Só a poesia é verdade

by davidraimundo

Ainda iludido pelo modernismo, persigo a verdade. Busco a tese irredutível que encerre em si toda a sabedoria humana, todo o fundamento da vida. Procuro uma fórmula que descreva a verdade como se fosse a álgebra a regente da vida. Acumulo conhecimento e tento juntá-lo num puzzle que dê resposta a todas as questões existenciais. Eu quero ter a verdade! Como se a verdade fosse um objecto que eu pudesse exibir orgulhosamente na palma da minha mão: “Aqui está a verdade! achei-a e vejam quão perfeita e completa ela é!…”

A verdade há-de ser uma soma de doutrinas, penso eu, um encadeamento infalível de teorias absolutas e imutáveis que o homem pode alcançar mediante o empenho intelectual. Mas que esforço estúpido! Que zelo inglório! Por mais que a persiga, a verdade esfuma-se, esconde-se, disfarça-se, escapa-se pelos atalhos e encruzilhadas de um mundo que já não é a preto e branco.

E, às vezes, em momentos de rara lucidez, reconheço: bendito seja o pós-modernismo e todo o relativismo que ele traz na sua bagagem! Quão afortunados somos nós por vivermos na era do cepticismo! Creio que o relativismo é o melhor amigo da verdade – isto se for um relativismo honesto, um relativismo que diga a si próprio: se sou relativista, vou sê-lo até ao fim!

O relativismo ensina que ninguém tem a verdade, pois esta não é um objecto cuja posse eu possa reivindicar. Não há fórmulas infalíveis, nem há teses exclusivas para expressar a essência da vida. Mas o relativismo não ensina que não há verdade, até porque seria auto-contraditório se ensinasse tal coisa. É então este relativismo que nos dá espaço para uma sugestão maravilhosa: a verdade não é passível de posse, a verdade é apenas passível de vivência.

Assim, talvez não sejam os cientistas ou os teólogos que estão mais perto da verdade, porque a verdade não se comunica com matemática nem com doutrina. Talvez não seja ao nível do intelecto que se vive a verdade, mas sim ao nível do coração. E, por isso, talvez sejam os poetas quem mais se aproxima da verdade! Não tanto os poetas que escrevem poesia, mas os poetas que vivem poesia… Talvez a verdade exista, viva, forte e dinâmica. Talvez a verdade seja o Amor, a Graça, a Reconciliação. E talvez a verdade seja uma Pessoa, um judeu carpinteiro de uma aldeia da Galileia.

Anúncios