Desfragmentação do coração

by davidraimundo

Um amigo costuma dizer que Jesus seria informático caso tivesse esperado um par de milénios e viesse agora exercer a sua missão na sociedade contemporânea. Isto porque, à semelhança dos informáticos, Jesus é especialista em resolver problemas. Claro que através desta sugestão o meu amigo está a puxar a brasa à sua sardinha. Mais, creio que nem eu nem ele concordaríamos com uma leitura demasiado utilitarista desta ideia: Jesus não pode ser reduzido a um moço de recados ou a um génio da lâmpada. (E muito poderíamos nós discorrer sobre este ponto, mas guardemos isso para futuras divagações.)

A especialidade de Jesus é resolver problemas, sim. Porém não se trata de resolver todo e qualquer problema com que nos deparamos. Trata-se sobretudo de resolver os problemas do coração. Não no mesmo sentido do médico cardiologista, mas num sentido mais profundo e necessário. Eu sou extremamente incoerente, fragmentado e contraditório. A minha vontade, as minhas emoções e as minhas convicções não têm o hábito de caminhar de mãos dadas. Pelo contrário: estão em conflito no meu interior e puxam-me para direcções diferentes; as suas forças opostas rasgam-me, dilaceram o coração. É este problema que Jesus quer solucionar.

Não sei se partilham comigo a consciência deste problema cardíaco, mas sei que já o apóstolo Paulo reconhecia o problema como inerente à condição humana:

“Não me compreendo: porque na realidade o que faço, sei que não é bom. E aquilo que eu reconheço ser recto, não consigo fazer. E venho a fazer até aquilo que, no íntimo, repudio. E se a minha consciência reconhece como errado isso que faço, ela própria me é testemunha de que são boas as leis de Deus a que desobedeço. Mas não posso evitá-lo, porque já não sou eu mesmo quem faz isso; é o pecado dentro de mim. Eu reconheço que em mim, ou seja na minha natureza pecaminosa não existe nada de bom. Quero fazer o que é recto mas não posso. Quando quero fazer o bem, não o faço; e o mal que não quero, venho sempre a fazê-lo. Portanto, se estou afinal a fazer o que não quero, é simples de ver onde está a causa: o pecado que me domina. É portanto como que uma força natural em mim, que quando quero fazer o que é justo, faço inevitavelmente o que é errado. A minha consciência faz-me querer de todo o meu coração praticar a vontade de Deus; mas existe outra coisa no fundo de mim mesmo que está em guerra com o meu querer e que me torna escravo do pecado que ainda está em mim.”

Paulo na sua carta aos cristãos em Roma

A fragmentação do coração é um mal provocado por esta força opressora, egocêntrica e maldosa designada, em termos bíblicos, de pecado.

A fragmentação que Paulo tão bem exprime é ainda elevada ao expoente máximo na nossa sociedade pós-moderna também ela profundamente fragmentada, contraditória na tentativa de englobar em si mesma cosmovisões não conciliáveis, dilacerada pela ausência de propósito e pela cultura de alienação constante. Não admira, portanto, que aos 23 anos, numa tentativa de lidar com os conflitos interiores, a minha veia poética pós-moderna tenha produzido esta amarga confissão:

À Gauche et À Droite

Por vezes, parece-me que os meus dois pés têm vida própria
E que cada um deles caminha, independente, na sua direcção.
Parece que enquanto o direito dá um passo certinho
O esquerdo dá um passo atrás;
Enquanto o direito caminha em frente, serenamente,
O esquerdo anda desvairadamente sem rumo;
Enquanto o direito ultrapassa obstáculos
O esquerdo tropeça e cái…
Por culpa desta guerra entre os meus dois pés
Eu não vou a lado nenhum!
E de que me serve ter um par de pés se eles não me levam a lado nenhum?

Que me levem os dois para o fundo do poço
Ou então que me levem os dois para as estrelas!
Mas decidam-se, porra!

De que me servem os dois pés
Se não tenho domínio sobre eles?
O pé direito arrasta-me para terreno firme
E só dá passinhos bem medidos com régua e esquadro.
O pé esquerdo arrasta-me para os pântanos
E o movimento dele é regido por vectores aleatórios.

Por vezes, tenho vontade de ter só um pé!
Ao menos as muletas são inanimadas e obedientes!

Ah se eu um dia conseguisse mexer nos fusíveis
Que regulam a coordenação motora…
Dava um nó no cerebelo
Ou cosia uns remendos no meu córtex
E, a bem ou a mal, os meus pés haviam de se entender!

De que me serve ter dois pés
Se eles não sabem dançar juntos?

Hoje, passados 7 anos, acredito que os meus pés estão a aprender a dançar juntos. Acredito que da mesma forma que um informático conhece os comandos necessários para proceder à desfragmentação de um disco rígido, Jesus conhece a cirurgia necessária para desfragmentar o meu coração. Até porque creio também que foi ele que me programou.

A cirurgia vai-se processando enquanto eu viver. Eu que, sozinho, estou condenado a ser um vale de ossos secos, um esqueleto sem vida e disforme, sou transformado pelo Espírito de Cristo num ser ao qual é dado o sopro da vida verdadeira. O meu coração que, abandonado, está condenado a ser palco de uma batalha devastadora, nas mãos do cirurgião é transformado pelo seu Amor. Amor que faz cessar conflitos, que reconstrói e faz reinar a paz.

Penso que a palavra que melhor exprime a condição oposta à fragmentação é a palavra integridade. Ser íntegro não apenas no sentido de agir correctamente em questões morais, éticas ou relacionais, mas também no que diz respeito à raiz da palavra: íntegro e inteiro são palavras com a mesma raiz. Podemos assim dizer que ser íntegro significa ser um todo não fragmentado, um todo que é em tudo coerente com as suas partes. Ser íntegro significa ser intrinsecamente um. O homem íntegro é aquele que vive o poema de Ricardo Reis: “Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa…”. A integridade é o resultado da cirurgia divina no coração humano.

Leio por estes dias um livro de James Houston em que se procura resgatar o valor do coração como símbolo do cerne da identidade humana, o âmago do ser no qual se “unem mente, vontade e emoção, constituindo um modo de viver integrado e permitindo-nos pensar, desejar e sentir como uma pessoa íntegra”. Assim, o caminho da integridade, para o qual Cristo convida todos os homens, é sobretudo o caminho da desfragmentação do coração.

Creio que também podemos retirar esta exortação das palavras de Jesus no Sermão do Monte: “Que o vosso ‘Sim’ seja sim e o vosso ‘Não’ seja não; tudo o que passa disso vem do maligno.” Ainda que o contexto em que Jesus profere estas palavras seja outro (está-se a tratar ali da prática de fazer juramentos), algo que esta exortação revela de forma indirecta é o propósito de Deus de que haja uma unidade entre o que dizemos, o que pensamos, o que desejamos, o que cremos e o que fazemos. É propósito de Deus que a nossa emoção, a nossa vontade e a nossa convicção sejam forças a agir no mesmo sentido. O homem íntegro viverá mais de acordo com as suas convicções. O homem íntegro viverá mais de acordo com as suas emoções. O homem íntegro comunicará o seu amor com as palavras, mas também com as emoções e com as atitudes. O homem íntegro dirá com a sua boca, e também  com a sua vida, que crê. O homem íntegro dirá com a sua boca, e também com o seu viver, que confia.

Oro a Deus pedindo que ele seja o informático que o meu coração precisa: desfragmenta o meu coração, meu Senhor, e todos os dias torna-me mais íntegro, mais inteiro, mais teu e menos meu.

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