Em cada homem, um irmão!

by davidraimundo

Assim canta a Norah Jones num original da banda Old Crow Medicine Show:

“We’re all in this thing together
Walkin’ the line between faith and fear
This life don’t last forever
When you cry I taste the salt in your tears”

É uma canção que nos coloca a todos em pé de igualdade nesta aventura chamada vida. Somos todos peregrinos em busca de conforto, segurança, esperança, amor ou outras coisas que julgamos fundamentais para preencher os nossos vazios existenciais… mesmo que muitos de nós não tenhamos consciência disso.

A humanidade é uma enorme família fragmentada pelas divisões e conflitos étnicos, religiosos, ideológicos, económicos, geográficos, culturais e por aí fora… No fundo, somos todos semelhantes uns aos outros, nas nossas graças e desgraças, interrogações, anseios, expectativas, mas a ideia de que há o nós e há os outros germina nas nossas mentes com muita força e fica lá inculcada como lapa. Nascem os preconceitos, rótulos, sentimentos de superioridade e de inferioridade. Nascem as barreiras, nascem as guerras.

Ora, um dos desafios da Igreja é promover a desfragmentação da sociedade. Um dos desafios do cristão é encarar o próximo como alguém que lhe é igual em valor e em dignidade. Paulo escreveu assim há Igreja na Galácia: “Não há diferença entre judeu e não-judeu, entre escravos e pessoas livres, entre homem e mulher. Agora constituem um todo em união com Cristo Jesus.” Na Igreja caem por terra as divisões étnicas, sociais e de género (é interessante referir que Paulo está aqui na vanguarda de uma compreensão mais profunda e mais perfeita da igualdade de género, dentro de uma cultura profundamente machista). Noutras exortações Paulo completa esta ideia de uma forma muito prática: levem as cargas uns dos outros, alegrai-vos com os que se alegram, chorem com os que choram (provem o sal das lágrimas dos outros), considerem os outros superiores a vocês…

Assim fica pintado o quadro de uma Igreja que ilustra uma nova maneira de ser humanidade, uma humanidade à imagem e semelhança de Jesus Cristo. Ora a Igreja não é um grupo estático e esta realidade de que não há o nós e os outros não é para ser vivida apenas entre quatro paredes ou de uma forma institucionalizada. A Igreja é orgânica, dinâmica, aberta, de fronteiras imperceptíveis e sempre prontas a ganhar terreno. Os princípios que a Igreja tenta promover na sua vivência interna, extravasam naturalmente para o exterior, atraindo, cativando, provocando, convidado a todos. (Talvez até fosse mais correcto afirmar que a Igreja não tem vivência interna, porque tudo quanto faz deve servir de luz para todos). A realidade de que em Cristo não há diferença entre judeus e não-judeus (tão necessária nos tempos de Paulo) pode estender-se hoje às divisões confessionais entre cristãos: talvez Paulo chegasse a afirmar que, para aqueles que estão em Cristo, não há diferença entre católicos, evangélicos e ortodoxos, por exemplo. (Isto não implica que Paulo não tomasse posição quanto às doutrinas de uns e de outros e não viesse a combater com zelo aquilo que ele considerasse os desvios teológicos graves das várias correntes.)

Rejeito uma abordagem à fé cristã que não seja inclusiva. Rejeito essa abordagem à luz do Deus que se revela através de Jesus Cristo: numa sociedade machista, sionista, exclusivista, com muita influência farisaica, Jesus come em casa de “pecadores” , muda a vida de uma mulher estrangeira de Samaria, de uma prostituta, de um centurião romano, de leprosos considerados impuros, de cegos considerados amaldiçoados…

Acredito profundamente que Cristo é para todos. A obra de Jesus Cristo na cruz é potencialmente universal: na cruz erguida no monte do calvário, Cristo chama a si todos os homens; ali, contemplamos o ponto mais baixo a que chegou a humanidade condenando, blasfemando, rasgando a carne e vertendo o sangue do inocente Deus encarnado. Mas contemplamos também o ponto mais alto da História, Deus em Cristo reconciliando na cruz todas as coisas e oferecendo graciosamente a redenção à humanidade. Ao contrário do que a teologia reformada tende a enfatizar, parece-me que Paulo também acreditava no potencial universal da cruz de Cristo: é isso que me parece estar articulado na espectacular contraposição entre a consequência do pecado de Adão e a consequência da cruz de Cristo feita no capítulo 5 da Carta aos Romanos.

A Igreja também tem uma obra universal: a missão é abraçar todos os homens e todas as mulheres, convidado-os a olhar para a cruz, para aquele que nela (já não) está pregado e para o seu significado!

Não sei se é o medo que nos leva a criar barreiras que nos impedem de mergulhar na nossa missão de forma radical. Medo do diferente. Medo de que o outro ocupe um espaço que achamos ser nosso por direito. Não sei se é o medo ou se é o orgulho (tantas vezes eles andam de mãos dadas!) que nos leva a criar soteriologias de algibeira: definimos quem está dentro e quem está fora usando critérios duvidosos e exclusivistas. Aquele a quem seguimos deixou-nos como mandamento o amar o próximo como a nós mesmos. Mas tantas vezes o medo é mais forte do que o amor! Ora o mesmo mestre também nos alertou: não podemos servir a dois senhores! Portanto, ou servimos a Deus ou servimos o Medo (que é uma outra maneira de servir o Ego).

Estou longe de ter em mim plenamente formada a consciência de que o outro me é igual e a noção constante do valor do meu próximo. Ainda me habitam muitos preconceitos e uma tendência pecaminosa para o julgamento sumário daqueles que me parecem diferentes e, por alguma estúpida razão, me parecem ameaçadores. Mas estou no processo de desintoxicação…

Assim, oro a Deus pedindo que o convívio com o povo timorense crie um contexto no qual Ele venha a aguçar em mim esta consciência: em cada homem, um irmão.

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