Pontos e contos de um cristão pós-moderno

Month: Abril, 2014

Desfragmentação do coração

Um amigo costuma dizer que Jesus seria informático caso tivesse esperado um par de milénios e viesse agora exercer a sua missão na sociedade contemporânea. Isto porque, à semelhança dos informáticos, Jesus é especialista em resolver problemas. Claro que através desta sugestão o meu amigo está a puxar a brasa à sua sardinha. Mais, creio que nem eu nem ele concordaríamos com uma leitura demasiado utilitarista desta ideia: Jesus não pode ser reduzido a um moço de recados ou a um génio da lâmpada. (E muito poderíamos nós discorrer sobre este ponto, mas guardemos isso para futuras divagações.)

A especialidade de Jesus é resolver problemas, sim. Porém não se trata de resolver todo e qualquer problema com que nos deparamos. Trata-se sobretudo de resolver os problemas do coração. Não no mesmo sentido do médico cardiologista, mas num sentido mais profundo e necessário. Eu sou extremamente incoerente, fragmentado e contraditório. A minha vontade, as minhas emoções e as minhas convicções não têm o hábito de caminhar de mãos dadas. Pelo contrário: estão em conflito no meu interior e puxam-me para direcções diferentes; as suas forças opostas rasgam-me, dilaceram o coração. É este problema que Jesus quer solucionar.

Não sei se partilham comigo a consciência deste problema cardíaco, mas sei que já o apóstolo Paulo reconhecia o problema como inerente à condição humana:

“Não me compreendo: porque na realidade o que faço, sei que não é bom. E aquilo que eu reconheço ser recto, não consigo fazer. E venho a fazer até aquilo que, no íntimo, repudio. E se a minha consciência reconhece como errado isso que faço, ela própria me é testemunha de que são boas as leis de Deus a que desobedeço. Mas não posso evitá-lo, porque já não sou eu mesmo quem faz isso; é o pecado dentro de mim. Eu reconheço que em mim, ou seja na minha natureza pecaminosa não existe nada de bom. Quero fazer o que é recto mas não posso. Quando quero fazer o bem, não o faço; e o mal que não quero, venho sempre a fazê-lo. Portanto, se estou afinal a fazer o que não quero, é simples de ver onde está a causa: o pecado que me domina. É portanto como que uma força natural em mim, que quando quero fazer o que é justo, faço inevitavelmente o que é errado. A minha consciência faz-me querer de todo o meu coração praticar a vontade de Deus; mas existe outra coisa no fundo de mim mesmo que está em guerra com o meu querer e que me torna escravo do pecado que ainda está em mim.”

Paulo na sua carta aos cristãos em Roma

A fragmentação do coração é um mal provocado por esta força opressora, egocêntrica e maldosa designada, em termos bíblicos, de pecado.

A fragmentação que Paulo tão bem exprime é ainda elevada ao expoente máximo na nossa sociedade pós-moderna também ela profundamente fragmentada, contraditória na tentativa de englobar em si mesma cosmovisões não conciliáveis, dilacerada pela ausência de propósito e pela cultura de alienação constante. Não admira, portanto, que aos 23 anos, numa tentativa de lidar com os conflitos interiores, a minha veia poética pós-moderna tenha produzido esta amarga confissão:

À Gauche et À Droite

Por vezes, parece-me que os meus dois pés têm vida própria
E que cada um deles caminha, independente, na sua direcção.
Parece que enquanto o direito dá um passo certinho
O esquerdo dá um passo atrás;
Enquanto o direito caminha em frente, serenamente,
O esquerdo anda desvairadamente sem rumo;
Enquanto o direito ultrapassa obstáculos
O esquerdo tropeça e cái…
Por culpa desta guerra entre os meus dois pés
Eu não vou a lado nenhum!
E de que me serve ter um par de pés se eles não me levam a lado nenhum?

Que me levem os dois para o fundo do poço
Ou então que me levem os dois para as estrelas!
Mas decidam-se, porra!

De que me servem os dois pés
Se não tenho domínio sobre eles?
O pé direito arrasta-me para terreno firme
E só dá passinhos bem medidos com régua e esquadro.
O pé esquerdo arrasta-me para os pântanos
E o movimento dele é regido por vectores aleatórios.

Por vezes, tenho vontade de ter só um pé!
Ao menos as muletas são inanimadas e obedientes!

Ah se eu um dia conseguisse mexer nos fusíveis
Que regulam a coordenação motora…
Dava um nó no cerebelo
Ou cosia uns remendos no meu córtex
E, a bem ou a mal, os meus pés haviam de se entender!

De que me serve ter dois pés
Se eles não sabem dançar juntos?

Hoje, passados 7 anos, acredito que os meus pés estão a aprender a dançar juntos. Acredito que da mesma forma que um informático conhece os comandos necessários para proceder à desfragmentação de um disco rígido, Jesus conhece a cirurgia necessária para desfragmentar o meu coração. Até porque creio também que foi ele que me programou.

A cirurgia vai-se processando enquanto eu viver. Eu que, sozinho, estou condenado a ser um vale de ossos secos, um esqueleto sem vida e disforme, sou transformado pelo Espírito de Cristo num ser ao qual é dado o sopro da vida verdadeira. O meu coração que, abandonado, está condenado a ser palco de uma batalha devastadora, nas mãos do cirurgião é transformado pelo seu Amor. Amor que faz cessar conflitos, que reconstrói e faz reinar a paz.

Penso que a palavra que melhor exprime a condição oposta à fragmentação é a palavra integridade. Ser íntegro não apenas no sentido de agir correctamente em questões morais, éticas ou relacionais, mas também no que diz respeito à raiz da palavra: íntegro e inteiro são palavras com a mesma raiz. Podemos assim dizer que ser íntegro significa ser um todo não fragmentado, um todo que é em tudo coerente com as suas partes. Ser íntegro significa ser intrinsecamente um. O homem íntegro é aquele que vive o poema de Ricardo Reis: “Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa…”. A integridade é o resultado da cirurgia divina no coração humano.

Leio por estes dias um livro de James Houston em que se procura resgatar o valor do coração como símbolo do cerne da identidade humana, o âmago do ser no qual se “unem mente, vontade e emoção, constituindo um modo de viver integrado e permitindo-nos pensar, desejar e sentir como uma pessoa íntegra”. Assim, o caminho da integridade, para o qual Cristo convida todos os homens, é sobretudo o caminho da desfragmentação do coração.

Creio que também podemos retirar esta exortação das palavras de Jesus no Sermão do Monte: “Que o vosso ‘Sim’ seja sim e o vosso ‘Não’ seja não; tudo o que passa disso vem do maligno.” Ainda que o contexto em que Jesus profere estas palavras seja outro (está-se a tratar ali da prática de fazer juramentos), algo que esta exortação revela de forma indirecta é o propósito de Deus de que haja uma unidade entre o que dizemos, o que pensamos, o que desejamos, o que cremos e o que fazemos. É propósito de Deus que a nossa emoção, a nossa vontade e a nossa convicção sejam forças a agir no mesmo sentido. O homem íntegro viverá mais de acordo com as suas convicções. O homem íntegro viverá mais de acordo com as suas emoções. O homem íntegro comunicará o seu amor com as palavras, mas também com as emoções e com as atitudes. O homem íntegro dirá com a sua boca, e também  com a sua vida, que crê. O homem íntegro dirá com a sua boca, e também com o seu viver, que confia.

Oro a Deus pedindo que ele seja o informático que o meu coração precisa: desfragmenta o meu coração, meu Senhor, e todos os dias torna-me mais íntegro, mais inteiro, mais teu e menos meu.

Costureiro nas horas vagas

No princípio revelou-se Deus aos homens através da criação.

Veio depois a lei de Moisés para revelar aos homens a falibilidade humana.

Veio Jesus Cristo para revelar aos homens a Graça de Deus, o critério pelo qual Ele se relaciona connosco, bem patente na crucificação.

Vieram os primeiros cristãos e anunciaram essa Graça aos homens de todas as línguas, etnias e regiões vizinhas. Muitos dos que nela creram foram perseguidos e martirizados pelo Império Romano.

Vieram depois Constantino e Teodósio e disseram: façamos o Cristianismo à imagem e semelhança do Império e das religiões pagãs dos povos que o habitam. E assim do Cristianismo se fez religião de poder, numa viragem que contrastou de forma paradoxal com a cruz de Cristo. Nasce o Catolicismo Romano, as cruzadas, a Inquisição e um Cristianismo mesclado de tradições pagãs que tanto chocam o espírito evangélico (sim, porque os evangélicos são imunes às tradições…).

Mais tarde veio Lutero para dizer ‘basta!’. E os seus discípulos, dissidentes do catolicismo, contaram à Europa e ao mundo acerca de uma outra maneira de ser cristão. Com todos os defeitos que tinham, mostraram outra forma de viver a fé, enraizada na Bíblia – que então se traduziu e divulgou – e na noção de sacerdócio universal.

Ora, nesta história, que papel está reservado para os protestantes e evangélicos contemporâneos? Pelos vistos é assim:

Viemos nós e dissemos: façamos o Novo Testamento à imagem e semelhança do Velho!

Anunciemos aos povos que a lei não caducou, tornando regra todas as exortações práticas de Paulo, sem atentar ao contexto em que ele as escreveu. Adicionemos a essas exortações a nossa própria lista de proibições procurando nas entrelinhas dos textos dicas e pistas que nos levem a ter base pseudobíblica para que essa lista seja absolutamente exaustiva. Nada pode ficar ao acaso! As pessoas não têm competência para discernir aquilo que podem ou não fazer e o Espírito Santo pode ser muito bom a moldar corações, mas nós vamos mostrar que somos ainda mais eficazes a controlar comportamentos! Temos de impor normas de conduta muito precisas. Elaboremos um código legislativo minucioso e farisaico: não podemos vestir isto, não podemos comer aquilo, não podemos frequentar aquele lugar, não podemos usar aquele vocabulário, não podemos gostar daquele estilo de música… Um código que faça inveja aos doutores da lei do tempo de Jesus!

Mais: utilizemos a técnica de corte e costura de versículos bíblicos para tentar responder a todos os dilemas filosóficos, morais, éticos e pessoais, sem considerar a hipótese de que a Bíblia não tenha a pretensão de pronunciar-se directa ou indirectamente acerca deles. Deste modo procuramos na Bíblia respostas explícitas para perguntas que provavelmente nunca ocuparam o pensamento dos seus autores e dessas respostas, formuladas mais pela nossa imaginação forçada do que por uma hermenêutica cuidadosa, façamos dogma e finca-pé.

Coloquemos obstáculos no acesso das pessoas a Deus. A liberdade de acesso ao Pai, garantida por Jesus no Calvário, escancarou demasiado as portas e tem de ser corrigida. Que Deus nos use nesse sentido! Voltemos a coser o véu do templo que se rasgou de alto a baixo quando Jesus expirou. O bom evangélico contemporâneo cose o véu nas horas vagas!

Sim, esta é mesmo a nossa missão…

 

(Nota: este é um texto crítico e sarcástico em primeiro lugar contra mim próprio. Eu não quero ser costureiro nas horas vagas e peço a Deus que arranque de mim esta tendência maligna para a costura. Peço-lhe que me ensine a cumprir a lei do amor: é esta a lei do Novo Testamento; é este o propósito do caminho cristão.)