A Bíblia que afinal era uma andorinha

by davidraimundo

Entre os protestantes evangélicos há quem acredite que a escrita dos livros que compõem a Bíblia foi plenamente inspirada por Deus, num sentido extremo do termo ‘inspirado’: uma inspiração total, verbal, palavra a palavra, ficando assim o texto original determinado pelo próprio Deus, sem mácula, sem intervenção de erro humano. Assim, todo o texto é plenamente confiável no seu sentido mais imediato e literal. Quem assim encara a Escritura Sagrada dirá que ela não é apenas inspirada, mas também infalível e inerrante.

O primeiro problema que se coloca quando se aplicam estes termos é que é possível duas pessoas afirmarem a infalibilidade da Bíblia, estando, no entanto, a afirmar coisas completamente diferentes. Por exemplo, na Declaração de Chicago lemos o seguinte: o termo ‘Infalível’ significa que a Escritura nunca induz em erro, sendo verdadeira e confiável em todos os assuntos que aborda. Genericamente até parece uma definição pacífica, mas, como consta na própria Declaração, as implicações que daqui se deduzem são muito abrangentes: propõe-se que, segundo esta definição, as referências bíblicas à criação, ao dilúvio e a outros episódios ali relatados acerca dos primórdios da vida humana e, em particular, do povo judaico, são também confiáveis do ponto de vista científico e histórico.

O Brian Zahnd, por seu lado, diz que a Bíblia é infalível, sim, na sua missão de apontar para Jesus. E também ele afirma a inspiração do texto bíblico, mas em moldes distintos: a Bíblia é o testemunho inspirado da verdadeira Palavra de Deus que é Jesus Cristo. Confesso a minha tendência: acompanho muito mais a abordagem do Brian Zahnd do que a exposição feita na Declaração de Chicago. Espero que esta confissão também sirva para explicar que, o que se segue, não é uma tentativa de negar a inspiração, infalibilidade ou inerrância da Bíblia, mas é muito mais um convite à revisão desses termos que, receio, originem uma abordagem que corre o risco de se tornar, por vezes, bibliolatra. Não é totalmente desprovida de razão a crítica que alguns teólogos católicos fizeram aos protestantes na sequência da Reforma: rompemos com Roma e com o Papa, para nos prendermos de novo a um Papa de Papel, encarando a Bíblia, na prática, como autoridade suprema na Terra, uma espécie de mediadora entre Deus e os homens. Convém então recordar que é da própria Bíblia que recebemos a declaração de que a autoridade suprema na Terra foi dada a Cristo, bem como a exclusividade no papel de mediador entre Deus e os homens.

O primeiro ponto que é necessário esclarecer quando falamos de inspiração, infalibilidade e inerrância é, portanto, a definição destes termos. É provável que a Declaração de Chicago seja aquela que revela as definições mais generalizadas dos termos. Ou seja, quando as pessoas falam em inerrância bíblica, estão maioritariamente a referir-se à inerrância conforme definida nessa Declaração. Ora de uma pessoa que encara a Bíblia nos moldes em que a Declaração de Chicago a apresenta, diz-se que tem uma visão elevada das Escrituras. A expressão em inglês é mais comum, conforme uma pesquisa no google poderá atestar: trata-se de ter uma High View of Scripture. (Expressão também ela altamente criticável. Na prática, esta expressão transmitirá a falsa ideia de que quanto mais a nossa interpretação bíblica tiver em conta o contexto cultural, político, social, histórico, enfim, a cosmovisão, dos autores bíblicos, mais fraca é a nossa visão das Escrituras.)

Tudo o que apresentei neste texto até aqui tem como objectivo introduzir uma pequena rábula acerca da High View of Scripture. Trata-se de uma sátira que deve ser entendida em parte como uma provocação, sim, mas não uma mera provocação gratuita. É também um alerta que me parece válido e pertinente: corremos o risco de desenvolver uma visão das Escrituras tão elevada, mas tão elevada que elas deixam de dizer respeito à nossa vida concreta, aqui no planeta Terra, passando apenas a constituir teorias metafísicas sem relevância prática. (Este é o problema de muita teologia que está amplamente disseminada no meio evangélico e que tem um cariz perigosamente gnóstico.) Se fazemos da Bíblia o centro da nossa fé, há também o perigo real de essa fé ser fatalmente abalada no dia em que a dúvida floresce na nossa mente, no dia em que é colocado em causa o princípio da inerrância extrema que serve de base à fé.

Então aqui vamos nós:

Era uma vez… um homem que tinha uma High View of Scripture.

A View of Scripture deste senhor foi subindo como um balão cheio de hélio e foi-se tornando tão High, mas tão High que, páginas tantas, ele já precisava de óculos para conseguir distingui-la ao longe.

Mais tarde, passou a usar binóculos e nunca mais desviou o olhar do objecto que para si era o mais precioso: olhos fixos na Scripture que, entretanto, era já um ponto preto no céu nublado.

Com receio de perder o pontinho de vista, o homem mantinha o olhar congelado. Não parava para dar atenção à vida e ao bulício que se desenrolavam à sua volta. Um dia aconteceu a tragédia: o pontinho preto deu meia-volta, mergulhou para o solo em voo picado e o homem percebeu, estarrecido, que o que ele julgava ser a sua High View of Scripture era, afinal, uma singela andorinha.

Da Scripture já não havia sinal. No céu nublado há muitos pontinhos pretos e, a meio do processo, o homem terá confundido a Scripture com algum deles.

Então, o homem retirou os binóculos, olhou em redor, e entrou em pânico. Estava sozinho no chão da vida.

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