Teodiceia III

by davidraimundo

Não tentes escalar esta montanha porque ela é feita de pudim!

A explicação que mais vezes ouvi para a forma desconcertante como Jesus crucificado questiona o Pai, explicação essa que está bem alinhada com a teologia reformada, é a seguinte:

Por muito amar a humanidade, Deus enviou Jesus com a missão de morrer na cruz e resgatá-la para Si. Jesus a caminho do monte do Calvário carrega a avalanche de pecado que os homens e as mulheres produziram ao longo da história e carrega também a cruz, o castigo que é a consequência desse pecado, o castigo que, segundo o profeta Isaías, garante-nos a Paz. (cf. Isaías 53.) (Tudo certo até aqui. Esta é, aliás, uma boa síntese do Evangelho – mas não a única!)

O argumento continua: lembremos que Deus é santo e que a sua santidade não permite que Ele tolere o pecado. (Que comunhão pode ter a luz com as trevas?) Ora, Jesus, na cruz, leva sobre si os nossos pecados, tornando-se também ele pecado. Assim, fica explicado o porquê de Deus abandonar Jesus: Deus abandonou Jesus por não poder tolerar o pecado da Humanidade que Jesus assumiu como seu. Naquela sexta feira é quebrada a comunhão entre Deus e Jesus que até então tinha sido perfeita. (Recordemos que Jesus afirmava ser um com o Pai, cf. João 10:30.)

Proponho agora um exercício: lê o parágrafo anterior e substitui Jesus por Deus. Resultado? Apetece dar cabeçadas na parede!

Acredito que, com as devidas nuances, haja verdade contida no argumento apresentado, mas salta-me mais à vista aquilo que ele tem de problemático.

O grande problema deste argumento prende-se com o facto de apresentar duas entidades, Deus e Jesus, como se elas fossem distintas, dissociáveis. Talvez este problema seja um dano colateral do qual não estamos, em geral, conscientes. Preocupam-me as teias de aranha que esse dano colateral cria nas nossas teologias. Preocupa-me que muitos de nós, cristãos, tenhamos uma teologia que, sem percebermos, não considera realmente que Jesus é Deus! Por isso, em primeiro lugar, é necessário assentar ideias relativamente a esta questão fulcral: Jesus de Nazaré é Deus?

Se Jesus não é Deus ou se é uma espécie de deus menor, subordinado ao Deus Pai cuja natureza não é necessariamente a mesma do Filho, então alguns dos potenciais problemas desta explicação desvanecem-se. Mas surge um problema muito maior: a partir daqui todo o Evangelho desmorona como uma montanha feita de pudim! Se Jesus não é Deus, a revelação que temos de Deus através de Jesus não é necessariamente perfeita. Se Jesus não é Deus, ainda não conhecemos Deus. Qualquer fé formada a partir de Jesus teria alicerces frágeis. Se Jesus não fosse Deus, mas apenas um enviado de Deus para lidar com o pecado da humanidade, então o deus unitário teria usado uma estratégia duvidosa: seria um deus demasiado santo para lidar com o pecado, mas admitiria que o seu Filho, também santo e sem mácula, viesse lidar com esse problema no seu lugar… Este deus assemelhar-se-ia a uma dona de casa armada em fina que, na hora de limpar a casa, varrer o lixo e desinfectar a sanita, chama a empregada para fazer o trabalho sujo. Esta divagação que estou a levar a cabo não é uma mera patetice inconsequente: há quem abdique da fé na trindade passando a crer num deus unitário tendo esta interpretação de Mateus 27:46 como catalisador dessa crença. Esse é um dos perigos que corremos ao tentarmos encaixar à força este versículo na teologia sistemática.

Se, por outro lado, acreditamos que Jesus é Deus, se acreditamos que Ele é uma das pessoas da Trindade, igual ao Pai e ao Espírito Santo em carácter e em importância, então salta à vista um problema óbvio: acreditamos que a proximidade com o pecado era intolerável para o Pai mas não o era para o Filho?

Na prática, esta parece ser, muitas vezes, a leitura que nós evangélicos fazemos. O Deus Pai não pode tolerar a proximidade com o pecado e, horrorizado, vira o rosto ao Filho como descrito no belíssimo hino How Deep The Father’s Love For Us (não deixará de ser um hino magnífico, mesmo que a teologia por ele promovida me suscite dúvida). Levada ao extremo, esta interpretação corre o risco de desembocar na visão de um Deus que tem tanto de amor como de ira. Na crucificação estariam visíveis essas duas faces de Deus: o Pai concretiza a ira do Deus trino punindo Jesus; Jesus concretiza o amor do Deus trino aceitando a punição no nosso lugar.

Confesso que esta concepção de Deus me causa desconforto e uma certa dose de urticária: não parece ser este o Deus Pai de Jesus de Nazaré a quem ele chamava, com intenso deleite, Abba Pai. Também não parece ser esta a leitura que o apóstolo Paulo faz daquilo que aconteceu na sexta-feira santa: Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo.

Infelizmente, esta ideia de um Deus cuja ira é directamente proporcional ao amor está muito disseminada e é defendida por alguns teólogos eminentes como o John Piper. Fica a questão: não há no Deus do John Piper uma dose de bipolaridade? (Talvez possamos, neste ponto, convidar o Brian Zahnd para participar na conversa. Esta conversa é, no fim de contas, um confronto entre duas cosmovisões diferentes e dificilmente compatíveis. Não me parece possível fazer uma síntese destas duas concepções de Deus. Eu, humildemente mas sem rodeios, afirmo a minha convicção de que a cosmovisão do Brian Zahnd está profundamente enraizada no Evangelho enquanto a do John Piper me parece outra montanha feita de pudim.)

Mais uma vez, reitero que a explicação anterior pode conter verdades e pode até parecer, aqui ou ali, muito plausível. Mas os problemas que levanta são inegáveis. Se Jesus é Deus, se, como Ele afirma, Ele é um com o Pai, então Jesus e o Pai têm exactamente o mesmo grau de intolerância para com o pecado: não o toleram! Aliás, talvez o que esteja em causa não seja tanto uma questão de tolerância: Deus abomina os nossos desvios morais e éticos e não vem com falinhas mansas quando se trata de corrigir a desobediência do homem. Mas nada disso é suficiente para que Deus abandone o pecador à sua sorte! O plano que nasceu no coração da Trindade para redimir o mundo vai mesmo no sentido contrário: cremos num Deus que, por tanto amar, se faz próximo do que lhe é intolerável… torna-se naquilo que lhe é intolerável! Deus não abandona os homens à sua sorte, mas providencia uma solução impensável, imponderável, paradoxal!

Se tens seguido até aqui a linha de raciocínio (se é que há alguma linha de raciocínio explícita no meio das minhas divagações), poderás agora introduzir uma espécie de contra-argumento: ok, o Pai e o Filho têm o mesmo grau de intolerância para com o pecado, mas não será que aquela era uma missão reservada ao Filho – era o cálice amargo do qual Jesus tinha de beber – e por aí se explica que o Pai o tenha abandonado?

Esta é uma excelente questão! Sim, podemos seguir esta linha, desde que se salvaguardem os aspectos mencionados anteriormente: Jesus é Deus; as três pessoas da Trindade são iguais em carácter e em importância; é o amor que motiva o Deus trino a agir em favor da Humanidade.

Mas vou mais longe e arrisco sugerir que talvez o Pai não tenha abandonado Jesus. Pelo menos não da maneira que a palavra abandono sugere, que seria, aos meus ouvidos, algo do género: não te posso suportar, desenrasca-te sozinho! Não é desta forma que Deus nos trata e julgo que não foi esta a reacção do Pai ao ver o Filho crucificado assumindo o nosso pecado. O porquê de Jesus ter sentido o abandono do Pai terá, parece-me, uma explicação menos óbvia e mais profunda…

Bom, julgo que agora estamos mais perto de uma montanha rochosa. Vamos ver se conseguimos escala-la.

Antes disso, fazemos uma pausa para lavar as mãos. O pudim deixa nos dedos esta sensação pegajosa…

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