Apologia da heterodoxia cristã

by davidraimundo

Teologia é discurso sobre Deus.

Neste sentido, todos temos uma teologia (nem que seja por default). Cristãos, não cristãos, agnósticos, ateus, cada um desenvolve à sua maneira uma perspectiva e um discurso sobre o divino.

Dificilmente encontramos duas pessoas que tenham teologias 100% idênticas: o nosso discurso sobre Deus será sempre influenciado pela cultura, pelas fontes que consideramos válidas para basear esse discurso, pelas expectativas, prioridades, tradições e angústias pessoais.

Na verdade, penso que até devemos ser gratos por não encontrarmos pessoas que concordem connosco em todos os itens das nossas teologias. É sinal de que as respostas não estão todas alcançadas. É faísca que pode gerar reflexão mais profunda.

Ainda assim encontramos correntes cristãs que insistem em forjar e impor uma espécie de teologia sistemática sólida e global com a pretensão de responder de forma taxativa a uma abrangente panóplia de questões. Estou a falar do Catolicismo, onde a teologia é construída em grande medida com base na autoridade que se crê que a Igreja Institucional possui (embora o Catolicismo tenha, na prática, muitas matizes estranhas: da cúpula às bases vai uma grande distância e só assim se explica que o Catolicismo dê abrigo a tantos teólogos liberais). Mas estou a falar também do Protestantismo onde se pretende construir teologia com base num dos lemas da Reforma Protestante: Sola Scriptura. Este lema afirma a Bíblia como fonte única da doutrina cristã, a única autoridade no que toca ao discurso teológico (marcando um contraste intencional para com a autoridade eclesiástica do Catolicismo).

Creio que a reivindicação protestante de que é possível, desejável e correcta a construção de teologia com base no princípio da Sola Scriptura é bem intencionada, mas pode gerar uma abordagem equivocada. Se a Sola Scriptura implica a exclusão automática da história, da filosofia, da antropologia, da biologia e das outras áreas do conhecimento enquanto áreas que podem potencialmente contribuir também para formar as nossas teologias, então eu não afirmo a Sola Scriptura.

Mas pior é que esta reivindicação tem tomado contornos demasiado ambiciosos. No protestantismo e no evangelicalismo, sob a ideia de que a Bíblia é a única regra de fé e prática, acabamos por ir em busca de uma teologia sistemática que seja global, sólida e taxativa: uma teologia que responda a todas as questões sem deixar pontas soltas. Nascem assim os ismos: o calvinismo, o arminianismo, o universalismo, o dispensacionalismo. E cavam-se trincheiras.

A Bíblia exige interpretação e a interpretação é tarefa humana, sujeita a falhas, equívocos e aos preconceitos com que abordamos os textos. O método de interpretação histórico-gramatical produz frutos quando se trata de interpretar os textos bíblicos, mas é metodologia humana e, como tudo o que tem cunho humano, tem limitações.

Cada ismo dirá que está na possa da interpretação correcta e argumentará que a sua leitura dos textos é que é a leitura adequada, a leitura inspirada pelo Espírito Santo, a interpretação que o autor original tinha em mente. A este propósito e a título de exemplo: há um par de semanas realizou-se este debate em que o Brian Zahnd participou, advogando uma posição não-calvinista; às tantas um dos outros participantes afirmou que a doutrina da predestinação estava bem patente na leitura imediata de Romanos, não havendo forma de a contornar ou de a esconder. Ao que o Brian Zahnd teve de lembrar que essa leitura mais imediata é uma leitura feita pela lente de um teólogo do século XVI (João Calvino), pelo que talvez não seja tão imediata assim… Antes disso já tinham passado dezasseis séculos de história e de teologia cristã!

Depois os ismos trocam argumentos e andam à caça das heresias uns dos outros. Produza-se uma qualquer afirmação de cariz teológico e haverá certamente alguém que vai colar o rótulo da ‘heresia’ nessa afirmação. Há quem caracterize este comportamento como um comportamento de ‘polícia divina da fé’. Só que os que vestem essa farda esquecem-se que muitos dos seus heróis também não passariam pelo crivo apertado da sua censura teológica. Há uns tempos a Relevant Magazine fez um bom trabalho ao alertar-nos para esta realidade: C. S. Lewis, John Stott, Martinho Lutero e tantos outros heróis do mundo Protestante e Evangélico continham nas suas teologias elementos “condenáveis”. (Eu, pessoalmente, não creio que nenhum deles o seja.)

No que toca à teologia cristã, o medo da heresia pode ser a maior heresia de todas. Porque o medo pode impedir-nos de derrubar barreiras teológicas que, ao invés de conduzirem a um conhecimento real de Deus, aprisionam o entendimento. Em What We Talk About When We Talk About God, o Rob Bell recorda que “o grande académico alemão Helmut Thielicke disse uma vez que a pessoa que responde às necessidades do presente irá sempre aproximar-se da fronteira da heresia, mas só a pessoa que arrisca essas heresias pode obter a verdade.” Arrisquemos mais, então!

 

Eu cresci numa Assembleia de Deus, denominação pentecostal e de linha dispensacionalista. Envolvi-me no Grupo Bíblico Universitário, um movimento interdenominacional que possibilita o contacto com cristãos de diversas confissões. Hoje sou membro de uma igreja baptista. Tenho amigos em várias comunidades cristãs incluindo a igreja católica. Em todos estes meios encontrei pessoas e mensagens preciosas. Tenho de estar grato a Deus por ter recebido influência de um grupo muito heterogéneo de cristãos.

Não sou adepto dos ismos. Não sou calvinista, nem arminiano. Não sou pentecostal, nem cessacionista. Nestas questões posso ter as minhas simpatias e inclinações, mas recuso-me a afirmar um ismo como se ele fosse uma verdade absoluta. O caminho de Cristo não tem os seus fundamentos construídos num conjunto de doutrinas plenamente consistentes, coerentes e explicadas como se de fórmulas matemáticas se tratassem. O caminho de Cristo tem o seu fundamento em… Cristo. A teologia sistemática não é a rocha. A rocha é Jesus Cristo. A verdade é Jesus Cristo.

Porque a verdade é Jesus Cristo, e não um ismo, posso ser enriquecido pelo pensamento de católicos como o Brennan Manning ou o Joseph Ratzinger, de anglicanos como o C. S. Lewis ou o N. T. Wright, de cristãos emergentes como o Shane Claiborne ou o Donald Miler, de pentecostais como o Brian Zahnd, de cristãos de inclinação universalista como o René Kivitz e, pasme-se, até de calvinistas como o Ariovaldo Ramos ou o Timothy Keller. Acredito que teria muito para aprender também com cristãos da Igreja Oriental, tão desconhecida para nós. (Vale-nos o Dostoievsky para termos umas luzes!) Acredito que tenho muito para aprender com cristãos de todos os quadrantes.

 

No debate entre a heterodoxia cristã e a ortodoxia cristã, declaro-me adepto da primeira. Aliás, como fazer do cristianismo ortodoxo se o cristianismo assenta em paradoxo: Deus encarnado, morto e ressurrecto? Pode o paradoxo ser dissecado até à ortodoxia? Ou não será esse processo de dissecação uma corrupção do Evangelho?

Em suma, sou pela heterodoxia. Porque na verdade não precisamos de uma teologia sólida, global e impenetrável. A fé cristã tem por base algo muito mais sólido e palpável: temos Jesus Cristo. A revelação directa de Deus aos homens não vem na forma de papel e letras. A revelação directa vem em carne e osso. Vem em sangue derramado. Vem em palavras sábias e numa atitude constante de compaixão que abraça de forma inclusiva todos os que a Ele apelam. Vem em braços que primeiro abraçam e depois são esticados para lá do limite da dor, pregados numa cruz de madeira, em favor da humanidade.

 

Teologia é discurso sobre Deus.

Neste sentido, todos temos uma teologia (nem que seja por default). Cristãos, não cristãos, agnósticos, ateus, cada um desenvolve à sua maneira uma perspectiva e um discurso sobre o divino.

Sabendo Deus que os homens produziam discursos sobre Ele, quis Ele também produzir um discurso sobre si próprio e assim esclarecer os homens.

Jesus é o discurso de Deus sobre si próprio!

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