Toda a gente vive um evangelho

by davidraimundo

Evangelho, palavra proveniente do grego euangelion, que significa boa mensagem ou, numa linguagem mais corrente, boa notícia. Conta-se que seria uma palavra usada pelos arautos romanos para anunciar boas notícias nas províncias do Império Romano. A vitória do exército romano numa campanha militar ou a ascensão ao trono de um novo imperador, por exemplo, constituíam evangelhos para os entusiastas do Império. Jesus e os seus discípulos adoptaram esta palavra para caracterizar a mensagem que proclamaram, aproveitando o facto de ser uma palavra carregada de significado para os ouvintes contemporâneos.

Atendendo à génese da palavra, podemos afirmar que existe, na realidade, uma infinidade de evangelhos à nossa disposição. Poderíamos falar dos evangelhos propostos por cada uma das grandes religiões, mas a maior parte dos evangelhos até opera fora da esfera religiosa. Vejamos alguns exemplos, sabendo de antemão que a lista pode ser melhorada com exemplos da tua própria experiência pessoal. Há o evangelho da Apple – sistemas operativos imunes aos vírus – há o evangelho da Herbalife – nutrição que eleva o teu bem-estar a um nível ímpar – há o evangelho do IKEA – móveis em conta que vão transformar o teu habitat num espaço mais agradável – há o evangelho TAP Victoria – acumula milhas para depois viajares à borla – há o evangelho Markovic – o craque que promete liderar o Benfica no regresso à glória – há o evangelho do progresso científico e tecnológico – instrumentos para que a humanidade consiga erradicar os males do mundo – há o evangelho da retoma económica – os indicadores são positivos, dizem-nos eles!.  Há evangelhos ideológicos, pois cada nova ideologia faz-se acompanhar de um anúncio de um futuro melhor. Por exemplo, o movimento hippie, a cavalo da canção dos Beatles, imaginou que num mundo sem religião haveria paz.  Há evangelhos que nos chegam do oriente e que visam atingir o nirvana ou a conexão perfeita com o eu interior. Há evangelhos de cariz afectivo, como o começo de um namoro ou casamento, a notícia de uma gravidez, o regresso do amigo que esteve ausente durante anos… Há evangelhos de cariz profissional. E há evangelhos do quotidiano: um convite inesperado para um café em boa companhia, a confirmação de um jogo de futebol entre amigos (este é-me muito caro!) ou um simples sorriso da pessoa amada (este também!).

É fácil perceber que todos vivemos um evangelho. Na verdade, é provável que todos vivamos muitos evangelhos que se complementam (ou, por vezes, que se confrontam causando conflito ou perturbação). Vivemos evangelhos duradouros (muitas vezes os de carácter ideológico), outros efémeros (por exemplo, o anúncio de uma promoção no emprego pode ser, inicialmente, um evangelho, mas transforma-se numa má notícia quando a pessoa se apercebe da pressão e da carga de trabalho que terá de aguentar). Todos depositamos confiança (fé!) numa parte das mensagens que nos chegam. Ou porque confiamos no portador da mensagem, ou porque a mensagem apela a uma necessidade ou angústia que sintamos ou, simplesmente, porque aquela mensagem está na moda e é culturalmente bem aceite. Todos desejamos boas notícias e todos encontramos fontes de supostas boas notícias para as quais canalizamos a nossa atenção e energia. Deixamos, depois, que essas promessas de boas notícias orientem parte das nossas prioridades e do nosso tempo.

Mas um evangelho pode ser traiçoeiro. A mensagem que é anunciada como boa notícia pode, na prática, não ser mais do que um engodo. Por exemplo, os adeptos do Chelsea receberam o anúncio do regresso de José Mourinho ao clube como um evangelho, mas hoje (depois de duas derrotas consecutivas na fase inicial da época) suponho que a desilusão esteja instalada. Numa outra dimensão, a história revelou que o evangelho comunista era, afinal uma ilusão (e, na minha opinião, o mesmo se pode dizer do evangelho capitalista).

Se não queremos viver iludidos, torna-se obrigatório compreender, filtrar e testar os evangelhos em que depositamos confiança. Também devem ser pesados os motivos que nos levam a aceitar cada evangelho, bem como as consequências dessa aceitação. Assim viveremos constantemente a exercitar o nosso espírito analítico: será que o evangelho X é credível? Será que o evangelho Y é digno de confiança? Será que os evangelhos Z e W podem coexistir ou terei de abdicar de um deles?

Tenho investido muito tempo a tentar compreender e a testar o evangelho de Jesus Cristo. Bom, sejamos claro, existem vários evangelhos atribuídos a Cristo. Honestamente, rejeitei alguns deles. Até porque dos evangelhos atribuídos a Cristo há alguns que são mutuamente exclusivos. Mas como resultado desta busca pelo ‘verdadeiro evangelho’ de Jesus Cristo vou vislumbrando uma resposta mais radical, bela e fascinante do que alguma vez imaginei. Assim, cresce a cada dia a convicção de que este é um evangelho digno de toda a confiança. É o evangelho que coloca todos os outros em perspectiva, que supera todos os outros, que, na verdade, é auto-suficiente: à luz deste evangelho posso abdicar de muitos outros e posso sujeitar a este evangelho todos os outros evangelhos que valha a pena manter.

Toda a gente vive vários evangelhos. Ateus, crentes, benfiquistas, sportinguistas, portistas, homens, mulheres, crianças, palhaços e acrobatas, músicos e cientistas: todos nós vivemos vários evangelhos. Eu vivo vários evangelhos. Mas tento que o evangelho que exerça domínio sobre mim seja somente o evangelho da graça de Jesus Cristo.

Anúncios