Platão meteu o dedo na cosmovisão cristã

by davidraimundo

“A esperança cristã não está na imortalidade da alma, mas na ressurreição do corpo”. (Manuel Rainho)

Esta é uma frase pragmática que traz à luz a divergência entre duas abordagens que durante muitos séculos têm convivido no âmago da teologia cristã, num convívio demasiado pacífico – pernicioso até – e com implicações assinaláveis.

A primeira coloca a ênfase na imortalidade da alma: o corpo morre, faz-se pó e volta à terra, mas a alma não perece e vai para o “céu”. Sim, nós até podemos encontrar textos bíblicos que sustentam a crença de que a alma é preservada após a nossa morte física (embora essa doutrina nem sequer seja consensual; por exemplo, o John Stott, teólogo muito credenciado no meio evangélico, acreditava no aniquilacionismo). Mas independentemente da nossa crença em relação ao que acontece no pós-morte, temos de reconhecer que a alma do homem não pode ser imortal em si mesma. Tudo o que permanece, permanece porque é Deus que o permite e que o sustenta. Nesse contexto o único ser que tem em si mesmo o dom de estar acima da morte é o próprio Deus (como Jesus demonstrou). Falar da imortalidade da alma como se se tratasse de uma lei superior ao próprio Deus é abusivo e resulta muito mais da filosofia de Platão do que da Bíblia.

Foi Platão quem propôs que a alma é eterna e que apenas está unida ao corpo em períodos temporários por mero acidente (ou maldição). Segundo Platão, o que homem deve almejar é que a alma seja liberta do corpo para poder retornar ao mundo imaterial, que ele chama mundo das ideias e que diz ser o mundo perfeito. Para Platão, o mundo material é apenas uma projeção imperfeita desse mundo das ideias. (Deve notar-se que a alma para Platão é sinónimo de razão ou intelecto, não correspondendo àquela noção de lugar no qual confluem todas as características não físicas do ser humano, a sua consciência, angústias, conflitos internos, anseios, alegrias, etc.)

Santo Agostinho, séculos mais tarde, chegou à fé cristã por via da filosofia neoplatónica e incorporou a dicotomia alma/corpo na teologia cristã. Acaba por ser de Santo Agostinho que nós hoje herdamos a perspectiva de que o corpo é mau e a alma é boa, o corpo é corruptível e há-de perecer, mas a alma salva-se por ser superior ao corpo. Fica assim estabelecida uma cosmovisão segundo a qual o mundo imaterial é superior, mais benigno e mais perfeito do que o mundo material.

A segunda cosmovisão, que a meu ver é mais sadia e holística, compreende a matéria como algo que é potencialmente sagrado. É uma perspectiva muito mais condizente com a perspectiva judaica: a alma e o corpo formam um ser uno ao qual chamamos ser humano, não sendo possível separa-los. Como diz o René Kivitz: “corpo sem alma é defunto; alma sem corpo é fantasma”. Sob este ponto de vista podemos reformular a afirmação de Descartes: apalpo, logo existo! Ou seja, sem matéria não há ser humano. É verdade que o apóstolo Paulo nos complica um pouco o argumento porque também ele parece fazer uma distinção entre corpo e espírito. Trata-se, mais precisamente, de uma distinção entre o nosso velho homem (alienado de Deus) e o homem regenerado (à imagem e semelhança de Cristo). Isolando algumas frases de Paulo, poderíamos ser levados a pensar que ele segue um pouco a linha de Platão. Mas é também Paulo que fala de forma inequívoca na transformação e ressurreição do nosso corpo físico na primeira carta aos Coríntios.

Já no tempo de Paulo e dos apóstolos eram disseminadas doutrinas contraditórias acerca de Cristo: avançava-se com a possibilidade de que Cristo não tivesse ressuscitado corporeamente. Aparentemente havia na igreja de Corinto muito cepticismo relativamente à ressurreição de Cristo e à ressurreição dos mortos em geral. No capítulo 15 Paulo argumenta de forma brilhante que o fundamento da fé cristã é a ressurreição de Cristo. Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé. Mas se Ele ressuscitou, então Ele foi o primeiro de muitos e, tal como Ele ressuscitou, nós ressuscitaremos também. Esta é a base da esperança cristã: a transformação e restauração de todas as coisas materiais e espirituais.

Talvez tenhas lido o texto até aqui e a tua reação seja esta: “Ok David, mas que revelância tem essa conversa? São questões acerca da vida pós-morte, ninguém sabe ao certo como será, não interessa reflectir muito sobre o assunto porque acaba por ser uma perda de tempo sem sentido prático.”

Eu até poderia tender a concordar com essa observação porque não tenho qualquer interesse em alongar-me acerca de assuntos desligados da realidade quotidiana, do chão da vida. Só que as consequências de termos incorporado a filosofia platónica na teologia cristã são vastas e são nefastas. Encontramos essas consequências em diversas áreas:

Na sexualidade: o sexo é intrinsecamente algo sujo e feio (um mal que a nossa fisiologia nos obriga a aceitar) ou é potencialmente algo sagrado e belo?

Na antropologia cristã: o homem é naturalmente bom ou naturalmente mau? Ou será que o homem é profundamente ambíguo? Pode o homem fazer algo genuinamente bom ou está condenado apenas a fazer a agir em egoísmo mesmo quando as suas acções aparentam abnegação?

Na missiologia: será que a missão da igreja é anunciar o evangelho para ‘salvar almas’? Ou será que podemos e devemos abraçar um conceito de missão mais amplo que diga também respeito ao mundo material? Aliás, o que é salvação? Será que o próprio conceito de salvação não está deturpado pela filosofia de Platão?

Na escatologia: no fim dos tempos a terra vai explodir, reduz-se a nada, e a criação é aniquilada? Ou o plano de Deus consiste em restaurar todas as coisas voltando a dar-lhes o tom sagrado que elas foram perdendo?

Na ecologia: (relacionado com o ponto anterior) o planeta é para cuidar, preservar e amar ou não tem importância porque é mundo material e há-de ser destruído?

No quotidiano: será que as actividades de carácter físico são imperfeitas e sem valor? Comer, lavar a loiça, praticar desporto, trabalhar, são actividades menores, profanas, sem significado?

Suspeito que encontramos consequências do dedo de Platão em muitas outras áreas. Serve este texto para desafiar (em primeiro lugar a mim próprio) a detectar em que aspectos me deixo influenciar pela cosmovisão platónica e a tratar deles à luz do Evangelho de Cristo. O Evangelho de Cristo não é uma mensagem de dualismos corpo/alma e mundo material/mundo espiritual; é a mensagem de redenção que tem como propósito tornar todas as coisas sagradas no seu todo. Assim seja!

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