A omnipresença de Deus

by davidraimundo

“E Jesus, dando um grande brado, expirou. E o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo.” Marcos 15

No sistema religioso judaico, o templo simbolizava a presença de Deus. Aliás, tratava-se na prática, de algo mais radical que um simples simbolismo: de certo modo, os judeus acreditavam que a presença pessoal do próprio Deus estava confinada ao templo. Nesta estranha concepção de Deus – como poderia o Deus omnipresente e Todo-Poderoso ser aprisionado em quatro paredes? – o templo continha em si a glória, o poder, a majestade e o terror do Senhor Deus. O Senhor Todo-Poderoso que causava terror ao povo, porque raramente o povo conseguiu compreender que Ele era também – sempre foi! – o Senhor do amor.

A divisão mais sagrada do templo chamava-se Santíssimo Lugar, uma sala à qual só o sacerdote tinha acesso – e apenas uma vez por ano – para realizar o sacrifício de um cordeiro para expiação dos pecados do povo. Esta divisão estava separada do resto do templo por um véu de grandes dimensões (10 cms de espessura, 13,5 m de altura e 13,5m de largura).

Jesus Cristo viveu numa sociedade baseada no sistema religioso judaico. Cresceu como um judeu, estudou as escrituras nas sinagogas judaicas, recrutou judeus como discípulos, irritou a elite judaica e foi crucificado pelos judeus. Os evangelistas relatam que, no momento em que Jesus morreu, este enorme véu rasgou-se de alto a baixo.

Qual o significado deste acontecimento? Os judeus que vieram a crer que Cristo era a encarnação do próprio Deus interpretaram o rasgar do véu como um sinal de que o acesso a Deus é agora livre. Qualquer pessoa pode agora entrar no Lugar Santíssimo por intermédio do sacrifício de Cristo.

Mas também gosto muito de pensar neste acontecimento numa direcção diferente: não é só um sinal de que ficamos com o caminho aberto para entrarmos no Lugar Santíssimo e aí termos contacto pessoal com Deus; é também um sinal de que Deus não pode estar confinado a quatro paredes. O véu rasga-se porque nenhum lugar por mais santo que seja pode conter Deus. Ele rompe véus, rompe paredes de templos, rompe fronteiras, rompe preconceitos, e faz-se presente em todos os lugares, em todos os contextos, para todas as pessoas, de todos os tempos. Creio que esta sempre foi a realidade, por mais que nós, homens, não a consigamos entender. Uma realidade revelada de forma mais visível, bela e definitiva em Jesus Cristo.

Um dos nomes atribuídos a Jesus é Emanuel, que significa Deus connosco (Mateus 1:23). Jesus é Deus connosco. A revelação de Deus aos homens faz-se na forma que melhor podemos compreender: na forma de um de nós. Com Jesus conhecemos o Deus que ri, que chora, o Deus que ofereceu Graça aos homens, o Deus que sofreu e que, por ter sofrido, entende o sofrimento do homem.

Por isso podemos crer que quando alguém no mundo ri por experimentar a vida abundante que há para vivermos, Deus está lá e ri também. Podemos crer que quando alguém no mundo tem o coração dilacerado e chora, Deus está lá presente e chora também. Podemos crer que quando um homem em alguma parte do mundo se prepara para um acto de graça, Deus está lá a incentivar. Podemos crer que o sofrimento humano é também o sofrimento de Deus.

O véu rasgou-se. Deus não se deixa aprisionar por sistemas religiosos, nem por teologias bem elaboradas, nem pelas ideias de um grupo de iluminados, nem por raciocínios brilhantes, nem por sectarismos ou por ateísmos ou quaisquer outros ismos. Deus não se deixa aprisionar! Não é exclusivo de uma cultura, de uma etnia, de uma classe social… Não é exclusivo de ninguém! É para os pobres e para os ricos, para os que acreditam nele e para os que não acreditam, para os que amam e para os que odeiam, para os que choram e para os que riem, para os portugueses, os búlgaros e os habitantes do Vanuatu.

Podemos celebrar porque Ele é Deus de todos e para todos. Em todos os momentos, em todos os contextos, Deus está connosco. Não há véus e não há rituais que nos levem à presença de Deus. Porque já estamos na presença de Deus. E na presença de Deus não há necessidade de terror: se colocarmos os olhos na cruz, reconhecemos que o que move Deus é o Amor. Infindável, belo e fascinante Amor.

Deus está contigo.

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