Soteriologia de algibeira

by davidraimundo

Premissa 1: a soberania de Deus não é compatível com o livre-arbítrio humano; a predestinação para a salvação foi efectuada por Deus ainda antes de o mundo ser mundo e o homem não tem qualquer possibilidade de contrariar aquilo que Deus decidiu de antemão. (Esta premissa é um dos alicerces do calvinismo).

Premissa 2: a Bíblia é a palavra de Deus inerrante e infalível, plenamente confiável para nos revelar a vontade e o plano de Deus. (Os adeptos do calvinismo também são adeptos da doutrina da inerrância, mas não são os únicos. Como já escrevi anteriormente, eu creio que a Bíblia é, num certo sentido, infalível. Mas não creio na doutrina da inerrância tradicional – isto é, inventada no século XX -, nem creio que essa doutrina seja… bíblica.)

A estas premissas juntemos o início do capítulo 2 da primeira carta de Paulo a Timóteo:

“Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações, orações, intercessões, e ações de graças, por todos os homens;
Pelos reis, e por todos os que estão em eminência, para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade;
Porque isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador,
Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.”

Ora somando esta passagem bíblica às premissas acima afirmadas, qual a conclusão lógica que obtemos?

A conclusão lógica é que todos os homens serão salvos. Se a vontade de Deus prevalece e se Deus quer que todos os homens se salvem, só o universalismo permite escapar à contradição aqui latente. É praticamente um Modus Ponens.

Sim, eu sei que há que ver o contexto dos versículos e cuidar da hermenêutica e podemos enrolar a argumentação e dissecar os versículos procurando significados escondidos no uso de cada palavra específica. Estou certo que muitos teólogos calvinistas já abordaram esta passagem e oferecem explicações que permitem forçar o seu enquadramento na sua teologia sistemática.

Mas ninguém me convence que o calvinismo mais lógico e mais bíblico de todos não seja o universalismo.

“Então tu és universalista, David?” Sei lá! Sei que também quero que todos se salvem. Mas à boa maneira do C. S. Lewis, do N. T. Wright (é sempre bom reivindicar nomes sonantes para a minha equipa!) acredito que Deus não forçará ninguém a ser salvo.

“Então se não és universalista, o que é que pretendes obter com este raciocínio?” Pretendo demonstrar que as fórmulas falham. A lógica formal não serve para tratar as verdades espirituais e os mistérios da vida e de Deus. Na presença do plano de Deus, a matemática cala. A teologia sistemática silencia-se.

Quando o véu do templo se rasgou, morreram todas as fórmulas. Quando Jesus Cristo, o homem-Deus, morreu na cruz, só o paradoxo ficou vivo. Quando Jesus Cristo ressuscitou porque a morte não podia contê-lo, as fórmulas permaneceram sepultadas. A encarnação, a morte e ressurreição de Deus são mais do que a lógica pôde suportar! Na presença do plano divino, impossível e inexplicável, a lógica não tem fôlego, não tem palavra.

Glória seja dada a Jesus Cristo porque já não há fórmulas.

Glória seja dada a Jesus Cristo porque há só Graça!

 

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