Teodiceia IV

by davidraimundo

Uma bazuca para matar uma formiga. 

No artigo anterior fiz uma das mais alucinantes divagações teológicas da minha vida… Desta vez jogamos pelo seguro: vamos ser mais pragmáticos. Convém dizer algo que ainda não tinha sido mencionado: a interrogação de Jesus – Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste? – é também uma citação do Salmo 22. Aliás, diversos elementos que estavam presentes na cena da crucificação são ecos e concretizações desse Salmo. Assim, surge uma possível explicação: Jesus estava apenas a remeter a sua audiência para uma passagem do Antigo Testamento com a qual eles estavam familiarizados, contribuindo para, a posteriori, mostrar que este era um Salmo messiânico plenamente cumprido através do seu ministério.

Coloquei a palavra apenas em itálico porque ela é aqui a palavra-chave. Se por um lado é óbvio que Jesus nos remete para o Salmo 22 e para a sua identidade messiânica, também me parece óbvio que essa só poderia ser uma intenção secundária de Jesus. A finalidade de Jesus não pode ter sido apenas esta. Por isso, não vamos gastar muito parlapier a dissecar esta ideia.

Diremos somente que se Jesus proferiu tão inesperadas palavras, elas não podem estar desprovidas de sentido. Não podem ser uma mera ferramenta para nos conduzir a outra passagem bíblica. Algo de muito profundo estava a acontecer na comunhão de Jesus com o Pai e, qualquer que seja o significado daquele momento, esse significado tem muito mais relevância, muito mais interesse e muito mais implicações do que a referência ao Salmo por si só. Para sermos remetidos para o Salmo 22 já teríamos, aliás, elementos suficientes na cena da crucificação. Se Jesus usasse a sua interrogação apenas como uma espécie de jogo de destreza bíblica, seria como usar uma bazuca para matar uma formiga!

(Hoje reconhecemos que o Salmo 22 era um Salmo messiânico, mas suponho – mesmo não tendo qualquer fonte nesse sentido – que os judeus do primeiro século não o identificavam como tal. A descrição do salmista contrasta com tudo aquilo que os judeus esperavam do seu messias: esperavam um líder político e espiritual implacável e poderoso, mas o salmista diz de si próprio que é verme, e não homem, opróbrio dos homens e desprezado pelo povo. Dá para imaginar quão confusos terão ficado os judeus que assistiram à crucificação e perceberam as referências ao Salmo? E quão perplexos terão ficado os primeiros a compreender que aquele era um Salmo messiânico? O Messias que eles desejavam armado com espada e lança, veio armado com Graça e Entrega.)

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