Pontos e contos de um cristão pós-moderno

Month: Agosto, 2014

O erro de Dawkins

Não é o gene que é egoísta. Eu é que sou.

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Teodiceia IV

Uma bazuca para matar uma formiga. 

No artigo anterior fiz uma das mais alucinantes divagações teológicas da minha vida… Desta vez jogamos pelo seguro: vamos ser mais pragmáticos. Convém dizer algo que ainda não tinha sido mencionado: a interrogação de Jesus – Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste? – é também uma citação do Salmo 22. Aliás, diversos elementos que estavam presentes na cena da crucificação são ecos e concretizações desse Salmo. Assim, surge uma possível explicação: Jesus estava apenas a remeter a sua audiência para uma passagem do Antigo Testamento com a qual eles estavam familiarizados, contribuindo para, a posteriori, mostrar que este era um Salmo messiânico plenamente cumprido através do seu ministério.

Coloquei a palavra apenas em itálico porque ela é aqui a palavra-chave. Se por um lado é óbvio que Jesus nos remete para o Salmo 22 e para a sua identidade messiânica, também me parece óbvio que essa só poderia ser uma intenção secundária de Jesus. A finalidade de Jesus não pode ter sido apenas esta. Por isso, não vamos gastar muito parlapier a dissecar esta ideia.

Diremos somente que se Jesus proferiu tão inesperadas palavras, elas não podem estar desprovidas de sentido. Não podem ser uma mera ferramenta para nos conduzir a outra passagem bíblica. Algo de muito profundo estava a acontecer na comunhão de Jesus com o Pai e, qualquer que seja o significado daquele momento, esse significado tem muito mais relevância, muito mais interesse e muito mais implicações do que a referência ao Salmo por si só. Para sermos remetidos para o Salmo 22 já teríamos, aliás, elementos suficientes na cena da crucificação. Se Jesus usasse a sua interrogação apenas como uma espécie de jogo de destreza bíblica, seria como usar uma bazuca para matar uma formiga!

(Hoje reconhecemos que o Salmo 22 era um Salmo messiânico, mas suponho – mesmo não tendo qualquer fonte nesse sentido – que os judeus do primeiro século não o identificavam como tal. A descrição do salmista contrasta com tudo aquilo que os judeus esperavam do seu messias: esperavam um líder político e espiritual implacável e poderoso, mas o salmista diz de si próprio que é verme, e não homem, opróbrio dos homens e desprezado pelo povo. Dá para imaginar quão confusos terão ficado os judeus que assistiram à crucificação e perceberam as referências ao Salmo? E quão perplexos terão ficado os primeiros a compreender que aquele era um Salmo messiânico? O Messias que eles desejavam armado com espada e lança, veio armado com Graça e Entrega.)

Teodiceia III

Não tentes escalar esta montanha porque ela é feita de pudim!

A explicação que mais vezes ouvi para a forma desconcertante como Jesus crucificado questiona o Pai, explicação essa que está bem alinhada com a teologia reformada, é a seguinte:

Por muito amar a humanidade, Deus enviou Jesus com a missão de morrer na cruz e resgatá-la para Si. Jesus a caminho do monte do Calvário carrega a avalanche de pecado que os homens e as mulheres produziram ao longo da história e carrega também a cruz, o castigo que é a consequência desse pecado, o castigo que, segundo o profeta Isaías, garante-nos a Paz. (cf. Isaías 53.) (Tudo certo até aqui. Esta é, aliás, uma boa síntese do Evangelho – mas não a única!)

O argumento continua: lembremos que Deus é santo e que a sua santidade não permite que Ele tolere o pecado. (Que comunhão pode ter a luz com as trevas?) Ora, Jesus, na cruz, leva sobre si os nossos pecados, tornando-se também ele pecado. Assim, fica explicado o porquê de Deus abandonar Jesus: Deus abandonou Jesus por não poder tolerar o pecado da Humanidade que Jesus assumiu como seu. Naquela sexta feira é quebrada a comunhão entre Deus e Jesus que até então tinha sido perfeita. (Recordemos que Jesus afirmava ser um com o Pai, cf. João 10:30.)

Proponho agora um exercício: lê o parágrafo anterior e substitui Jesus por Deus. Resultado? Apetece dar cabeçadas na parede!

Acredito que, com as devidas nuances, haja verdade contida no argumento apresentado, mas salta-me mais à vista aquilo que ele tem de problemático.

O grande problema deste argumento prende-se com o facto de apresentar duas entidades, Deus e Jesus, como se elas fossem distintas, dissociáveis. Talvez este problema seja um dano colateral do qual não estamos, em geral, conscientes. Preocupam-me as teias de aranha que esse dano colateral cria nas nossas teologias. Preocupa-me que muitos de nós, cristãos, tenhamos uma teologia que, sem percebermos, não considera realmente que Jesus é Deus! Por isso, em primeiro lugar, é necessário assentar ideias relativamente a esta questão fulcral: Jesus de Nazaré é Deus?

Se Jesus não é Deus ou se é uma espécie de deus menor, subordinado ao Deus Pai cuja natureza não é necessariamente a mesma do Filho, então alguns dos potenciais problemas desta explicação desvanecem-se. Mas surge um problema muito maior: a partir daqui todo o Evangelho desmorona como uma montanha feita de pudim! Se Jesus não é Deus, a revelação que temos de Deus através de Jesus não é necessariamente perfeita. Se Jesus não é Deus, ainda não conhecemos Deus. Qualquer fé formada a partir de Jesus teria alicerces frágeis. Se Jesus não fosse Deus, mas apenas um enviado de Deus para lidar com o pecado da humanidade, então o deus unitário teria usado uma estratégia duvidosa: seria um deus demasiado santo para lidar com o pecado, mas admitiria que o seu Filho, também santo e sem mácula, viesse lidar com esse problema no seu lugar… Este deus assemelhar-se-ia a uma dona de casa armada em fina que, na hora de limpar a casa, varrer o lixo e desinfectar a sanita, chama a empregada para fazer o trabalho sujo. Esta divagação que estou a levar a cabo não é uma mera patetice inconsequente: há quem abdique da fé na trindade passando a crer num deus unitário tendo esta interpretação de Mateus 27:46 como catalisador dessa crença. Esse é um dos perigos que corremos ao tentarmos encaixar à força este versículo na teologia sistemática.

Se, por outro lado, acreditamos que Jesus é Deus, se acreditamos que Ele é uma das pessoas da Trindade, igual ao Pai e ao Espírito Santo em carácter e em importância, então salta à vista um problema óbvio: acreditamos que a proximidade com o pecado era intolerável para o Pai mas não o era para o Filho?

Na prática, esta parece ser, muitas vezes, a leitura que nós evangélicos fazemos. O Deus Pai não pode tolerar a proximidade com o pecado e, horrorizado, vira o rosto ao Filho como descrito no belíssimo hino How Deep The Father’s Love For Us (não deixará de ser um hino magnífico, mesmo que a teologia por ele promovida me suscite dúvida). Levada ao extremo, esta interpretação corre o risco de desembocar na visão de um Deus que tem tanto de amor como de ira. Na crucificação estariam visíveis essas duas faces de Deus: o Pai concretiza a ira do Deus trino punindo Jesus; Jesus concretiza o amor do Deus trino aceitando a punição no nosso lugar.

Confesso que esta concepção de Deus me causa desconforto e uma certa dose de urticária: não parece ser este o Deus Pai de Jesus de Nazaré a quem ele chamava, com intenso deleite, Abba Pai. Também não parece ser esta a leitura que o apóstolo Paulo faz daquilo que aconteceu na sexta-feira santa: Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo.

Infelizmente, esta ideia de um Deus cuja ira é directamente proporcional ao amor está muito disseminada e é defendida por alguns teólogos eminentes como o John Piper. Fica a questão: não há no Deus do John Piper uma dose de bipolaridade? (Talvez possamos, neste ponto, convidar o Brian Zahnd para participar na conversa. Esta conversa é, no fim de contas, um confronto entre duas cosmovisões diferentes e dificilmente compatíveis. Não me parece possível fazer uma síntese destas duas concepções de Deus. Eu, humildemente mas sem rodeios, afirmo a minha convicção de que a cosmovisão do Brian Zahnd está profundamente enraizada no Evangelho enquanto a do John Piper me parece outra montanha feita de pudim.)

Mais uma vez, reitero que a explicação anterior pode conter verdades e pode até parecer, aqui ou ali, muito plausível. Mas os problemas que levanta são inegáveis. Se Jesus é Deus, se, como Ele afirma, Ele é um com o Pai, então Jesus e o Pai têm exactamente o mesmo grau de intolerância para com o pecado: não o toleram! Aliás, talvez o que esteja em causa não seja tanto uma questão de tolerância: Deus abomina os nossos desvios morais e éticos e não vem com falinhas mansas quando se trata de corrigir a desobediência do homem. Mas nada disso é suficiente para que Deus abandone o pecador à sua sorte! O plano que nasceu no coração da Trindade para redimir o mundo vai mesmo no sentido contrário: cremos num Deus que, por tanto amar, se faz próximo do que lhe é intolerável… torna-se naquilo que lhe é intolerável! Deus não abandona os homens à sua sorte, mas providencia uma solução impensável, imponderável, paradoxal!

Se tens seguido até aqui a linha de raciocínio (se é que há alguma linha de raciocínio explícita no meio das minhas divagações), poderás agora introduzir uma espécie de contra-argumento: ok, o Pai e o Filho têm o mesmo grau de intolerância para com o pecado, mas não será que aquela era uma missão reservada ao Filho – era o cálice amargo do qual Jesus tinha de beber – e por aí se explica que o Pai o tenha abandonado?

Esta é uma excelente questão! Sim, podemos seguir esta linha, desde que se salvaguardem os aspectos mencionados anteriormente: Jesus é Deus; as três pessoas da Trindade são iguais em carácter e em importância; é o amor que motiva o Deus trino a agir em favor da Humanidade.

Mas vou mais longe e arrisco sugerir que talvez o Pai não tenha abandonado Jesus. Pelo menos não da maneira que a palavra abandono sugere, que seria, aos meus ouvidos, algo do género: não te posso suportar, desenrasca-te sozinho! Não é desta forma que Deus nos trata e julgo que não foi esta a reacção do Pai ao ver o Filho crucificado assumindo o nosso pecado. O porquê de Jesus ter sentido o abandono do Pai terá, parece-me, uma explicação menos óbvia e mais profunda…

Bom, julgo que agora estamos mais perto de uma montanha rochosa. Vamos ver se conseguimos escala-la.

Antes disso, fazemos uma pausa para lavar as mãos. O pudim deixa nos dedos esta sensação pegajosa…

Teodiceia II

O problema do mal: um Deus que, por amor, se contém. 

Na introdução referi um versículo cujo significado é, para mim, uma questão teológica bicuda! Outra questão bicuda com a qual os filósofos e teólogos se têm debatido ao longo da história é o Problema do Mal: porque é que um Deus bom permite a existência do mal? Uma tentativa de resposta a esta questão será uma Teodiceia, termo que dá o mote para esta série de textos.

O Problema do Mal, se colocado no referencial do abstracto e do universal, parece-me, muitas vezes, uma falsa questão: o mal existe porque existe o livre arbítrio, sendo então o mal gerado pelas nossas escolhas. Pessoalmente, não acredito que Deus tenha criado seres cujas acções ou cujas vidas estão totalmente programados, seres forçados a viver dentro do determinismo de um sistema fechado no qual as criaturas não exercem qualquer tipo de escolha. Não. Deus criou o homem em amor e a liberdade concedida ao homem é, também, um sinal concreto desse amor. Inclusive a liberdade que nós, criaturas, temos para rejeitar o Criador, com todo o Mal que daí resulta. Neste tema, acompanho sem reservas a tese do Ed René Kivitz num texto que aborda o Problema do Mal de uma forma muito mais eloquente (possivelmente seria mais prudente da minha parte limitar-me a partilhar esse texto, mas sinto-me impelido a aventurar-me também nesta matéria!).

“Na verdade, “Deus não tinha escolha”. Ao decidir criar o ser humano à sua imagem e semelhança, deveria criá-lo livre. Desejando um relacionamento com o ser humano, deveria dar ao ser humano a liberdade de responder voluntariamente ao seu amor, sob pena de ser um tirano que arrasta para sua alcova uma donzela contrariada. Somente o amor resolveria esta equação, pois somente o amor possibilita a liberdade para que o outro possa inclusive rejeitar o amor que se lhe quer dar.”

Suponho que no campo filosófico a discussão em torno do Problema do Mal possa ser arrastada através de argumentos infindáveis, mas, para mim, a resposta que acima aflorei é suficiente e pacífica, enquanto resposta universal e abstracta.

Muito mais difícil é responder ao Problema do Mal do ponto de vista pessoal, quando colocamos o problema no referencial individual e concreto, como um problema do foro existencialista. Ou seja, uma coisa é a resposta abstracta que pode ser aplicada a toda a humanidade de forma genérica. Outra coisa é quando temos em mente acontecimentos concretos, quando o sofrimento ganha contornos definidos, quando o sofrimento ganha rosto, carne e osso. Sobretudo quando o sofrimento se personifica de forma aparentemente gratuita, aleatória e cruel. Nunca me hei-de esquecer do exemplo que o meu professor de Psicologia deu para explicar o seu ateísmo: tratava-se do caso de uma criança que estava a brincar no recreio da escola e foi atingida por um pneu que, tendo-se soltado de um camião, rolou disparado a grande velocidade. A criança morreu esmagada pelo pneu. O meu professor dizia que não acreditava em Deus porque um Deus bom nunca poderia permitir que algo tão aleatoriamente horroroso acontecesse.

Não é fácil contrariar o meu professor. Talvez os meus amigos mais próximos do calvinismo arriscassem a tentativa de explicar o sucedido tendo em mente os insondáveis propósitos de Deus. Eu, pessoalmente, não acredito que seja da vontade de Deus que uma criança morra esmagada por um pneu. Não acredito que as tragédias que diariamente entram pelos nossos olhos e corações através dos media (ou através das nossas próprias vidas) possam ser explicadas segundo a ideia de que se tratam de elementos necessários num plano maior, peças que encaixam para formar um puzzle cuja beleza só poderá ser vista no final. Não aceito chamar bem (nem sequer ‘mal necessário’) a situações que são terríveis, horrendas, antíteses daquilo que acreditamos ser a vontade de Deus.

Talvez seja possível que a explicação para horrores como aquele que o meu professor contou passe, também, pelas consequências do exercício do livre arbítrio do homem, apesar de haver aqui uma relação aparentemente muito mais indirecta. Às vezes penso que talvez a Queda da humanidade tenha contaminado até as estruturas que regem o funcionamento do mundo, como se a própria lei da causalidade tivesse ficado impregnada de uma certa perversidade e malignidade… O que é certo é que, em situações destas, mais depressa coloco a responsabilidade no Homem do que em Deus.

Sim, acredito que Deus tinha o poder de desviar aquele pneu. Acredito que Deus não exerceu esse poder porque a norma é não intervir no desenrolar natural dos acontecimentos: o aparente silêncio de Deus no caos da vida é também o preço que a humanidade paga pelos caminhos que trilha. Acredito que Deus, por tanto sofrer com o nosso sofrimento, tem de se conter para não intervir constantemente. Acredito que o coração de Deus dói infinitamente mais do que o nosso cada vez que uma das suas criaturas opta pelo mal ou é atingida por ele. Contudo, não se conclua daqui que a minha fé é quase deísta: é verdade que eu acredito que Deus não está constantemente a intervir no desenrolar natural dos processos, mas acredito na sua presença secreta aqui embaixo e acredito que Ele está constantemente a intervir nos corações que lhe são receptivos! Além disso, mantenhamos sempre em mente que Ele interveio no desenrolar da História de uma vez por todas, de forma definitiva, através de Jesus.

Nesta série de textos temos, para já, duas questões sem resposta: como explicar a interrogação de Jesus na cruz – Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste? – e como explicar o Problema do Mal do ponto de vista existencialista. A minha suspeita é que existe uma conexão muito forte entre as respostas a estas duas questões. Daqui a uns quantos textos tentaremos dizer alguma coisa acerca dessa conexão.

Para já, nos próximos textos, vamos analisar algumas das propostas que podem ser formuladas para interpretar a tão desconcertante interrogação de Jesus registada em Mateus 27:46.

Teodiceia I

Introdução: Se não tens unhas, esta série de textos não é para ti!

“Deus meu, Deus meu, porque me abandonaste?”

Quando estava a ser crucificado, insultado, desprezado, Jesus, o carpinteiro de Nazaré que é também o Cristo, o enviado de Deus, solta esta interrogação em alta voz (cf. Mateus 27:46). O significado desta interrogação de aparente desespero por parte de Jesus é, para mim, um dos grandes mistérios do Evangelho. E creio que não sou o único que tem dificuldade em entender as causas e as implicações profundas deste grito do Jesus crucificado. Por exemplo, consta que, a propósito desta passagem, Martinho Lutero terá escrito: Deus a abandonar Deus?! Quem pode entender tal coisa?

De facto, não podemos entender.

Sei que há no mercado algumas tentativas de incorporar esta interrogação de Jesus nas teologias sistemáticas vigentes (e adiante podemos explorar algumas delas), mas, para mim, essas tentativas são incompletas e insatisfatórias. Entender este grito de Jesus é como tentar escalar uma montanha sem ter sequer os primeiros pontos de apoio para dar início à escalada.

É como tentar explorar os ricos minérios subterrâneos à custa de escavações feitas apenas com as próprias unhas.

A propósito: como estão as tuas unhas? Em forma? O cálcio está no ponto? Estão prontas para esgravatar?

Comecemos então esta série de textos com uma sessão de manicure metafórica!

A Bíblia que afinal era uma andorinha

Entre os protestantes evangélicos há quem acredite que a escrita dos livros que compõem a Bíblia foi plenamente inspirada por Deus, num sentido extremo do termo ‘inspirado’: uma inspiração total, verbal, palavra a palavra, ficando assim o texto original determinado pelo próprio Deus, sem mácula, sem intervenção de erro humano. Assim, todo o texto é plenamente confiável no seu sentido mais imediato e literal. Quem assim encara a Escritura Sagrada dirá que ela não é apenas inspirada, mas também infalível e inerrante.

O primeiro problema que se coloca quando se aplicam estes termos é que é possível duas pessoas afirmarem a infalibilidade da Bíblia, estando, no entanto, a afirmar coisas completamente diferentes. Por exemplo, na Declaração de Chicago lemos o seguinte: o termo ‘Infalível’ significa que a Escritura nunca induz em erro, sendo verdadeira e confiável em todos os assuntos que aborda. Genericamente até parece uma definição pacífica, mas, como consta na própria Declaração, as implicações que daqui se deduzem são muito abrangentes: propõe-se que, segundo esta definição, as referências bíblicas à criação, ao dilúvio e a outros episódios ali relatados acerca dos primórdios da vida humana e, em particular, do povo judaico, são também confiáveis do ponto de vista científico e histórico.

O Brian Zahnd, por seu lado, diz que a Bíblia é infalível, sim, na sua missão de apontar para Jesus. E também ele afirma a inspiração do texto bíblico, mas em moldes distintos: a Bíblia é o testemunho inspirado da verdadeira Palavra de Deus que é Jesus Cristo. Confesso a minha tendência: acompanho muito mais a abordagem do Brian Zahnd do que a exposição feita na Declaração de Chicago. Espero que esta confissão também sirva para explicar que, o que se segue, não é uma tentativa de negar a inspiração, infalibilidade ou inerrância da Bíblia, mas é muito mais um convite à revisão desses termos que, receio, originem uma abordagem que corre o risco de se tornar, por vezes, bibliolatra. Não é totalmente desprovida de razão a crítica que alguns teólogos católicos fizeram aos protestantes na sequência da Reforma: rompemos com Roma e com o Papa, para nos prendermos de novo a um Papa de Papel, encarando a Bíblia, na prática, como autoridade suprema na Terra, uma espécie de mediadora entre Deus e os homens. Convém então recordar que é da própria Bíblia que recebemos a declaração de que a autoridade suprema na Terra foi dada a Cristo, bem como a exclusividade no papel de mediador entre Deus e os homens.

O primeiro ponto que é necessário esclarecer quando falamos de inspiração, infalibilidade e inerrância é, portanto, a definição destes termos. É provável que a Declaração de Chicago seja aquela que revela as definições mais generalizadas dos termos. Ou seja, quando as pessoas falam em inerrância bíblica, estão maioritariamente a referir-se à inerrância conforme definida nessa Declaração. Ora de uma pessoa que encara a Bíblia nos moldes em que a Declaração de Chicago a apresenta, diz-se que tem uma visão elevada das Escrituras. A expressão em inglês é mais comum, conforme uma pesquisa no google poderá atestar: trata-se de ter uma High View of Scripture. (Expressão também ela altamente criticável. Na prática, esta expressão transmitirá a falsa ideia de que quanto mais a nossa interpretação bíblica tiver em conta o contexto cultural, político, social, histórico, enfim, a cosmovisão, dos autores bíblicos, mais fraca é a nossa visão das Escrituras.)

Tudo o que apresentei neste texto até aqui tem como objectivo introduzir uma pequena rábula acerca da High View of Scripture. Trata-se de uma sátira que deve ser entendida em parte como uma provocação, sim, mas não uma mera provocação gratuita. É também um alerta que me parece válido e pertinente: corremos o risco de desenvolver uma visão das Escrituras tão elevada, mas tão elevada que elas deixam de dizer respeito à nossa vida concreta, aqui no planeta Terra, passando apenas a constituir teorias metafísicas sem relevância prática. (Este é o problema de muita teologia que está amplamente disseminada no meio evangélico e que tem um cariz perigosamente gnóstico.) Se fazemos da Bíblia o centro da nossa fé, há também o perigo real de essa fé ser fatalmente abalada no dia em que a dúvida floresce na nossa mente, no dia em que é colocado em causa o princípio da inerrância extrema que serve de base à fé.

Então aqui vamos nós:

Era uma vez… um homem que tinha uma High View of Scripture.

A View of Scripture deste senhor foi subindo como um balão cheio de hélio e foi-se tornando tão High, mas tão High que, páginas tantas, ele já precisava de óculos para conseguir distingui-la ao longe.

Mais tarde, passou a usar binóculos e nunca mais desviou o olhar do objecto que para si era o mais precioso: olhos fixos na Scripture que, entretanto, era já um ponto preto no céu nublado.

Com receio de perder o pontinho de vista, o homem mantinha o olhar congelado. Não parava para dar atenção à vida e ao bulício que se desenrolavam à sua volta. Um dia aconteceu a tragédia: o pontinho preto deu meia-volta, mergulhou para o solo em voo picado e o homem percebeu, estarrecido, que o que ele julgava ser a sua High View of Scripture era, afinal, uma singela andorinha.

Da Scripture já não havia sinal. No céu nublado há muitos pontinhos pretos e, a meio do processo, o homem terá confundido a Scripture com algum deles.

Então, o homem retirou os binóculos, olhou em redor, e entrou em pânico. Estava sozinho no chão da vida.

Poderá o Martim Moniz ter algo a ver com o Noé da Bíblia?

Será a história de Noé um mito ou um acontecimento histórico? É uma excelente pergunta! Houve mesmo um homem chamado Noé que aos 600 anos de idade viu os céus a desabar sobre o mundo, refugiando-se numa arca repleta de animais? E será que o dilúvio cobriu todo o planeta Terra ou podemos colocar a hipótese de ter de facto ocorrido um dilúvio, mas limitado em termos geográficos? Em alternativa, poder-se-à tratar de uma lenda oral que o povo hebreu adoptou como parte integrante da sua cultura e da sua cosmovisão? Será uma versão hebraica de mitos antigos também presentes nas culturas e religiões vizinhas relatando cataclismos mundiais? E a generalização desse tipo de mitos por entre povos de diferentes culturas e regiões será sinal de que os mitos resultam de algum acontecimento concreto? Será que devemos entender os registos de Génesis acerca de Noé como a biografia de um homem de carne e osso ou como um relato mitológico naturalmente presente na cultura hebraica à semelhança das outras culturas? Será que a história de Noé nos providencia verdades sobre o Homem e sobre Deus que permanecem válidas e significativas mesmo que se trate de um mito ou terá de ser forçosamente uma história verídica para com ela podermos aprender alguma coisa?

Já estão cansados da torrente de perguntas? Ora lamento dizer que eu provavelmente não lhes sei responder, nem é esse o objectivo deste texto. Pretendo direcionar o texto para outro assunto, ainda que relacionado com estas questões:

Alguns cristãos defendem que a história de Noé é verídica e a leitura dos capítulos do Génesis que o mencionam deve ser uma leitura literal por encontrarmos referências a essa história noutras passagens bíblicas. Do próprio Jesus ficaram registadas afirmações que parecem fortalecer esta tese: “E, como aconteceu nos dias de Noé, assim será também nos dias do Filho do homem. Comiam, bebiam, casavam, e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio e os consumiu a todos”. Perante estas palavras, há quem creia que Jesus está indirectamente a confirmar que Noé existiu mesmo e o dilúvio é um acontecimento histórico. Mas este argumento pode ser colocado em causa, penso eu. Jesus era judeu, estava imerso na cultura e na cosmovisão judaica e as pontes que naturalmente estabeleceu entre a sua mensagem e o Antigo Testamento serviam o propósito de demonstrar que o Antigo Testamento é uma espécie de bússola que nos conduz ao próprio Jesus. Mais do que atestar a veracidade factual dos episódios ou das personagens referidas, Jesus estava interessado em estabelecer paralelismos e ilustrações a partir de histórias com as quais os seus ouvintes estavam familiarizados. Certamente podemos argumentar que, tendo Jesus natureza divina e, portanto, omnisciência, Ele saberia se os episódios eram ou não verídicos. Saberia se Noé tinha ou não existido e, a bem da verdade dos factos, poderia ter sido mais esclarecedor caso a história de Noé seja apenas um mito, para que nós hoje, no século XXI, não andássemos às voltas com esta interrogação. Esta hipótese é decerto contestada por outros teólogos que, baseando-se por exemplo no capítulo 2 da Carta aos Filipenses, acreditam que Jesus, esvaziando-se da sua natureza divina e fazendo-se semelhante aos homens, cumpriu o seu ministério terreno como homem, abdicando das suas prerrogativas divinas.

Bom, mas já me estou a desviar do assunto em causa: o que está em causa é que provavelmente os judeus do primeiro século não estavam tão preocupados como nós estamos em saber se a história de Noé era mito ou facto. É possível que a assumissem como facto, mas penso que não davam ao assunto a relevância que nós lhe damos hoje. Somos nós que, depois de atropelados pelo hiper-racionalismo da Modernidade, consideramos ser obrigatório o deslindar do mistério. O facto parece-nos ser território muito mais seguro do que o mito*. Queremos que tudo seja preto ou branco e não há espaço para o enigmático, o metafórico ou o poético. Parece que a verdade só pode ser comunicada através de factos e não através de contos e de metáforas. Esta nossa pretensão é estranha e incoerente: nunca esqueçamos que o próprio Jesus falava por Parábolas!

Proponho agora alguns exercícios de imaginação um tanto ou quanto arriscados:

Vamos supor, por um momento, que o Manuel Alegre era eleito Presidente da República (eu gostava de ter um poeta na presidência) e, num assomo de inspiração, discursa assim: “Vivemos dias difíceis, o país enfrenta dificuldades, a situação económica afigura-se diante de nós como um gigante medonho. Mas quero assegurar aos portugueses e às portuguesas que cumpriremos com dedicação e coragem o nosso dever. Assim como o Homem do Leme enfrentou o Mostrengo, assim nós enfrentaremos esta situação durante o meu mandato e, permanecendo unidos neste esforço, vamos dobrar mais uma vez o Cabo das Tormentas, porque do lado de lá mora a Esperança!” Será que acusaríamos o Manuel Alegre de estar a mentir? (Bom, este talvez não seja um bom exemplo: tratando-se de um político, é elevada a probabilidade de ser um discurso demagógico ou falacioso.) Será que daqui a 500 anos, os portugueses, ao lerem os registos do discurso do Manuel Alegre, passariam a acreditar que o Homem do Leme e o Mostrengo eram gente de carne e osso, em vez de figuras lendárias que o Fernando Pessoa deixou no imaginário do país?

Um outro exemplo que me ocorreu: podemos imaginar o Garcia Pereira a discursar nestes moldes: “Assim como a Brites de Almeida castigou justamente os estrangeiros invasores do nosso país, castigaremos nós também a Troika caso não nos seja restituída a total soberania sobre o nosso destino e as nossas políticas! Precisamos de políticos que imitem a Padeira de Aljubarrota, mas aqueles que nos têm governado não têm essa intenção, nem essa coragem! É hora de mudar! É hora de votar PCTP-MRPP para nos vermos livres dos invasores!” Bom, não sei se o Garcia Pereira adoptaria um discurso assim tão agressivo, além de que a temática de Aljubarrota já foi esvaziada através das tretas do irrevogável Paulo Portas. Mas, novamente, fica a questão: o que diríamos deste discurso de Garcia Pereira? Será que ao fazer referência a uma figura mítica o discurso deixa de ter significado? Ou será que o discurso teria significado precisamente porque faz referência a uma heroína lendária com a qual estamos familiarizados e que se liga bem à questão da intromissão da Troika na soberania do país?

Faço notar que o que está aqui em causa é que nestes discursos fictícios é feita referência a algumas personagens e acontecimentos de modo a transmitir uma determinada mensagem, sem que o facto de se tratarem de acontecimentos não verídicos (pelo menos assim crê a maioria dos historiadores) transpareça no discurso. Poderá Jesus ter feito o mesmo, como recurso estilístico, em algumas das suas mensagens?

Vamos fazer um exercício de imaginação assim a puxar ainda mais para o absurdo: supomos que Deus não tinha encarnado como um judeu do século I, mas encarnava agora como um português do século XXI. Jesus Cristo recrutava discípulos por entre a população portuguesa e comunicava a sua mensagem no nosso território. Aqui operava os seus sinais e atraía muitos a si. Em privado, explicava aos discípulos que mais de perto o seguiam que era necessário que Ele morresse para que muitos se pudessem salvar. Talvez chegasse a fazer referência ao lendário Martim Moniz (no caso, uma personagem que serviu um propósito demasiado bélico, mas não me ocorre agora outro exemplo com o mesmo sentido): Jesus é aquele que se coloca a si mesmo de forma voluntária no vão da porta, para que muitos a possam atravessar e achar-se do lado de lá em segurança. Mais tarde, depois da morte e ressurreição de Jesus, o apóstolo Pedro era perseguido e preso por elementos da Troika (só para manter o paralelismo com as forças de ocupação da época). Na prisão, Pedro recebe a visita de um anjo que o conduz à liberdade. Aos restantes discípulos tugas, talvez Pedro se explicasse nestes termos: “Como o pão que a Rainha Isabel levava no regaço foi transformado em rosas, assim as correntes com que fui preso foram desfeitas e os ferrolhos das portas que me trancavam foram transformados em pó.”

Talvez estas falas e estas ilustrações pudessem ser usadas da forma que sugiro. Ou talvez não. É lamentável que a imaginação não me permita lembrar de melhores exemplos para defender o meu argumento, mas creio que ficou perceptível qual é esse argumento. Quanto à validade do mesmo, que cada um retire as conclusões que a sua consciência ditar.

Nota: este argumento serve também como uma possível resposta a quem defende a criação em 6 dias de 24 horas a partir da referência que lhe é feita em Êxodo 20. Tal como o Manuel Alegre poderia recorrer a elementos d’A Mensagem para redigir os seus discursos, o Génesis 1 pode perfeitamente ser um poema utilizado, em certos contextos, como fundamento para princípios legais que regiam, no caso, a sociedade hebraica. Quão fantástico seria viver num país cuja constituição fosse dada em versos, metáforas e aliterações?

*Não deixo entretanto de reafirmar que os factos são essenciais para dar base sólida à fé cristã. O apóstolo Paulo explicava-o assim: se Cristo porém não ressuscitou, então é vã a nossa fé. E o C. S. Lewis tem a este nível uma frase brilhante: o mito tornou-se facto quando Deus se fez homem. Convém também lembrar, puxando a brasa à minha sardinha, que o mesmo C. S. Lewis que tantos cristãos têm em alta estima era muito liberal na leitura que fazia dos primeiros capítulos do Génesis.

 

Para ler a Bíblia, sê filósofo!

Na minha timidez adolescente lançava ao ar poucas questões. Deixava que elas se fossem apoderando calmamente de mim sem ter a coragem de as verbalizar. Muitas vezes sem ter sequer a capacidade de as formular interiormente. Era uma amálgama de questões bicudas, uma salada heterogénea de assuntos e interrogações, varrida para baixo do tapete…

A filosofia não me parecia uma disciplina atraente: ela força-nos a encarar de frente as incoerências dos nossos pressupostos, pelo que uma pessoa só pode abraçar a filosofia vencendo a timidez. Vencer a timidez foi desafio para muitos anos (pelo menos aquela mais perniciosa, porque a dita cuja como um traço de personalidade ainda se mantém). No 11º ano tive notas de excelência nessa disciplina porque a introdução à lógica formal era a minha praia! Adorei essa parte da matéria. Mas, a bem da verdade, convém dizer que as minhas notas em filosofia deviam fazer corar de vergonha o sistema de ensino: quando a matéria fugia à lógica pura e quando se tratava de discorrer sobre os temas filosóficos do programa, limitava-me a empinar, marrar e reproduzir na folha de teste aquilo que estava exposto nos manuais. A filosofia no sistema escolar devia ter como alvo o desenvolvimento do pensamento filosófico autónomo por parte dos alunos (por mais superficial que fosse). Na altura, eu não me apoderei de qualquer tipo de pensamento filosófico. Infelizmente.

Como se não bastasse o meu bloqueio filosófico pessoal, encontrei na subcultura evangélica uma tendência estranha para maltratar a filosofia. O princípio fundamental da filosofia é fazer perguntas. Mas as igrejas nem sempre convivem bem com perguntas, apesar de encontrarmos muita filosofia na Bíblia. O amor à sabedoria é, até, um dos temas principais do livro de Provérbios, uma compilação de reflexões, conselhos e exortações que nos chega em grande parte pela mão do Rei Salomão.

O livro de Eclesiastes é um tratado filosófico existencialista. Com uma escrita muita crua, muito humana, o autor, que talvez seja o mesmo Rei Salomão, vai discorrendo sobre a finitude da vida, a vaidade do homem, transparecendo um certo niilismo desencantado. O Sermão do Monte – a mensagem de Jesus que lemos nos capítulos 5, 6 e 7 de Mateus – está também repleto de filosofia: tem tudo a ver com o sentido da vida, a verdadeira felicidade, a construção de uma cosmovisão onde o outro me é igual e o amor é o alicerce. Aliás, gosto de pensar que o Sermão do Monte funciona, em parte, como uma espécie de Carta Aberta ao Rei Salomão. Ou, se quisermos, como uma Carta Aberta aos reis Salomões que moram em cada um de nós.

O prólogo do Evangelho de João é uma ponte com a filosofia estóica então vigente: o Logos que é ali identificado com Jesus Cristo era, para os estóicos, a razão universal, a ordem divina impessoal, que governava o universo. Também Paulo tem diversas referências aos filósofos gregos, destacando-se Actos 17:28 onde chega ao cúmulo de usar uma frase de um poeta grego para fazer teologia… (O pessoal do tribunal do santo ofício da inquisição reformada teria repreendido Paulo e eliminado essa frase.)

Serve isto para concluir que a filosofia não é inimiga do cristianismo. O cristianismo é uma metanarrativa que apresenta respostas para as questões mais básicas do ser humano. Sim, aquelas questões que salpicavam as páginas dos livros de Introdução à Filosofia: Como vim aqui parar? Qual o propósito disto tudo? Qual é o meu valor e o valor do outro? O que é a ética? Porque devo ser bom? O que é a vida? Para encontrar respostas para estas e outras questões é preciso começar por verbalizar essas questões. O cristão não está impedido de fazer perguntas. Pelo contrário: o desafio é o de sermos cada vez mais honestos connosco próprios, trazendo à tona as dúvidas, as inquietações e as motivações mais camufladas das nossas mentes e corações, para que elas sejam resolvidas ou peneiradas em plena luz do dia, em vez de varridas para baixo do tapete.

Actualmente não me sinto capaz de aprofundar estudos na área da filosofia. Limito-me a fazer umas incursões muito superficiais no pensamento de alguns filósofos (Kierkegaard é o meu preferido, mas se tivesse coragem lia Sócrates!). E li recentemente O Mundo de Sofia, considerando-o agora uma obra brilhante (podia ser manual de Escola Dominical?).

O objectivo de muitos dos textos que publico neste espaço é duplo: obrigar-me a mim próprio a verbalizar questões e lança-las ao ar e, simultaneamente, dar a conhecer alguns pedaços de respostas que aqui ou ali vou apanhando. O objectivo deste texto em particular é encorajar os eventuais leitores a fazer também perguntas.

Talvez não tenhamos o tempo e a capacidade para nos dedicarmos à filosofia enquanto disciplina académica. Mas, como aprendi n’O Mundo de Sofia, todos podemos ser filósofos amadores. Todos podemos fazer perguntas. Todos podemos trepar pelos pêlos finos do coelho branco! Quando vamos ao texto bíblico também podemos ser filósofos. Levamos as nossas questões e o texto, porque é versátil, vai contribuindo para moldar as respostas, quer aos dilemas existenciais universais, quer às nossas angústias mais pessoais. Para além disso, podemos fazer perguntas ao próprio texto, como diz a Bianca, uma amiga que, talvez sem querer, contribuiu muito para eu aprender este princípio: para ler a Bíblia, ser filósofo! Venham então daí trepar pelos pêlos finos do coelho branco!

Deus não é poeta e os fósseis e a cosmologia são mentirosos?

A forma como abordamos a Bíblia pode levar alguns de nós a acreditar que Deus criou o mundo em 6 dias de 24 horas. Afinal, isso é o que lemos no capítulo 1 de Génesis se o lermos à letra, no seu sentido imediato e literal*. Sendo Génesis parte da Bíblia, tida como palavra de Deus, a dicotomia surge mais ou menos nos seguintes moldes: ou o Génesis 1 é uma narrativa válida do ponto de vista científico ou “Deus mentiu”.

Esta é uma perspectiva legítima, mas, a meu ver, há muita margem para desfazer a dicotomia sem beliscar o valor e o papel da Bíblia. Há que lançar ao ar algumas questões: qual é o estilo literário de Génesis 1? Qual é a origem/autoria deste texto? Qual a mensagem fundamental que o(s) seu(s) autor(es) pretende(m) comunicar? Que tipo de cosmovisões estavam frente a frente nas comunidades que constituíam as audiências primárias desta mensagem? Não há necessidade de responder de forma apressada a estas questões. Na verdade, podemos levar uma vida inteira a ruminar estas e outras questões sem nunca chegar a uma resposta fechada… A Matemática ensinou-me que, geralmente, as respostas mais apressadas são também as mais erradas.

Lançadas as questões, não abrir espaço à possibilidade de que o Génesis 1 tenha uma forte carga poética é uma opção legítima. Mas essa opção parece trazer consigo a implicação de que Deus não escreve poemas. Dentro desta perspectiva não há espaço para que o Supremo Arquitecto do Universo tenha veia poética, quer no que diz respeito ao próprio processo da Criação, quer no que diz respeito à forma como inspirou pessoas para fazer chegar a nós um registo desse processo. Eu, pessoalmente, gosto de imaginar que Deus criou o universo lentamente (talvez até tenha usado a evolução nesse processo, sei lá eu!), parando para apreciar a sua obra, dando algumas pinceladas mais enérgicas quando se entusiasmava com as maravilhas peculiares que iam resultando da sua infindável criatividade… é mais ou menos como imagino o Claude Monet a pintar os seus magníficos nenúfares. Sim, é uma visão de Deus muito antropomórfica, mas eu sou homem, não sou anjo: é como homem que consigo imaginar estes fenómenos e creio que Deus (cuja natureza ultrapassa de forma exponencial tudo aquilo que sou capaz de imaginar) não fica melindrado comigo.

Portanto, podemos acreditar que Deus criou o mundo em 144 horas e que o nosso planeta azul só aqui anda a girar em torno do sol há cerca de 6000 anos. Assim, podemos ler o Génesis 1 como se se tratasse de um artigo produzido pela ciência moderna. Esta é uma abordagem pragmática que, inevitavelmente, conduz a um conflito insanável entre fé e ciência: se para acreditarmos que Deus não mentiu temos de acreditar que a terra e o universo têm uma idade muito inferior àquela que aparentam ter, então são os fósseis e a cosmologia que mentem descaradamente. É a Natureza que é mentirosa! Ora, com base na própria Bíblia, acreditamos que Deus também se revela à humanidade através da Natureza. Receio que advogar desta forma o criacionismo em 6 dias de 24 horas se possa resumir assim: para que a revelação escrita não contenha qualquer tipo de “mentiras”, é a revelação natural que se torna, forçosamente, uma aldrabice. Coitado do Tomás de Aquino!

A propósito deste tema, é interessante notar que antes de ser formulada a teoria do Big Bang, a teoria das origens mais defendida era a de que o universo não tinha tido um início, mas sempre tinha existido. Ora a teoria do Big Bang até poderia ser recebida como um argumento a favor do criacionismo, mas, ao invés, foi demonizada sem misericórdia.

Este assunto está actualmente a agitar as comunidades evangélicas nos Estados Unidos porque os Gungor, uma banda do caraças, tornaram público a sua crença no evolucionismo. Tiveram concertos cancelados e vão sendo queimados vivos nessa fogueira sempre acesa que é o mundo globalizado através da web. Afinal, o santo ofício da inquisição ainda funciona.

*A propósito do termo ‘literal’, gosto da perspectiva que o NT Wright expõe neste vídeo e que se pode resumir assim: Génesis 1 é literal no seu sentido próprio, a saber, que Deus criou os céus e a terra para aí estar presente e se relacionar com o homem.

Em cada homem, um irmão!

Assim canta a Norah Jones num original da banda Old Crow Medicine Show:

“We’re all in this thing together
Walkin’ the line between faith and fear
This life don’t last forever
When you cry I taste the salt in your tears”

É uma canção que nos coloca a todos em pé de igualdade nesta aventura chamada vida. Somos todos peregrinos em busca de conforto, segurança, esperança, amor ou outras coisas que julgamos fundamentais para preencher os nossos vazios existenciais… mesmo que muitos de nós não tenhamos consciência disso.

A humanidade é uma enorme família fragmentada pelas divisões e conflitos étnicos, religiosos, ideológicos, económicos, geográficos, culturais e por aí fora… No fundo, somos todos semelhantes uns aos outros, nas nossas graças e desgraças, interrogações, anseios, expectativas, mas a ideia de que há o nós e há os outros germina nas nossas mentes com muita força e fica lá inculcada como lapa. Nascem os preconceitos, rótulos, sentimentos de superioridade e de inferioridade. Nascem as barreiras, nascem as guerras.

Ora, um dos desafios da Igreja é promover a desfragmentação da sociedade. Um dos desafios do cristão é encarar o próximo como alguém que lhe é igual em valor e em dignidade. Paulo escreveu assim há Igreja na Galácia: “Não há diferença entre judeu e não-judeu, entre escravos e pessoas livres, entre homem e mulher. Agora constituem um todo em união com Cristo Jesus.” Na Igreja caem por terra as divisões étnicas, sociais e de género (é interessante referir que Paulo está aqui na vanguarda de uma compreensão mais profunda e mais perfeita da igualdade de género, dentro de uma cultura profundamente machista). Noutras exortações Paulo completa esta ideia de uma forma muito prática: levem as cargas uns dos outros, alegrai-vos com os que se alegram, chorem com os que choram (provem o sal das lágrimas dos outros), considerem os outros superiores a vocês…

Assim fica pintado o quadro de uma Igreja que ilustra uma nova maneira de ser humanidade, uma humanidade à imagem e semelhança de Jesus Cristo. Ora a Igreja não é um grupo estático e esta realidade de que não há o nós e os outros não é para ser vivida apenas entre quatro paredes ou de uma forma institucionalizada. A Igreja é orgânica, dinâmica, aberta, de fronteiras imperceptíveis e sempre prontas a ganhar terreno. Os princípios que a Igreja tenta promover na sua vivência interna, extravasam naturalmente para o exterior, atraindo, cativando, provocando, convidado a todos. (Talvez até fosse mais correcto afirmar que a Igreja não tem vivência interna, porque tudo quanto faz deve servir de luz para todos). A realidade de que em Cristo não há diferença entre judeus e não-judeus (tão necessária nos tempos de Paulo) pode estender-se hoje às divisões confessionais entre cristãos: talvez Paulo chegasse a afirmar que, para aqueles que estão em Cristo, não há diferença entre católicos, evangélicos e ortodoxos, por exemplo. (Isto não implica que Paulo não tomasse posição quanto às doutrinas de uns e de outros e não viesse a combater com zelo aquilo que ele considerasse os desvios teológicos graves das várias correntes.)

Rejeito uma abordagem à fé cristã que não seja inclusiva. Rejeito essa abordagem à luz do Deus que se revela através de Jesus Cristo: numa sociedade machista, sionista, exclusivista, com muita influência farisaica, Jesus come em casa de “pecadores” , muda a vida de uma mulher estrangeira de Samaria, de uma prostituta, de um centurião romano, de leprosos considerados impuros, de cegos considerados amaldiçoados…

Acredito profundamente que Cristo é para todos. A obra de Jesus Cristo na cruz é potencialmente universal: na cruz erguida no monte do calvário, Cristo chama a si todos os homens; ali, contemplamos o ponto mais baixo a que chegou a humanidade condenando, blasfemando, rasgando a carne e vertendo o sangue do inocente Deus encarnado. Mas contemplamos também o ponto mais alto da História, Deus em Cristo reconciliando na cruz todas as coisas e oferecendo graciosamente a redenção à humanidade. Ao contrário do que a teologia reformada tende a enfatizar, parece-me que Paulo também acreditava no potencial universal da cruz de Cristo: é isso que me parece estar articulado na espectacular contraposição entre a consequência do pecado de Adão e a consequência da cruz de Cristo feita no capítulo 5 da Carta aos Romanos.

A Igreja também tem uma obra universal: a missão é abraçar todos os homens e todas as mulheres, convidado-os a olhar para a cruz, para aquele que nela (já não) está pregado e para o seu significado!

Não sei se é o medo que nos leva a criar barreiras que nos impedem de mergulhar na nossa missão de forma radical. Medo do diferente. Medo de que o outro ocupe um espaço que achamos ser nosso por direito. Não sei se é o medo ou se é o orgulho (tantas vezes eles andam de mãos dadas!) que nos leva a criar soteriologias de algibeira: definimos quem está dentro e quem está fora usando critérios duvidosos e exclusivistas. Aquele a quem seguimos deixou-nos como mandamento o amar o próximo como a nós mesmos. Mas tantas vezes o medo é mais forte do que o amor! Ora o mesmo mestre também nos alertou: não podemos servir a dois senhores! Portanto, ou servimos a Deus ou servimos o Medo (que é uma outra maneira de servir o Ego).

Estou longe de ter em mim plenamente formada a consciência de que o outro me é igual e a noção constante do valor do meu próximo. Ainda me habitam muitos preconceitos e uma tendência pecaminosa para o julgamento sumário daqueles que me parecem diferentes e, por alguma estúpida razão, me parecem ameaçadores. Mas estou no processo de desintoxicação…

Assim, oro a Deus pedindo que o convívio com o povo timorense crie um contexto no qual Ele venha a aguçar em mim esta consciência: em cada homem, um irmão.