Pontos e contos de um cristão pós-moderno

Month: Setembro, 2014

Soteriologia de algibeira

Premissa 1: a soberania de Deus não é compatível com o livre-arbítrio humano; a predestinação para a salvação foi efectuada por Deus ainda antes de o mundo ser mundo e o homem não tem qualquer possibilidade de contrariar aquilo que Deus decidiu de antemão. (Esta premissa é um dos alicerces do calvinismo).

Premissa 2: a Bíblia é a palavra de Deus inerrante e infalível, plenamente confiável para nos revelar a vontade e o plano de Deus. (Os adeptos do calvinismo também são adeptos da doutrina da inerrância, mas não são os únicos. Como já escrevi anteriormente, eu creio que a Bíblia é, num certo sentido, infalível. Mas não creio na doutrina da inerrância tradicional – isto é, inventada no século XX -, nem creio que essa doutrina seja… bíblica.)

A estas premissas juntemos o início do capítulo 2 da primeira carta de Paulo a Timóteo:

“Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações, orações, intercessões, e ações de graças, por todos os homens;
Pelos reis, e por todos os que estão em eminência, para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade;
Porque isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador,
Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.”

Ora somando esta passagem bíblica às premissas acima afirmadas, qual a conclusão lógica que obtemos?

A conclusão lógica é que todos os homens serão salvos. Se a vontade de Deus prevalece e se Deus quer que todos os homens se salvem, só o universalismo permite escapar à contradição aqui latente. É praticamente um Modus Ponens.

Sim, eu sei que há que ver o contexto dos versículos e cuidar da hermenêutica e podemos enrolar a argumentação e dissecar os versículos procurando significados escondidos no uso de cada palavra específica. Estou certo que muitos teólogos calvinistas já abordaram esta passagem e oferecem explicações que permitem forçar o seu enquadramento na sua teologia sistemática.

Mas ninguém me convence que o calvinismo mais lógico e mais bíblico de todos não seja o universalismo.

“Então tu és universalista, David?” Sei lá! Sei que também quero que todos se salvem. Mas à boa maneira do C. S. Lewis, do N. T. Wright (é sempre bom reivindicar nomes sonantes para a minha equipa!) acredito que Deus não forçará ninguém a ser salvo.

“Então se não és universalista, o que é que pretendes obter com este raciocínio?” Pretendo demonstrar que as fórmulas falham. A lógica formal não serve para tratar as verdades espirituais e os mistérios da vida e de Deus. Na presença do plano de Deus, a matemática cala. A teologia sistemática silencia-se.

Quando o véu do templo se rasgou, morreram todas as fórmulas. Quando Jesus Cristo, o homem-Deus, morreu na cruz, só o paradoxo ficou vivo. Quando Jesus Cristo ressuscitou porque a morte não podia contê-lo, as fórmulas permaneceram sepultadas. A encarnação, a morte e ressurreição de Deus são mais do que a lógica pôde suportar! Na presença do plano divino, impossível e inexplicável, a lógica não tem fôlego, não tem palavra.

Glória seja dada a Jesus Cristo porque já não há fórmulas.

Glória seja dada a Jesus Cristo porque há só Graça!

 

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Apologia da heterodoxia cristã

Teologia é discurso sobre Deus.

Neste sentido, todos temos uma teologia (nem que seja por default). Cristãos, não cristãos, agnósticos, ateus, cada um desenvolve à sua maneira uma perspectiva e um discurso sobre o divino.

Dificilmente encontramos duas pessoas que tenham teologias 100% idênticas: o nosso discurso sobre Deus será sempre influenciado pela cultura, pelas fontes que consideramos válidas para basear esse discurso, pelas expectativas, prioridades, tradições e angústias pessoais.

Na verdade, penso que até devemos ser gratos por não encontrarmos pessoas que concordem connosco em todos os itens das nossas teologias. É sinal de que as respostas não estão todas alcançadas. É faísca que pode gerar reflexão mais profunda.

Ainda assim encontramos correntes cristãs que insistem em forjar e impor uma espécie de teologia sistemática sólida e global com a pretensão de responder de forma taxativa a uma abrangente panóplia de questões. Estou a falar do Catolicismo, onde a teologia é construída em grande medida com base na autoridade que se crê que a Igreja Institucional possui (embora o Catolicismo tenha, na prática, muitas matizes estranhas: da cúpula às bases vai uma grande distância e só assim se explica que o Catolicismo dê abrigo a tantos teólogos liberais). Mas estou a falar também do Protestantismo onde se pretende construir teologia com base num dos lemas da Reforma Protestante: Sola Scriptura. Este lema afirma a Bíblia como fonte única da doutrina cristã, a única autoridade no que toca ao discurso teológico (marcando um contraste intencional para com a autoridade eclesiástica do Catolicismo).

Creio que a reivindicação protestante de que é possível, desejável e correcta a construção de teologia com base no princípio da Sola Scriptura é bem intencionada, mas pode gerar uma abordagem equivocada. Se a Sola Scriptura implica a exclusão automática da história, da filosofia, da antropologia, da biologia e das outras áreas do conhecimento enquanto áreas que podem potencialmente contribuir também para formar as nossas teologias, então eu não afirmo a Sola Scriptura.

Mas pior é que esta reivindicação tem tomado contornos demasiado ambiciosos. No protestantismo e no evangelicalismo, sob a ideia de que a Bíblia é a única regra de fé e prática, acabamos por ir em busca de uma teologia sistemática que seja global, sólida e taxativa: uma teologia que responda a todas as questões sem deixar pontas soltas. Nascem assim os ismos: o calvinismo, o arminianismo, o universalismo, o dispensacionalismo. E cavam-se trincheiras.

A Bíblia exige interpretação e a interpretação é tarefa humana, sujeita a falhas, equívocos e aos preconceitos com que abordamos os textos. O método de interpretação histórico-gramatical produz frutos quando se trata de interpretar os textos bíblicos, mas é metodologia humana e, como tudo o que tem cunho humano, tem limitações.

Cada ismo dirá que está na possa da interpretação correcta e argumentará que a sua leitura dos textos é que é a leitura adequada, a leitura inspirada pelo Espírito Santo, a interpretação que o autor original tinha em mente. A este propósito e a título de exemplo: há um par de semanas realizou-se este debate em que o Brian Zahnd participou, advogando uma posição não-calvinista; às tantas um dos outros participantes afirmou que a doutrina da predestinação estava bem patente na leitura imediata de Romanos, não havendo forma de a contornar ou de a esconder. Ao que o Brian Zahnd teve de lembrar que essa leitura mais imediata é uma leitura feita pela lente de um teólogo do século XVI (João Calvino), pelo que talvez não seja tão imediata assim… Antes disso já tinham passado dezasseis séculos de história e de teologia cristã!

Depois os ismos trocam argumentos e andam à caça das heresias uns dos outros. Produza-se uma qualquer afirmação de cariz teológico e haverá certamente alguém que vai colar o rótulo da ‘heresia’ nessa afirmação. Há quem caracterize este comportamento como um comportamento de ‘polícia divina da fé’. Só que os que vestem essa farda esquecem-se que muitos dos seus heróis também não passariam pelo crivo apertado da sua censura teológica. Há uns tempos a Relevant Magazine fez um bom trabalho ao alertar-nos para esta realidade: C. S. Lewis, John Stott, Martinho Lutero e tantos outros heróis do mundo Protestante e Evangélico continham nas suas teologias elementos “condenáveis”. (Eu, pessoalmente, não creio que nenhum deles o seja.)

No que toca à teologia cristã, o medo da heresia pode ser a maior heresia de todas. Porque o medo pode impedir-nos de derrubar barreiras teológicas que, ao invés de conduzirem a um conhecimento real de Deus, aprisionam o entendimento. Em What We Talk About When We Talk About God, o Rob Bell recorda que “o grande académico alemão Helmut Thielicke disse uma vez que a pessoa que responde às necessidades do presente irá sempre aproximar-se da fronteira da heresia, mas só a pessoa que arrisca essas heresias pode obter a verdade.” Arrisquemos mais, então!

 

Eu cresci numa Assembleia de Deus, denominação pentecostal e de linha dispensacionalista. Envolvi-me no Grupo Bíblico Universitário, um movimento interdenominacional que possibilita o contacto com cristãos de diversas confissões. Hoje sou membro de uma igreja baptista. Tenho amigos em várias comunidades cristãs incluindo a igreja católica. Em todos estes meios encontrei pessoas e mensagens preciosas. Tenho de estar grato a Deus por ter recebido influência de um grupo muito heterogéneo de cristãos.

Não sou adepto dos ismos. Não sou calvinista, nem arminiano. Não sou pentecostal, nem cessacionista. Nestas questões posso ter as minhas simpatias e inclinações, mas recuso-me a afirmar um ismo como se ele fosse uma verdade absoluta. O caminho de Cristo não tem os seus fundamentos construídos num conjunto de doutrinas plenamente consistentes, coerentes e explicadas como se de fórmulas matemáticas se tratassem. O caminho de Cristo tem o seu fundamento em… Cristo. A teologia sistemática não é a rocha. A rocha é Jesus Cristo. A verdade é Jesus Cristo.

Porque a verdade é Jesus Cristo, e não um ismo, posso ser enriquecido pelo pensamento de católicos como o Brennan Manning ou o Joseph Ratzinger, de anglicanos como o C. S. Lewis ou o N. T. Wright, de cristãos emergentes como o Shane Claiborne ou o Donald Miler, de pentecostais como o Brian Zahnd, de cristãos de inclinação universalista como o René Kivitz e, pasme-se, até de calvinistas como o Ariovaldo Ramos ou o Timothy Keller. Acredito que teria muito para aprender também com cristãos da Igreja Oriental, tão desconhecida para nós. (Vale-nos o Dostoievsky para termos umas luzes!) Acredito que tenho muito para aprender com cristãos de todos os quadrantes.

 

No debate entre a heterodoxia cristã e a ortodoxia cristã, declaro-me adepto da primeira. Aliás, como fazer do cristianismo ortodoxo se o cristianismo assenta em paradoxo: Deus encarnado, morto e ressurrecto? Pode o paradoxo ser dissecado até à ortodoxia? Ou não será esse processo de dissecação uma corrupção do Evangelho?

Em suma, sou pela heterodoxia. Porque na verdade não precisamos de uma teologia sólida, global e impenetrável. A fé cristã tem por base algo muito mais sólido e palpável: temos Jesus Cristo. A revelação directa de Deus aos homens não vem na forma de papel e letras. A revelação directa vem em carne e osso. Vem em sangue derramado. Vem em palavras sábias e numa atitude constante de compaixão que abraça de forma inclusiva todos os que a Ele apelam. Vem em braços que primeiro abraçam e depois são esticados para lá do limite da dor, pregados numa cruz de madeira, em favor da humanidade.

 

Teologia é discurso sobre Deus.

Neste sentido, todos temos uma teologia (nem que seja por default). Cristãos, não cristãos, agnósticos, ateus, cada um desenvolve à sua maneira uma perspectiva e um discurso sobre o divino.

Sabendo Deus que os homens produziam discursos sobre Ele, quis Ele também produzir um discurso sobre si próprio e assim esclarecer os homens.

Jesus é o discurso de Deus sobre si próprio!

O Regresso do Rei

Este não é um texto sobre o Senhor dos Anéis.
Também não é uma apologia do regime monárquico.
Este é um texto sobre o presente e sobre o futuro.

Mas comecemos pelo passado.

Passei os últimos dias do ano 2010 em Carcavelos, na Máquina de Sonhos. Nesse congresso houve uma mensagem que me caiu no goto: a Connie Duarte fez um paralelismo entre os impérios dos homens e o reino de Deus que me perturbou e que, lapidado pelo passar do tempo, pela reflexão, pela contribuição de outros agentes (os livros do Shane Claiborne, a música do Josh Garrels e do Derek Webb, e tantos outros) moldou a minha maneira de ver o mundo, o cristianismo e a História.

Lembro-me de algumas das passagens que fundamentaram essa mensagem. Foram usados excertos do Sermão do Monte como fonte para definir os valores do reino de Deus e também um excerto do capítulo 18 do Apocalipse como ilustração dos valores dos impérios dos homens:

“Estando de longe pelo temor do seu tormento, dizendo: Ai! ai daquela grande cidade de Babilônia, aquela forte cidade! pois em uma hora veio o seu juízo. E sobre ela choram e lamentam os mercadores da terra; porque ninguém mais compra as suas mercadorias: Mercadorias de ouro, e de prata, e de pedras preciosas, e de pérolas, e de linho fino, e de púrpura, e de seda, e de escarlata; e toda a madeira odorífera, e todo o vaso de marfim, e todo o vaso de madeira preciosíssima, de bronze e de ferro, e de mármore; E canela, e perfume, e mirra, e incenso, e vinho, e azeite, e flor de farinha, e trigo, e gado, e ovelhas; e cavalos, e carros, e corpos e almas de homens.” (Apocalipse 18:10-13)

Almas de homens.

A Babilónia, retratada e derrotada no Apocalipse, negociava almas de homens.

A Babilónia para os primeiros ouvintes e leitores do Apocalipse era uma figura representativa do temível Império Romano, que, de facto, massacrava, escravizava e oprimia homens.

A Babilónia que hoje vive ainda presente nos impérios do século: este mundo de competição e consumo à escala global continua a massacrar os mais frágeis e a escravizar os mais desprotegidos; esta era repleta de progresso e tecnologia continua a perpetuar a injustiça e a escravatura; nós continuamos a negociar almas de homens. A vida humana é só uma mera mercadoria como tantas outras, de valor inferior a tantas coisas.

Não sei se o Josh Garrels também ouviu a Connie, mas o que é certo é que ele canta de forma muito assertiva e cativante acerca do contraste que existe entre os reinos dos homens e o Reino de Deus. Eis uma parte da letra de Zion & Babylon:

“O meu reino é construído com o sangue de escravos
Órfãos, viúvas e sem-abrigo,
Eu vendi as suas almas para construir a minha mansão privada”
(…)
“O meu reino é construído com o sangue do meu Filho
Sacrifício abnegado por todos os homens
Fé, amor, esperança e harmonia”

Quão diferentes são as metanarrativas dos impérios dos homens e a metanarrativa que Cristo propôs e encarnou. E quão profundo é o contraste entre as Babilónias da História e o Sermão do Monte:

“Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome;
Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu;
O pão nosso de cada dia nos dá hoje;
E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores;
E não nos conduzas à tentação; mas livra-nos do mal; porque teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre. Amém.” (Mateus 6:9-13)

E podíamos recuar até às bem-aventuranças e encontrar ali conselhos únicos para o cidadão do Reino de Deus. Conselhos loucos? Contra-culturais? Impraticáveis? Bom, creio que por mais bizarros que eles nos pareçam, ali encontramos o sentido e o propósito da vida. Encontramos a essência do carácter de Deus e do seu Reino.

Ou podíamos avançar pelo capítulo 6 de Mateus e continuamos a encontrar exortações absurdas: não ajuntem tesouros na terra; não se preocupem com o que hão-de comer ou beber; não se preocupem com o dia de amanhã; busquem primeiro o Reino de Deus…

Mas que coisa é esta chamada Reino de Deus?

Talvez possamos dizer que o Reino de Deus é a versão sadia do sonho hippie. Talvez possamos dizer que o Reino de Deus é a versão possível – e muito melhor – do ideal que o John Lennon imaginou. Talvez possamos dizer que o Reino de Deus é a versão divina de todas as metanarrativas que o homem constrói (que acabam por degenerar e tornar-se tóxicas).

Talvez possamos dizer que o Reino de Deus é onde reinam a justiça e a paz; um Reino onde a reconciliação é uma realidade que se sente no aroma da brisa que ali sopra; um Reino onde a cooperação e a generosidade são as manifestações práticas do carácter dos seus cidadãos; um Reino onde cada um considera o próximo como uma pessoa preciosa, inestimável, digna de cuidado e de amor. (Um Reino no qual o Salmo 146 se concretiza plenamente.)

Quando Cristo andou entre os homens, ele anunciou que este Reino estava a chegar. E hoje cremos que o Reino já foi inaugurado: a coroação do Rei foi feita com uma coroa de espinhos e em vez de um trono deram-lhe uma cruz.

O Reino é o já e o ainda não: um Reino que está presente no mundo, como o fermento no meio da massa, mas cuja presença passa despercebida, agindo de forma subversiva e limitada, pois ainda não está concretizado na sua plenitude.

Entretanto, como afirmava Robinson Cavalcanti, a missão da Igreja é manifestar, aqui e agora, a maior densidade possível do Reino de Deus, que será consumado ali e além.

Esta afirmação reflete a convicção de que o Sermão do Monte não é uma lista de conselhos impraticáveis. É o guia por excelência para a praxis da Igreja. O discípulo de Cristo não é, portanto, um cínico que encerra o Sermão do Monte numa gaveta fechada a cadeado colando-lhe o rótulo de ‘utopia’. O cristão arregaça as mangas e procura exprimir de todas as formas possíveis a natureza do Reino do qual já é cidadão. Procura resgatar as almas dos homens que os impérios babilónicos negoceiam entre si. Procura afirmar a verdade e a justiça em palavras e actos.

Mas também não caímos na tentação oposta: o optimismo do progresso não nos contagia; a tarefa em mãos é hercúlea. Face aos problemas gigantescos do nosso mundo a nossa impotência é gritante e frustrante. É impossível não fazermos eco do clamor dos apóstolos: ora vem, Senhor Jesus!

A Madre Teresa dizia que não podemos fazer grandes coisas, apenas podemos fazer pequenas coisas com grande amor. Desconfio que ela tem razão…

Para tratar das grandes coisas,
Para que o Reino seja uma realidade plena,
Para que a justiça e a paz sejam nossas companheiras chegadas,
Para que não hajam mais lágrimas,
Aguardamos com expectativa
O regresso do Rei.

A autoridade da Bíblia

Gostava de ter tempo para traduzir por completo este artigo do N. T. Wright: How Can The Bible Be Authoritative?

É, para mim, uma abordagem esclarecedora, profunda e bíblica acerca do papel que a Bíblia tem na vida do cristão e na vida da Igreja. Não tendo tempo para me dedicar a essa tradução, opto por deixar aqui alguns destaques – linhas condutoras dos argumentos que o N. T. Wright apresenta – desejando que estes excertos sirvam para fornecer uma ideia genérica do artigo e, quem sabe, para encorajar à leitura do artigo completo.

Mesmo tratando-se de um resumo, estes excertos são extensos. Para quem tiver interesse pelo assunto mas, por questões de tempo, preferir uma leitura mais selectiva, sugiro um salto imediato para o ponto 16. Até esse ponto o N. T. Wright discute basicamente o conceito de ‘autoridade’. Afirmando que a Bíblia é composta essencialmente por textos narrativos, lança a questão-base: como é que uma história pode exercer autoridade? A partir do ponto 16 chega-nos a resposta, com uma ajudinha de uma hipotética obra inacabada de Shakespeare, o N. T. Wright cria uma imagem muito prática e, a meu ver, muito bonita do significado da ‘Autoridade’ da Bíblia para a vida Igreja.

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Como pode a Bíblia ser uma autoridade?

Um livro que exerce autoridade? 

1. O significado do termo autoridade varia consideravelmente de acordo com o contexto no qual um determinado discurso tem lugar. É importante reconhecer isto desde já, pois uma das minhas afirmações centrais será a de que nós temos tido a tendência de deixar que o termo ‘autoridade’ seja o ponto fixo e temos ajustado as Escrituras a esse termo, em vez de procedermos ao contrário.

2. A maior parte dos herdeiros da Reforma, entre os quais os Evangélicos, assumem à partida que temos de colocar as Escrituras no centro e que tudo o resto tem de estar alinhado com as Escrituras. Há até uma suposição evangélica, comum em alguns círculos, de que os Evangélicos não têm qualquer tradição. Limitamo-nos a abrir as Escrituras, ler aquilo que está escrito, e aplica-lo a nós próprios: aí termina o assunto e pronto, não temos qualquer “tradição”. (…) Há em nós um positivismo implícito e, de certa forma, injustificado: imaginamos que estamos a ler o Texto de forma objectiva e que se alguém discorda de nós deve ser porque esse alguém, ao contrário de nós, está secretamente a usar pressupostos desta ou daquela natureza. Isto é simplesmente naive e, na verdade, incrivelmente arrogante e perigoso. Isto alimenta um segundo aspecto que é o facto dos Evangélicos muitas vezes usarem a expressão ‘Autoridade das Escrituras’ quando o que pretendem afirmar é a teologia evangélica ou protestante, uma vez que se parte da suposição de que nós é que somos aqueles que sabem e acreditam naquilo que a Bíblia diz. E apesar de haver mais do que um grão de verdade neste tipo de afirmações, elas não são, de forma alguma, toda a verdade. Imaginar que o são é passar da teologia para a ideologia. Se não tivermos cuidado, a frase ‘autoridade da Escritura’ significará apenas ‘a autoridade da tradição Evangélica ou Protestante’, em contraste com as tradições Católica ou Racionalista.

Autoridade Bíblica: o Problema

3. Quando as pessoas na igreja falam em autoridade, elas estão geralmente a falar de como controlar pessoas e situações. Querem garantir que tudo é regulado de forma adequada, que a igreja não sai fora dos carris em termos doutrinários ou éticos, que ideias e práticas correctas são encorajadas e transmitidas às gerações seguintes. ‘Autoridade’ é o lugar onde vamos para procurar as respostas correctas a perguntas como estas. Esta noção, contudo, fica atolada em problemas quando a aplicamos à Bíblia. É mesmo para isto que a Bíblia serve? Ela existe para controlar a Igreja? Ela está lá simplesmente para procurarmos as respostas correctas para questões que, por algum motivo, já conhecemos? À medida que lemos a Bíblia descobrimos que a resposta a estas questões parece de facto ser ‘Não’. A maior parte da Bíblia não consiste em regras ou regulamentos – listas de ordens que devem ser obedecidas. Nem consiste em credos – listas de coisas nas quais devemos acreditar. (…) Podemos até assumir (num sentido que eu admito ser limitado) que não existe uma doutrina bíblica da Autoridade da Bíblia. Na maior parte do tempo, a Bíblia está muito mais ocupada a tratar de uma série de outros assuntos do que a falar acerca de si mesma.  (…) E a tentativa por parte de muitos evangélicos de propor uma doutrina geral das Escrituras, tendo por base o uso que no Novo Testamento se faz do Antigo Testamento, está condenada ao fracasso precisamente porque a relação entre o Antigo e o Novo Testamento não é a mesma que a relação entre o Novo Testamento e nós próprios.

4. A questão da autoridade da Bíblia não é, portanto, tão simples quanto poderia parecer. De modo a formularmos a própria questão temos de perceber que ela é uma sub-questão de questões muito mais gerais: (1) Como é que pode um qualquer texto funcionar como autoridade? (2) Como é que pode um texto antigo funcionar como autoridade? (…) De facto, é mais fácil compreender isto em relação ao Talmude do que em relação à Bíblia, porque o Talmude está desenhado de forma muito específica para ser um livro de regras para seres humanos comprometidos com a vida num contexto comunitário muito particular. Mas muito daquilo a que chamamos a Bíblia – o Antigo e o Novo Testamento – não é um livro de regras; é texto narrativo. Isso levanta uma outra questão: (3) Como pode um texto narrativo antigo funcionar como autoridade? Por exemplo, como é que o livro de Juízes ou o livro de Actos podem exercer autoridade? Uma coisa é ires ao posto de comando pela manhã e receberes uma série de ordens do teu superior. Mas o que é que farias se, ao invés, ele começasse com “Era uma vez…”?

5. Estas questões pressionam a igreja de forma tão aguda que, ao longo dos séculos, a igreja tem tentado de todas as formas dar-lhes a volta, e, desse modo, tem tornado aquele conteúdo da Bíblia que é aparentemente mais teimoso em conteúdo que possa ser mais facilmente usado como ‘autoritário’ no sentido exigido por um ou outro período da história. Eu quero abordar três dos métodos utilizados para tal e sugerir que cada um deles, à sua maneira, acaba por desvalorizar a Bíblia, revelando assim, na prática, uma fraca doutrina da Bíblia, mesmo que em teoria se defenda o contrário.

6.  Uma resposta habitual às questões levantadas passa por dizer que a Bíblia é um repositório de verdades intemporais. Isto é verdade sob algumas perspectivas. Mas na perspectiva em que é normalmente feita a afirmação não é certamente verdade. A Bíblia inteira, de Génesis ao Apocalipse, está culturalmente condicionada. Está toda escrita com a linguagem de tempos específicos, e evoca as culturas nas quais foi escrita. (…)

7. Recentemente temos visto tentativas da parte de muitos académicos de tornar este texto tão difícil num texto autoritário sugerindo que a sua autoridade reside no facto de ser testemunha de eventos primários. (…) Uma variação desta tentativa ocorre quando as pessoas dizem que a Bíblia (ou o Novo Testamento) tem autoridade porque é testemunha da experiência dos cristãos primitivos. (…) A Bíblia então torna-se autoridade porque permite-nos entrar naquilo que significava ser um cristão primitivo – e é a experiência cristã primitiva que é então tratada como a autoridade real, a verdadeira norma. Em ambas estas variantes a autoridade passou da Bíblia em si mesma para o evento ou a experiência que ela permite reconstruir historicamente. Assim, não estamos de forma alguma a afirmar a autoridade de Bíblia.

8. Uma outra vertente na qual a Bíblia tem sido usada, com a afirmação frequente de que é neste vertente que a sua autoridade reside, consiste nas funções intemporais que se considera que ela tem. Para Bultmann, o Novo Testamento funciona (entre outras coisas) como um apelo intemporal à decisão. Para Inácio e outros que ensinaram espiritualidade Jesuíta, a Bíblia pode ser usada num sentido intemporal na prática pastoral. Isto não está a milhas de distância de algumas coisas que eu vou sugerir mais adiante nesta palestra como uso apropriado da Escritura. Mas ao nível teórico é vital que digamos, mais uma vez, que este uso, em si mesmo, não é o que pretendemos afirmar quando dizemos que a Bíblia tem autoritade. (…) Todos os 3 métodos que esbocei envolvem um certo procedimento que, em última análise, parece ilegítimo: há a tentativa de extrair certas verdades intemporais, modelos ou desafios, para uma espécie de reino etéreo que não tem nada a ver com a realidade espaço-tempo… (…)

9. O problema em relação a estas soluções da questão de como usar a Bíblia é que elas reduzem a Bíblia e exaltem outras coisas. Basicamente, elas têm como consequência – e isto é o que eu pretendo dizer quando digo que elas oferecem uma visão demasiado fraca das escrituras – que Deus deu-nos, afinal, o tipo de livro errado e que é nosso trabalho torná-lo no tipo de livro certo através destas manobras hermenêuticas, procedimentos de tradução, o que seja. (…) A minha conclusão, portanto, é esta: que as habituais concepções da escritura e da sua autoridade, encontradas não apenas fora mas também dentro do evangelicalismo, não fazem justiça àquilo que a Bíblia realmente é – um livro, um livro antigo, um livro antigo narrativo. Elas tornam esse livro noutra coisa diferente, implicando, assim, que Deus deu-nos, afinal de contas, o tipo de livro errado. Esta é uma doutrina da inspiração muito fraca, mesmo que digamos o contrário, mesmo que usemos muitas palavras começadas por ‘in-‘ para a caracterizar. Eu proponho que aquilo que precisamos é de reexaminar o próprio conceito de autoridade e ver se não conseguimos fazer algo melhor com ele.

A Bíblia e a Autoridade Bíblica:

10. Em segundo lugar nesta palestra, quero sugerir que a forma como a Escritura encara a Autoridade foca-se na Autoridade do próprio Deus. (Recordo-me de um conhecido palestrante insistir uma vez que ‘não pode existir nenhuma autoridade para além da escritura’, e insistiu tanto que eu tive vontade de perguntar ‘mas então e Deus?’) Se pensarmos por um momento no que é que queremos realmente dizer quando usamos a expressão ‘Autoridade da Escritura’, iremos certamente reconhecer que esta expressão é uma forma abreviada de dizer que, apesar da autoridade pertencer a Deus, Deus investiu de alguma forma essa autoridade na escritura. E esta é uma afirmação complexa. Não é óbvia. Quando as pessoas usam a frase ‘Autoridade da Escritura’ elas muitas vezes não se apercebem disso. Pior: muitas vezes tratam a palavra ‘Autoridade’ como o absoluto, o ponto fixo, enquanto a palavra ‘Escritura’ é o elemento que se move em torno desse ponto tentando encaixar-se nele. Noutras palavras, as pessoas pensam que sabem o que é ‘Autoridade’ e então dizem que as Escrituras são ‘Autoridade’. Quero sugerir que devemos tentar o procedimento oposto. (…) precisamos, talvez, de renegar as nossas ideias pré-concebidas acerca da ‘Autoridade’ e deixar que essas ideias sejam re-moldadas à luz da própria escritura – não apenas à luz das frases bíblicas relativas à autoridade, mas à luz da Bíblia inteira, ou de todo o Novo Testamento.

11. Começando pelas evidências explícitas das Escrituras relativas à Autoridade, depressa concluímos – é algo óbvio, mas muitas vezes ignorado – que toda a autoridade pertence de facto a Deus. (…) Deus exerce autoridade em grandes eventos dinâmicos: no Êxodo, no Exílio e no Retorno). No Novo Testamento, descobrimos que a autoridade é, em última análise, dada a Cristo: ‘toda a autoridade me foi dada no céu e na terra’. Em seguida, talvez para nossa surpresa, a autoridade é dada aos apóstolos: Paulo escreveu cartas inteiras com o objectivo de deixar este ponto bem claro. Percebemos que esta autoridade tem que ver com o Espírito Santo. E à Igreja é então, dessa forma, dada autoridade para trabalhar no mundo criado por Deus como o seu agente oficial. Num sumário excessivamente rápido, seremos forçados a dizer: a autoridade, de acordo com a própria Bíblia, pertence ao próprio Deus, Pai, Filho e Espírito Santo.

12. (…) E a noção de autoridade de Deus, que temos de entender antes de tentarmos entender o que significa a autoridade da Escritura, é baseada no facto de que este Deus é o Deus de amor, sábio, criador e redentor. A sua autoridade reside no exercício soberano desses poderes. O que é que Ele está a fazer? Ele não está simplesmente a organizar o mundo. Ele está, como vemos e conhecemos em Cristo e pelo Espírito, a julgar e a refazer o mundo. (…) Autoridade não é o poder para controlar pessoas, e para as esmagar, e mantê-las encaixotadas. A igreja tenta muitas vezes fazer isso – arrumar as pessoas. A Bíblia também não é, enquanto veículo da autoridade de Deus, um conjunto de informações para o legalista. (…) Pelo contrário, a autoridade de Deus que está presente na Escritura tem como propósito, assim como toda a autoridade de Deus, a libertação de seres humanos, julgando e condenando o mal e o pecado do mundo de forma a tornar as pessoas livres e plenamente humanas. Isto é o que Deus está a fazer. É para isto que a sua autoridade serve. E quando usamos uma frase de atalho como ‘Autoridade da Escritura’ é isso que devemos pretender dizer. Trata-se de uma autoridade com este formato e este carácter, este propósito e este objectivo.

13. Então, temos de nos perguntar, se pretendemos chegar à autoridade da Escritura: como é que Deus exerce essa autoridade? Uma e outra vez, na própria história bíblica nós percebemos que ele fá-lo através de agentes humanos ungidos e equipados pelo Espírito Santo. E isto é em si mesmo uma expressão de amor, porque ele não deseja, simplesmente, entrar no mundo num flash de luz ofuscante e, assim, fazer desaparecer toda a oposição. Ele deseja revelar-se a si próprio de uma forma significativa no universo espaço/tempo, não apenas tocando-o de forma tangencial; revelar-se a ele próprio em justiça e em misericórdia de uma forma que possa salvar pessoas. Assim, temos os profetas. Temos os escritores obedientes do Antigo Testamento, não apenas os profetas mas também aqueles que escreveram os Salmos e por aí fora. Como clímax da história, temos o próprio Jesus, o grande profeta, mas muito mais que um profeta. E, depois, temos o povo de Jesus como os ungidos. (…) Foi assim que Deus trouxe a sua autoridade para Israel: não pela revelação de um conjunto de verdades intemporais, mas pela delegação da sua autoridade a homens obedientes através de quem ele trouxe julgamento e salvação a Israel e a o mundo.

14. E quanto mais temos de dizer acerca de Jesus. Jesus o grande profeta; Jesus que governa a partir da cruz em julgamento e em amor; Jesus que diz: toda a autoridade me foi dada a mim, por isso vocês agora vão e continuem o trabalho. Espero que a ironia disto não vos tenha escapado. Também em Actos 1, encontramos: Deus tem toda a autoridade… para que vocês recebam poder. Outra vez a ironia. Como resolver esta ironia? Agarrando com firmeza aquilo que o Novo Testamento nos dá, que é a forte teologia da autoridade do Espírito Santo. As pessoas de Jesus são aquelas que são ungidas através das quais Deus continua a exercer autoridade. E então, de forma a que a igreja seja a igreja – o povo de Deus para o mundo – Deus, pelo mesmo Espírito Santo, equipa homens na primeira geração para escrever o documento da nova aliança. (…) Portanto, é através da autoridade falada e escrita de seres humanos escolhidos que Deus traz a sua autoridade para o seu povo e o seu mundo. Até agora, vimos o que é que a Bíblia diz acerca de como a Deus exerce a sua autoridade. E isto inclui (o ponto a partir do qual partimos) a delegação da sua autoridade, num certo sentido, para determinados escritos. Mas isto leva-nos a mais questões.

15. (…) Os escritos destas pessoas, assim orientados pelo Espírito, não são na sua maioria, como vimos, o tipo de coisas que nós consideraríamos como ‘autoridade’. São sobretudo narrativa; e já tínhamos dado de caras com o problema de como é que uma história, uma narrativa, pode exercer autoridade? De alguma forma, a autoridade que Deus investiu neste livro é uma autoridade que é manejada e exercida pela forma como o povo de Deus conta e reconta a sua história como a história do mundo, anunciando a história da aliança como a verdadeira história da criação. De alguma forma, esta autoridade também é manejada pela forma como o seu povo canta salmos. De alguma forma, é manejada (assim parece) em particular pela forma como o povo de Deus anuncia a história de Jesus. Temos então de abordar a questão das histórias. Que tipo de autoridade elas podem ter?

A Autoridade de uma História: 

16. Há diversas formas segundo as quais podemos pensar que as histórias podem ter autoridade. Às vezes uma história é partilhada de forma a que as acções das suas personagens possam ser imitadas. Era por terem tal impressão que alguns dos Pais da Igreja, constrangidos pela possibilidades inerentes a uma tal leitura do Antigo Testamento, insistiram numa exegese alegórica. De forma mais subtil, uma história pode ser partilhada tendo em vista a criação de um ethos generalizado que depois seja perpetuado de um ou outro modo. O problema de tais modelos, por mais populares que sejam na leitura cristã das escrituras, é que eles são demasiado vagos: constituem uma salada hermenêutica ou um saco de rifas hermenêutico. Em sentido contrário, sugiro que as histórias em geral, e certamente a história bíblica, têm um design e um propósito que têm de ser analisados e aos quais deve ser dada resposta apropriada. Mas a que é que se assemelhará tal resposta?

17. Deixem-me oferecer-lhes um possível modelo, que não é apenas uma simples ilustração mas corresponde de facto, como irei argumentar, a algumas importantes características da histórica bíblica. Suponhamos que existe uma peça de Shakespeare cujo quinto se perdeu. Os primeiros quatro actos fornecem-nos, vamos supor, uma caracterização tão rica, um enrendo com um crescendo tão entusiasmante, que a opinião geral é que a peça tem de ser encenada. No entanto, parece impróprio escrever um quinto acto definitivo: iria congelar a peça dando-lhe um formato definido e atribuir a Shakespeare a responsabilidade por um trabalho que não era realmente dele. Talvez nos parecesse que a melhor coisa a fazer era dar as pontos-chave a actores que fossem altamente treinados e com sensibilidade e experiência em peças de Shakespeare, que poderiam mergulhar nos primeiros quatros actos, na língua e na cultura de Shakespeare e do seu tempo, e a quem depois seria pedido que desenvolvessem um quinto acto por si próprios.

18. Consideremos o resultado. Os primeiros quatro actos, originais, seriam sem dúvida a autoridade para a tarefa em mãos. Isto é, qualquer pessoa poderia opor-se à nova improvisação tendo por base que este ou aquele personagem estava agora a comportar-se de forma inconsistente, ou que este ou aquele sub-plot ou tema, esboçado anteriormente, não estava a atingir a sua resolução adequada. Esta ‘autoridade’ dos quatro primeiros actos não consistiria em ordens implícitas segundo as quais os autores teriam de repetir as primeiras partes da peça vez após vez. Consistiria sim no facto de se tratar de um drama ainda não terminado, que continha o seu próprio ímpeto, o seu próprio movimento para diante, que exigia uma conclusão apropriada e requeria da parte dos actores uma participação responsável na história, de modo a que se entendesse, primeiro, como é que os assuntos da peça poderiam ser adequadamente relacionados, e em seguida se colocasse esse entendimento em prática falando e representando tanto com inovação como com consistência.

19. Podemos levar este modelo ainda mais longe; ele oferece de facto muitas possibilidades. Entre as aplicações mais detalhadas que este modelo torna possível está a possibilidade de ver os cinco actos da seguinte forma: (1) Criação; (2) Queda; (3) Israel; (4) Jesus. O Novo Testamento iria então formar a primeira cena do quinto acto, dando-nos ainda pistas de como a história irá terminar. A Igreja estaria então sob a ‘Autoridade’ da história já existente, sendo-lhe pedido que oferecesse algo que reside entre uma improvisação e uma performance real do acto final. (…)

20. Este modelo permite-nos desde já adicionar uma nota de rodapé, que é, ainda assim, uma nota muito importante. Começamos a ver de forma mais clara que o Antigo Testamento não é o livro do povo da aliança de Deus em Cristo no mesmo sentido que o Novo Testamento o é. O Novo Testamento foi escrito de modo a ser a carta para o povo do Deus criador no tempo que decorre entre a primeira e a segunda vinda de Jesus; o Antigo Testamento constitui a história dos actos anteriores, que são vitais para entendermos porque é que o Acto 4, e, portanto, também o Acto 5, são como são, mas não é apropriado para pegarmos nele e o empurrarmos para dentro do Acto 5 sem mais delongas. O Antigo Testamento tem a autoridade que um Acto inicial da peça teria, nem mais, nem menos. Isto origina, pois claro, a obrigação de estudar de forma cuidadosa a forma como o Antigo Testamento é e/ou não é ‘Autoridade’ para a vida da igreja; (…)

21. Assim, há algo difícil que tem de ser dito aqui, que é o seguinte: de certa forma o Antigo Testamento não é o livro da igreja da mesma forma que o Novo Testamento é o livro da igreja. Por favor não me entendam mal. O Antigo Testamento é em todos os sentidos importantes reafirmado por Paulo e por Jesus e por aí fora: é também o livro do povo de Deus, o livro de Deus, a palavra de Deus, etc. Mas o Antigo Testamento declara-se a si próprio como sendo o início da história que atingiu agora o seu clímax em Jesus; e, como diz a Carta aos Hebreus, ‘aquilo que se torna antiquado e envelhecido, está a ponto de desaparecer’, referindo-se ao templo. Mas está também a referir-se a todas as partes do Antigo Testamento que eram boas mas existiram para um tempo específico, como Paulo argumento de forma muito convincente em Gálatas 3. O Novo Testamento, baseando-se naquilo que Deus fez no Velho, é agora a carta-aliança para o povo de Deus. Nós não temos um templo, não temos sacrifícios – pelo menos não temos estas coisas com o mesmo significado que os Judeus tinham. Ambas são traduzidas em novos significados no Novo Testamento. Não temos leis kosher. Não temos a obrigatoriedade da circuncisão das crianças de sexo masculino como meio para pertencerem ao povo de Deus. Não mantemos o sétimo dia da semana como o Sabbath. Estes eram os marcos de fronteira que o Antigo Testamento providenciou para um tempo em que o povo de Deus era uma nação, uma entidade geográfica, com uma identidade racial e cultural. Agora que o evangelho se espalhou por todo o mundo, nós podemos ainda agradecer a Deus por ter preparado o caminho da forma que ele fez; mas é o Novo Testamento que serve de guia para a igreja.

(…)

22. A Bíblia, então, foi desenhada para actuar através de seres humanos, através da igreja, através de pessoas que, vivendo pelo Espírito, têm as suas vidas moldadas por este livro inspirado pelo Espírito. Para quê? Bem, como Jesus disse em João 20, ‘Como o Pai me enviou a mim, eu vos envio a vós’. Ele envia a igreja para o mundo para que ela seja e faça pelo mundo o que ele era e fez por Israel. (…) E essa agenda passa pela mesma confrontação com o mundo que Jesus teve com Israel, uma confrontação envolvendo julgamento e graça. É uma confrontação paradoxal pois é feita sob a autoridade de Deus. Não é feita com a autoridade que tão facilmente tentamos alcançar, uma autoridade que irá manipular, esmagar, controlar, ou meramente dar informação sobre o mundo. (…) O mundo está sempre a tentar atrair a igreja para que ela jogue o jogo segundo as suas próprias regras. E a igreja está demasiadas vezes ansiosa para o fazer, muitas vezes através da ideia de ‘Autoridade das escrituras’ como forma de controlar as pessoas, força-las a viver encaixotadas. Essas pequenas caixas muitas vezes têm mais que ver com condicionamento cultural desta ou daquela forma do que com as escrituras enquanto revelação de um Deus amoroso, criador e redentor.

23. Autoridade da igreja significa, então, a autoridade que a igreja possui para, com as escrituras nas mãos e nos corações, falar e agir em nome Deus no mundo. Não é simplesmente para que possamos dizer na igreja, ‘É permitido fazer isto ou aquilo?’ ‘Onde estão as linhas para delimitar os nossos comportamentos?’ ou, ‘Temos de acreditar nestas 17 doutrinas de modo a termos uma fé mesmo sólida?’… Deus quer que a igreja levante os olhos e veja os campos prontos para a colheita e que a igreja saia para o mundo armada com a ‘autoridade das escrituras’; não apenas para que as pessoas tenham uma vida íntegra dentro de um ghetto cristão, mas para que usem a autoridade das escritures de modo a declarar ao mundo que Jesus é Senhor. (…) A frase ‘Autoridade da Escritura’ é, portanto, uma espécie de abreviatura para o facto de que o Deus criador usa este livro como forma de equipar e chamar a igreja para estas tarefas. E este é, acredito, o contexto realmente bíblico para a doutrina da autoridade da Bíblia (…)

24. Porque é que a ‘autoridade’ funciona deste forma? Porque é que tem de ser assim? Porque Deus (como em Actos 1 e Mateus 28) quer envolver os seres humanos no trabalho que ele está a fazer. E enquanto estamos envolvidos nesse trabalho, estamos também a ser transformados. (…) Deus não quer colocar as pessoas em pequenas caixas para mantê-las seguras e sólidas e ilesas. É possível, no fim de contas, ser achado tão seguro que se está, na verdade, a dormir. (…) Lemos as escrituras não para evitar vida e crescimento. Deus nos perdoe por termos feito isso em algumas das nossas tradições. Também não lemos as escrituras de modo a evitarmos reflexão e acção, ou de modo a sermos esmagados, ou apertados, ou confinados a um formato desumanizante, mas de modo a morrermos e ressuscitarmos novamente nas nossas mentes. Porque, uma e outra vez, percebemos que, ao nos submetermos às escrituras, quando lutamos com as partes que não fazem sentido para nós, e quando somos conduzidos a um novo significado que não tínhamos vislumbrado antes, é como se Deus soprasse nas nossas narinas o seu próprio sopro – o sopro da vida. E tornamo-nos de facto seres vivos – uma igreja recriada à Sua imagem, mais plenamente humana, seres pensantes e plenamente vivos.

25. Essa é, acredito, uma das razões pelas quais Deus nos deu tanta história, tanta narrativa nas escrituras. A autoridade de uma história, como Jesus bem sabia, é a autoridade que realmente dá resultados. Atire-se um livro de regras à cabeça das pessoas, ou dê-se-lhes uma lista de doutrinas, e elas poderão fintar ou evitar essas regras, ou simplesmente discordar e irem às suas vidas. Mas conte-se uma história às pessoas e é como um convite para que elas entrem num mundo diferente; é um convite para partilhar uma cosmovisão ou, melhor, a ‘visão de Deus’. É isso que as parábolas fazem. Elas oferecem, como todos os contos de histórias cristãos fazem, uma cosmovisão que, quando alguém a encontra e percebe quão convincente ela é, silenciosamente desfaz a cosmovisão prévia da pessoa. As histórias determinam como as pessoas se vêem a si mesmas e como vêem o mundo. As histórias determinam como as pessoas se relacionam com Deus, com o mundo, consigo próprias, com os outros. Os grandes movimentos revolucionários contaram histórias sobre o passado, o presente e o futuro. Elas convidam as pessoas para que se vejam a si mesmas sob a luz dessas histórias, e as vidas das pessoas têm mudado como resultado disso. Se tal acontecesse a um nível meramente humano, quanto mais quando é o próprio Deus, o criador, a soprar uma História através da sua palavra.

(…)