O antídoto

by davidraimundo

Desde que me conheço carrego dentro do meu peito um mal terrível: carrego em mim toda a insegurança do mundo. Quão trágicas são as consequências desta doença! É um tumor cujas metástases corroem as entranhas do meu ser: o preconceito, a desconfiança, a inveja e o egoísmo apoderaram-se de mim, corromperam-me, estragaram-me.

Numa tentativa de auto-regeneração, que acontece muitas vezes de forma irreflectida ou mesmo inconsciente, tenho tendência para indexar a compreensão que tenho de mim próprio ao meu curriculum vitae e ao rol das minhas supostas boas obras (ou de obras que tenha feito em prol daqueles que eu quero que me tenham em boa conta).  Afiro o meu valor através de uma comparação com os outros, como se eu e os outros fossemos somente produtos cotados numa qualquer praça financeira e o nosso valor subisse e descesse conforme a ditadura dos mercados.

O medo é o meu motor, é o catalisador das minhas acções. Medo de não merecer uma cotação elevada. Medo de não ter em mim mérito suficiente para justificar o meu valor ou sequer a minha existência. Será que sou suficientemente bom? Será que aquilo que faço me garante a aprovação do meus pares? Será que…?

Gente sábia alertou-me para a realidade desta doença que, apesar de todos os avanços da ciência, não é detectada nas análises clínicas comuns. Comecei a procurar uma solução, uma forma de retardar a evolução da doença ou mesmo um antídoto, uma cura. Ouvi contar da existência de um remédio para quem sofre do mesmo mal que eu e um dia encontrei esse remédio num local dedicado à cura dos males do homem, um local chamado Gólgota. Um tubo de ensaio continha uma solução e no rótulo constava apenas uma palavra grega: χάρις.

Descobri que este antídoto tomado em doses frequentes constitui de facto uma maravilhosa cura. Não imediata, mas gradual e cada vez mais eficaz à medida que o organismo suporta doses mais potentes. Por vezes esqueço-me de tomar o antídoto e os sintomas da doença voltam a agravar. Mas posso afirmar que estou em recuperação, pois agora sei o que é a segurança e sei o que é não ter medo. O verdadeiro antídoto lança fora o medo.

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