Segredos Terríveis

by davidraimundo

Eu estava lá quando Adolf Hitler dava ordens para executar milhares de homens e mulheres como eu. Nada fiz para o impedir. Por vezes até o aplaudi e, juntamente com o Himmler, o Goebbels e o Goring, prostituí-me naquela perversidade demoníaca que dominava o regime do fuhrer.

Mas eu também estava com Irena Sendler quando ela retirava crianças judias do gueto de Varsóvia e sabotava a maldade nazi através da corajosa resistência polaca.

Eu estava com a Ku Klux Klan quando esse movimento racista desfilava o seu preconceito e ódio pelas avenidas das cidades americanas. Ostentava um dos temíveis capuzes brancos e orgulhava-me dos linchamentos que levávamos a cabo em nome da supremacia racial.

Mas eu também estava com Rosa Sparks quando ela apresentou resistência às leis de segregação racial dos transportes públicos em Montgomery, Alabama. Manifestei o meu apoio, escrevi cartas aos governantes advogando a causa dos meus concidadãos negros. Anos mais tarde, juntei-me à Birmingham Campaign. Liderados por Martin Luther King Jr. protestámos pacificamente contra a segregação racial, dando o corpo à violência policial, aos cães e aos jactos de água, enquanto as câmaras de televisão mostravam a cena ao mundo.

Eu era um dos indivíduos com responsabilidades na gestão da Lehman Brothers (e da AIG, e do BPN, e do Orçamento de Estado) e sabia que na realidade os nossos activos não passavam de lixo tóxico e que as nossas contas estavam mascaradas por operações de cosmética para esconder os buracos financeiros cavados pela nossa ganância. Hoje continuo a colher dos roubos que fiz, apesar de termos atirado a economia mundial para uma crise que afecta milhões de vidas.

Mas eu também era um dos voluntários que serviam os mais desfavorecidos em Calcutá. Estava com a Madre Teresa e com as Missionárias da Caridade quando elas cuidavam dos leprosos desamparados e dos mais pobres de todos os pobres das cidades da Índia. Com elas abdiquei do conforto, com elas chorei pelos que nada tinham, com elas orei, com elas lutei e com elas aprendi o que significa amar e servir.

Eu era um de entre a multidão que gritava para Pilatos: “Crucifica-o!”. E também era um dos soldados romanos que escarneciam do carpinteiro de Nazaré que estava agora pendurado numa cruz. Toda a minha legião estava ali a ridicularizar aquele rei dos judeus e eu não era excepção.

Mas eu era também um dos discípulos que, naquele anoitecer de sexta-feira, chorava e enchia-se de angústia vendo o nosso rabi – e todos os sonhos que ele tinha despertado em nós – a perecer subitamente sob a força do império.

Estes são segredos terríveis que guardo em mim. Segredos acerca da minha identidade real, acerca dos monstros que me habitam. Na verdade, coexistem em mim todas as vontades de todos os homens. Tenho potencial para odiar tanto ou mais que o mais maléfico dos homens e tenho potencial para amar como o mais magnífico dos homens. Sinto em mim inclinações diversas e contrárias que me tentam, que me puxam, que me acorrentam ou me bloqueiam.

Interrogo-me sobre quais seriam as minhas atitudes e decisões em cenários extremos e não sei responder. Mas sei que já no quotidiano (que não classifico de cenário extremo, mas é bem possível que esta não classificação careça de uma revisão)  dou por mim demasiadas vezes a ceder às inclinações que não aprovo e que não considero as mais nobres. Dou por mim a ceder a um espírito preconceituoso, invejoso, egocêntrico, perverso… Esta incapacidade para me dominar e para exercer controle sobre as minhas atitudes leva-me a tomar como minha a lamentação de Paulo: “Que homem tão miserável sou eu!”

Mas o próprio Paulo mostra, na sua teologia, o caminho: a Graça! A Graça de Jesus Cristo é suficiente. É pela Graça que o Espírito de Deus opera no homem aniquilando os monstros que o habitam. É pela Graça que esse mesmo Espírito passa a habitar em nós. A Graça é eficaz para ir calando em mim as vozes perversas e ir ressoando a voz do bem. A Graça é poderosa para fazer crescer em mim a inclinação para o amor, a generosidade, a justiça e a vida. A Graça é o caminho. Um caminho para toda a vida, um caminho que se faz caminhando.

Nos nossos corações guardamos segredos terríveis. Em contrapartida, no coração de Deus há um segredo maravilhoso. Este segredo dá pelo nome de Graça e, na realidade, já não é segredo: está plenamente revelado em Jesus Cristo.

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