Para ler a Bíblia, sê filósofo!

by davidraimundo

Na minha timidez adolescente lançava ao ar poucas questões. Deixava que elas se fossem apoderando calmamente de mim sem ter a coragem de as verbalizar. Muitas vezes sem ter sequer a capacidade de as formular interiormente. Era uma amálgama de questões bicudas, uma salada heterogénea de assuntos e interrogações, varrida para baixo do tapete…

A filosofia não me parecia uma disciplina atraente: ela força-nos a encarar de frente as incoerências dos nossos pressupostos, pelo que uma pessoa só pode abraçar a filosofia vencendo a timidez. Vencer a timidez foi desafio para muitos anos (pelo menos aquela mais perniciosa, porque a dita cuja como um traço de personalidade ainda se mantém). No 11º ano tive notas de excelência nessa disciplina porque a introdução à lógica formal era a minha praia! Adorei essa parte da matéria. Mas, a bem da verdade, convém dizer que as minhas notas em filosofia deviam fazer corar de vergonha o sistema de ensino: quando a matéria fugia à lógica pura e quando se tratava de discorrer sobre os temas filosóficos do programa, limitava-me a empinar, marrar e reproduzir na folha de teste aquilo que estava exposto nos manuais. A filosofia no sistema escolar devia ter como alvo o desenvolvimento do pensamento filosófico autónomo por parte dos alunos (por mais superficial que fosse). Na altura, eu não me apoderei de qualquer tipo de pensamento filosófico. Infelizmente.

Como se não bastasse o meu bloqueio filosófico pessoal, encontrei na subcultura evangélica uma tendência estranha para maltratar a filosofia. O princípio fundamental da filosofia é fazer perguntas. Mas as igrejas nem sempre convivem bem com perguntas, apesar de encontrarmos muita filosofia na Bíblia. O amor à sabedoria é, até, um dos temas principais do livro de Provérbios, uma compilação de reflexões, conselhos e exortações que nos chega em grande parte pela mão do Rei Salomão.

O livro de Eclesiastes é um tratado filosófico existencialista. Com uma escrita muita crua, muito humana, o autor, que talvez seja o mesmo Rei Salomão, vai discorrendo sobre a finitude da vida, a vaidade do homem, transparecendo um certo niilismo desencantado. O Sermão do Monte – a mensagem de Jesus que lemos nos capítulos 5, 6 e 7 de Mateus – está também repleto de filosofia: tem tudo a ver com o sentido da vida, a verdadeira felicidade, a construção de uma cosmovisão onde o outro me é igual e o amor é o alicerce. Aliás, gosto de pensar que o Sermão do Monte funciona, em parte, como uma espécie de Carta Aberta ao Rei Salomão. Ou, se quisermos, como uma Carta Aberta aos reis Salomões que moram em cada um de nós.

O prólogo do Evangelho de João é uma ponte com a filosofia estóica então vigente: o Logos que é ali identificado com Jesus Cristo era, para os estóicos, a razão universal, a ordem divina impessoal, que governava o universo. Também Paulo tem diversas referências aos filósofos gregos, destacando-se Actos 17:28 onde chega ao cúmulo de usar uma frase de um poeta grego para fazer teologia… (O pessoal do tribunal do santo ofício da inquisição reformada teria repreendido Paulo e eliminado essa frase.)

Serve isto para concluir que a filosofia não é inimiga do cristianismo. O cristianismo é uma metanarrativa que apresenta respostas para as questões mais básicas do ser humano. Sim, aquelas questões que salpicavam as páginas dos livros de Introdução à Filosofia: Como vim aqui parar? Qual o propósito disto tudo? Qual é o meu valor e o valor do outro? O que é a ética? Porque devo ser bom? O que é a vida? Para encontrar respostas para estas e outras questões é preciso começar por verbalizar essas questões. O cristão não está impedido de fazer perguntas. Pelo contrário: o desafio é o de sermos cada vez mais honestos connosco próprios, trazendo à tona as dúvidas, as inquietações e as motivações mais camufladas das nossas mentes e corações, para que elas sejam resolvidas ou peneiradas em plena luz do dia, em vez de varridas para baixo do tapete.

Actualmente não me sinto capaz de aprofundar estudos na área da filosofia. Limito-me a fazer umas incursões muito superficiais no pensamento de alguns filósofos (Kierkegaard é o meu preferido, mas se tivesse coragem lia Sócrates!). E li recentemente O Mundo de Sofia, considerando-o agora uma obra brilhante (podia ser manual de Escola Dominical?).

O objectivo de muitos dos textos que publico neste espaço é duplo: obrigar-me a mim próprio a verbalizar questões e lança-las ao ar e, simultaneamente, dar a conhecer alguns pedaços de respostas que aqui ou ali vou apanhando. O objectivo deste texto em particular é encorajar os eventuais leitores a fazer também perguntas.

Talvez não tenhamos o tempo e a capacidade para nos dedicarmos à filosofia enquanto disciplina académica. Mas, como aprendi n’O Mundo de Sofia, todos podemos ser filósofos amadores. Todos podemos fazer perguntas. Todos podemos trepar pelos pêlos finos do coelho branco! Quando vamos ao texto bíblico também podemos ser filósofos. Levamos as nossas questões e o texto, porque é versátil, vai contribuindo para moldar as respostas, quer aos dilemas existenciais universais, quer às nossas angústias mais pessoais. Para além disso, podemos fazer perguntas ao próprio texto, como diz a Bianca, uma amiga que, talvez sem querer, contribuiu muito para eu aprender este princípio: para ler a Bíblia, ser filósofo! Venham então daí trepar pelos pêlos finos do coelho branco!

Anúncios