Conjuga o verbo sagrar

by davidraimundo

“Glorify the Lord above
With your drink and making love
Glorify the Lord, my son,
With your whiskey and your gun.”

(da música Glorify, da banda Ivan and Alyosha)

Sagrar. Não é um verbo muito usado na nossa linguagem quotidiana. Talvez o seu uso mais comum seja no âmbito do desporto, como na bela frase: ‘o Benfica sagrou-se vencedor de todos os troféus nacionais na época transacta’. Mas podemos aplicar o verbo noutros contextos, mais que não seja porque está no Priberam e porque o Fernando Pessoa o emprega n’A Mensagem.

Ora serve o presente texto para argumentar que uma das formas de resumir a missão do discípulo de Cristo é esta: o discípulo de Cristo é o homem ou a mulher que conjuga o verbo sagrar de todas as formas possíveis, em todos os tempos verbais, em todas as circunstâncias e contextos da vida. Claro que aqui a conjugação de que falo é figurativa: não precisamos necessariamente de saber como é o pretérito-mais-que-perfeito do verbo sagrar na 2ª pessoa do plural; é na prática (na praxis) que somos convidados a sagrar.

Sim, procuramos tornar sagradas todas as coisas, submetendo-as ao propósito e à Graça de Deus, fazendo todas as coisas sob a firme convicção de que Jesus é Senhor e Rei. É esta fé que nos dá uma nova perspetiva e uma nova mentalidade para viver uma vida plena e abundante que não se deixa aprisionar pelo medo do profano. Para tal, é imperativo desmistificar o dualismo sagrado-profano, tantas vezes confundido com o dualismo religioso-secular.

Talvez possamos definir assim: sagrado é tudo aquilo que acontece, que fazemos ou que pensamos que está de acordo com o carácter e o propósito de Deus; profano é tudo aquilo que é neutro ou que é oposto ao sagrado: aquilo que não está de acordo com o carácter e o propósito de Deus.

Aquilo que reputamos de religioso pode ser sagrado ou profano: um ajuntamento de pessoas realizado em nome de Deus – os nossos cultos, missas, concertos ou retiros – pode constituir um ato profano. Em sentido contrário, uma atividade dita secular – trabalhar, pescar, jogar xadrez, brincar com os filhos – pode perfeitamente ser um ato sagrado. Esta distinção não é uma novidade, não é uma invenção de cristãos pouco ortodoxos do século XXI. É uma realidade demasiado antiga cujas implicações teimamos em não reconhecer. É a mesma distinção que encontramos vincada nas mensagens de profetas israelitas: “misericórdia quero, e não sacrifícios”. Isto é, Deus não está tão preocupado com aquilo que tem aparência de religioso. A vontade dele é outra: que o seu propósito seja cumprido e o seu carácter seja honrado em todas as coisas, e através de todas as coisas, por aqueles que se dizem seus discípulos.

Estas coisas eu aprendo, entre outros, com o Ed Rene Kivitz. Escreve ele na obra ‘O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia’:

“Queres agradar a Deus? Dá uma bicicleta ao teu filho e vai passear com ele no parque. Chama os teus amigos, curte a intimidade com eles, dá muitas risadas e saboreia a melhor pizza que puderes comprar. Lê Fernando Pessoa com o melhor vinho que puderes adquirir. Sente a brisa do mar no rosto. Se não estás a servir a Deus enquanto tomas um bom copo de vinho, não há outro jeito de servir a Deus. Se não estás a servir a Deus enquanto fazes compras no shopping, não há outro jeito. Deus não é o oposto das coisas. Ele é o pleno sentido de todas elas: por Ele são todas as coisas.”

O caminho de Cristo não é tanto o caminho religioso. É muito mais o caminho em que tudo quanto fazemos é feito numa tentativa intencional e dedicada de cumprir o propósito de Deus e honrar o seu carácter. É muito mais o caminho em que, em oração e em comunhão, convidamos Deus a estar presente em todas as coisas, sagrando-as, tirando-as das garras do profano, restaurando o seu verdadeiro significado sob a nova luz que brota de Jesus Cristo.

Como nota final deixo uma frase do Ariovaldo Ramos que resume de forma magnífica aquilo que tentei aqui alinhavar: “Todo o ato humano é praticado diante de Deus, o que significa dizer que ou é um ato de culto ou um ato de rebeldia.”

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