Uma pergunta que tem de ser verbalizada

by davidraimundo

Segundo o livro do Génesis, a história do povo hebreu e da nação da Israel nasce com a promessa que Deus faz de forma vincada a Abraão:

“E disse o Senhor a Abrão, depois que Ló se apartou dele: Levanta agora os teus olhos, e olha desde o lugar onde estás, para o lado do norte, e do sul, e do oriente, e do ocidente;
Porque toda esta terra que vês, te hei de dar a ti, e à tua descendência, para sempre.
E farei a tua descendência como o pó da terra; de maneira que se alguém puder contar o pó da terra, também a tua descendência será contada.
Levanta-te, percorre essa terra, no seu comprimento e na sua largura; porque a ti a darei.”

(Génesis 13:14-17)

Esta promessa diz respeito à terra: segundo a promessa, a descendência de Abraão seria dona de um território vasto tornando-se um povo distinto e importante. É a esperança da terra prometida que motiva os percursos dos descendentes de Abraão e que molda a sua identidade e cosmovisão. Depois de saírem do Egipto sob a liderança de Moisés, entram na tal terra prometida, a terra de Canaã, já liderados por Josué. As ordens de Deus, dizem, são claras: há que atacar os povos que ali vivem sem piedade, matar todos ao fio da espada, executar o juízo de Deus sobre aqueles povos pagãos.

É certo que estamos a falar de uma outra era. Muito antes de se ouvir falar em direitos humanos e muito antes da Convenção de Genebra. Suspeito que muitas das características do povo de Israel que hoje nos parecem bizarras ou aberrantes, podem ser suavizadas se relativizadas à luz das culturas vizinhas. Possivelmente algumas dessas características até representam avanços civilizacionais por comparação com os padrões daquele tempo.

Mas sejamos honestos: a violência de Israel retratada no livro de Josué seria hoje chamada de genocídio. A palavra é forte, é desagradável, mas tem de ser pronunciada. E com ela vem a questão: terá Deus ordenado o genocídio dos cananeus?

Muitos cristãos acreditam que sim. Acreditam, de certa forma, que o julgamento de Deus sobre indivíduos ou povos tem sido, por vezes, executado ao longo da História da humanidade. Muitas histórias bíblicas podem assim ser levadas à letra, compreendidas como expressão desse julgamento: o dilúvio, Babel, Sodoma e Gomorra e a conquista de Canaã caberiam dentro desta perspectiva.

Uma das consequências desta crença é que fornece base (supostamente) bíblica para entender as catástrofes naturais como julgamento de Deus. É com argumentos destes que surgem Pats Robertsons a sugerir que o terramoto no Haiti foi castigo de Deus, prestando assim um claro desserviço ao Evangelho (que, lembremos, significa Boas Notícias).

Talvez esta consequência possa ser prevenida se acreditarmos, como muitos cristãos acreditam, que há uma divisão entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento: uma espécie de dispensacionalismo que pode explicar que a acção de Deus no Antigo Testamento era motivada por princípios diferentes daqueles que Ele aplica agora na Nova Aliança. Fala-se então em Tempo da Lei e Tempo da Graça.

Eu, pessoalmente, não consigo encontrar um ângulo a partir do qual possa aceitar o genocídio sem uma imensa dose de perturbação e até pavor. A ideia de que Deus ordenou o genocídio gera em mim desconforto intelectual e emocional e gera, sobretudo, uma inconsistência latente com a crença de que Deus é amor, é benigno e tem planos de redenção e de paz para a humanidade. Talvez o problema seja meu. Talvez me falte o entendimento e a sabedoria. Mas o que é certo é que o desconforto e a inconsistência estão lá e não os posso mascarar ou esconder. Mais, o dispensacionalismo só me parece agigantar ainda mais a inconsistência: se Deus muda a sua forma de interagir com o homem de forma tão drástica, como pode Ele ser a minha rocha inabalável, o alicerce firme no qual estabeleço a fé?

A inconsistência de que falo sobe de tom quando conhecemos Jesus. Recapitulemos: Deus promete a Abraão que a sua descendência herdará a terra de Canaã. Segundo os livros históricos, os descendentes de Abraão dão cumprimento a essa promessa através da invasão da terra e do extermínio dos seus habitantes.

Séculos mais tarde, chega Jesus. Lembremos o contexto em que Jesus Cristo levou a cabo a sua missão: os judeus tinham o seu território ocupado pelo Império Romano e esperavam que surgisse o Messias, um líder político ou militar que restaurasse a soberania e a glória da nação de Israel. Esta era a expectativa que fervilhava entre o povo judeu, tendo já havido outros homens que se auto-declararam messias antes de Jesus.

Como é que Jesus responde a esta expectativa? A resposta, dada no mais magnífico sermão de que há registo, choca a sua audiência:

“Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra.” (Mateus 5:5)

Com esta resposta, o verdadeiro Messias não estava apenas a colocar em causa as expectativas dos seus contemporâneos e a fechar a porta às suas tendências bélicas. Se acreditamos que Jesus é a perfeita revelação de Deus – é Deus -, são as suas palavras que carregam o peso da eternidade. O que Jesus diz não é apenas circunstancial, mas são palavras que transmitem princípios absolutos que brotam do carácter e do propósito do próprio Deus. Assim, estas palavras também colocam em causa as acções passadas de Israel. O princípio de apropriação da terra através do uso de força e de violência é condenado nas palavras de Jesus Cristo. São os mansos que hão-de herdar a terra. Num certo sentido, a promessa feita a Abraão continua válida, mas é-lhe dado um update: o caminho para a realização da promessa é o caminho de Jesus Cristo, a mansidão, a humildade, a entrega, o desapego, princípios que reconhecemos no próprio percurso de Jesus.

Como podemos conciliar a ordem de genocídio dada no Antigo Testamento com as palavras de Jesus proferidas no Sermão do Monte? Questões deste género já passeiam pelo meu pensamento há muito tempo. Lembro-me de uma vez as verbalizar: “Deus não terá sido injusto quando o pecado de um homem, Acã, levou a que fosse condenada e morta toda a sua família?” (Josué 7). A pessoa responsável por esse seminário reagiu com desagrado: “Deus nunca é injusto e faz o que quer, quando quer, como quer!”

Ora este tipo de resposta, que é como enterrar a cabeça na areia à moda da avestruz, não resolve nada! Sim, é verdade que quando nos debruçamos sobre a Bíblia encontramos muito mistério ao qual só podemos responder com temor e silêncio. Somos demasiado pequenos para compreender a imensidão da sabedoria e dos planos de Deus. Mas creio profundamente que Deus não fica melindrado com as nossas questões, ao contrário do dirigente daquele seminário. A Deus interessa que sejamos honestos e a honestidade deve levar-nos a reconhecer que a tensão é real, é latente, e tem de ser assumida: Jesus Cristo nem sempre se parece com o Deus apresentado na Bíblia hebraica.

Como se resolve esta tensão? Esta é a pergunta difícil, para a qual não tenho uma resposta fechada. Mas a minha inclinação vai no sentido de juntar a minha voz ao Brian Zahnd, quando ele sumariza assim a coisa:

“Deus é como Jesus
Deus sempre foi como Jesus
Nunca houve um momento em que Deus não fosse como Jesus
Nós nem sempre soubemos disto
Mas agora sabemos!”

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