Costureiro nas horas vagas

by davidraimundo

No princípio revelou-se Deus aos homens através da criação.

Veio depois a lei de Moisés para revelar aos homens a falibilidade humana.

Veio Jesus Cristo para revelar aos homens a Graça de Deus, o critério pelo qual Ele se relaciona connosco, bem patente na crucificação.

Vieram os primeiros cristãos e anunciaram essa Graça aos homens de todas as línguas, etnias e regiões vizinhas. Muitos dos que nela creram foram perseguidos e martirizados pelo Império Romano.

Vieram depois Constantino e Teodósio e disseram: façamos o Cristianismo à imagem e semelhança do Império e das religiões pagãs dos povos que o habitam. E assim do Cristianismo se fez religião de poder, numa viragem que contrastou de forma paradoxal com a cruz de Cristo. Nasce o Catolicismo Romano, as cruzadas, a Inquisição e um Cristianismo mesclado de tradições pagãs que tanto chocam o espírito evangélico (sim, porque os evangélicos são imunes às tradições…).

Mais tarde veio Lutero para dizer ‘basta!’. E os seus discípulos, dissidentes do catolicismo, contaram à Europa e ao mundo acerca de uma outra maneira de ser cristão. Com todos os defeitos que tinham, mostraram outra forma de viver a fé, enraizada na Bíblia – que então se traduziu e divulgou – e na noção de sacerdócio universal.

Ora, nesta história, que papel está reservado para os protestantes e evangélicos contemporâneos? Pelos vistos é assim:

Viemos nós e dissemos: façamos o Novo Testamento à imagem e semelhança do Velho!

Anunciemos aos povos que a lei não caducou, tornando regra todas as exortações práticas de Paulo, sem atentar ao contexto em que ele as escreveu. Adicionemos a essas exortações a nossa própria lista de proibições procurando nas entrelinhas dos textos dicas e pistas que nos levem a ter base pseudobíblica para que essa lista seja absolutamente exaustiva. Nada pode ficar ao acaso! As pessoas não têm competência para discernir aquilo que podem ou não fazer e o Espírito Santo pode ser muito bom a moldar corações, mas nós vamos mostrar que somos ainda mais eficazes a controlar comportamentos! Temos de impor normas de conduta muito precisas. Elaboremos um código legislativo minucioso e farisaico: não podemos vestir isto, não podemos comer aquilo, não podemos frequentar aquele lugar, não podemos usar aquele vocabulário, não podemos gostar daquele estilo de música… Um código que faça inveja aos doutores da lei do tempo de Jesus!

Mais: utilizemos a técnica de corte e costura de versículos bíblicos para tentar responder a todos os dilemas filosóficos, morais, éticos e pessoais, sem considerar a hipótese de que a Bíblia não tenha a pretensão de pronunciar-se directa ou indirectamente acerca deles. Deste modo procuramos na Bíblia respostas explícitas para perguntas que provavelmente nunca ocuparam o pensamento dos seus autores e dessas respostas, formuladas mais pela nossa imaginação forçada do que por uma hermenêutica cuidadosa, façamos dogma e finca-pé.

Coloquemos obstáculos no acesso das pessoas a Deus. A liberdade de acesso ao Pai, garantida por Jesus no Calvário, escancarou demasiado as portas e tem de ser corrigida. Que Deus nos use nesse sentido! Voltemos a coser o véu do templo que se rasgou de alto a baixo quando Jesus expirou. O bom evangélico contemporâneo cose o véu nas horas vagas!

Sim, esta é mesmo a nossa missão…

 

(Nota: este é um texto crítico e sarcástico em primeiro lugar contra mim próprio. Eu não quero ser costureiro nas horas vagas e peço a Deus que arranque de mim esta tendência maligna para a costura. Peço-lhe que me ensine a cumprir a lei do amor: é esta a lei do Novo Testamento; é este o propósito do caminho cristão.)

Anúncios