Pontos e contos de um cristão pós-moderno

Month: Setembro, 2013

No chão da vida

Teologia é todo o discurso sobre Deus. (Portanto, todos temos uma teologia!)

Teologia cristã é todo o discurso sobre Deus que brota da crença de que Cristo é a perfeita revelação de Deus. Ora se Cristo é a perfeita revelação de Deus, tal significa que Deus escolheu revelar-se encarnando. Dito de outra forma, e usando um palavrão, Deus escolheu revelar-se antropomorficamente. É esta escolha de Deus que nos autoriza a fazer teologia orientada para os problemas do homem. Centrar a teologia nos problemas do homem é uma corrente que é, por vezes, alvo de críticas. Mas, na minha óptica, este procedimento não belisca em nada a grandeza e a glória de Deus. Pelo contrário! Deus ama e, por amar, a sua acção na História é também orientada para os problemas do homem. Que magnífico amor! Ao orientarmos a teologia que fazemos para acudir as aflições humanas, estamos apenas a seguir o exemplo do próprio Deus.

Assim, a teologia cristã não visa produzir teorias metafísicas nem explicar Deus matematicamente. A teologia cristã não visa produzir deleite intelectual nem conceitos desligados da vida prática. Visa sim estabelecer pontes entre a revelação de Deus e as eternas questões da antropologia, da filosofia e, sobretudo, os dilemas globais e pessoais que angustiam os corações de todos os homens. O Evangelho de Cristo – a Boa Notícia – é que há respostas para os dilemas. As respostas têm as suas raízes na cruz e no sepulcro vazio e estão, todas elas, impregnadas da mais pura e eficiente Graça. Mas, para além disso, somos desafiados a encarnar também as respostas – esta é a missão da Igreja – semeando esperança, paz e alegria onde quer que reine a angústia.

Façamos pois teologia no ‘chão da vida’, contribuíndo para que o sagrado invada todos os corações e todos os lugares onde há desespero, medo, doença, violência e pecado.

(Reflexão altamente inspirada neste texto com o qual me identifico imenso.)

Anúncios

Segredos Terríveis

Eu estava lá quando Adolf Hitler dava ordens para executar milhares de homens e mulheres como eu. Nada fiz para o impedir. Por vezes até o aplaudi e, juntamente com o Himmler, o Goebbels e o Goring, prostituí-me naquela perversidade demoníaca que dominava o regime do fuhrer.

Mas eu também estava com Irena Sendler quando ela retirava crianças judias do gueto de Varsóvia e sabotava a maldade nazi através da corajosa resistência polaca.

Eu estava com a Ku Klux Klan quando esse movimento racista desfilava o seu preconceito e ódio pelas avenidas das cidades americanas. Ostentava um dos temíveis capuzes brancos e orgulhava-me dos linchamentos que levávamos a cabo em nome da supremacia racial.

Mas eu também estava com Rosa Sparks quando ela apresentou resistência às leis de segregação racial dos transportes públicos em Montgomery, Alabama. Manifestei o meu apoio, escrevi cartas aos governantes advogando a causa dos meus concidadãos negros. Anos mais tarde, juntei-me à Birmingham Campaign. Liderados por Martin Luther King Jr. protestámos pacificamente contra a segregação racial, dando o corpo à violência policial, aos cães e aos jactos de água, enquanto as câmaras de televisão mostravam a cena ao mundo.

Eu era um dos indivíduos com responsabilidades na gestão da Lehman Brothers (e da AIG, e do BPN, e do Orçamento de Estado) e sabia que na realidade os nossos activos não passavam de lixo tóxico e que as nossas contas estavam mascaradas por operações de cosmética para esconder os buracos financeiros cavados pela nossa ganância. Hoje continuo a colher dos roubos que fiz, apesar de termos atirado a economia mundial para uma crise que afecta milhões de vidas.

Mas eu também era um dos voluntários que serviam os mais desfavorecidos em Calcutá. Estava com a Madre Teresa e com as Missionárias da Caridade quando elas cuidavam dos leprosos desamparados e dos mais pobres de todos os pobres das cidades da Índia. Com elas abdiquei do conforto, com elas chorei pelos que nada tinham, com elas orei, com elas lutei e com elas aprendi o que significa amar e servir.

Eu era um de entre a multidão que gritava para Pilatos: “Crucifica-o!”. E também era um dos soldados romanos que escarneciam do carpinteiro de Nazaré que estava agora pendurado numa cruz. Toda a minha legião estava ali a ridicularizar aquele rei dos judeus e eu não era excepção.

Mas eu era também um dos discípulos que, naquele anoitecer de sexta-feira, chorava e enchia-se de angústia vendo o nosso rabi – e todos os sonhos que ele tinha despertado em nós – a perecer subitamente sob a força do império.

Estes são segredos terríveis que guardo em mim. Segredos acerca da minha identidade real, acerca dos monstros que me habitam. Na verdade, coexistem em mim todas as vontades de todos os homens. Tenho potencial para odiar tanto ou mais que o mais maléfico dos homens e tenho potencial para amar como o mais magnífico dos homens. Sinto em mim inclinações diversas e contrárias que me tentam, que me puxam, que me acorrentam ou me bloqueiam.

Interrogo-me sobre quais seriam as minhas atitudes e decisões em cenários extremos e não sei responder. Mas sei que já no quotidiano (que não classifico de cenário extremo, mas é bem possível que esta não classificação careça de uma revisão)  dou por mim demasiadas vezes a ceder às inclinações que não aprovo e que não considero as mais nobres. Dou por mim a ceder a um espírito preconceituoso, invejoso, egocêntrico, perverso… Esta incapacidade para me dominar e para exercer controle sobre as minhas atitudes leva-me a tomar como minha a lamentação de Paulo: “Que homem tão miserável sou eu!”

Mas o próprio Paulo mostra, na sua teologia, o caminho: a Graça! A Graça de Jesus Cristo é suficiente. É pela Graça que o Espírito de Deus opera no homem aniquilando os monstros que o habitam. É pela Graça que esse mesmo Espírito passa a habitar em nós. A Graça é eficaz para ir calando em mim as vozes perversas e ir ressoando a voz do bem. A Graça é poderosa para fazer crescer em mim a inclinação para o amor, a generosidade, a justiça e a vida. A Graça é o caminho. Um caminho para toda a vida, um caminho que se faz caminhando.

Nos nossos corações guardamos segredos terríveis. Em contrapartida, no coração de Deus há um segredo maravilhoso. Este segredo dá pelo nome de Graça e, na realidade, já não é segredo: está plenamente revelado em Jesus Cristo.

Toda a gente vive um evangelho

Evangelho, palavra proveniente do grego euangelion, que significa boa mensagem ou, numa linguagem mais corrente, boa notícia. Conta-se que seria uma palavra usada pelos arautos romanos para anunciar boas notícias nas províncias do Império Romano. A vitória do exército romano numa campanha militar ou a ascensão ao trono de um novo imperador, por exemplo, constituíam evangelhos para os entusiastas do Império. Jesus e os seus discípulos adoptaram esta palavra para caracterizar a mensagem que proclamaram, aproveitando o facto de ser uma palavra carregada de significado para os ouvintes contemporâneos.

Atendendo à génese da palavra, podemos afirmar que existe, na realidade, uma infinidade de evangelhos à nossa disposição. Poderíamos falar dos evangelhos propostos por cada uma das grandes religiões, mas a maior parte dos evangelhos até opera fora da esfera religiosa. Vejamos alguns exemplos, sabendo de antemão que a lista pode ser melhorada com exemplos da tua própria experiência pessoal. Há o evangelho da Apple – sistemas operativos imunes aos vírus – há o evangelho da Herbalife – nutrição que eleva o teu bem-estar a um nível ímpar – há o evangelho do IKEA – móveis em conta que vão transformar o teu habitat num espaço mais agradável – há o evangelho TAP Victoria – acumula milhas para depois viajares à borla – há o evangelho Markovic – o craque que promete liderar o Benfica no regresso à glória – há o evangelho do progresso científico e tecnológico – instrumentos para que a humanidade consiga erradicar os males do mundo – há o evangelho da retoma económica – os indicadores são positivos, dizem-nos eles!.  Há evangelhos ideológicos, pois cada nova ideologia faz-se acompanhar de um anúncio de um futuro melhor. Por exemplo, o movimento hippie, a cavalo da canção dos Beatles, imaginou que num mundo sem religião haveria paz.  Há evangelhos que nos chegam do oriente e que visam atingir o nirvana ou a conexão perfeita com o eu interior. Há evangelhos de cariz afectivo, como o começo de um namoro ou casamento, a notícia de uma gravidez, o regresso do amigo que esteve ausente durante anos… Há evangelhos de cariz profissional. E há evangelhos do quotidiano: um convite inesperado para um café em boa companhia, a confirmação de um jogo de futebol entre amigos (este é-me muito caro!) ou um simples sorriso da pessoa amada (este também!).

É fácil perceber que todos vivemos um evangelho. Na verdade, é provável que todos vivamos muitos evangelhos que se complementam (ou, por vezes, que se confrontam causando conflito ou perturbação). Vivemos evangelhos duradouros (muitas vezes os de carácter ideológico), outros efémeros (por exemplo, o anúncio de uma promoção no emprego pode ser, inicialmente, um evangelho, mas transforma-se numa má notícia quando a pessoa se apercebe da pressão e da carga de trabalho que terá de aguentar). Todos depositamos confiança (fé!) numa parte das mensagens que nos chegam. Ou porque confiamos no portador da mensagem, ou porque a mensagem apela a uma necessidade ou angústia que sintamos ou, simplesmente, porque aquela mensagem está na moda e é culturalmente bem aceite. Todos desejamos boas notícias e todos encontramos fontes de supostas boas notícias para as quais canalizamos a nossa atenção e energia. Deixamos, depois, que essas promessas de boas notícias orientem parte das nossas prioridades e do nosso tempo.

Mas um evangelho pode ser traiçoeiro. A mensagem que é anunciada como boa notícia pode, na prática, não ser mais do que um engodo. Por exemplo, os adeptos do Chelsea receberam o anúncio do regresso de José Mourinho ao clube como um evangelho, mas hoje (depois de duas derrotas consecutivas na fase inicial da época) suponho que a desilusão esteja instalada. Numa outra dimensão, a história revelou que o evangelho comunista era, afinal uma ilusão (e, na minha opinião, o mesmo se pode dizer do evangelho capitalista).

Se não queremos viver iludidos, torna-se obrigatório compreender, filtrar e testar os evangelhos em que depositamos confiança. Também devem ser pesados os motivos que nos levam a aceitar cada evangelho, bem como as consequências dessa aceitação. Assim viveremos constantemente a exercitar o nosso espírito analítico: será que o evangelho X é credível? Será que o evangelho Y é digno de confiança? Será que os evangelhos Z e W podem coexistir ou terei de abdicar de um deles?

Tenho investido muito tempo a tentar compreender e a testar o evangelho de Jesus Cristo. Bom, sejamos claro, existem vários evangelhos atribuídos a Cristo. Honestamente, rejeitei alguns deles. Até porque dos evangelhos atribuídos a Cristo há alguns que são mutuamente exclusivos. Mas como resultado desta busca pelo ‘verdadeiro evangelho’ de Jesus Cristo vou vislumbrando uma resposta mais radical, bela e fascinante do que alguma vez imaginei. Assim, cresce a cada dia a convicção de que este é um evangelho digno de toda a confiança. É o evangelho que coloca todos os outros em perspectiva, que supera todos os outros, que, na verdade, é auto-suficiente: à luz deste evangelho posso abdicar de muitos outros e posso sujeitar a este evangelho todos os outros evangelhos que valha a pena manter.

Toda a gente vive vários evangelhos. Ateus, crentes, benfiquistas, sportinguistas, portistas, homens, mulheres, crianças, palhaços e acrobatas, músicos e cientistas: todos nós vivemos vários evangelhos. Eu vivo vários evangelhos. Mas tento que o evangelho que exerça domínio sobre mim seja somente o evangelho da graça de Jesus Cristo.

A liberdade é um quase-mito

Os Irmãos Karamazov é uma obra prima da literatura e, simultaneamente, um tratado filosófico e teológico sobre a natureza humana, a liberdade, o bem e o mal. Ivan Karamazov, um dos irmãos que dão título à obra, narra a certa altura uma história que ele próprio elaborou em que imagina o regresso de Cristo à terra durante o período da Inquisição. Cristo está em Sevilha a ser acusado pelo Grande Inquisidor. Diz o acusador que a liberdade que Cristo concede ao homem é um fardo demasiado pesado. Lidar com o livre-arbítrio é uma responsabilidade para a qual o homem não está capacitado. Às tantas o Grande Inquisidor retrata assim a relação do homem com a liberdade: “Não há nada mais desesperante para o homem do que, vendo-se livre, encontrar a quem sujeitar-se.” Com esta afirmação pretende defender o papel da Igreja que, ao invés de anunciar a liberdade que Cristo oferece, oprime os homens com rituais, tradições e regras que castram essa liberdade. Segundo o Grande Inquisidor, os homens devem ficar gratos à Igreja por esta tomar para si as suas liberdades aliviando-os do peso inerente a essas liberdades. Assim, a Igreja Medieval estaria apenas a desempenhar um papel que ia de encontro à ansiedade mais profunda do homem: depositar a liberdade nas mãos de terceiros.

Esta ansiedade pode ser ainda detectada na sociedade contemporânea. O homem continua a ser atraído por regras padronizadas que lhe digam como agir, como decidir, o que fazer para ser realizado e bem sucedido. O homem sujeita-se à religião, aos costumes sociais, às expectativas dos outros, às ideologias da moda, sem se obrigar a uma reflexão profunda sobre a validade daquilo a que se sujeita. O que interessa é encontrar uma fórmula – seja ela científica, cultural, religiosa ou induzida pelos lemas em vigor na sociedade – que me diga como viver e, assim, libertar-me do fardo da minha liberdade.

Por outro lado, de uma forma cada vez mais explícita, encontramos um fenómeno que, à primeira vista, parecerá concorrente daquele que o Grande Inquisidor retrata. As ideias pós-modernas promovem a relativização de tudo aquilo a que o homem se tem sujeitado e dão azo à tentativa de abolição de tudo o que possa ser considerado dogma. Mas as ideias pós-modernas, se não apresentarem uma alternativa sólida, são em si mesmas apenas um novo costume ideológico que é tão castrador da liberdade como os costumes anteriores. Isto é, o relativismo e o dogma são, por si só, dois tipos diferentes de algemas. O homem moderno, julgando-se livre, não está menos aprisionado do que o homem medieval.

Do relativismo oco brota um individualismo doentio que é o melhor habitat para o egocentrismo – o lado mais pernicioso da condição humana. Na sociedade ocidental dos nossos dias, o individualismo e a independência tentam impor-se como valores absolutos e o conceito de liberdade continua profundamente deturpado. Associamos a nossa sede de liberdade a estes supostos valores e assumimos que ser livre obtém-se criando contextos em que possamos fazer tudo quanto desejarmos. Mas com esta mentalidade aprisionamo-nos em nós mesmos: se fazemos tudo quanto nos dá na veneta, não somos mais do que escravos dos nossos desejos, dos nossos caprichos, da nossa inconstância e dos nossos preconceitos. E somos também escravos da cultura dominante do ‘segue o que sentes’ da mesma forma que os povos há 6 séculos atrás eram escravos da cultura dominante daquele tempo.

Um claro exemplo desta escravidão é a forma como o homem moderno trata e vive a sexualidade. Durante séculos a Igreja alimentou uma visão equivocada da sexualidade: o sexo era visto, na prática, como algo sujo e pecaminoso por definição. Tendo-se libertado dessa visão, o homem depressa se aprisionou numa não menos equivocada compreensão da sexualidade: tudo é lícito e tudo é válido em nome da experiência e em nome do prazer. Esta nova compreensão da sexualidade não é saudável, não é holística e não é melhor promotora da dignidade humana do que a compreensão anterior.

Assim, se o individualismo e a independência não conduzem à liberdade, e perante a aparente ausência de alternativas, pode colocar-se a questão: será que a liberdade é um mito?

Creio que a liberdade é um mito se acharmos que é algo que alcançamos mediante as nossas decisões, comportamentos e gestão de relacionamentos. Também é um mito se a colocarmos ao nível do nosso egocentrismo: ser livre não pode ser sinónimo de fazer o que eu quero, pois viver com base na minha vontade é viver uma ditadura do ego.

Mas a liberdade não chega a ser um mito absoluto. É apenas um quase-mito, pois há um caminho estreito que a ela conduz. O caminho é Jesus. Ele próprio o proclama: “se vocês permanecerem firmes na minha palavra, verdadeiramente serão meus discípulos. E, assim, conhecerão a verdade e a verdade vos libertará. (…) Quando o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.”

O que é que isto significa na prática? Significa que o caminho para a liberdade consiste, de facto, na sujeição. Não na sujeição a nós próprios (porque o homem não é capaz de se tornar livre a si mesmo) nem na sujeição a uma religião, a uma ciência, a uma ideologia ou a um lema (porque a história e a actualidade demonstram que esse tipo de sujeição oprime). Sujeição a Jesus Cristo que nos é apresentado como o único que é dono da autoridade e do direito de cuidar da nossa liberdade. O caminho para a liberdade consiste em abdicar da independência depositando-nos a nós mesmos nas mãos do Senhor Jesus Cristo.

O apóstolo Paulo tinha decerto uma compreensão profunda desta realidade. É extraordinária a forma como se apresenta nas suas cartas: as traduções bíblicas usam mais frequentemente a expressão “Eu, Paulo, servo de Cristo”, mas a palavra grega traduzida como ‘servo’ significa literalmente ‘escravo’. Paulo considerava-se escravo de Cristo. Isto soa a loucura e Paulo reconhecia-o, mas é nesta aparente loucura que reside o caminho para a liberdade. O caminho para a liberdade é a sujeição absoluta ao Senhor Jesus Cristo, reconhecendo-o como autoridade suprema nas nossas vidas. Esta não é uma sujeição que resulte em opressão, porque o Senhor Jesus Cristo é o Senhor da Graça e do Amor. Em Jesus Cristo encontramos solução não apenas para os sintomas que nos aprisionam – o egocentrismo, os preconceitos e afins – mas também para a causa dessa prisão – a alienação da nossa condição de seres criados à imagem e semelhança de Deus, que, na Bíblia, é chamada de pecado.

A liberdade é um quase-mito envolvido num paradoxo que nos desafia: o caminho para a liberdade é a sujeição absoluta ao Senhor Jesus Cristo. O caminho para a liberdade é assumir a condição de escravos de Cristo. Em termos puramente intelectuais é lixado concluir que a liberdade tem de ser posta nestes termos. Este paradoxo é difícil de equacionar e incomoda o orgulho humano. Mas é nos paradoxos que reside a verdade, a beleza da vida e a beleza da História.

Assim, confiando plenamente no amor de Cristo provado numa rude cruz há 2000 anos atrás, procuro entregar-me a Ele, somente a Ele, desfazendo-me de coisas acessórias e absurdas às quais me possa ter sujeitado. Das sujeições absurdas resulta frustração e opressão, mas da sujeição a Cristo resulta um novo homem que Ele forma conforme o seu propósito e que é verdadeiramente livre. Por isso, procuro que a minha liberdade seja uma oferta exclusiva a Jesus Cristo. Ao seu nome dobro os meus joelhos e com a minha língua confesso que Ele é o Senhor. E assim serei livre.

Abraão e Os Mercados

Às crianças judaicas é ensinada a história de um homem chamado Abraão, antepassado dos judeus. Era proveniente de uma terra chamada Ur, mas, como resposta ao mandamento do Deus a quem servia, emigrou juntamente com o clã que chefiava para habitar na região de Canaã. Quem não conhece a história de Abraão pode encontrá-la no livro do Génesis. Quem conhece a história de Abraão encontrará semelhanças entre o capítulo 22 do Génesis e a história que em seguida vos conto.

Esta é a história de outro Abraão, uma história que está a ser escrita na actualidade e que, no futuro, também será ensinada às crianças. O homónimo do Abraão de Ur é de origem incerta. Talvez seja português, grego, cipriota ou argentino… De facto, as hipóteses são inesgotáveis e é possível que a nacionalidade de Abraão seja menos plausível do que as que foram referidas. A história vai contar que este novo Abraão estava ao serviço de um Deus Poderoso e Tirano, ainda que este Deus nos seja apresentado com uma designação aparentemente inócua: Os Mercados.

Os emissários d’Os Mercados visitam frequentemente Abraão: aparecem na forma de economistas, banqueiros, gestores de alta finança, donos de multinacionais, políticos influentes, etc.. As visitas servem para apresentarem as suas exigências a Abraão. Há que sacrificar para que Os Mercados se acalmem! Abraão, na sua devoção senil e sem se dar conta da tirania do Deus a quem serve, sacrifica tudo o que tem. Sacrifica a sua integridade, a sua honestidade, a sua honra, o seu carácter e a sua benignidade. Abraão empenha tudo quanto tem de valioso para assim adorar o seu Deus.

Mas a história contará que Os Mercados eram insaciáveis. Assim, chegamos a um ponto em que este Deus exige o sacrifício supremo: “Toma agora os teus filhos, ó Abraão, os teus filhos a quem dizes amar, sobe ao monte que eu te indico e oferece ali os teus filhos em holocausto.” Bom, talvez o ultimato que chega a Abraão da parte d’Os Mercados não seja proferido de forma assim tão explícita. Mas é este, na essência, o conteúdo desse ultimato.

Abraão não resiste. E ficará para análise futura a dúvida se a não resistência de Abraão se deve ao terror que resulta das ameaças do seu Deus ou se o próprio Abraão está já absolutamente possuído pela ideologia louca do Deus a quem serve. Abraão não resiste e sobe a montanha arrastando consigo todos os seus filhos.

– Para onde vamos, meu pai? – perguntam os filhos confusos.
– Vamos oferecer holocausto ao Deus a quem servimos, meus filhos. – o pai responde sem coragem para olhar os filhos nos olhos.
– Mas o que ofereceremos nós se não levamos nada connosco para oferecer? Aliás, o que ofereceremos nós se já nada podemos levar para oferecer? Não nos resta coisa alguma! Os Mercados já nos tirou tudo o que tínhamos…
– Estejam tranquilos, meus filhos, porque contamos com a bondade d’Os Mercados. Decerto será possível negociar e providenciar soluções. Tenham confiança! – diz o pai Abraão sem que ele próprio acredite nas suas palavras, mas colocando nelas toda a demagogia que aprendeu ao longo da vida.

No topo da montanha simulam-se negociações. Mas nada serve para aplacar a fúria d’Os Mercados. Então Abraão amarra os seus filhos sobre o altar preparado para o holocausto, pega no cutelo para imolar os seus filhos e… não há clemência no último segundo. Portanto, cá vai disto e é para o vosso bem meus filhos: corte na educação, corte na saúde, corte na Segurança Social, corte, corte, corte… O único som que se ouve no topo da montanha é o som do cutelo zás, zás, zás, a rasgar o ar e a desferir golpes cada vez mais profundos até desmembrar por completo os filhos. Os filhos gritam de pânico e dor, sangram, definham e morrem. Os Mercados regozijam-se.

Esta é a história que será contada às crianças no futuro. A história de um Abraão que, completamente equivocado, adorava um Deus Tirano. Considero o Abraão de Ur um exemplo, mas creio que a diferença fundamental entre a história do Abraão de Ur e a história do Abraão moderno não reside tanto no carácter de Abraão. A diferença fundamental reside na essência do Deus a quem cada Abraão serve: de um recebe-se tirania, do outro recebe-se Graça. Um Deus realiza-se na carnificina, o outro realiza-se na dádiva de misericórdia.

Um estudo revela que

Um estudo da Universidade de T. revela que os estudos destacados diariamente na web, através das redes sociais e da comunicação social, são estudos sérios, credíveis, aos quais devemos prestar cuidadosa atenção.

Os estudos que revelam coisas estiveram recentemente sob a mira do cepticismo humano. Há quem os tenha criticado por serem apenas “conversas de treta”. Outros chegaram mesmo a acusá-los de fraude. Citamos um dos críticos: “Os estudos que dizem revelar coisas, não revelam coisíssima nenhuma; ou, por outra, revelam tudo aquilo que a equipa de investigação quiser que eles revelem. É um pouco como as manifestações dos trabalhadores por ocasião das reformas políticas: os sindicatos dizem que a adesão é praticamente total, enquanto o governo fala numa adesão fraca, na ordem dos 20%. Cada qual trata os números como quer!”

Mas estas críticas são derrotadas pelas conclusões deste estudo recente. Os investigadores de T. analisaram exaustivamente várias centenas de estudos que revelam coisas e concluiu-se que, de facto, as coisas reveladas por 98% dos estudos que revelam coisas são pertinentes e válidas. Eis alguns exemplos actuais de coisas reveladas pelos estudos que revelam coisas: “Estudo revela que jogos violentos não tornam crianças violentas”; “Estudo revela que seguimos mais facilmente em frente, depois de uma traição, quando estamos numa relação antiga”; “Estudo revela que homens solteiros lavam lençóis apenas quatro vezes por ano”; “Estudo revela que homens das cavernas pintavam sob o efeito de drogas”; “Estudo revela que fruta é ainda mais saudável do que se pensava”; “Estudo revela que andamos a defecar de forma errada”… Estas parangonas podem ser encontradas facilmente utilizando um motor de busca, caso o leitor pretenda obter mais detalhes acerca destes assuntos. Como é óbvio, a originalidade e a verdade destas conclusões é inquestionável.

De facto, segundo o estudo da Universidade de T., podemos concluir que os cépticos não têm razão: os estudos que revelam coisas não servem apenas para encher chouriços, sob a aparência de ciência. Nada disso! Os estudos que revelam coisas são de extrema importância. O mesmo estudo aconselha o humano a gerir a sua vida quotidiana com base nos estudos que revelam coisas.

Conseguimos chegar à conversa com o Dr. P., coordenador da investigação, que apontou as implicações do novo estudo: “Os estudos que revelam coisas sucedem-se uns aos outros em catadupa, pelo que o humano agora dispõe de muito material para orientar as suas práticas de forma coerente. Penso que a consequência imediata das conclusões do nosso estudo é a morte do horóscopo. As páginas de jornais e de revistas contendo dicas para os diferentes signos têm os dias contados. Sugiro que os astrólogos procurem lugar na ciência dos estudos que revelam coisas antes que lhes chegue a miséria. Têm as qualificações necessárias, é só mudar um pouco a metodologia de trabalho.”

Acrescenta ainda o Dr. P.: “Com o avanço da ciência e o acumular de coisas reveladas pelos estudos, já é tempo de o humano aceitar sem quaisquer reservas que os estudos são o seu melhor amigo. É nossa convicção de que o humano não deve dar um único passo sem que esse passo seja fundamentado num estudo que revele coisas. Se todos aceitarmos a autoridade dos estudos que revelam coisas, teremos um mundo melhor.”

A resposta certa

No que diz respeito às interpretações do Apocalipse, o último e talvez o mais enigmático livro da Bíblia, as doutrinas cristãs agrupam-se em quatro correntes principais: preterismo, futurismo, historicismo e idealismo. A melhor opção? Cristo.

Ainda no âmbito da escatologia há um debate interessante acerca do significado concreto do período de 1000 anos que é mencionado no capítulo 20 de Apocalipse. A interpretação é difícil, o consenso não existe e surgem assim o pré-milenismo, o amilenismo e o pós-milenismo. A melhor opção? Cristo.

Quanto à origem da vida no planeta Terra, herdámos do trabalho do sr. Darwin um combate que já dura há décadas. O evolucionismo e o criacionismo têm estado nesta batalha que talvez seja totalmente equivocada. A melhor opção? Cristo.

E como conciliamos a doutrina da pré-destinação com a doutrina do livre-arbítrio, sendo que biblicamente são ambas sustentáveis? Aqui não costuma haver muito espaço para a conciliação. As posições bipolarizam-se: ou o calvinismo ou o arminianismo. A melhor opção? Cristo.

As doutrinas relativas às manifestações dos dons do Espírito constituem também uma fonte de cisão entre cristãos. De um lado o pentecostalismo, do outro o cessacionismo. A melhor opção? Cristo.

Ainda mais profunda é a cisão histórica entre os cristãos que aceitam a autoridade do Papa e aqueles que a rejeitam. De Lutero herdámos o protestantismo e de Constantino herdámos o catolicismo romano. A melhor opção? Cristo.

Saindo da esfera estritamente religiosa, assistimos ao confronto tripartido entre os que acreditam na existência de algum tipo de divindade, os que afirmam que não é possível provar nem a existência nem a inexistência de um Deus e os que defendem a não existência. Assim, no cardápio da sociedade actual, dispomos de três hipóteses: o teísmo, o agnosticismo ou o ateísmo. A melhor opção? Cristo.

Não me interpretem mal, não desprezo inteiramente estes debates. Até me divirto a pesquisar acerca das ideias e das evidências que sustentam cada corrente, se bem que em vários casos não penso que venha a chegar a qualquer conclusão. Posso ainda assim confessar que a minha posição é bem vincada numa ou noutra destas questões e que muitas vezes até procedo de forma idiota ao me julgar o dono da razão absoluta quando as abordo.

Então, não querendo desprezar por completo estes debates, quero pelo menos desvaloriza-los. Os ismos contemporâneos podem ser interessantes, mas facilmente se tornam armadilhas. A minha fé é Cristo e Cristo é revelado como sendo muito mais e muito maior que Lutero, Darwin, Calvino, Armínio, Constantino, Dawkins ou David Raimundo. Logo, Cristo também é muito mais e muito maior do que todos os ismos criados por estes homens ou pelos que se tornaram discípulos deles. Cristo é muito mais e muito maior do que todos os qualquer-coisa-ismos. Inclusive, Cristo é muito mais e muito maior do que o cristianismo.

A resposta certa a qualquer questão existencial, intelectual ou fracturante não é dada na forma de um ismo. A resposta certa é Cristo.