A sociedade, a Igreja e uma flor

by davidraimundo

A pressa, o consumo, o ruído, o atropelo – atropelo uns aos outros, atropelo à justiça, atropelo ecológico, atropelo aos ideais, atropelo às famílias… Tanta loucura, tanto vazio! Tudo isto é vaidade. Corridas sem nexo atrás do vento…

Um sistema económico que é controlado por uma minoria e explora a maioria. Um sistema financeiro que atira gente -comunidades inteiras – para a mesa de jogo como se homens, mulheres ou crianças fossem reduzidos a meras fichas de casino, meros grãos que a máquina mói para dar o seu lucro.

Um sistema político travestido de democracia, a coroação de todos os sofismas, de todos os enganos, de todas as corrupções.

Uma sociedade louca pela qual tenho desprezo, mas, simultaneamente, integro-a, alimento a sua loucura e alimento-me dela também.

Uma sociedade ocupada na luta pela sobrevivência competitiva, que não apresenta alternativas, caracterizada assim por Gilles Lipotevsky:

“Tudo se passa como se tivéssemos ido da era do pós para a era do hiper. Nasce uma nova sociedade moderna. Trata-se não mais de sair do mundo da tradição para aceder à racionalidade moderna, e sim de modernizar a própria modernidade, racionalizar a racionalização – ou seja, na realidade destruir os “arcaísmos” e as rotinas burocráticas, pôr fim à rigidez institucional e aos entraves protecionistas, rebocar, privatizar, estimular a concorrência. O voluntarismo do “futuro radiante” foi sucedido pelo ativismo gerencial, uma exaltação da mudança, da reforma, da adaptação, desprovida tanto de um horizonte de esperanças quanto de uma visão grandiosa da história. Por toda parte, a ênfase é na obrigação do movimento, a hiper-mudança sem o peso de qualquer visão utópica, ditada pelo imperativo da eficiência e pela necessidade da sobrevivência. Na hipermodernidade, não há escolha, não há alternativa, senão evoluir, acelerar para não ser ultrapassado pela “evolução”: o culto da modernização técnica prevaleceu sobre a glorificação dos fins e dos ideais. Quanto menos o futuro é previsível, mais ele precisa ser mutável, flexível, reativo, permanentemente pronto a mudar, supermoderno, mais moderno que os modernos dos tempos heróicos. A mitologia da ruptura radical foi substituída pela cultura do mais rápido e do sempre mais: mais rentabilidade, mais desempenho, mais flexibilidade, mais inovação. Resta saber se, na realidade, isso não significa modernização cega, niilismo técnico-mercantil, processo que transforma a vida em algo sem propósito e sem sentido.”

Há algo de atraente nos movimentos marginais da sociedade. Admiro Christopher McCandless, o jovem aventureiro em cuja história se baseia o filme Into the Wild (e a espectacular banda sonora de Eddie Vedder). Admiro o movimento hippie, gente que à sua maneira tentou promover paz e amor, reagindo contra o militarismo, o capitalismo e o corporativismo. Admiro também as comunidades Amish. Os monges que em mosteiros se dedicam a uma vida simples, contemplativa, devota. Os Pais do Deserto que contrastaram com o cristianismo imperial. João Baptista cuja pregação e estilo de vida colocava em cheque os fariseus e doutores da lei…

A todos estes exemplos podem ser apontados excessos, desvarios, críticas. Podemos até dizer que se trata apenas de gente louca, exemplos a não seguir. Ainda assim, o contraste intencional entre aqueles que vivem de forma não convencional e a sociedade convencional deve provocar a questão: será a loucura deles superior à nossa? Ou será que, de todos os loucos que existem no mundo, eles ainda são os mais sãos?

Falemos da Igreja. Comunidade universal de todos os discípulos de Jesus Cristo. Que papel pode desempenhar a Igreja numa sociedade tão doente? A Igreja deve encolher-se, esconder-se, criar muralhas, para não ser contaminada? Criar comunidades marginais como os Amish? Fugir para o deserto?

Creio que por vezes as comunidades cristãs (e aqui falo sobretudo do cristianismo evangélico que é aquele que por dentro conheço) têm uma tendência contraproducente para o isolamento. Porque se promove a criação de uma subcultura religiosa própria, sem que isso produza efeitos na vivência concreta das pessoas, nomeadamente no que toca às prioridades, preocupações, gestão de relacionamentos… Mesmo o estilo de vida dos cristãos, que procuram distinguir-se adoptando uma série de comportamentos morais diferentes, é no seu núcleo fundamental semelhante ao dos não cristãos. Este processo corre o risco de gerar uma Igreja pouco relevante, pois tantas vezes as prioridades são iguais às da sociedade, os métodos são os mesmos, os fins são os mesmos, os padrões são os mesmos, as estratégias são as mesmas. Por muito bem intencionados que sejamos, falhamos no cumprimento da exortação de Paulo: não se conformem com o padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação do vosso entendimento, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. 

Assim, o isolamento dos Amish pode tornar-se muito mais marcante do que o isolamento das subculturas evangélicas. Ou seja: se a opção da Igreja for no sentido de uma comunidade que rompe com a sociedade, então mais vale – a bem da relevância – que essa ruptura seja total.

Pessoalmente, e ainda que me sinta atraído por essas comunidades marginais, não creio que o isolamento seja o caminho. Poderá sê-lo em circunstâncias concretas, como no caso dos Pais do Deserto. Mas sempre que possível, segundo o ensino de Cristo, os discípulos terão de estar na sociedade como o fermento está na massa, como o sal está na comida, como a luz no meio da escuridão. Mas como? Como podemos ser Igreja nesta sociedade louca? Como podemos ser discípulos no mundo ocidental no século XXI?

Não sei. São questões que me deixam emudecido. São as questões de que se deve ocupar a teologia hoje: importa muito mais compreender como ser sal e luz nesta sistema económico, do que saber se Calvino estava ou não certo. Importa muito mais ter um discurso e uma acção sobre a pobreza, sobre a corrupção, sobre a guerra, do que discutir exaustivamente se o livro de Job é figurado ou uma narração factual.

Não sei responder às questões, mas desconfio que há respostas. Não sei responder às questões, mas tenho sonhos.

Sonho uma Igreja ousada que, presente na sociedade, tenha imaginação para demonstrar outra maneira de ser humanidade, encarnar outra maneira de fazer comunidade e família, promover outra maneira de fazer economia, de fazer política, de tratar do que é social ou cultural.

Sonho uma Igreja capaz de acolher aqueles que não são acolhidos por ninguém, capaz de dar a quem ninguém quer dar (e a quem toda a gente quer dar, dar coisas diferentes), pronta para agir em graça de formas inusitadas, inesperadas, subversivas. Não sei extrair destes sonhos princípios concretos, não sei que passos dar para sermos Igreja assim. Sei que é essencial que a imaginação e a criatividade do próprio Deus capturem a nossa visão colectiva e os nossos espíritos. Que o Espírito Santo que ao longo da história reanima a Igreja, como vento impetuoso que sopra onde quer, sopre mais uma vez na nossa geração, na nossa sociedade, trazendo à Igreja um cântico novo, um cântico que os nossos contemporâneos consigam ouvir.

O Shane Claiborne conta acerca de uma palestra em que o palestrante subiu ao palanque mas, em vez de falar, limitou-se a exibir uma flor durante trinta minutos. Confrontou as pessoas com o inesperadamente belo, inesperadamente gracioso, inesperadamente glorioso. Desarmou a plateia com a simplicidade de uma flor. Com um gesto de graça, os corações desprevenidos renderam-se.

Sonho uma Igreja que seja na sociedade o que a flor foi para aquela plateia.

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