Poderá o Martim Moniz ter algo a ver com o Noé da Bíblia?

by davidraimundo

Será a história de Noé um mito ou um acontecimento histórico? É uma excelente pergunta! Houve mesmo um homem chamado Noé que aos 600 anos de idade viu os céus a desabar sobre o mundo, refugiando-se numa arca repleta de animais? E será que o dilúvio cobriu todo o planeta Terra ou podemos colocar a hipótese de ter de facto ocorrido um dilúvio, mas limitado em termos geográficos? Em alternativa, poder-se-à tratar de uma lenda oral que o povo hebreu adoptou como parte integrante da sua cultura e da sua cosmovisão? Será uma versão hebraica de mitos antigos também presentes nas culturas e religiões vizinhas relatando cataclismos mundiais? E a generalização desse tipo de mitos por entre povos de diferentes culturas e regiões será sinal de que os mitos resultam de algum acontecimento concreto? Será que devemos entender os registos de Génesis acerca de Noé como a biografia de um homem de carne e osso ou como um relato mitológico naturalmente presente na cultura hebraica à semelhança das outras culturas? Será que a história de Noé nos providencia verdades sobre o Homem e sobre Deus que permanecem válidas e significativas mesmo que se trate de um mito ou terá de ser forçosamente uma história verídica para com ela podermos aprender alguma coisa?

Já estão cansados da torrente de perguntas? Ora lamento dizer que eu provavelmente não lhes sei responder, nem é esse o objectivo deste texto. Pretendo direcionar o texto para outro assunto, ainda que relacionado com estas questões:

Alguns cristãos defendem que a história de Noé é verídica e a leitura dos capítulos do Génesis que o mencionam deve ser uma leitura literal por encontrarmos referências a essa história noutras passagens bíblicas. Do próprio Jesus ficaram registadas afirmações que parecem fortalecer esta tese: “E, como aconteceu nos dias de Noé, assim será também nos dias do Filho do homem. Comiam, bebiam, casavam, e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio e os consumiu a todos”. Perante estas palavras, há quem creia que Jesus está indirectamente a confirmar que Noé existiu mesmo e o dilúvio é um acontecimento histórico. Mas este argumento pode ser colocado em causa, penso eu. Jesus era judeu, estava imerso na cultura e na cosmovisão judaica e as pontes que naturalmente estabeleceu entre a sua mensagem e o Antigo Testamento serviam o propósito de demonstrar que o Antigo Testamento é uma espécie de bússola que nos conduz ao próprio Jesus. Mais do que atestar a veracidade factual dos episódios ou das personagens referidas, Jesus estava interessado em estabelecer paralelismos e ilustrações a partir de histórias com as quais os seus ouvintes estavam familiarizados. Certamente podemos argumentar que, tendo Jesus natureza divina e, portanto, omnisciência, Ele saberia se os episódios eram ou não verídicos. Saberia se Noé tinha ou não existido e, a bem da verdade dos factos, poderia ter sido mais esclarecedor caso a história de Noé seja apenas um mito, para que nós hoje, no século XXI, não andássemos às voltas com esta interrogação. Esta hipótese é decerto contestada por outros teólogos que, baseando-se por exemplo no capítulo 2 da Carta aos Filipenses, acreditam que Jesus, esvaziando-se da sua natureza divina e fazendo-se semelhante aos homens, cumpriu o seu ministério terreno como homem, abdicando das suas prerrogativas divinas.

Bom, mas já me estou a desviar do assunto em causa: o que está em causa é que provavelmente os judeus do primeiro século não estavam tão preocupados como nós estamos em saber se a história de Noé era mito ou facto. É possível que a assumissem como facto, mas penso que não davam ao assunto a relevância que nós lhe damos hoje. Somos nós que, depois de atropelados pelo hiper-racionalismo da Modernidade, consideramos ser obrigatório o deslindar do mistério. O facto parece-nos ser território muito mais seguro do que o mito*. Queremos que tudo seja preto ou branco e não há espaço para o enigmático, o metafórico ou o poético. Parece que a verdade só pode ser comunicada através de factos e não através de contos e de metáforas. Esta nossa pretensão é estranha e incoerente: nunca esqueçamos que o próprio Jesus falava por Parábolas!

Proponho agora alguns exercícios de imaginação um tanto ou quanto arriscados:

Vamos supor, por um momento, que o Manuel Alegre era eleito Presidente da República (eu gostava de ter um poeta na presidência) e, num assomo de inspiração, discursa assim: “Vivemos dias difíceis, o país enfrenta dificuldades, a situação económica afigura-se diante de nós como um gigante medonho. Mas quero assegurar aos portugueses e às portuguesas que cumpriremos com dedicação e coragem o nosso dever. Assim como o Homem do Leme enfrentou o Mostrengo, assim nós enfrentaremos esta situação durante o meu mandato e, permanecendo unidos neste esforço, vamos dobrar mais uma vez o Cabo das Tormentas, porque do lado de lá mora a Esperança!” Será que acusaríamos o Manuel Alegre de estar a mentir? (Bom, este talvez não seja um bom exemplo: tratando-se de um político, é elevada a probabilidade de ser um discurso demagógico ou falacioso.) Será que daqui a 500 anos, os portugueses, ao lerem os registos do discurso do Manuel Alegre, passariam a acreditar que o Homem do Leme e o Mostrengo eram gente de carne e osso, em vez de figuras lendárias que o Fernando Pessoa deixou no imaginário do país?

Um outro exemplo que me ocorreu: podemos imaginar o Garcia Pereira a discursar nestes moldes: “Assim como a Brites de Almeida castigou justamente os estrangeiros invasores do nosso país, castigaremos nós também a Troika caso não nos seja restituída a total soberania sobre o nosso destino e as nossas políticas! Precisamos de políticos que imitem a Padeira de Aljubarrota, mas aqueles que nos têm governado não têm essa intenção, nem essa coragem! É hora de mudar! É hora de votar PCTP-MRPP para nos vermos livres dos invasores!” Bom, não sei se o Garcia Pereira adoptaria um discurso assim tão agressivo, além de que a temática de Aljubarrota já foi esvaziada através das tretas do irrevogável Paulo Portas. Mas, novamente, fica a questão: o que diríamos deste discurso de Garcia Pereira? Será que ao fazer referência a uma figura mítica o discurso deixa de ter significado? Ou será que o discurso teria significado precisamente porque faz referência a uma heroína lendária com a qual estamos familiarizados e que se liga bem à questão da intromissão da Troika na soberania do país?

Faço notar que o que está aqui em causa é que nestes discursos fictícios é feita referência a algumas personagens e acontecimentos de modo a transmitir uma determinada mensagem, sem que o facto de se tratarem de acontecimentos não verídicos (pelo menos assim crê a maioria dos historiadores) transpareça no discurso. Poderá Jesus ter feito o mesmo, como recurso estilístico, em algumas das suas mensagens?

Vamos fazer um exercício de imaginação assim a puxar ainda mais para o absurdo: supomos que Deus não tinha encarnado como um judeu do século I, mas encarnava agora como um português do século XXI. Jesus Cristo recrutava discípulos por entre a população portuguesa e comunicava a sua mensagem no nosso território. Aqui operava os seus sinais e atraía muitos a si. Em privado, explicava aos discípulos que mais de perto o seguiam que era necessário que Ele morresse para que muitos se pudessem salvar. Talvez chegasse a fazer referência ao lendário Martim Moniz (no caso, uma personagem que serviu um propósito demasiado bélico, mas não me ocorre agora outro exemplo com o mesmo sentido): Jesus é aquele que se coloca a si mesmo de forma voluntária no vão da porta, para que muitos a possam atravessar e achar-se do lado de lá em segurança. Mais tarde, depois da morte e ressurreição de Jesus, o apóstolo Pedro era perseguido e preso por elementos da Troika (só para manter o paralelismo com as forças de ocupação da época). Na prisão, Pedro recebe a visita de um anjo que o conduz à liberdade. Aos restantes discípulos tugas, talvez Pedro se explicasse nestes termos: “Como o pão que a Rainha Isabel levava no regaço foi transformado em rosas, assim as correntes com que fui preso foram desfeitas e os ferrolhos das portas que me trancavam foram transformados em pó.”

Talvez estas falas e estas ilustrações pudessem ser usadas da forma que sugiro. Ou talvez não. É lamentável que a imaginação não me permita lembrar de melhores exemplos para defender o meu argumento, mas creio que ficou perceptível qual é esse argumento. Quanto à validade do mesmo, que cada um retire as conclusões que a sua consciência ditar.

Nota: este argumento serve também como uma possível resposta a quem defende a criação em 6 dias de 24 horas a partir da referência que lhe é feita em Êxodo 20. Tal como o Manuel Alegre poderia recorrer a elementos d’A Mensagem para redigir os seus discursos, o Génesis 1 pode perfeitamente ser um poema utilizado, em certos contextos, como fundamento para princípios legais que regiam, no caso, a sociedade hebraica. Quão fantástico seria viver num país cuja constituição fosse dada em versos, metáforas e aliterações?

*Não deixo entretanto de reafirmar que os factos são essenciais para dar base sólida à fé cristã. O apóstolo Paulo explicava-o assim: se Cristo porém não ressuscitou, então é vã a nossa fé. E o C. S. Lewis tem a este nível uma frase brilhante: o mito tornou-se facto quando Deus se fez homem. Convém também lembrar, puxando a brasa à minha sardinha, que o mesmo C. S. Lewis que tantos cristãos têm em alta estima era muito liberal na leitura que fazia dos primeiros capítulos do Génesis.

 

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