Abraão e Os Mercados

by davidraimundo

Às crianças judaicas é ensinada a história de um homem chamado Abraão, antepassado dos judeus. Era proveniente de uma terra chamada Ur, mas, como resposta ao mandamento do Deus a quem servia, emigrou juntamente com o clã que chefiava para habitar na região de Canaã. Quem não conhece a história de Abraão pode encontrá-la no livro do Génesis. Quem conhece a história de Abraão encontrará semelhanças entre o capítulo 22 do Génesis e a história que em seguida vos conto.

Esta é a história de outro Abraão, uma história que está a ser escrita na actualidade e que, no futuro, também será ensinada às crianças. O homónimo do Abraão de Ur é de origem incerta. Talvez seja português, grego, cipriota ou argentino… De facto, as hipóteses são inesgotáveis e é possível que a nacionalidade de Abraão seja menos plausível do que as que foram referidas. A história vai contar que este novo Abraão estava ao serviço de um Deus Poderoso e Tirano, ainda que este Deus nos seja apresentado com uma designação aparentemente inócua: Os Mercados.

Os emissários d’Os Mercados visitam frequentemente Abraão: aparecem na forma de economistas, banqueiros, gestores de alta finança, donos de multinacionais, políticos influentes, etc.. As visitas servem para apresentarem as suas exigências a Abraão. Há que sacrificar para que Os Mercados se acalmem! Abraão, na sua devoção senil e sem se dar conta da tirania do Deus a quem serve, sacrifica tudo o que tem. Sacrifica a sua integridade, a sua honestidade, a sua honra, o seu carácter e a sua benignidade. Abraão empenha tudo quanto tem de valioso para assim adorar o seu Deus.

Mas a história contará que Os Mercados eram insaciáveis. Assim, chegamos a um ponto em que este Deus exige o sacrifício supremo: “Toma agora os teus filhos, ó Abraão, os teus filhos a quem dizes amar, sobe ao monte que eu te indico e oferece ali os teus filhos em holocausto.” Bom, talvez o ultimato que chega a Abraão da parte d’Os Mercados não seja proferido de forma assim tão explícita. Mas é este, na essência, o conteúdo desse ultimato.

Abraão não resiste. E ficará para análise futura a dúvida se a não resistência de Abraão se deve ao terror que resulta das ameaças do seu Deus ou se o próprio Abraão está já absolutamente possuído pela ideologia louca do Deus a quem serve. Abraão não resiste e sobe a montanha arrastando consigo todos os seus filhos.

– Para onde vamos, meu pai? – perguntam os filhos confusos.
– Vamos oferecer holocausto ao Deus a quem servimos, meus filhos. – o pai responde sem coragem para olhar os filhos nos olhos.
– Mas o que ofereceremos nós se não levamos nada connosco para oferecer? Aliás, o que ofereceremos nós se já nada podemos levar para oferecer? Não nos resta coisa alguma! Os Mercados já nos tirou tudo o que tínhamos…
– Estejam tranquilos, meus filhos, porque contamos com a bondade d’Os Mercados. Decerto será possível negociar e providenciar soluções. Tenham confiança! – diz o pai Abraão sem que ele próprio acredite nas suas palavras, mas colocando nelas toda a demagogia que aprendeu ao longo da vida.

No topo da montanha simulam-se negociações. Mas nada serve para aplacar a fúria d’Os Mercados. Então Abraão amarra os seus filhos sobre o altar preparado para o holocausto, pega no cutelo para imolar os seus filhos e… não há clemência no último segundo. Portanto, cá vai disto e é para o vosso bem meus filhos: corte na educação, corte na saúde, corte na Segurança Social, corte, corte, corte… O único som que se ouve no topo da montanha é o som do cutelo zás, zás, zás, a rasgar o ar e a desferir golpes cada vez mais profundos até desmembrar por completo os filhos. Os filhos gritam de pânico e dor, sangram, definham e morrem. Os Mercados regozijam-se.

Esta é a história que será contada às crianças no futuro. A história de um Abraão que, completamente equivocado, adorava um Deus Tirano. Considero o Abraão de Ur um exemplo, mas creio que a diferença fundamental entre a história do Abraão de Ur e a história do Abraão moderno não reside tanto no carácter de Abraão. A diferença fundamental reside na essência do Deus a quem cada Abraão serve: de um recebe-se tirania, do outro recebe-se Graça. Um Deus realiza-se na carnificina, o outro realiza-se na dádiva de misericórdia.

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