles provocam: no fundo, é o mesmo engasgo que sentimos quando olhamos para o espelho e ele mostra a nossa sujidade.

Hoje podemos fazer algo que Davi não podia fazer: podemos continuar a folhear a Bíblia, percorrer as suas páginas até chegarmos aos evangelhos. Neles encontramos Jesus Cristo e ele ensina-nos outra maneira de lidar com os nossos inimigos, outra maneira de gerir as nossas emoções, firmando-as em convicções perfeitas e absolutas. Ele ensina-nos o caminho divino! Davi não conheceu Jesus. A revelação de Deus na qual Davi baseava a sua fé assentava na Lei de Moisés que, conforme explica o autor da carta aos Hebreus, era uma sombra de quem Deus é realmente. Nós temos a vantagem e a responsabilidade de já conhecermos Jesus e de podermos, assim, caminhar com Deus com mais conhecimento, com os nossos passos mais firmes na Verdade que Jesus revela.

Davi termina o seu salmo com um pedido sincero a Deus:

“Examina-me, ó Deus, e conhece o meu coração;
põe-me à prova e conhece os meus pensamentos.
Vê se eu sigo pelo caminho do mal e guia-me pelo caminho eterno.”

Salmo 139:23-24

Ah se Davi pudesse ouvir a mensagem do Mestre no mais magnífico sermão de que há registo! Se ele pudesse compreender que Deus sempre quis que os homens se relacionassem em graça e em amor! Se ele pudesse entender, naquele tempo e naquela cultura, que o perdão é a essência de Deus e a vingança é a essência dos homens alienados de Deus… Davi teria percebido a contradição interna do seu salmo. Teria percebido que a sua genuína disponibilidade para ser examinado por Deus iria colocar em xeque a manifestação de ódio que a antecedia. Teria percebido que o acto mais magnífico da sua vida não foi a pedra que acertou em cheio na cabeça do gigante, mas aquela ocasião em que, sendo ele fugitivo e líder de um bando de marginais, poupou a vida do rei Saul que o perseguia para o matar. Talvez Davi não tivesse condições para perceber isso, naquele tempo, naquela cultura, naquele contexto…

Mas nós hoje temos.