Há Êxodo a acontecer em mim

by davidraimundo

O Êxodo é a história de como Deus resgata um povo, o povo hebreu, da escravidão e do sofrimento a que esse povo estava sujeito no Egipto. Esta história é o protótipo de uma história maior, o prenúncio de uma grandiosa epopeia divina: o Novo Testamento é a história de como Deus resgata um povo, toda a humanidade, da escravidão e do sofrimento a que estava sujeita num outro Egipto, um Egipto que se mede menos por fronteiras e mais pela alienação da criação em relação ao Criador. Este é o Egipto gerado pelo pecado: o pecado sistémico que corrói todas as estruturas sociais e políticas e o pecado pessoal que corrói os nossos corações, pois a alienação tem uma dimensão global (a humanidade é como uma família inteira alienada do Pai) e uma dimensão pessoal.

Não admira que a Teologia da Libertação, influenciada pelo espírito revolucionário marxista muito presente na América Latina na segunda metade do século XX, tenha usado o Êxodo como chave hermenêutica para interpretar a mensagem bíblica. Oprimidos por ditaduras militares que mantinham o população na miséria, os teólogos da libertação esboçaram a sua teologia como uma reação ao autoritarismo político e militar, um clamor pela libertação social, pela igualdade e pela justiça. Penso que a Teologia da Libertação, nascida no seio do catolicismo, foi justamente criticada por Roma por desconsiderar por completo o pecado pessoal. Se eu falho em reconhecer a minha necessidade de redenção pessoal, vão falhar todas as minhas abordagens ao pecado sistémico. Vale recordar mais uma vez a frase do Chesterton que dá nome a este blogue: a resposta dele à pergunta “What is wrong with the world today?”. Convém dizer que nas tradições evangélicas somos mais tentados a desconsiderar por completo o pecado sistémico: o pecado quase ontológico que permeia os vários fenómenos da realidade, que lhes retira o tom sagrado, o significado, o propósito. A ênfase permanece exclusivamente na questão do pecado pessoal e isso pode contribuir para que as comunidades cristãs não se comprometam com a realidade social. Como ponto de equilíbrio entre estas duas tendências, ainda não me foi apresentada melhor proposta do que a Teologia da Missão Integral.

A Missão Integral é uma prima da Teologia da Libertação que, com o passar do tempo, se foi tornando uma prima cada vez mais afastada. Na Missão Integral, a chave hermenêutica é o Reino de Deus: o espaço e o tempo onde o propósito divino é cumprido na plenitude. O convite para o Reino de Deus dá resposta às duas dimensões da alienação: global (comunitária) e pessoal. Porque Deus reina quer em cada coração (pessoal) quer nas comunidades que reconhecem Jesus Cristo como Senhor.

Ao reler o Êxodo encontro um relato da formação do protótipo do Reino de Deus. Importa perceber que aquele era um protótipo imperfeito e incompleto, porque o conhecimento que o povo tinha do Rei era, ainda, muito limitado. Lembremos que nunca ninguém viu o Rei, só o Filho – Jesus Cristo – o deu a conhecer. Porque o Rei esteve entre nós, viveu connosco, caminhou connosco, conversou connosco, hoje vivemos o Reino de Deus de forma mais profunda e tangível. É uma vivência ainda incompleta, bem explicada pelo já/ainda não: o Reino de Deus é uma realidade, mas o Reino de Deus ainda não é toda a realidade.

Outra forma de dizer isto é a seguinte: o Êxodo ainda está a decorrer. Há Êxodo a acontecer em mim. Em nós. É uma humanidade inteira a atravessar o mar vermelho. Nesta travessia, guiados pelo Mestre, ajudamo-nos também uns aos outros, levamos as cargas uns dos outros, inspiramo-nos nas histórias uns dos outros, sonhamos a terra prometida: o shalom. E tentamos apelar aos corações e às consciências daqueles que querem continuar na margem ocidental do mar vermelho, daqueles que ainda amam o velho Egipto opressor. Na outra margem há vida abundante!

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