Pontos e contos de um cristão pós-moderno

Month: Fevereiro, 2014

Cargas e descargas

Carrego ao peito medalhas de muitas guerras. Foram conflitos travados em circunstâncias desfavoráveis. Foram vitórias que me conduziram ao sucesso. Sucesso: a patente mais alta de todas as patentes que os homens usam para se medir uns aos outros. Em cenários de crise, eu fui vencedor! Aprendi a recolher benefícios no meio do caos. Aprendi a berrar mais alto. Aprendi a gerir as circunstâncias e a orientá-las na direcção que mais me convém.

Carrego na alma o orgulho de quem subiu a pulso na vida. Fiz-me quem sou: um herói segundo o meu próprio coração. Sou o protótipo do self made man! Do outro lado do espelho vejo um homem valioso e poderoso e do outro lado do currículo vejo um histórico que atesta a glória dos impérios que eu construí. Hoje em dia não dependo de ninguém e não devo nada a ninguém: sou auto-suficiente.

Carrego em mim a admiração dos outros: de alguns recebo admiração temperada com uma inveja que muito me agrada. De outros, recebo uma admiração bajuladora que também afaga o meu ego. E também há aqueles que nutrem por mim uma admiração sincera: condecoram a minha pessoa com epítetos do tipo inteligente, líder, exemplar e inspirador… Carrego estes epítetos todos colando-os à consideração que tenho de mim próprio. Assim, sentado confortavelmente no meu trono de mérito, tenho o rosto inchado e sinto-me grande e forte.

Mas à noite, quando a insónia me amarra e quando a escuridão leva o pensamento para os lugares recônditos da alma, confesso a mim próprio, em letras pequeninas, que todas as coisas que carrego em mim constituem uma carga demasiado pesada que quebra os meus ossos e esmaga o meu espírito.

O pai-nosso contemporâneo

Então um guru subiu ao poleiro e, gesticulando, ensinou os seus discípulos:
“Vocês, quando orarem, orem assim:
Mercado nosso que estás nas principais praças financeiras,
Acalmados sejam os teus nervos,
Venha a nós a tua ditadura, assim na riqueza como na pobreza,
Os juros de cada dia nos dá hoje,
E compra-nos a nossa dívida, assim como nós compramos a dívida dos criminosos que são nossos cúmplices,
E não nos conduzas à bancarrota, mas livra-nos do défice,
Porque teu é o crescimento, a retoma e o milagre económico para sempre
[bom… depois das legislativas logo se vê se é ou não para sempre].
Amén.”