A liberdade é um quase-mito

by davidraimundo

Os Irmãos Karamazov é uma obra prima da literatura e, simultaneamente, um tratado filosófico e teológico sobre a natureza humana, a liberdade, o bem e o mal. Ivan Karamazov, um dos irmãos que dão título à obra, narra a certa altura uma história que ele próprio elaborou em que imagina o regresso de Cristo à terra durante o período da Inquisição. Cristo está em Sevilha a ser acusado pelo Grande Inquisidor. Diz o acusador que a liberdade que Cristo concede ao homem é um fardo demasiado pesado. Lidar com o livre-arbítrio é uma responsabilidade para a qual o homem não está capacitado. Às tantas o Grande Inquisidor retrata assim a relação do homem com a liberdade: “Não há nada mais desesperante para o homem do que, vendo-se livre, encontrar a quem sujeitar-se.” Com esta afirmação pretende defender o papel da Igreja que, ao invés de anunciar a liberdade que Cristo oferece, oprime os homens com rituais, tradições e regras que castram essa liberdade. Segundo o Grande Inquisidor, os homens devem ficar gratos à Igreja por esta tomar para si as suas liberdades aliviando-os do peso inerente a essas liberdades. Assim, a Igreja Medieval estaria apenas a desempenhar um papel que ia de encontro à ansiedade mais profunda do homem: depositar a liberdade nas mãos de terceiros.

Esta ansiedade pode ser ainda detectada na sociedade contemporânea. O homem continua a ser atraído por regras padronizadas que lhe digam como agir, como decidir, o que fazer para ser realizado e bem sucedido. O homem sujeita-se à religião, aos costumes sociais, às expectativas dos outros, às ideologias da moda, sem se obrigar a uma reflexão profunda sobre a validade daquilo a que se sujeita. O que interessa é encontrar uma fórmula – seja ela científica, cultural, religiosa ou induzida pelos lemas em vigor na sociedade – que me diga como viver e, assim, libertar-me do fardo da minha liberdade.

Por outro lado, de uma forma cada vez mais explícita, encontramos um fenómeno que, à primeira vista, parecerá concorrente daquele que o Grande Inquisidor retrata. As ideias pós-modernas promovem a relativização de tudo aquilo a que o homem se tem sujeitado e dão azo à tentativa de abolição de tudo o que possa ser considerado dogma. Mas as ideias pós-modernas, se não apresentarem uma alternativa sólida, são em si mesmas apenas um novo costume ideológico que é tão castrador da liberdade como os costumes anteriores. Isto é, o relativismo e o dogma são, por si só, dois tipos diferentes de algemas. O homem moderno, julgando-se livre, não está menos aprisionado do que o homem medieval.

Do relativismo oco brota um individualismo doentio que é o melhor habitat para o egocentrismo – o lado mais pernicioso da condição humana. Na sociedade ocidental dos nossos dias, o individualismo e a independência tentam impor-se como valores absolutos e o conceito de liberdade continua profundamente deturpado. Associamos a nossa sede de liberdade a estes supostos valores e assumimos que ser livre obtém-se criando contextos em que possamos fazer tudo quanto desejarmos. Mas com esta mentalidade aprisionamo-nos em nós mesmos: se fazemos tudo quanto nos dá na veneta, não somos mais do que escravos dos nossos desejos, dos nossos caprichos, da nossa inconstância e dos nossos preconceitos. E somos também escravos da cultura dominante do ‘segue o que sentes’ da mesma forma que os povos há 6 séculos atrás eram escravos da cultura dominante daquele tempo.

Um claro exemplo desta escravidão é a forma como o homem moderno trata e vive a sexualidade. Durante séculos a Igreja alimentou uma visão equivocada da sexualidade: o sexo era visto, na prática, como algo sujo e pecaminoso por definição. Tendo-se libertado dessa visão, o homem depressa se aprisionou numa não menos equivocada compreensão da sexualidade: tudo é lícito e tudo é válido em nome da experiência e em nome do prazer. Esta nova compreensão da sexualidade não é saudável, não é holística e não é melhor promotora da dignidade humana do que a compreensão anterior.

Assim, se o individualismo e a independência não conduzem à liberdade, e perante a aparente ausência de alternativas, pode colocar-se a questão: será que a liberdade é um mito?

Creio que a liberdade é um mito se acharmos que é algo que alcançamos mediante as nossas decisões, comportamentos e gestão de relacionamentos. Também é um mito se a colocarmos ao nível do nosso egocentrismo: ser livre não pode ser sinónimo de fazer o que eu quero, pois viver com base na minha vontade é viver uma ditadura do ego.

Mas a liberdade não chega a ser um mito absoluto. É apenas um quase-mito, pois há um caminho estreito que a ela conduz. O caminho é Jesus. Ele próprio o proclama: “se vocês permanecerem firmes na minha palavra, verdadeiramente serão meus discípulos. E, assim, conhecerão a verdade e a verdade vos libertará. (…) Quando o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.”

O que é que isto significa na prática? Significa que o caminho para a liberdade consiste, de facto, na sujeição. Não na sujeição a nós próprios (porque o homem não é capaz de se tornar livre a si mesmo) nem na sujeição a uma religião, a uma ciência, a uma ideologia ou a um lema (porque a história e a actualidade demonstram que esse tipo de sujeição oprime). Sujeição a Jesus Cristo que nos é apresentado como o único que é dono da autoridade e do direito de cuidar da nossa liberdade. O caminho para a liberdade consiste em abdicar da independência depositando-nos a nós mesmos nas mãos do Senhor Jesus Cristo.

O apóstolo Paulo tinha decerto uma compreensão profunda desta realidade. É extraordinária a forma como se apresenta nas suas cartas: as traduções bíblicas usam mais frequentemente a expressão “Eu, Paulo, servo de Cristo”, mas a palavra grega traduzida como ‘servo’ significa literalmente ‘escravo’. Paulo considerava-se escravo de Cristo. Isto soa a loucura e Paulo reconhecia-o, mas é nesta aparente loucura que reside o caminho para a liberdade. O caminho para a liberdade é a sujeição absoluta ao Senhor Jesus Cristo, reconhecendo-o como autoridade suprema nas nossas vidas. Esta não é uma sujeição que resulte em opressão, porque o Senhor Jesus Cristo é o Senhor da Graça e do Amor. Em Jesus Cristo encontramos solução não apenas para os sintomas que nos aprisionam – o egocentrismo, os preconceitos e afins – mas também para a causa dessa prisão – a alienação da nossa condição de seres criados à imagem e semelhança de Deus, que, na Bíblia, é chamada de pecado.

A liberdade é um quase-mito envolvido num paradoxo que nos desafia: o caminho para a liberdade é a sujeição absoluta ao Senhor Jesus Cristo. O caminho para a liberdade é assumir a condição de escravos de Cristo. Em termos puramente intelectuais é lixado concluir que a liberdade tem de ser posta nestes termos. Este paradoxo é difícil de equacionar e incomoda o orgulho humano. Mas é nos paradoxos que reside a verdade, a beleza da vida e a beleza da História.

Assim, confiando plenamente no amor de Cristo provado numa rude cruz há 2000 anos atrás, procuro entregar-me a Ele, somente a Ele, desfazendo-me de coisas acessórias e absurdas às quais me possa ter sujeitado. Das sujeições absurdas resulta frustração e opressão, mas da sujeição a Cristo resulta um novo homem que Ele forma conforme o seu propósito e que é verdadeiramente livre. Por isso, procuro que a minha liberdade seja uma oferta exclusiva a Jesus Cristo. Ao seu nome dobro os meus joelhos e com a minha língua confesso que Ele é o Senhor. E assim serei livre.

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