Deus não é poeta e os fósseis e a cosmologia são mentirosos?

by davidraimundo

A forma como abordamos a Bíblia pode levar alguns de nós a acreditar que Deus criou o mundo em 6 dias de 24 horas. Afinal, isso é o que lemos no capítulo 1 de Génesis se o lermos à letra, no seu sentido imediato e literal*. Sendo Génesis parte da Bíblia, tida como palavra de Deus, a dicotomia surge mais ou menos nos seguintes moldes: ou o Génesis 1 é uma narrativa válida do ponto de vista científico ou “Deus mentiu”.

Esta é uma perspectiva legítima, mas, a meu ver, há muita margem para desfazer a dicotomia sem beliscar o valor e o papel da Bíblia. Há que lançar ao ar algumas questões: qual é o estilo literário de Génesis 1? Qual é a origem/autoria deste texto? Qual a mensagem fundamental que o(s) seu(s) autor(es) pretende(m) comunicar? Que tipo de cosmovisões estavam frente a frente nas comunidades que constituíam as audiências primárias desta mensagem? Não há necessidade de responder de forma apressada a estas questões. Na verdade, podemos levar uma vida inteira a ruminar estas e outras questões sem nunca chegar a uma resposta fechada… A Matemática ensinou-me que, geralmente, as respostas mais apressadas são também as mais erradas.

Lançadas as questões, não abrir espaço à possibilidade de que o Génesis 1 tenha uma forte carga poética é uma opção legítima. Mas essa opção parece trazer consigo a implicação de que Deus não escreve poemas. Dentro desta perspectiva não há espaço para que o Supremo Arquitecto do Universo tenha veia poética, quer no que diz respeito ao próprio processo da Criação, quer no que diz respeito à forma como inspirou pessoas para fazer chegar a nós um registo desse processo. Eu, pessoalmente, gosto de imaginar que Deus criou o universo lentamente (talvez até tenha usado a evolução nesse processo, sei lá eu!), parando para apreciar a sua obra, dando algumas pinceladas mais enérgicas quando se entusiasmava com as maravilhas peculiares que iam resultando da sua infindável criatividade… é mais ou menos como imagino o Claude Monet a pintar os seus magníficos nenúfares. Sim, é uma visão de Deus muito antropomórfica, mas eu sou homem, não sou anjo: é como homem que consigo imaginar estes fenómenos e creio que Deus (cuja natureza ultrapassa de forma exponencial tudo aquilo que sou capaz de imaginar) não fica melindrado comigo.

Portanto, podemos acreditar que Deus criou o mundo em 144 horas e que o nosso planeta azul só aqui anda a girar em torno do sol há cerca de 6000 anos. Assim, podemos ler o Génesis 1 como se se tratasse de um artigo produzido pela ciência moderna. Esta é uma abordagem pragmática que, inevitavelmente, conduz a um conflito insanável entre fé e ciência: se para acreditarmos que Deus não mentiu temos de acreditar que a terra e o universo têm uma idade muito inferior àquela que aparentam ter, então são os fósseis e a cosmologia que mentem descaradamente. É a Natureza que é mentirosa! Ora, com base na própria Bíblia, acreditamos que Deus também se revela à humanidade através da Natureza. Receio que advogar desta forma o criacionismo em 6 dias de 24 horas se possa resumir assim: para que a revelação escrita não contenha qualquer tipo de “mentiras”, é a revelação natural que se torna, forçosamente, uma aldrabice. Coitado do Tomás de Aquino!

A propósito deste tema, é interessante notar que antes de ser formulada a teoria do Big Bang, a teoria das origens mais defendida era a de que o universo não tinha tido um início, mas sempre tinha existido. Ora a teoria do Big Bang até poderia ser recebida como um argumento a favor do criacionismo, mas, ao invés, foi demonizada sem misericórdia.

Este assunto está actualmente a agitar as comunidades evangélicas nos Estados Unidos porque os Gungor, uma banda do caraças, tornaram público a sua crença no evolucionismo. Tiveram concertos cancelados e vão sendo queimados vivos nessa fogueira sempre acesa que é o mundo globalizado através da web. Afinal, o santo ofício da inquisição ainda funciona.

*A propósito do termo ‘literal’, gosto da perspectiva que o NT Wright expõe neste vídeo e que se pode resumir assim: Génesis 1 é literal no seu sentido próprio, a saber, que Deus criou os céus e a terra para aí estar presente e se relacionar com o homem.

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