Teodiceia II

by davidraimundo

O problema do mal: um Deus que, por amor, se contém. 

Na introdução referi um versículo cujo significado é, para mim, uma questão teológica bicuda! Outra questão bicuda com a qual os filósofos e teólogos se têm debatido ao longo da história é o Problema do Mal: porque é que um Deus bom permite a existência do mal? Uma tentativa de resposta a esta questão será uma Teodiceia, termo que dá o mote para esta série de textos.

O Problema do Mal, se colocado no referencial do abstracto e do universal, parece-me, muitas vezes, uma falsa questão: o mal existe porque existe o livre arbítrio, sendo então o mal gerado pelas nossas escolhas. Pessoalmente, não acredito que Deus tenha criado seres cujas acções ou cujas vidas estão totalmente programados, seres forçados a viver dentro do determinismo de um sistema fechado no qual as criaturas não exercem qualquer tipo de escolha. Não. Deus criou o homem em amor e a liberdade concedida ao homem é, também, um sinal concreto desse amor. Inclusive a liberdade que nós, criaturas, temos para rejeitar o Criador, com todo o Mal que daí resulta. Neste tema, acompanho sem reservas a tese do Ed René Kivitz num texto que aborda o Problema do Mal de uma forma muito mais eloquente (possivelmente seria mais prudente da minha parte limitar-me a partilhar esse texto, mas sinto-me impelido a aventurar-me também nesta matéria!).

“Na verdade, “Deus não tinha escolha”. Ao decidir criar o ser humano à sua imagem e semelhança, deveria criá-lo livre. Desejando um relacionamento com o ser humano, deveria dar ao ser humano a liberdade de responder voluntariamente ao seu amor, sob pena de ser um tirano que arrasta para sua alcova uma donzela contrariada. Somente o amor resolveria esta equação, pois somente o amor possibilita a liberdade para que o outro possa inclusive rejeitar o amor que se lhe quer dar.”

Suponho que no campo filosófico a discussão em torno do Problema do Mal possa ser arrastada através de argumentos infindáveis, mas, para mim, a resposta que acima aflorei é suficiente e pacífica, enquanto resposta universal e abstracta.

Muito mais difícil é responder ao Problema do Mal do ponto de vista pessoal, quando colocamos o problema no referencial individual e concreto, como um problema do foro existencialista. Ou seja, uma coisa é a resposta abstracta que pode ser aplicada a toda a humanidade de forma genérica. Outra coisa é quando temos em mente acontecimentos concretos, quando o sofrimento ganha contornos definidos, quando o sofrimento ganha rosto, carne e osso. Sobretudo quando o sofrimento se personifica de forma aparentemente gratuita, aleatória e cruel. Nunca me hei-de esquecer do exemplo que o meu professor de Psicologia deu para explicar o seu ateísmo: tratava-se do caso de uma criança que estava a brincar no recreio da escola e foi atingida por um pneu que, tendo-se soltado de um camião, rolou disparado a grande velocidade. A criança morreu esmagada pelo pneu. O meu professor dizia que não acreditava em Deus porque um Deus bom nunca poderia permitir que algo tão aleatoriamente horroroso acontecesse.

Não é fácil contrariar o meu professor. Talvez os meus amigos mais próximos do calvinismo arriscassem a tentativa de explicar o sucedido tendo em mente os insondáveis propósitos de Deus. Eu, pessoalmente, não acredito que seja da vontade de Deus que uma criança morra esmagada por um pneu. Não acredito que as tragédias que diariamente entram pelos nossos olhos e corações através dos media (ou através das nossas próprias vidas) possam ser explicadas segundo a ideia de que se tratam de elementos necessários num plano maior, peças que encaixam para formar um puzzle cuja beleza só poderá ser vista no final. Não aceito chamar bem (nem sequer ‘mal necessário’) a situações que são terríveis, horrendas, antíteses daquilo que acreditamos ser a vontade de Deus.

Talvez seja possível que a explicação para horrores como aquele que o meu professor contou passe, também, pelas consequências do exercício do livre arbítrio do homem, apesar de haver aqui uma relação aparentemente muito mais indirecta. Às vezes penso que talvez a Queda da humanidade tenha contaminado até as estruturas que regem o funcionamento do mundo, como se a própria lei da causalidade tivesse ficado impregnada de uma certa perversidade e malignidade… O que é certo é que, em situações destas, mais depressa coloco a responsabilidade no Homem do que em Deus.

Sim, acredito que Deus tinha o poder de desviar aquele pneu. Acredito que Deus não exerceu esse poder porque a norma é não intervir no desenrolar natural dos acontecimentos: o aparente silêncio de Deus no caos da vida é também o preço que a humanidade paga pelos caminhos que trilha. Acredito que Deus, por tanto sofrer com o nosso sofrimento, tem de se conter para não intervir constantemente. Acredito que o coração de Deus dói infinitamente mais do que o nosso cada vez que uma das suas criaturas opta pelo mal ou é atingida por ele. Contudo, não se conclua daqui que a minha fé é quase deísta: é verdade que eu acredito que Deus não está constantemente a intervir no desenrolar natural dos processos, mas acredito na sua presença secreta aqui embaixo e acredito que Ele está constantemente a intervir nos corações que lhe são receptivos! Além disso, mantenhamos sempre em mente que Ele interveio no desenrolar da História de uma vez por todas, de forma definitiva, através de Jesus.

Nesta série de textos temos, para já, duas questões sem resposta: como explicar a interrogação de Jesus na cruz – Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste? – e como explicar o Problema do Mal do ponto de vista existencialista. A minha suspeita é que existe uma conexão muito forte entre as respostas a estas duas questões. Daqui a uns quantos textos tentaremos dizer alguma coisa acerca dessa conexão.

Para já, nos próximos textos, vamos analisar algumas das propostas que podem ser formuladas para interpretar a tão desconcertante interrogação de Jesus registada em Mateus 27:46.

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