Os aldeões e o vinho

by davidraimundo

Conta-se que havia em tempos uma aldeia rodeada de vinhas onde se desenrolou uma história que muito nos diz acerca do coração humano:

As videiras frutificavam nas encostas e planícies em redor daquela aldeia, sem qualquer esforço e sem necessidade de cuidado. Todos os anos davam uvas das castas mais diversas e mais distintas, sempre de qualidade inegável. Mas não havia ninguém na aldeia que conhecesse a arte de fazer vinho, pelo que o povo não sabia que os cachos de uvas roxas e luzidias poderiam ter esse nobre fim. Saboreavam as uvas e usavam os cachos ainda não amadurecidos nas decorações pomposas das cozinhas e dos pátios, mas a suavidade dos vinhos doces ou a robustez dos tintos que daquelas uvas se poderia obter, isso eles não conheciam nem sequer adivinhavam.

Até que um dia se fixou por ali um enólogo de excelência – embora naquele tempo não fosse usado o termo enólogo, pelo que os aldeões o baptizaram simplesmente de Enigmático, título que mostrava que não sabiam ao certo em que consistia a ciência daquele homem nem a sua proveniência ou seu nome de família.

Este homem misterioso conhecia não só a ciência do vinho, mas tinha também a intuição necessária para cuidar das vinhas e do processo de colheita, selecção, fermentação e tudo o mais, com arte e requinte. Esta é a intuição que, na forma de uma espécie de dom, está destinada àqueles que encontram na agricultura e nos campos o seu habitat natural, àqueles que estabelecem uma relação com a realidade rural que parece, aos olhos dos citadinos, uma relação quase mística.

O sr. Enigmático decidiu investir ali alguns dos seus recursos:  pediu aos aldeões que lhe fosse permitido comprar uma parte da colheita para produzir vinho, construiu uma pequena mas bem apetrechada adega e contratou alguns aldeões aos quais deu formação para que pudessem ficar responsáveis pela implementação das sucessivas etapas de produção. Reuniu-se o comité da aldeia e concordou-se que a proposta do homem era aliciante. Chegaram a acordo quanto à verba a pagar e mostraram abertura para lhe dar todas as condições necessárias para que ele pudesse produzir o vinho.

A aldeia animou-se na expectativa de provar tão delicada bebida à qual jamais tinham tido acesso. O ambiente ali sempre tinha sido de tranquilidade, mas era também marcado pela melancolia ansiosa de quem aguarda por alguma coisa sem conseguir discernir que coisa é essa que se aguarda. Era uma aldeia que tinha vida, mas não tinha vigor. As pessoas consideravam-se felizes, mas não havia gozo genuíno nos corações.

Do sr. Enigmático recebiam agora promessa de algo que traria uma alegria renovada à aldeia. Perceberam esta promessa não tanto nas conversas que o homem fazia, mas mais nas entrelinhas dessas conversas e na sua postura tão enigmática. Entregaram-se à colheita com energia e depois deixaram o sr. Enigmático e os seus empregados entregues à tarefa de produzir a bebida que ele tanto elogiava. Foi-lhes explicado que o processo seria demorado, pois o vinho, sendo uma bebida delicada, exigia tempo de amadurecimento sob condições climatéricas cuidadosamente controladas. Mas com o passar das semanas e dos meses, a agitação generalizou-se. As pessoas passavam propositadamente pela adega para saber como decorria o processo e quanto tempo demoraria até que o vinho fosse distribuído. O sr. Enigmático respondia invariavelmente que estava para breve, mas não podia ser apressado pois isso iria afectar a qualidade do produto.

Até que, para contentamento geral, foi anunciado o dia da primeira sessão de provas aberta a todos os habitantes. A aldeia compareceu em peso na praceta junto à adega. Foram distribuídos pequenos copos de cristal e foi pela primeira vez aberta uma garrafa de vinho naquela aldeia. Coube ao sr. Enigmático o gesto simbólico de desarrolhar a garrafa com um saca-rolhas rudimentar – ferramenta que nunca antes tinha sido utilizada na aldeia. Ao aplauso barulhento seguiu-se o acto de servir o vinho e, depois, as exclamações e interjeições de aprovação por parte daqueles que iam sucessivamente provando a bebida.

Aquela primeira sessão de provas foi um sucesso que surpreendeu até o próprio sr. Enigmático. Todos ganharam um novo fôlego, todos pressentiram que as suas vidas estavam prestes a ter significado e sentido como nunca antes tinham tido. Todos quiseram de imediato adquirir garrafas para consumo caseiro e ofereceram quantias exageradas para convencer o sr. Enigmático. Este apressou-se a esclarecer que todo o vinho produzido seria colocado à disposição dos aldeões, mas o comércio do vinho teria de ser feito segundo os seus princípios: ele entregaria gratuitamente a cada aldeão a quantidade de bebida adequada tendo em conta múltiplos factores. Alguns desses factores eram óbvios – a idade, a composição do agregado familiar, a maturidade da pessoa – mas outros não eram tão óbvios e o sr. Enigmático informou que se escusaria a revela-los (importa dizer que, desde que chegara à aldeia, o sr. Enigmático não se tinha apenas dedicado à produção do vinho; tinha também procurado conhecer cuidadosamente o coração de cada aldeão, empregando nisso toda a sua perspicácia e sensibilidade).

Foi assim que funcionou durante muitos anos a adega dessa aldeia: os habitantes eram atendidos pelo sr. Enigmático num anexo apropriado que foi construído junto da adega e a cada um era dada a porção de vinho que lhe era devida. O sr. Enigmático parecia saber sempre qual era a medida certa para cada pessoa, pelo que, inicialmente, todos ficavam plenamente satisfeitos. O gozo inundava a alma das pessoas e todos viviam numa celebração constante e jovial que fazia esquecer por completo a melancolia outrora existente.

Mas é então que a nossa história começa a ficar preta. Quando os aldeões passaram a ver o vinho como um produto vulgar, quando cada prova deixou de trazer em si o efeito surpresa e quando as colheitas já não eram valorizadas e acarinhadas, começaram a surgir gradualmente, e de forma sub-reptícia, reclamações nas mentes (e mais tarde nas bocas) de alguns aldeões: qual a razão para esperar tanto tempo pela vinho resultante de cada colheita? porque é que não se experimentava a mistura entre a casta X e a casta Y? qual o motivo para me ser dada uma porção tão insignificante quando comparada com a do meu vizinho? etc. etc.

Quando estas questões ganharam voz, o sr. Enigmático colocou de lado os seus enigmas e respondeu taxativamente a todas as questões, dentro do que lhe era possível (como é óbvio, nem toda a ciência e intuição das quais era dono podiam ser comunicadas usando linguagem compreensível pelos aldeões). Contudo, o ruído resultante das questões adensou-se e impediu que o povo escutasse o que lhe era explicado. Num ápice instalou-se um clima de contestação silenciosa na aldeia.

A situação ficou estável durante uns tempos, sendo apaziguada a cada nova colheita e sem que alguém confrontasse directamente o sr. Enigmático. Mas o espírito de celebração e alegria extinguiu-se e todos sabiam que a coisa ia descambar a qualquer momento. A revolta estava à espreita e os seus sinais eram visíveis, como um vulcão que se prepara para entrar em erupção e envia pequenos sismos como aviso.

E a revolta surgiu mesmo. Um dia o comité da aldeia decidiu que estava na hora de apresentar um ultimato ao sr. Enigmático: o vinho teria de passar a ser comercializado segundo os termos dos aldeões, abdicando o sr. Enigmático dos seus bizarros princípios. Queriam ser eles a gerir a adega, as produções, as decisões quanto às quantidades distribuídos, o tempo de envelhecimento e tudo o resto. Agradeciam que o sr. Enigmático continuasse a trabalhar na produção do vinho, mas obedecendo às instruções do povo. Caso contrário, tomariam posse da adega e expulsariam o sr. Enigmático.

Perante aquele ultimato, o sr. Enigmático respondeu, com angústia, que não podia aceitar o que lhe estava a ser pedido. Afirmou que os seus princípios eram essenciais para que o vinho produzido os pudesse satisfazer e dar-lhes vigor e alegria. Disse com frontalidade aos aldeões que estavam a cometer um erro de consequências catastróficas, pois nunca mais conseguiriam produzir um vinho excelente que os voltasse a satisfazer. Apelou a que se lembrassem como era a vida na aldeia antes da sua chegada e a que voltassem a valorizar o vinho que produzia e a encontrar nele contentamento.

Porém, os aldeões, possuídos pelo mau espírito da auto-suficiência, não quiseram escutar o sr. Enigmático. Perante a recusa dele, expulsaram-no da adega avisando-o para que nunca mais lá entrasse nem tentasse interferir na produção do vinho. Ele não ofereceu resistência. Deixou a adega e alugou uma casa à saída da aldeia, permanecendo discreto por ali enquanto assistia com uma tristeza imensa aos disparates que os homens começaram a fazer.

Primeiro, assaltaram o stock do sr. Enigmático. Invadiram as caves e cada um tomou para si a porção que os seus olhos desejava. O melhor vinho alguma vez produzido no mundo foi esbanjado pelos aldeões. Vinho precioso que foi feito com todo o cuidado para ser devidamente apreciado foi consumido sem qualquer respeito ou reconhecimento. Os habitantes da aldeia embriagaram-se com o melhor vinho. Viciaram-se, estragaram-se, perderam noção de si mesmos e perderam por completo a consciência do valor que aquele vinho tinha.

Depois, quando do stock já só restavam garrafas partidas por todo o lado e homens alcoolizados pelas ruas e vielas, convenceram os empregados da adega a produzir mais vinho tentando aplicar o que o sr. Enigmático lhes tinha ensinado. Claro que, sem a supervisão de quem era realmente especialista, o resultado foi uma zurrapa cujo sabor era horrível e que nem para sarar feridas deveria servir. Mas o sabor já pouco lhes importava. Perderam o paladar e só interessava beber mais, mais e mais…

O sr. Enigmático observava toda aquela decadência sem que pudesse agir. Os ébrios não tinham condições para o escutar e os sóbrios só queriam estar ébrios. Ainda assim tinha, por vezes, oportunidade de socorrer um ou outro aldeão que, ciclicamente, lhe vinha pedir ajuda, algo que muito regozijava o seu coração.

A aldeia, essa, ficou célebre por ser morada de gente intoxicada, gente que já não sente o odor do próprio vómito, gente que transformou uma fonte de alegria numa fonte de promiscuidade. Esta história não tem um final feliz. A aldeia não recuperou a alegria, a adega não foi devolvida ao sr. Enigmático, o vinho não voltou a ter qualidade, o alcoolismo não deixou de se generalizar. Mas, mesmo sem um final feliz, a história tem, a meu ver, uma aplicação feliz:

Da mesma forma que os aldeões maltrataram o vinho que o sr. Enigmático lhes providenciou, assim maltrata o homem a liberdade que Deus lhe deu.

Anúncios