Três desabafos

by davidraimundo

1. Há nalguns sectores evangélicos uma tendência pró-sionista que revela, na minha opinião, uma má compreensão da cosmovisão cristã que brota dos evangelhos e da teologia do Novo Testamento (por arrasto, essa tendência revela também uma compreensão incompleta do Velho Testamento). No Novo Testamento, com a revelação perfeita de Deus através de Jesus Cristo, compreendemos que o povo de Deus é toda a humanidade. Todos os homens, todas as mulheres, de qualquer período histórico, de qualquer etnia, nacionalidade ou cultura, todos somos convidados a integrar este povo. A cruz desafia cada um individualmente, e a humanidade no seu conjunto, a adoptarmos a cidadania celestial como essência da nossa identidade. Também por Cristo, compreendemos agora que terra santa é todo o lugar onde Deus reina e todos os corações onde ele é Senhor. Desta forma, o que o Novo Testamento nos revela não dá espaço para uma visão política enquinada. Não dá margem para encararmos o conflito israelo-árabe como a história do bom e do vilão. O Novo Testamento revela-nos um Deus que condena as bombas lançadas quer de um lado, quer de outro, e que chora e sofre pelos inocentes israelitas que são vítimas de atentados atrozes, assim como chora e sofre pelos palestinianos atingidos pelos bombardeamentos israelitas. Não há distinção de pessoas. Não há distinção de povos. O sonho de Deus é que todas as nações e todos os povos vivam pacificamente. A Igreja é comissionada para mostrar ao mundo um esboço desse sonho, iluminando o caminho, cativando as pessoas pela praxis.

2. À entrada de Vila Franca de Xira encontra-se por estes dias um cartaz afixado num edifício que está a ser alvo de obras de remodelação. Parece que se irá instalar por ali uma igreja pentecostal ou neopentecostal, a igreja adefe (o que poderá originar um excelente slogan, assim haja imaginação: “se és membro da igreja adefe, faltas ao culto e levas um tabefe!”). Uma das frases em destaque no cartaz é “Fogo para a Europa”. É um lema absolutamente descontextualizado, que pode até assumir contornos de ofensivo num país que ano após ano é assolado por incêndios. Há expressões que usamos nas igrejas, carregadas de evangeliquês que se tornam ridículas, mesmo tendo algum tipo de raiz bíblica e mesmo que consigamos compreender o seu significado metafórico. Este é um caso extremo: tentando analisar friamente aquele cartaz, imaginando-me na pele de alguém que nunca pôs o pé numa igreja evangélica, a impressão que fica é que a igreja adefe ou é um viveiro de pirómanos ou é coisa de gente um bocado alucinada.

3. Tenho percebido que há católicos que têm muito que ensinar aos cristãos de outras tradições. Com o Joseph Ratzinger eu podia aprender sobre a profundidade da obra de Cristo. Com o Nouwen podia aprender sobre espiritualidade, sobre a alma humana e a forma como só Deus a pode satisfazer. Também me tem sido dito que com o Chesterton (autor da frase que deu o mote para o nome deste blogue) podia aprender algo, mas ainda não o pude ler decentemente. A Débora já aprendeu sobre amizade com o Tolentino Mendonça. Com alguns padres católicos podia aprender também sobre o que é ser igreja. Mas no sábado passado fui a Fátima, e em Fátima não se aprende nada. Cresci a ouvir criticar a idolatria que se pratica em Fátima, mas ainda não me tinha debruçado sobre o assunto de forma mais profunda. Não conhecia os relatos das supostas aparições, nem o conteúdo das supostas mensagens da nossa senhora. Ora, agora que conheço, tenho de dizer que tudo aquilo me causa perplexidade porque não tem ponta por onde se pegue, nem no que diz respeito aos relatos históricos, nem no que diz respeito ao conteúdo dos segredos, os timmings em que foram tornados públicos, as implicações políticas muito suspeitas e as implicações teológicas (não é de admirar que Ratzinger, que enquanto cardeal foi responsável pela redacção do Comentário Teológico à Mensagem de Fátima, tenha esvaziado essa mesma mensagem de muito do seu conteúdo literal, ao adoptar no seu Comentário uma interpretação bastante superficial da mesma; é mesmo crível que Fátima cause incómodo a Ratzinger). Fátima não passa pelo crivo de uma qualquer teologia que tenha Cristo como fundamento. Não vou prolongar mais o desabafo, mas tenho vontade de continuar a ler e analisar o assunto. Para já fica esta afirmação vincada: aos meus olhos Fátima é um enorme centro de paganismo. Não há grupos de católicos a dizer o mesmo?

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