O cozinheiro parisiense

by davidraimundo

Numa época em que estão em voga os Tops Chefs e os Masters Chefs, numa era em que as nossas cozinhas já parecem vir equipadas com estantes repletas de dicas gourmet, parece-me pertinente trazer à baila uma história que ouvi em tempos.

Conta-se que um parisiense aspirante a cozinheiro foi enviado um dia para uma terra distante. Estava encarregue de exibir ali as iguarias da cozinha francesa, desenvolver os seus dotes culinários e, ao mesmo tempo, enriquecer as ementas daquelas paragens. O rapaz fez a trouxa, juntou os seus indispensáveis utensílios e as ervas aromáticas exóticas que desconfiava não encontrar no destino, e fez-se ao caminho, confiante. Tinha feito workshops nas mais prestigiadas academias de culinária da cidade luz e, mesmo inexperiente, acreditava que conhecia os segredos mais apurados para que os seus pratos fizessem crescer água na boca ao paladar mais empedernido. Além do mais, o rapaz era filho de um cozinheiro de mão cheia! O seu pai era considerado o mais excelente de todos os cozinheiros e isso era para o rapaz motivo de grande orgulho e altivez.

Acontece que a terra de destino era uma terra de estranhos hábitos e de estranhas bocas. Ali não se comia coisa alguma que apelasse ao paladar. Tudo o que caía no prato era insosso e sem graça. Tomar uma refeição era o equivalente a uma ida à casa-de-banho: uma necessidade inconveniente à qual se respondia de forma automática. Era um mal necessário, portanto. A refeição não era um hábito comunitário, não constituía um momento de convívio e partilha. Era tomada rapidamente, sem conversas, sem que ocorresse àquelas pessoas que a refeição podia ser apreciada.

Era ali totalmente descabido o desfrutar de um Camembert, a satisfação de uma Choucrote acompanhada de um bom vinho, a delícia de um Petit Gâteau. Assim como o amor e a economia são conceitos absolutamente desligados para os políticos de hoje em dia, o prazer e a alimentação eram conceitos absolutamente desligados naquela terra.

O cozinheiro parisiense ficou chocado! Quis saber qual a razão para uma culinária tão precária e a única resposta que obteve foi que a culinária naquelas paragens sempre tinha sido assim. Ainda embalado pela pujança da viagem, convencido de que bastava um dos seus segredos culinários, preparou dois ou três acepipes especiais e deu-os a experimentar às pessoas. Mas não obteve qualquer resposta visível. As pessoas que comeram os seus acepipes não mostraram mais entusiasmo do que quem come um pedaço de pão duro, não esboçaram o mínimo sinal de contentamento, nem de agradecimento.

Dando de caras com um povo que lhe parecia tão desinteressado da culinária, o nosso cozinheiro parisiense foi fatalmente atingido pela desmotivação e pelo cansaço da viagem. Depressa a missão que o levou àquela terra ficou esquecida e toda a energia que ali o tinha conduzido foi substituída pelo desencanto. As receitas que tinha elaborado nos workshops e os utensílios que tinha levado com ele foram abandonados ao pó. As ervas aromáticas estragaram-se e os condimentos que tinha pré-preparados foram comidos pelo bolor.

O cozinheiro parisiense passou o resto dos seus dias a apregoar: “Ah gente vil! Vocês não fazem ideia da belíssima cozinha parisiense. Aquele requinte, aquele sabor… Se vocês provassem tamanhas iguarias talvez reconhecessem que eu vos digo a verdade. Se pudessem ir a um daqueles banquetes que o meu pai preparava…! Aqui não dão importância à comida, mas se sentissem o cheiro daqueles refugados, se vissem aquelas mesas fartas e apetitosas, estou certo de que vocês mudariam, o vosso paladar despertaria e compreenderiam que as refeições podem tornar-se momentos de alegria e prazer nas vossas vidas.”

Quando era interpelado acerca da razão para não preparar ele próprio os pratos que tanto gabava, ele encolhia os ombros e respondia que não valia a pena. E nesta lengalenga despropositada foi perdendo o tempo. Aqueles que paravam para o ouvir, depressa concluíam que era uma pessoa amargurada e infrutífera. Entretanto, não só perdeu o tempo, mas perdeu também, sem se dar conta, tristemente, o seu próprio paladar.

É esta a história do passado que me ocorreu trazer agora à baila. Ora o que é surpreendente é que esta história é agora recontada através da minha própria conduta: muitas vezes eu sou o cozinheiro parisiense que fala de iguarias extraordinárias sem nunca as dar a provar. Sejamos mais explícitos: muitas vezes eu sou o cristão que fala de iguarias como graça, amor, justiça, esperança, enfim, falo do Reino de Deus, sem nunca o dar a provar.

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